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Miles Davis - So What

por Isabel Paulos, em 05.08.20

Saúde para além da Covid-19

por Isabel Paulos, em 05.08.20

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Segundo dados do Público, em Julho último morreram 10.390 pessoas em Portugal. Se consultarmos os dados da Pordata, verificamos que nos últimos três anos em Julho morreram 7.935 (2017), 7.963 (2018) e 8.202 (2019). Pelo que a notícia avançada ontem pelo jornal de que os 10.390 representam um aumento de 26% não só é pertinente, como a situação é ainda mais preocupante se comparada com 2017 e 2018. Só se recuamos a 2013 esmorece esta significativa diferença, e ainda assim nesse ano houve 9.172 mortes.

O facto da Covid-19 representar apenas 1,5% dos óbitos de Julho é elucidativo do desamparo a que os portugueses e demais residentes em Portugal foram votados nos últimos meses em tudo quanto não diga respeito ao coronavírus. Todos nós temos conhecimento de situações de adiamentos e cancelamentos de consultas, tratamentos e cirurgias. Em causa própria ou de familiares e amigos sabemos que, enquanto nos questionávamos se deveríamos ir ou não a tal ou tais consultas no hospital de residência, recebemos chamadas dos médicos que nos consultaram por telefone. E quando perguntávamos quando seria aquela cirurgia, nos respondiam para contar com pelo menos mais meio ou um ano de atraso e, em rigor, para não contar com nada certo, porque isto (o SNS) está de pantanas. Sabemos também que pessoas de saúde frágil tentam marcar consultas nos Centros de Saúde, vendo não só dificultado o agendamento em si, como a consulta ou outro acto médico permanentemente adiado. Algumas sucumbem.

No País onde a população - com a conivência dos profissionais de saúde e auxiliares - recorria e entupia os hospitais por motivos fúteis, passou-se ao extremo contrário de ter medo de lá ir ou tão simplesmente a ser dissuadido de o fazer. O SNS – ao qual gosto sempre de prestar a devida vénia pela regra de qualidade técnica dos médicos e enfermeiros - está igual a si próprio no que diz respeito à gestão e organização: caótico. Tal como o País, onde o maior dos males é a irracionalidade e a desorganização estrutural das instituições e de alguns cidadãos.

Papéis

por Isabel Paulos, em 04.08.20

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Houve tempos em que arrumar papéis significava estar um par de horas a ler desabafos, postais, cartas ou outros escritos com cinco, dez ou vinte anos. Há muito que tal não acontece por ser cada vez mais raro usar papel e caneta, senão profissionalmente ou para brevíssimas anotações. E mesmo aí noto que começo a perder o hábito de ter a caneta e folha de papel que sempre me acompanharam, preferindo o simples bloco de notas do Windows. Temo deixar de saber escrever com caneta ou lápis. Depois de há treze anos ter destruído todas as notas manuscritas hoje, quando quero escrever ou rever qualquer coisa escrita dos últimos anos, socorro-me de suportes digitais.

Arrumar papéis tem agora um significado diferente. De meses a meses procuro ver o fundo das gavetas. O que quer dizer sentar-me à secretária e depois de despejar os papéis das gavetas, organizá-los por pequenos montes: finanças, seguros, saúde, etc. E arquivá-los. Há anos que repito o ritual e de todas as vezes me sobram os inclassificáveis ou pendentes, que acabam no fundo da gaveta em micas, até à próxima.

Costumo conseguir realizar a tarefa numa noite. Mas desta vez deixei para terminar amanhã, na vaga esperança que a coisa fique mais completa.

Desdém

por Isabel Paulos, em 04.08.20

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Há dias assim: maus. Atravessamos temporadas a observar, respeitar, dar o benefício da dúvida e eis que chega o momento em que acordamos e damos de caras com a realidade ordinária e desprezível do desdém. Entremeada de confrangedores actos falhados de humor. É quase inacreditável ainda haver gente decente a respirar no meio do lodo.

Ella Fitzgerald How High is the moon

por Isabel Paulos, em 04.08.20

Passear

por Isabel Paulos, em 03.08.20

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Lubango.pngVamos a Lubango?

