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O mais importante

por Isabel Paulos, em 06.12.22

Vi o jogo desde o final da primeira parte. Passou-me pela ideia o seguinte: há uns anos ficaria contente, lá mais atrás entusiasmar-me-ia. O futebol era importante. O Portinho e a Selecção. Hoje foi confortável, fiquei contente ao ver a expressão de alegria no rosto dos jogadores, da pequenita que filmaram entre o público, creio que no momento do Ronaldo marcar o livre contra a barreira. Não é relevante, antes sim a atitude cordata de apoio aos compinchas a partir do banco para compôr a imagem beliscada nas últimas semanas. Do lado de fora do relvado irrita-me brandamente o aproveitamento de Marcelo e Costa e dos políticos e vips em geral.

Não vi os dois primeiros e gostei do último golo; foi bonito. De resto, pareceu-me tudo fácil, em jeito de vento favorável - não, não, já não cedo ao apelo das análises de jogo nem a mínima vontade de as fazer. Quando muito acho curiosa a comoção, convicção e as grandes teorias que nelas são postas pelos amantes do futebol. A continuar assim qualquer dia estou com aquelas conversas sobre as pernas e os abdominais dos jogadores, que me irritavam sobremaneira por estar habituada a ver o jogo mesmo na perspectiva desportiva.

Hoje há distância do que vai acontecendo. Como se os grandes devaneios do passado, uma vez concretizados tão tardiamente perdessem élan. Fiquei contente com a vitória expressiva perante a frágil Suíça, quase tanto como ao ver o choro de alegria da colega de trabalho, que esta manhã "viu" nascer o primeiro sobrinho-neto.

É engraçado como o tempo retira carga dramática à vida. Em rigor, carga emocional. A capacidade de comoção vai-se esvaindo. Bom, em mim foi. Melhor, nesta fase da vida foi. Amanhã não sei. Talvez noutros não seja assim. Lá está, não faz sentido nenhum dizer que a vida é isto ou aquilo. Vale tudo e o seu contrário. Vale saber o que sentimos e pensamos a cada momento. E agora o que prevalece em mim, é este pairar de pássaro sobre um solo movediço e incerto.

Nos últimos dias pousou no meu espírito a sensação de há muito planar sobre a vida. É como me sinto. Muitas vezes reparei nessa forma de estar nos outros, distraídos de muito quanto se passa à sua volta. Tocou-me a mim, agora. Não disponho da possibilidade de estar atenta às mil e uma solicitações alheias. Absorvo-me os cuidados. Preciso deles para viver o ritmo estonteante a aparentar enganadora tranquilidade do último ano. Dos últimos anos talvez, mas mais deste ano e meio. Na impossibilidade de dominar os acontecimentos, de antecipá-los e trabalhar neles com diligência, acorro ao que posso na ideia de fazer asneiras o menos possível - ainda que faça imensas, naturalmente; cada vez mais. A própria vida foge-me das mãos para ganhar rumo próprio, sem me dar sinais consistentes do que será o futuro. Gostando de mudanças e  surpresas,  não sou muito de achar piada a perder o controlo da vida. Até por ter experiência exacta do lado negativo dessa perda de domínio sobre a vontade e o entendimento - o juízo.

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Mais cedo fui abrir a cama e agora vou aquecer água para o saco de água quente - mais um pormenor a indiciar uma forma de estar antiquada. É uma herança retocada com traços de carácter próprios que conferem certa originalidade, não deixando de ser um gosto conservador. Ele é o vocabulário, o gosto pelas rotinas, o moralismo, os exames de consciência, as eternas dúvidas e a insegurança, o rádio despertador, o saco de água quente. Maravilha, o que me interessa é que daqui a nada enfiarei o pijama velho, aquecerei as mãos e os pés para logo a seguir rejeitar o saco de água quente e descansar aconchegada. Um luxo. Esta altura do ano é propícia a valorizar o essencial - depois do Verão de 2007, no pior momento da minha vida, seguiu-se um ano de descoberta de prioridades e de perceber o valor de ter uma cama quente onde dormir e possuir discernimento e afeição capazes de criar harmonia.*

 

 

*Ia escrever sobre os que de forma fácil e fútil acham isto pouco ou uma espécie de infeliz resignação, mas estragaria a ideia. Por hoje, o que cada um pensa, deixá-lo pensar. Talvez noutro dia tente só afirmar e explicar pela positiva o tal "pouco" para tantos, que é tanto para poucos - parece um jogo de palavras com vista ao efeito bonito, mas não, é mesmo isso.

*

Como explicar que isto não é vontade de me elevar ao quer que seja, mas tão só um deixar-me ir inelutável?

