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O comentário político nacional

- estabilidade política e crescimento económico desde 1974 -

por Isabel Paulos, em 17.10.21

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Quase que é de fiar no comentário semanal de Marques Mendes. Quase. É evidente que foi um político experimentado e tem noção das peças em jogo. Conhece bem o métier. Sucede que, como a maioria do comentário político nacional – já na linha dos idos anos do espaço da missa dominical do actual Presidente da República -, nunca coloca a substância no plano do dever ser mas no suposto “o que é dado”. Ora, se “o que é dado” fosse de facto tal como é, não viria daí mal algum ao mundo, mas não é isso que se passa: semanalmente transforma ou adapta a realidade a pretexto de alegadas ideias de racionalidade, estabilidade e bom senso políticos, ao gostinho da seráfica pequenez nacional. Conheço bem a linha de pensamento, típica do português desenrasca-resignado, sem rasgo, sem coragem e sem ética.

Foram 10 minutos (a olho, não fui confirmar) de argumentos pró estabilidade política – há quantos anos arrastamos este mantra da estabilidade política? – e de diabolização do chumbo do Orçamento de 2022 – nunca visto em Democracia, disse o arauto do comentário político português. Para no tema seguinte fazer saltar com a maior das ligeirezas a possibilidade de chumbo do Orçamento 2023.

Sobre estabilidade política peço apenas que reflictam sobre os gráficos relativos ao crescimento do PIB em Portugal e aos fundos europeus. Serei a única a reparar que o melhor período da nossa economia deu-se após a crise política de 1985? E não me venham com a treta de que fundos europeus justificam tudo. Continuaram a jorrar nos anos seguintes - em maior escala - e a ser desbaratados pelos sucessivos governos.

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No Money Kids

I Dont't Trust You

por Isabel Paulos, em 17.10.21

Diário

por Isabel Paulos, em 17.10.21

Isto de escrever sobre o que existe ou existia tem que se lhe diga. Pretendia falar de um castanheiro-da-Índia com a particularidade de estar convencida de que a árvore assim chamada na casa onde vivi na infância nunca o foi. Fui ao google maps e confirmei uma vez mais com um aperto no peito que além dele, das oito tílias do terreiro mais as três da rampa, sobra apenas uma. Tombaram todas - as da rampa nos anos 80, as do terreiro nos últimos quinze anos – salvo aquela que foi podada com rigor e a anuência da minha mãe, e a veemente discordância da minha avó, dona da casa e senhora da decisão, que dada a ordem para a poda das tílias logo arrepiou caminho tomando conhecimento da crueza dos cortes. Lembro-me que era muito miúda e odiei aquele esgalhar a frio da árvore. A avó adorava as tílias acima de quase tudo – as minhas tílias - mas não tinha razão. O amor nunca foi bom conselheiro, confirmo agora olhando desolada para a o terreiro desapossado daquelas árvores de grande porte que lhe davam todo o ser.  

Mas nem tudo é mau. Vejo no google maps que sobreviveram os carvalhos-negral a norte e os rododendros a sul, e talvez quem sabe as duas japoneiras, pequenas demais para confirmar. Soube também hoje que existem aplicações para identificar os nomes das árvores através de fotografia – o shazam das árvores, digamos assim. Parece que é a pagar, mas é coisa para valer a pena. A conversa relevante do dia foi assim a discussão à volta da folha e do bugalho do castanheiro-da-Índia que não o é. A mim parece uma espécie de carvalho. Há quem aponte para outros áceres. Temos de o conseguir identificar não por fotografia, mas pela memória das folhas vermelhas arredondadas e pontiagudas. Dos bugalhos com picos. Do tronco esguio e a direito de enorme altura.