Soberba

por Isabel Paulos, em 03.08.20

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Oiçam. Vou contar um segredo: de manhã escrevi um texto sobre a palermice de se estar sempre a dar conselhos e determinar como os outros devem pensar e agir. Era um texto sobre a pequenez e burrice de se considerar intelectual ou moralmente superior aos outros.

Decidi desistir do texto, para não dar o exemplo.

Boa semana.

Poema épico

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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*

X CONTRA XV
[Coimbra, MMXX]
 
FC PORTO CAMPEÃO
FAZ DAS TRIPAS
COROAÇÃO.
 
 
Ricardo Álvaro
 

Sobriedade

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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Só uma nota que é devida. Ontem critiquei o ressabiamento na televisão em matéria futebol. Mas não quero deixar de assinalar a diferença que faz uma pessoa educada: hoje, no comentário da SIC, Ribeiro Cristóvão demonstrou uma vez mais ser um Senhor.

Jacques Brel - Ne me quitte pas

por Isabel Paulos, em 02.08.20

Sting - Ne me quitte pas

por Isabel Paulos, em 02.08.20

José Duarte

por Isabel Paulos, em 02.08.20

Nem sei bem porquê veio-me à memória a imagem de José Duarte, um dos principais responsáveis - senão o principal - por gostar de jazz. Pode parecer que não, mas houve um tempo em que a televisão educava. Acabo de ouvir esta entrevista e divirto-me com o mau feitio próprio de quem leva a sério aquilo de que gosta e se dedica, perdendo a paciência com a mediocridade. 

Costumava ver os programas da RTP2 no início dos anos 90, numa altura que cheguei a ir à Escola de Jazz do Porto. Já em 2001 conheci o Hot Clube, na Praça da Alegria, em Lisboa. Pena que tenham sido momentos tão fugazes.

Sem perceber nada sobre jazz, é o género musical que mais liga os meus neurónios: equilibra-me. Dá-lhes sentido. Há dias em que é uma necessidade. 

Bela noite de Sábado

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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A noite corre de feição. Ao contrário do hábito de há vinte ou trinta anos não vi o jogo, de que fui tendo notícias pela reacção alegre e efusiva dos vizinhos. Uma das grandes vantagens de me ter mudado para uma zona mais popular da cidade.

Liguei a televisão ao apito final e mais uma vez vi gente cheia de azia. Tanto faz haver comentadores representantes dos três grandes, como não. Saem esses e ficam os jornalistas da casa que são tão ou mais facciosos e ressabiados do que os que deixaram de aparecer.

No dia que o Porto ganhou o campeonato, face ao portista contente com a vitória, vi duas criaturas cuja linguagem, olhar e postura corporal provavam doses impressionantes de raiva e despeito. Desliguei a televisão ao fim de dez ou quinze minutos.

Hoje já só apareceram jornalistas autóctones. A raiva e o despeito continuam presentes, mas agora dissimulados em análises sobre o jogo que, como de costume, se consubstanciam em falar de tudo quanto pode menorizar a vitória. Desliguei ao fim de cinco minutos. Ainda mais rápido do que no fim do campeonato.

Amanhã já estarão todos a falar no treinador e nas glórias do Benfica ou nas intermináveis trapalhadas e questiúnculas do Sporting. Que sejam muito felizes, amanhã. Hoje o meu portinho ganhou e posso continuar a noite alegre e a ler as Ficções, de Jorge Luís Borges.

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Isto apesar de perceber bastante mais de futebol - que cresci a seguir com atenção, aprender as regras e a apreciar -, do que sobre o sábio e erudito imaginário de Borges. Mas não há como insistir, ler, fuçar e alguma coisa há-de cá chegar, apesar de ter a sensação que para ler este livro, que já me tinha passado pelos olhos duas vezes teria primeiro que cair – como na poção mágica do Obélix -, no caldeirão bibliográfico borgiano, uma fonte inesgotável de força mental.

Vamos ao que interessa: obrigada uma vez mais ao Futebol Clube do Porto - ao treinador e jogadores, à equipa. E com isto passa mais uma buzina estridente. Que se oiçam bem nesta bela noite.