Socialismo é bom?

por Isabel Paulos, em 06.12.22

 

Boa terça-feira.

Obrigada, Pedro.

Ninho

por Isabel Paulos, em 06.12.22

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Ano após ano o mesmo cantinho, idênticos pequenos prazeres, iguais berloques e usos caseiros. Que tédio. Onde estão as excitações, as empolgações? Que bocejo de vida.

Não quero outra.

Sortes. Faltavam-me dois presentes de Natal e trocar outro (tamanho errado). Previra passarmos a manhã do próximo feriado de quinta-feira nos centros comerciais. Mas hoje depois do almoço senti que devia antecipar por estar com genica suficiente para encarar tal tarefa depois do dia de trabalho. Pelo que pouco antes das oito partimos para o Norteshopping, ao qual chegámos sem trânsito de espécie alguma e onde nos demorámos menos de 10 minutos. Abençoado Brasil-Coreia do Sul. Continuando tudo desimpedido de tráfego, atravessámos para Gaia em direcção ao Arrábida. Fizemos as duas compras em falta e tencionávamos jantar no Serra da Estrela. Porém, não matámos boas saudades já que inauguraram a táctica dos tabuleiros, o que não faz sentido algum num espaço com escadas. Deixámos a belíssima vista para o Porto, que nos faria jantar lá hoje, como nos fez há 10 ou 22 anos, e fomos ao Bodegão.

E agora enfiada no sofá fruo as luzes coloridas em sossego. Hoje nem a smooth liguei, até por só passar música de Natal. O silêncio é interrompido apenas pelo tic-tac do relógio tagarela holandês, o movimento dos pneus no asfalto dos esparsos carros a passar na rua e um ou outro ruído subtil a provar haver mais vidas neste apartamento e nos vizinhos. Daqui a instantes vou dar a primeira voltinha no livro Cafés do Porto, de César Santos Silva. Findas tão extenuantes tarefas, calcorrearei a alameda de Serpa Pinto do palácio e retirar-me-ei à ala do fundo em busca do leito gelado para dormir. Gosto de hipérboles; dão alegria à vida.

Life is Simple... Why complicate it?

por Isabel Paulos, em 05.12.22

Mimos

por Isabel Paulos, em 05.12.22

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Agora é só arranjar tempo para usufruir.

O exemplo oco

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 04.12.22

Seria possível uma alma caridosa explicar aos iluminados dos conselhos e dos testemunhos motivadores a diferença entre dar o (bom) exemplo e enaltecer-se a si ou a apaniguados, seja na versão boazinha seja na sarcástica, à custa do desmerecimento dos pobres estúpidos que não vêem a luz? Não é por nada, mas nota-se bastante que se estão a marimbar para os problemas reais, que invocam e usualmente desconhecem, querendo apenas exibir-se com brilharetes. No intuito de passarem a imagem de bom exemplo solidário fazem, sim, tristíssima figura.

(Pronto, hoje já não vocifero mais; será?)

Desperdício de tempo

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 04.12.22

 

As injúrias são os argumentos daqueles que não têm razão, François Fénelon.

*

Magoar alguém é transferir para outrem a degradação que temos em nós, Simone Weil.

 

Lido

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 04.12.22

Lido por indicação do leitor Jorge: No país da inclusão, velhos e binários excluídos, de Vítor Rainho, no Nascer do Sol de ontem.

*

A questão do fim dos pagamentos a dinheiro preocupa-me bastante mais exactamente por considerar que é desprezar as necessidades de quem não usa tecnologia, nomeadamente, muitos dos nossos mais velhos.

Quanto às casas de banho públicas irritam-me as lenga-lengas das questões de género e as inúteis balelas para o caso do “sente-se homem ou sente-se mulher”. Parece-me tão só que se coloca a questão totalmente enviesada por ninharias das bandeiras identitárias e contra-bandeiras. Há muitos anos considero perfeitamente possível o WC unissexo. Em mais nova recorri algumas vezes às casas de banho masculinas em lugares públicos, atentos os tempos de espera nas femininas que resultavam da mania de muitas para lá se deslocarem em grupos. Não o fiz por me sentir mais ou menos mulher ou homem, mas por estar aflita e com pressa - o que me parecem razões mais do que atendíveis. Claro que não me sentia inteiramente confortável e temi causar desconforto aos outros, acabando por não o voltar a fazer, mas isso deriva da consciência de estar a tomar uma atitude que não é habitual, que vai contra o instituído e me deixa isolada, perdendo a coragem. Porém uma vez banalizado o WC misto, com cubículos individuais e eliminando os mictórios, não vejo razão alguma para haver pudores em lavar e secar as mãos à vista de pessoas de sexo diferente, independentemente das soporíferas questiúnculas de género. Os muitos óbices que se colocam ao uso conjunto do WC têm mais a ver com macaquinhos na cabeça e a vontade de vislumbrar comportamentos desviantes que sempre  existiram e existirão para lá da natural evolução da mentalidade. Argumentos igualmente usados aquando da passagem ao ensino misto. 

Serei estranha por ver as coisas do ponto de vista prático?

Lido

por Isabel Paulos, em 04.12.22

Acabado de ler: Clarice Lispector: todas as cartas de uma vida errante, de Joana Emídio Marques, no Observador.

Sonho

por Isabel Paulos, em 04.12.22

Pouco antes de acordar sonhava com uma casa e dizia não precisarmos de quatro lava-louças. Que exagero quatro lava-louças vazios, imaculadamente limpos numa só cozinha enorme, pensava e comentava: se ainda fossem dois, dava jeito. Tínhamos um gato amarelo brincalhão. E a porta dava para a rua com fitas de plástico coloridas penduradas a cobri-la como alguns estabelecimentos comerciais do antigamente.

Que requintados, os meus sonhos. 

Agora vou tomar café, ligar as luzes da árvore de Natal e a smooth e depois ler a interpretação deste chiquérrimo sonho. Até tremo. Ou não, vou-me rir à certa.

Zaz - (Isabelle Geffroy)

Je veux

por Isabel Paulos, em 04.12.22

Do lado de fora

por Isabel Paulos, em 04.12.22

Ontem lá foi. Em cerca de quatro horas de comunhão de laços familiares e de amizade, entre uma maioria que se conhecia e uns poucos que se conheceram, sobressaiu serena boa-disposição. Vinte pintainhos. Já cá em casa na revisão do convívio, admiti que me senti do lado de fora. Tudo corria bem, todos entrosadíssimos. Acertei na distribuição de lugares, a ementa era boa e ajudou muito a natureza das almas e o bonito dia soalheiro em cima da areia, a escassos metros do mar. Contente pelo que se desenrolava, pela alegria que transbordava dos olhares e trocas de palavras, mas do lado de fora, como se fosse uma observadora que bem vistas as coisas nem examinava com grande atenção o que sucedia. Pairava sabe-se lá onde. Em lugar nenhum, na verdade. No éter. Porém, contente com a alegria dos meus. O Nuno buscou-me uma imagem que usa muito: a do furacão. Dá sempre ideia que o ponto mais seguro é o olho do redemoinho, dizendo-me que ontem era eu o olho do furacão, quieta, enquanto tudo à volta se animava. Talvez seja uma boa imagem. Senti-me amparada pelo Nuno, como sucede tantas vezes. Recordei a atitude de anfitriões próximos noutras reuniões, tentei imaginar como as vivem e sentem. Lembrei alguns eventos dos últimos anos para que fui convidada e nos quais me senti dentro do que estava a acontecer. Talvez para isso seja preciso não ser o olho do turbilhão, o centro das atenções. Há momentos a viver e ocasiões para dar a viver. Senti-os satisfeitos e o gozo máximo tirado disso é a alegria de ter a oportunidade de vê-los assim, em animado movimento de afinidades.

Ao de leve

por Isabel Paulos, em 02.12.22

Antes de fechar o dia e o ano deixo duas pequeníssimas notas.

A música Angel é linda. Ligo-a ao Nuno e à filha simplesmente por ela a cantar enquanto o pai a toca ao piano e pela bonita cumplicidade dos dois. Independentemente do motivo que levou Sarah Mclachlan a escrevê-la em atenção à morte de um teclista por overdose e todo o ambiente de busca e manutenção de fama no mundo artístico, a mim soa-me sempre como um hino às segundas oportunidades. E numa época de balanço do ano, como esta é para mim, volto a agradecer ao destino a segunda oportunidade que me deu. E também ao Nuno. Ambos tivemos segundas oportunidades, cada um à sua maneira.

A segunda nota é parecida. Refiro apenas como um vulgar texto pode ressoar – este verbo vulgarizou-se nos últimos tempos no meu léxico por via dos esoterismos – de formas tão diferentes em quem o lê. Ainda há pouco tive experiência de obter feedback sobre três tópicos diferentes ao mesmo post, cada um lhe pegou de forma distinta e isso agrada-me muito. Pode parecer uma banalidade, porém deixa-me contente tocar alguém ou alguéns por diversas e minúsculas razões. Ao de leve, como sempre.

Sarah McLachlan / Josh Groban

Angel

por Isabel Paulos, em 02.12.22

Bom fim-de-semana.

Lido

por Isabel Paulos, em 02.12.22

Pode a história de Espanha ser contada em menos de 300 páginas?, de José Carlos Fernandes, no Observador.