Beijinhos e abraços aos amigos portistas. A taça é nossa. 

Rui Rio no Observador

por Isabel Paulos, em 01.08.20

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O artigo O PS vai dar um Orbán a Portugal?, no qual Rui Ramos faz o que chama uma 'interpretação de uma possibilidade política', é um manifesto de má-fé. E custa ver isto numa pessoa que tantas vezes leio ou oiço com gosto. A tese simplificada: há um bloco eleitoral de dependentes do Estado, que pode naturalmente transferir-se do PS para a direita encabeçada por Rui Rio e André Ventura. Entre a direita reformista do passado e a direita que quer apenas ocupar o Estado - ou seja, clientelista -, Rui Ramos, numa dissertação mais elaborada que quem quiser pode ler, coloca Rui Rio na segunda categoria. Ora, não custa perguntar se o passado de Rui Rio na condução de cargos públicos prenuncia que venha a ser um líder populista sustentado por clientelas. Respondo: não. Antes pelo contrário. Mas isto não interessa nada a quem argumenta com base em ódios e estimas não ancoradas nos factos, mas em preconceitos de gosto.

Gary Clark, Jr. - Catfish Blues

por Isabel Paulos, em 01.08.20

Gadanha

por Isabel Paulos, em 31.07.20

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Acordaste a divagar sobre as expectativas dos outros. Durante as três horas que entretanto decorreram, dezenas de pequenos apontamentos despontaram no pensamento em forma de instantâneos que reflectem sentimentos tão díspares como mágoas, fúrias, alegrias ou gratidões. Tudo entrecortado por conversa de bom dia, chuveiro, iogurte e café para quem fica, autocarro resvés, fila para comprar o passe do dito, contas-corrente, café sem o qual não sobrevives, mensagens, emails e telefonemas, registo e trocas de informação e pontos de situação. E por isto que se faz sem quase notar que se fez, em vez de três horas já passam  três e meia, e ainda falta o iogurte para quem veio. Hoje é de pêssego, calha bem. E vem-te à memória o comentário desatento de que o grosso disto será automatizado para que o foco esteja no essencial. O sorriso malicioso enche-te a cara - por mania insistes na preferência da palavra cara. Não o vês mas sentes as maças do rosto e dos olhos retesarem: é o sorriso de quem já viu o suficiente para adivinhar que por cada automatização de tarefa com vista à rentabilização, duas outras ou mais tarefas manuais nascerão. Se é saudável almejar o lucro e até profícuo, é preciso que se saiba que a complexidade de daí decorre é exponencial. Às vezes diverte-te constatar como se tenta, na ilusão de simplificar o mundo, esvaziar o mar a balde. Mais um punhado de telefonemas e emails, e quatro horas depois de acordar, assinas o recibo do salário. É fim do mês e tudo te faz igual a uma multidão anónima de gente que deambula pelo mundo e tão simplesmente: precisa. Há quem diga que isto não é vida. Que é mera sobrevivência. Há quem defenda e sonhe com unhas e dentes grandes vidas carregadas de sentidos profundos e universais. Quando o sentido da vida pode estar numa conta-corrente ou num iogurte de pêssego comido numa manhã em que se acorda pronta a dizer que não se é, não se pode ser, nem se quer ser uma sombra da projecção dos anseios dos outros. E sem ter planeado dá por si a fazer o diário de um dia banal, de modo espontâneo, deixando que a realidade transcorra, pronta a ser pintada.