Lido com agrado, apesar do primeiro terço do texto e do "engraçadismo", da prosápia e do chico-espertismo que os jornalistas actuais e a generalidade dos que escrevem em jornais gostam de impingir. Não conseguem ater-se ao essencial nem reduzir-se à sua insignificância. Raro é o escrito - e este até é bastante bom - no qual não se demonstra desprezo pela ignorância alheia. Sendo que o definido como ignorância é não raro criação artificial, podendo perfeitamente mudar de dia para dia, de apetite para apetite, conforme os ventos e as audiências.

E perguntam os iluminados: que mal tem isso? Isto diverte-nos, faz parte do jogo da vida, traz-nos excitação, faz-nos sentir mais vigorosos, entendidos e perspicazes. Mais fortes. Superiores, enfim. É a livre expressão a funcionar que defenderemos até às últimas consequências. Como em todas as matilhas temos de ter cordeiros para sacrificar. Não perceber isto é ser obtuso, é ser puritano, próximo da defesa do autoritarismo, da censura e dos regimes totalitários - em suma, é ser ignorante, e por isso mesmo pôr-se a jeito para ser mais um pronto a ser sacrificado, para que continue o nosso banquete.

O parágrafo anterior é excessivo a propósito do texto em causa, da autoria de quem considero escrever de forma bastante mais criteriosa do que os compinchas dos jornais, mas vale para a generalidade do que vinga na comunicação social e no entretenimento, actualmente miscigenados.

Os pintainhos

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 02.12.22

Final da tarde de feriado. Um dia atípico. Ao fim de tanto tempo a romper cedo da cama, acordámos quase às três da tarde. Ontem deitei-me já ia avançada a madrugada, mas nada fazia querer que dormisse tantas horas seguidas. Cansaço extremo dos últimos dias e sonos finalmente refeitos.

Rebobinando. Passam poucos minutos das sete da tarde, o Nuno está ao piano - começou pelo Ave Maria. Toca-o sempre que vamos fazer uma viagem por mais pequena seja, e também à chegada; hoje não há saída, mas é um fim de tarde doce. Agora rola o Adágio de Albinoni. Há uma hora fomos ao Continente, não fazer compras, mas uma transferência no multibanco amovível, já que o único banco da zona, que havia encerrado portas há um ano, agora retirou mesmo as caixas ATM. Com optimismo considero a hipótese de alguma outra instituição bancária arrendar o espaço e iniciar ali actividade, mas bem sei que não é provável. 

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Em seguida, fomos ao chinês comprar nova série de luzes para a árvore de Natal. Lá as colocámos a medo do Ritz voltar a roê-las como fez o ano passado, roubando-me uma das alegrias maiores da temporada: adoro a simplicidade do cintilar das quatro cores paradas ou a piscar lentamente – detesto o modo rápido. Este ano o dono da loja chinês teve de me alertar para o facto de trazer a caixa errada, de uma só cor. Modernices em que nem reparei, valendo a atenção e cuidado dele que imaginou e bem que quisesse as tradicionais. Ah e tal, coisas kitsch, nada de genuíno espírito natalício, o dos dogmáticos, dos conselheiros e da pseudo-erudição - não, não e não, hoje não estrago o dia com essa gente.

Está quase a fazer um ano sobre o internamento para o bypass gástrico, que resultou em menos 40 e poucos quilos – desde o final do Verão não perco peso e julgo seria suposto perder ainda que pouco até perfazer o ano e meio. Não me preocupa, se ficar assim ainda que considerada gorda para os padrões das tendências, ficarei muito bem. Deverei ter cuidado, isso sim, para não voltar a engordar já que me foi dito nas últimas consultas no Santo António que é muito vulgar, mesmo no caso do bypass gástrico, os pacientes voltarem a ganhar peso, nalguns casos para valores pré-operatório. Agora o Nuno toca as Ilhas dos Açores dos Madredeus – lindo.

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Antes disso estivemos a montar a árvore. Como todos os anos retiro as caixas da prateleira de baixo do guarda-fatos – nesta casa não há como em Bessa Leite arrumos e despensa -, coloco tudo no tapete da sala, e a primeira tarefa é do Nuno: montar a árvore. A mim compete-me decorá-la, o que é muito simples por ter pouca tralha, e colocar as restantes escassas peças pela casa: a mini árvore e a vela no cantinho do Nuno em cima do piano como desde início em Bessa Leite, o presépio de loiça dado pela minha cunhada e irmão em cima dos livros na estante do meu +1, o anjo e a bolinha de vidro da neve dados por amigas no aparador, e o presépio que está todo o ano na mesinha cabeceira passa para a mesa de apoio ao sofá.

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Neste meio tempo o Nuno parou de tocar e veio pedir-me um café. Boa ideia, faço dois cafés e trago um para a mesa do computador. Gosto de ir bebericando o café quase frio, por falar nisso, está frio fora do +1, aqui tenho aquecedor; ontem estavam 16 graus na sala, como em toda a casa não aquecida. De referir que tenho a janela da casa de banho de serviço um pouco aberta 365 dias por ano, por ser a divisão onde está a areia do gato - vá, e por gostar de arejo - e a porta sempre entreaberta para o gato cirandar, pelo que é impossível aquecer a casa.

 

Com o desvario das horas em dia feriado, vamos jantar tarde, talvez lá para as dez – em miúda jantava por volta das nove e meia, mas cá em casa costumamos fazê-lo cedo. Neste momento o Nuno faz soar o Vincent ao piano – durante anos foi a música que mais vezes pedi que tocasse. Quando me diz: - hoje os dedos não estão a obedecer, está-me a sair mal -, peço-lhe que toque o Vincent, já sei que sai bem, sai sempre bem e eu já não choro de cada vez que a toca. Bom, às vezes lá calha. Nos primeiros anos era comum ao fim-de-semana choradeiras pegadas ao som do piano. Choro de alegria, de sonho, de comoção. Desde que vivemos juntos é raro o dia em que não peço ao Nuno para tocar uma ou duas músicas. É hábito no final do almoço à semana duas ou três, antes de ver na aplicação do telemóvel o horário do autocarro e sair disparada, tantas vezes a meio de uma música.

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Entretanto o Ritz veio cheirar a caneca do café e através do farejar da ponta direita da mesa do computador, alertar-me para a falta da almofada dele. Interpreto o que me diz, sem grande convicção. Há dois dias cheguei a casa e nada de Ritz. Imaginamos que estivesse dentro de algum armário ou gaveta, mas desta vez não. O Nuno tinha fechado os estores e lembrámo-nos da hipótese de ele ter escapado no momento de abrir a vidraça para puxar o estore – o nosso do quarto tem o manhoso tique de não descer sem uma ajudinha extra a puxá-lo. Abri o estore e a janela e lá estava o sacripanta. Quer dizer, passo eu as manhãs dos fins-de-semana cheia de cuidados para que não fique lá sozinho e o Nuno, por não ver, tranca-o na varanda. Estava gelado, mas como sempre acontece quando se passam episódios do género, nem uma miadela. Em momentos de stress este gato fica totalmente mudo. Mais, nessa noite vim sentar-me aqui no +1 a escrever, e ele ao fim de tanto tempo resolveu tentar enfiar-se atrás dos livros da estante, como fazia para se proteger nos primeiros meses cá em casa. Atirei-me logo às interpretações felinas: estar preso ao frio e chuva mais de uma hora despertou ansiedade, a memória de tempos adversos, daí a procurar o antigo local de refúgio.

Mas rebobinava, voltemos então. Este texto vai ficar particularmente longo e pouco atraente para leitura. Seja, tanto melhor. Ora, ia na montagem da árvore. Antes disso foi o pequeno-almoço tardio, às três e meia da tarde, convertido em almoço. Repeti os ovos mexidos, tomate cherry, azeitonas e pão. Desta vez, atenta a fome acrescentei um croquete grande aquecido no microondas para cada um. Metade o meu foi para o Ritz, que adora croquetes. Antes disso dormíamos e sonhei com a torneira da casa de banho e um telefonema para o canalizador. Um sonho prosaico: preciso realmente de chamar o Sr. M., canalizador. A base da torneira está a verter. Aviso à navegação: é usar a outra casa de banho antes que a água comece a infiltrar.

Ontem estraguei a noite com uma indisposição costumeira. Falta de bom senso meu ao perder tempo dando atenção, cada vez menos é certo, ao que não merece. Estava tão bem disposta ontem. Para quê estragar a disposição com aquilo e aqueles que só destroem. Na aparência de conceberem, de criarem valor, secam, arrasam e subvertem tudo quanto é belo e são. No hábito das certezas e dos juízos fáceis, não compreendem, nem sentem a beleza nem a integridade. Usando aparente sofisticação e complexidade na argumentação correm atrás do artifício. Gente afectada em bicos de pés e habituada a não considerar nada nem ninguém, apesar do aspecto bem intencionado e dos elogios balofos - gente que floresce como as ervas daninhas. Tudo quanto fazem é devorar e aniquilar o que tem valor para enaltecer egos inchados. Antes disso, estava a começar a escrever alegrias - a deixar-me ser eu própria, sem perder tempo com balofices –, ontem à noite irremediavelmente estragadas.