Afinal qual era a imagem logo cedo? Talvez o desenho de uma caminheira de varapau ao ombro, na ponta do qual o saco de sarapilheira - ou de linho, talvez de linho -, traz tudo quanto é preciso, para além do caminho e da vontade de caminhar. Era mais ou menos esta a ideia e logo decidiste que não a ias elaborar mas tão só mencionar. Se fosses mais capaz, farias uma metáfora em forma de fábula. Mostrarias a vagabunda, quase sempre só, percorrendo vales, rios e montanhas, e as conversas ao longo do périplo. À cabeça há sempre quem te diga que jamais conseguirás transpor a montanha ou cruzar o rio. Pois que essa história é reservada a predestinados. Devias contentar-te com as doçuras calmas do vale. E deixar esses devaneios destinados a almas mais bafejadas pelo talento, inteligência e coragem. Entretanto chega email da empresa de condomínio e a notícia de que o total da conta extraordinária será dividida em doze parcelas. Tanto melhor, concordas. Voltas à penúltima frase. Esses ditos da vida inteira - que visam proteger-te e por isso mesmo e apesar de te zangares, agradeces -, já infiltrados na carne e no miolo ajudam a fazer duvidar a cada instante do que és e do que és capaz. E no vale deixas-te dormir; também é preciso descanso. Até pegar no varapau e na trouxa para novamente percorrer mais umas léguas. Passas mais um ou outro rio e uma montanha e perdes a noção de quantos já foram sem que no vale reparem que há muito deixaste aquelas paragens – se é que alguma vez lá estiveste inteira – onde sempre voltas em sono sonâmbulo de modo a que não dêem pela tua falta. É preciso criar a ilusão de normalidade, é preciso um módico de apego, até na andarilha de pensamento. Agora passaram cinco horas e é preciso voltar a casa para almoçar. No regresso, mais expectativas virão.

Foste a casa e no caminho voltaste a ler o email do condomínio. Reparaste que aos nomes dos condóminos se seguia um parêntesis com o chamadoiro, dividido entre sr(a) e dr(a); a ti calhou o sra. Sorriste uma vez mais enquanto calcorreavas o caminho e congeminavas que o ar de gorda desligada, de jeans e sapatilhas quase 365 dias por ano tem os seus custos reputacionais. Já muito perto de casa, entraste na padaria e ao teu boa tarde, respondem-te com o habitual e simpático cumprimento, mas seguido de: desculpe, trabalha no hospital Santo António? Não te ocorreu responder na qualidade de Margarida e dizer que talvez sim. À tua resposta negativa, acrescentaram: é que fui lá na semana passada e há uma doutora que é mesmo muito parecida consigo. Reafirmaste que não eras tu e pensaste: lá se foi a tese das sapatilhas por água abaixo – além do que ainda dá uma camoeca a algum possidónio da exclusividade dos ténis. E afinal, na empresa de condomínio nunca te viram a fuça, talvez aqueles sejam parêntesis a pedido. Ris e constatas que se é certo que dispensas o dra, não desmentes que preferirias o senhora dona; o peso das ironias familiares não deixa de se abater sobre ti. E volvidas estas menoridades que não se confessam senão na intimidade e por isso exibes no blog, eis que preparas o almoço entre um chorrilho de palavrões, por qualquer coisa não ter funcionado. Dás por ti a pensar na repulsa que sentes por gente que contigo se cruza na rua a praguejar em vernáculo. Vês-te nesses preparos no meio da cozinha e entre muitos cês, pês e efes, olhas para os teus braços para confirmar se não tens tatuadas cobras, borboletas e nomes de entes queridos, nem chanatos de enfiar o dedo nos pés. Certificas-te que estás limpa de tais adereços e pedes desculpa a quem ouve os destemperos com generosa e divertida compreensão. Almoças com ele e decidem antecipar um encargo mensal que se iria prolongar por mais um ano, para poder fazer face ao novo encargo. O lema é sempre: se é para doer, que doa já, e o desafogo virá depois.