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Antes disso jantei arroz de polvo. A minha mãe fez a calda e trouxe-me no tacho. Bastou-me juntar o arroz. Comi pouco por ainda estar com dificuldade em digerir – vai e vem a sensação. A sorte é que o Nuno estava com fome; não sobrou. A tampa do tacho vinha presa com uma fita de nastro branca e a recomendação: não deite fora, ponha dentro do tacho quando mo devolver. Recordou-me a avó, nascida no decurso da Primeira Grande Guerra, vivida em Espanha na Guerra Civil, passando pela Segunda Grande Guerra e a Revolução. Tudo isto se reflectia na quantidade dos elementos de retrosaria que guardava para acautelar o futuro. Ainda conheci os cartões com dezenas de colchetes, botões, agulhas. Fita de nastro, galões. Linhas, montes. Temos de estar preparados. A memória dos racionamentos. E disse a minha mãe ontem: devolva-me a fita de nastro, ainda vai dar para umas tantas fitas de pendurar panos. Talvez ainda sobre para si, como as da avó. Lembrei-me dos lençóis que o Ritz me rasgou, convertidos em panos de limpeza pela dona L.. Gosta da costura, a dona L.. Chegou a trabalhar numa fábrica de confecções, antes de ter o próprio negócio de venda de sofás. Sofás bons, de qualidade. É da loja dela o cadeirão de braços com 22 anos que estofei de novo; vendeu vários sofás entre os meus familiares. Mas correu mal, ao fim de 15 anos faliu, ficou com dívidas ao Estado que foi honrando, o marido adoeceu, e começou a trabalhar prestando serviços domésticos em várias casas, algumas de antigos clientes.

Antes de tudo isto, ontem estava na empresa a trabalhar. Foi um dia quase tão agitado como o anterior, com a diferença de ter gasto algum tempo a espreitar os blogues que sigo a divertir-me com a boa onda que ontem reinava. Fui deixando um comentário aqui, outro acolá, a sentir-me em boa companhia. Não devia dizer isto por poder parecer indelicado e injusto, mas a verdade é que apesar de em 90% do tempo estar de peito aberto para o que se vai desenrolando, há momentos em que penso: vais voltar a ter desilusões. Olha as aparências, rapariga. Olha as aparências. Muita simpatia, muito elogio. Muita ilustração. Olha o revés. Desde o final do século passado, não seria a primeira nem a segunda vez, a última há bem pouco tempo, de tudo o que tem boa aparência se desfazer num olhar mais atento na verdade crua e dura da falsidade, da mentira e da grosseria dissimulada em boas palavras. Não é que não faça parte da vida, mas sempre gera pequena mossa, e é tonto não aprender com as lições do passado.

E ontem no fim do dia de trabalho, um mimo especial das duas colegas com quem partilho o gabinete: um presente dado em embrulho cuidado e mensagem bonita para abrir no fim-de-semana. Uma lição aprendida nos últimos meses: como a presença nova de uma pessoa mais delicada na sala pôde mudar para melhor as relações mais tensas entre quem está essencialmente focado no trabalho. Gestos pequenos e simples que mudaram para melhor os nossos dias. Espero ter aprendido, admito ter andado muito distraída.

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E antes disso, logo pela fresca, a mensagem de uma amiga a confirmar presença no fim-de-semana. Alegria. Seremos 21. Gosto do número. Éramos para ser 26, falta a vermelho para os amigos C, em Londres, e R., a trabalhar em Lisboa e a minha enteada pela mesma razão. Estão perdoados, mas se para o ano ainda tiver emprego, estão novamente intimados e vão ter de arranjar justificações em papel azul 25 linhas. Este ano, depois de vários sem festejo, que aliás se circunscrevia a juntar em casa pais, irmãos e sobrinhos, este ano, dizia, se Deus quiser (é bonito dizer isto, não é?), seremos: pais, nós, irmãos, dois primos, três amigos e caras-metades, sobrinhos e primito júnior. Os pintainhos.

Primeiro de Dezembro

por Isabel Paulos, em 01.12.22

Ora, cá estamos nós na véspera de feriado. Seria uma grande oportunidade para falar do Primeiro de Dezembro, da Restauração, da Monarquia, da República, do Iberismo, e fazer um brilharete, mas na verdade nada cintila nem tem possibilidade de luzir, já que não percebo patavina disso, nem sequer algum dia fui capaz de me decidir, afirmando-me monárquica ou republicana, apesar da franca antipatia pelos fanáticos da segunda. Básica, limito-me a gostar mais do azul talassa, mas a verdade é que um rei possivelmente me iria não só aborrecer, como pior, envergonhar. Isso sim, é uma sensação sofrida, envergonhar-me por terceiros (e não só por mim). Passo a vida nisto, encolhida pelo que vejo e oiço. E atenção que dói à séria. Destoa num mundo de vencedores furgões, de prosápia, de mentirosos, de convencidos de méritos inexistentes, de chico-espertos armados em grandes e talentosos conhecedores e de auto-investidos conselheiros, de desprovidos de autocrítica. Quanta mais prosápia, menos sabem da vida e mais querem instruir os outros na sua visão torpe, mesquinha, presunçosa. Enfim, outra vez o retrato da elite fajuta portuguesa das audiências, que impede sejamos um país digno. Não percamos tempo com isso, deixá-los no visco da sua peçonha e soberba.

Voltando ao Primeiro de Dezembro, talvez a anarquia dissesse melhor com o que me vai na alma. Uma anarquia menos revolucionária, mas ainda assim devota do igualitarismo, esse papão dos iluminados. Faria como há muitos anos, em que conseguia saber de antemão a nota exacta que os professores me dariam nos exames. Não era boa aluna, longe disso, mas tinha perfeita consciência do que sabia e não sabia, e do que era pedido que soubesse. Face a isto, com base em médias ponderadas que sempre rabiscava num papelinho à saída do exame, chegava ao valor da pauta. Raramente me enganei. Bruxa. Se soubesse um pouco de História de Portugal, podia aplicar o modelo. Conhecer as épocas, as fundações e consequências de cada uma, a forma mais ou menos feliz (é isso que me interessa e nada mais) como os portugueses a viveram. Ir buscar à História dos nossos genes, e não renego a diversidade deles, os esteios que nos fazem melhores, mais competentes, mas também mais solidários. Ah e tal, a literatura está cheia de boas intenções e evocações históricas. Já as conhecemos de ginjeira, já as catalogamos, somos supra, ultra conhecedores de todas essas investidas, e aproveitamos para citar três versos do poeta maior, dois períodos daqueloutro cronista, citaremos os ventos que sopravam à época lá de fora, da civilização, e enumeraremos três obras-primas dos grandes mestres. Raios partam os eternos adolescentes que brincam à erudição como se estivessem a masturbar. Então nos últimos 30 anos com a internet é um maná para os eruditos de algibeira. É sacar sabedoria a força toda, é espoliar histórias de vida alheias, é usar tudo quanto está ao alcance para deturpar em proveito próprio ao mesmo tempo que se bate no peito em homenagem ao rigor, ao trabalho e ao mérito próprio, e pelo caminho tirar proveito e destruir umas tantas pessoas que não tolerem as pulhices. Na maior parte dos casos não sabem peva da vida e do que interessa aos portugueses. Não adiantam a ponta de um corno ao sustento das famílias e estão-se a borrifar para a verdadeira educação dos miúdos e graúdos. Apesar de falarem de educação e de livros com profunda solenidade. A preocupação com o analfabetismo antes, agora com a falta de leitura, perturba-lhes o sono. O sono da vaidade. Só pode, tal é a dissimulação, tal o desrespeito que sempre mostram face à populaça, que só interessa para audiência e para instruir no voto dos comparsas de nojeira. Produzem população ignorante para se poderem perpectuar no privilégio de medíocres auto-promovidos a conhecedores de inteiro mérito. Mas não percamos mais tempo com o visco da peçonha e soberba.

O que interessa é que uma média ponderada do que fomos nestes 900 anos talvez nos pudesse servir de farol para futuro menos podre - não digo bom por já ter desistido de acreditar. Descobrir onde errámos, onde acertámos. E não venham com as tretas de que somos óptimos a fazer diagnósticos, porque em Portugal é raro o caso de alguém não querer para si próprio um regime de excepção e é raro o caso, até por este exemplo deplorável que vem da elite fajuta, é raro o caso de assunção de responsabilidades por erros e escolhas erradas – a culpa é sempre do vizinho e o próprio tem sempre razão. Se uns poucos puderem ter voz e guiar-se pela estatística histórica das qualidades dos portugueses, e puderem fazer pedagogia sobre o defeitos que devemos corrigir, talvez a população os possa ouvir e tornar-se mais exigente, deixando-se de cair neste engodo fácil, neste exemplo nacional parasitário, tratante e arrogante, e assim tornar-se ela própria mais séria e exigente consigo própria. Até lá, não vejo razão nenhuma para mudar, se as regras para ascender continuam a ser a trapaça e a aparência - jogo sujo e mundos minúsculos elevados a grandes referências -, salvo raras excepções.

Soberba

por Isabel Paulos, em 01.12.22

É só para deixar aqui a palavra depositada: SOBERBA.