Voltas ao local de trabalho e pelo caminho confirmas no telemóvel que a palavra de conforto enviada ontem a quem perdeu alguém próximo chegou aos destinatários. Dás uma vista de olhos pelos blogs habituais, hoje sem particular atenção. Não chegas a ler os jornais. Voltas à metáfora para notar que há quem pelo caminho fale de gentes, pedras e paus para lá dos outros vales, montanhas e rios. Explicam-te como são belas ou feias, malignas ou benignas e dizem-te que devias escutá-las e com elas aprender a ser gente também. Acenas que sim, e perguntas-te presunçosa - mas apenas em pensamento, não vás ofender alguém -, se estarão a referir-se às pessoas, pedras e paus com quem treinas o jogo do galo desde criança. Em cada poiso, em cada degrau, tiras o varapau do ombro e, enquanto dás dois dedos de conversa, com ele riscas no chão dois traços na vertical, dois na horizontal, e independentemente de quem comece, quase sempre ganhas em perder antes de seguir caminho. E esse vício entranhado cobre-te da invicta carapaça da derrota. Talvez por isso, de quando a quando, apareça no caminho quem estranhando o paradoxo, não enjeite os teus sonhos, antes pelo contrário, os incentive. Sucede que não raro, o encantamento pouco dura. Na maioria das vezes não por responsabilidade de quem te motiva – e a quem és grata – mas por não saberes ceder ao natural desejo de te encaixarem num qualquer modelo de comportamento expectável. Advinhas sugestões sensatas e reprovações legítimas, mas encontras sempre um sem-número de equívocos que esbarram na ideia basilar de por vontade e natureza nunca seres aquilo que os outros de si em ti projectam. Nunca ficarás aquém nem além do que és.

Com tudo isto passaram dez horas desde que acordaste e falta uma para voltares a casa. Reparas que o rádio esteve ligado todo o dia ou não se tratasse de uma jornada normal. A meio da tarde um café descontraído de dez minutos, e uma conversa que envolve pequenas fantasias feitas realidade menos idílica de limoeiro, erva, relva e gadanha. Palratório que só entende quem contigo convive desde que nasceste. É sexta-feira e felizmente na tarde deste dia há menos gente a querer resolver assuntos inadiáveis. O telefone esteve mais sossegado, o que permitiu acabar de escrever este texto, que vais deixar para corrigir e publicar depois de jantar. É fim-de-semana e isso é o que mais interessa.

A reacção (2)

por Isabel Paulos, em 30.07.20

Não sei se me comova com a excitação que certamente despontará (já vi laivos) nas redes sociais com a frase de Rui Rio sobre a eventual convergência do PSD e do Chega. Para quem percebeu há trinta anos que vive num País com uma população de vigorosa maioria formatada no ideário socialista quando não comunista, ainda que por distracção ou conveniência vote em partidos como o PSD ou o CDS, esta exaltação não espanta. Resta saber se a lengalenga que resulta da lavagem cerebral feita nas últimas décadas aos portugueses vai continuar ou parte deles terão a coragem de mostrar o reverso da medalha sem pudores – e sem falsidades, porque o que mais há é reaccionários disfarçados de democratas -, que servem sobretudo os interesses instalados.

Para não me repetir, deixo em seguida texto escrito no mês passado.


A reacção

por Isabel Paulos, em 22.06.20
 

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Nenhuma simpatia me anima na figura de André Ventura e no Chega, mas não posso deixar de ver a sua existência e quiçá o crescimento como uma espécie de desforra da agenda dominante da elite política nacional e da comunicação social. Dos quarenta e seis anos de discurso benevolente com o marxismo-leninismo do Partido Comunista e vinte anos de apoio descarado ao ideário marxista-trotskista do Bloco de Esquerda.

Nas últimas décadas raramente o discurso preponderante nos jornais e na intelectualidade pôs em causa o extremismo ou radicalismo destes partidos. O facto do PCP recusar sistematicamente a demarcar-se dos regimes opressivos da Coreia do Norte, de Cuba ou da Venezuela foi visto como faits divers para preencher espaços humorísticos ou de curiosidades dos jornais. Nem o acesso privilegiado - o lobby - de militantes e simpatizantes do PCP a lugares e cargos na função pública alguma vez foi escrutinado. Pelo contrário, era promovido e amiúde elogiado, sobretudo nos meios culturais. Vícios que o Bloco de Esquerda também aprendeu a enfermar ou a matriz não estivesse tão próxima, apesar das pirraças e derivações ideológicas. Realidades nunca expostas na prosa dominante da comunicação social. A mesma que também não consegue perceber e denunciar a leviandade com que o Bloco de Esquerda aborda a economia, desprezando os seus principais agentes – trabalhadores, empresários e empresas – reduzindo-a à figura paternal do Estado Providência que amealha e distribui rendimento - dinheiro, essa massa abstracta e etérea que ora nasce na árvore das patacas ora tem origem na malvadez de medonhos capitalistas – e dos cidadãos beneficiários de protecção.  