Um subproduto da estupidez.

E agora, depois de uma breve interrupção com aquilo que não vale um chavo - ainda não perdi completamente o vício de consumir qualquer porcaria que tem boa aparência, mas é nociva à saúde e à inteligência -, vou continuar o que estava a fazer: a ler pessoas com alma e a escrever qualquer coisa que me divirta.

Foi um dia

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 29.11.22

Quando começou o dia de trabalho às nove e meia pensei colocar uma música no blogue, um banal vídeo do YouTube. Como acontece às vezes, à falta de inspiração para o descobrir, liguei ao Nuno para pedir uma ideia enquanto ia tratando das primeiras tarefas. Acontece muito estar ao telefone - com chamadas profissionais a maioria das vezes, mas pontualmente com pessoais -, a trabalhar e a ouvir música tudo em simultâneo. Erro, erro crasso, dizem os iluminados; há que concentrar numa tarefa única de cada vez, os que tratam de vários assuntos em simultâneo jamais conseguem trabalho de qualidade. Seja, vénia aos sábios do tempo e da perfeição. Um dia quando for grande quero uma vida assim, em que possa escolher ser iluminada. Nesta encarnação, compete-me ser burra de carga alguns dias por mês e nos outros sossegar um pouco e até fazer um nada de ronha. E pensam os inteligentes e os arautos da psicologia aplicada ao trabalho: só pode ser má gestão do tempo. Se soubesse seguir regras simples, utilizá-lo-ia de uma forma mais racional. Sempre que vejo esses conselhos, percebo que quase todos passam por descartar responsabilidades, transferindo-as para diante ou para outros. É a ideia genial dos conselhos nesta matéria – variante do pensamento socrático sobre dívidas públicas: não são para pagar, são para se ir pagando. Voltando ao início do dia e à música: o Nuno sugeriu Adele, que resolvi ouvir antes de postar. Sucede que a atenção nas tarefas me fez perder ideia de a passar nas Comezinhas. Ainda me recordo da sequência aleatória que se seguiu no YouTube; passou para Norah Jones. Gostei desse bocadinho; bem precisava dele para sossegar o dia que se avizinhava. Ainda passei por Chopin, com aquele efeito anestésico que me faz sempre imaginar que conseguiria cometer atrocidades ao som de uma das suas composições para piano. Misturo a imagem do Padrinho e as festinhas no gato. Parece-me ajustada a ideia, aquela paz e serenidade tenebrosa capaz das piores atrocidades. É assim que caracterizo um certo tipo de espírito de música e de atitude face à vida. Tão tranquilo, tão tranquilo que só pode ser gélido e desprovido de sensibilidade. Há pessoas assim, que falam baixinho e doce, pausado, e trazem em si mesmas um facínora e todas as respostas do universo. Até mesmo Chopin teve de ser desligado. Começou a sucessão infernal de telefonemas, emails, conferência de contas e demais tralha que até me dão gozo se forem com conta peso e medida, mas hoje era um dos dias no mês de cúmulo de tarefas – há outros bastante mais sossegados. A maioria. Tentei almoçar em casa, mas uma vez sentada à mesa entre correrias quase não consegui engolir. De tarde a coisa piorou ainda mais por ter sofrido pressão. É sempre bom ser espicaçada quando me falta o tempo para respirar. Dá logo uma boa disposição bestial. A meio da tarde consegui finalmente comer uma maçã. E foi assim na lufa-lufa até às oito da noite.

Há 10 minutos pensava que não conseguiria escrever nada, de tão cansada e com vontade do quentinho da cama e do edredão e da dureza do colchão para endireitar as costas moídas. Era tudo quando desejava há 10 minutos e almejo agora. Mas consegui escrever estas linhas da rajada. Importantes, só podem ser indispensáveis. Ainda que não sejam, fica o registo do dia e o treino de justaposição de palavras. Só falta uma revisão rápida para corrigir os erros que me saltem aos olhos.

O amanhã será parecido com hoje. Mas depois ficarei quatro dias em casa. Acho que mereço.

Castigo

por Isabel Paulos, em 28.11.22

Perseguir, perseguir, perseguir. Cem vezes perseguir.

Ainda não eram seis da manhã quando comecei o post Pé ante pé - hoje é essa desculpa. Vá, e até julgo que sei escrever perseguir; creio já a ter escrito milhares de vezes bem, mas lá está: não sei bem o que aconteceu. Terá sido uma correcção atrapalhada do corrector ou uma paragem momentânea do cérebro? Hei-de ter oitenta e dois anos e andar nisto. Noventa, noventa e dois, quero dez de bónus depois de recomeçar a fumar.





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