Ainda bem que esta afinidade - da comunicação social e dos meios intelectuais e académicos com voz no País -, aos partidos mais à esquerda tornou a coabitação em democracia possível. Distanciou-os da imagem original de radicais esquerdistas, elevando-os à categoria de partidos do sistema, até ao ponto de, em 2015, passarem a fazer parte da solução governativa – com um pé dentro e outro fora, no melhor dos mundos.

Agora não estrebuchem quando da outra ponta do arco político aparece um partido radical de direita. É a vida. Para uma acção há sempre uma reacção. E o Chega, mais do que uma manifestação tardia da onda das novas direitas radicais europeias, é uma reacção ao desequilíbrio existente no País há quarenta e seis anos, que (apenas) se tornou evidente em 2015.

Os últimos cinco anos impuseram uma mudança. A partir do momento em que a esquerda radical deixou de apenas pesar na sociedade civil, passando a ter peso na acção legislativa e nas decisões governativas, impondo uma agenda identitária e de maior centralização dos poderes do estado, deixou de ser possível à direita fazer de conta que não via, como fez nas últimas décadas.

Mesmo os jornais conotados com a direita – e não me venham com a treta que não existe esquerda ou direita ou que é esta é uma visão redutora, porque se há coisa que os últimos meses têm mostrado à saciedade é que a dicotomia não é uma abstracção e que o excesso de preciosismo terminológico e semântico tem como efeito útil único não se dizer o essencial e o inteligível para a maioria das pessoas – como, no passado, n' Independente entretiveram-se sempre mais a destruir a direita do que a denunciar os vícios da esquerda. Uma espécie de temor reverencial às conquistas de Abril e o medo de ser rotulado de salazarista ou fascista fez com que muitos seres pensantes do burgo fechassem os olhos ao laxismo, à incompetência e a amiguismo socialista, ao mesmo tempo que não perdoavam qualquer demonstração de falta de estofo intelectual e ou de etiqueta a Cavaco Silva. Nem, claro, de qualquer erro na acção governativa. Tivéssemos nós uma imprensa com o mesmo vigor e rigor ao questionar a acção dos governos socialistas e das iniciativas dos partidos mais à esquerda e estaria bastante mais sossegada.

Não questiono a necessidade de investigação de todo o acto governativo, das suas razões e das suas consequências. Este escrutínio faz parte dos alicerces da nossa democracia. É sempre saudável ver uma comunicação social atenta à corrupção, aos erros e incongruências na governação. O que não posso aceitar nem justificar é que essa especial atenção seja muito mais branda e cúmplice quando vai na direcção dos partidos mais à esquerda, que haja maior pudor quando os visados são socialistas, comunistas e bloquistas (e queridos animalistas, claro).

Por tudo isto não deixa de ser com ironia que leio a doce entrevista sobre o Chega a Riccardo Marchi, publicada no Observador. Uma entrevista na qual o autor demarca o partido da velha direita radical ideológica – dos fantasmas do fascismo e do nacionalismo - e na qual refuta quase todas as críticas pesadas que são feitas ao Chega. Mas, sobretudo, em que define o novo partido como um partido reformista e perfeitamente enquadrável no regime democrático. Nem por encomenda André Ventura podia pedir mais. Os ventos, por agora, sopram favoráveis. Imagino quanto espuma a esquerda ao ler uma entrevista assim.

Seria bom que no PSD lessem a dita entrevista e começassem a dar corda aos sapatos, que se faz tarde. Digo isto com a maior das franquezas, até porque gostaria muito de ter razões para votar no PSD nas próximas eleições legislativas.

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Al Kooper - As The Years Go Passing By

por Isabel Paulos, em 30.07.20

Provocação

por Isabel Paulos, em 30.07.20

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«O civismo é simplesmente o medo agudo da opinião dos outros.» Fernando Pessoa.

Gaivotas

por Isabel Paulos, em 30.07.20

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Chego ao trabalho, abro a persiana e dou com estes dois pirralhos enevoados. Ainda outro dia nasceram e já estão no varandim armados em gaivotos adultos. E é isto ano após ano.

Bom dia.




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