A minha ideia inicial teria sido escrever hoje mais um postal para a série Verdes ou, quem sabe, para a Quinta – dou por mim a pensar que vai tudo dar ao mesmo: ao meu paraíso – mas saiu apenas este apontamento para diário. Na Quinta espero alargar o espectro aos costados do lado materno e paterno – ao elo Porto e Gaia -, sendo que do lado sul do Douro as informações são muito mais reduzidas pelo que tenho de me empenhar mais. Há quem falando da família trate das pessoas, dos feitos e das relações entre elas, e há quem falando da família queira explorar lugares, plantas e peças que se unem numa certa geografia íntima.

Tílias - fragmento 8

por Isabel Paulos, em 17.10.21

Ali a cinco metros já neste século estacionava a carrinha do homem da fruta. Um contra-senso, esse de numa quinta se comprar fruta, mas era assim, no fim. O vendedor, quando confrontado com pedidos de desculpa pelo tempo que aguardava, respondia que era um prazer estar ali, naquele idílio da sombra das tílias. Gostava de estacionar a carrinha no terreiro e encher-se daquele ar e aroma.

Até vinte anos antes no segundo tabuleiro, porque a Casa das Tílias era feita patamares ou socalcos a que chamávamos tabuleiros, estava uma das casas de caseiros, habitada pela última vez nos anos 70/80 pela Fernanda, o Agostinho e a Susana, que de lá saiu ainda muito criança, com os cabelos loiro muito penteados. Penteei-a vezes sem conta, ela sentada no mocho, como chamavam ao banco de madeira baixo, à porta da cozinha rústica sombria que conhecia bem. Eu a pé dobrada à volta dela sentada no dito mocho, aplicada a imitar a Eca a pentear. Ela com 3 ou 4 anos, eu com 7 ou 8. Muito se sofre para ser bela, dizia a Eca enquanto me fazia penar com o pente ao tirar os nós dos fios de cabelo.

E no mesmo encadeamento de casas, estavam as arrecadações a que os caseiros chamavam lojas. Foram-se de lá, mas vinham todas as Páscoas, durante anos, trazer o pão-de-ló. Uma das arrecadações era a das maças. Quando as fruteiras começavam a esvaziar, sabíamos que tínhamos de ir às maças. Tento-me lembrar como chamávamos ao espaço e percebo que não o denominávamos senão como nas maças ou nas batatas. Nas maças estavam as maças nas prateleiras do lado direito e as batatas do lado esquerdo. As batatas não grelavam depressa como as de agora. Dizem que tem de se pôr pó. Lá não via nada disso, a não ser batatas daquelas que o João e a outra Glória, os jornaleiros da quinta, apanhavam da terra, meses depois de as deitarem à terra. Havia sempre uma quantidade delas, as mais mirradas, que ficavam para a sementeira do ano seguinte. Depois de lavrado o campo, dos punhados de batatas plantadas despontava a rama com pequenas folhas verdes arredondadas, e crescia a cerca de 40 cm de altura, depois a flor branca e no fim os tubérculos prontos a serem colhidos. A porta das maças abria com chave tubular de ferro, das que ficavam penduradas no chaveiro na entrada de casa, eram muitas escuras grandes e pesadas. Entrava-se para um corredor comprido, com janela em frente ao fundo e prateleiras laterais de cima a baixo, estando as do meio carregadas de maças e batatas. Abrir aquela porta era descerrar o segredo do paraíso do olfacto. São memórias do nariz que ficam para uma vida inteira, e se mais houvesse para infinitas encarnações. Mas há uma sensação estranha: aquele espaço, aquelas prateleiras cheias de maças, anos mais tarde, pareceu-me tê-las visto numa sala de cinema ao assistir ao filme A Vida é Bela, de Bellini, carregadas de judeus. A antecâmera do gás. Desde então, não dissocio as duas imagens.

A casa dos caseiros era a cozinha, com lareira de pedra, e o quarto. A tangerineira junto à parede da cozinha, a pequena horta. E na outra ponta, depois das arrecadações, o buraco.

Vida Selvagem

por Isabel Paulos, em 16.10.21

Desde que em Fevereiro último o Ritz entrou nesta casa estranho não termos sido visitados por David Attenborough. Como é possível que não apareça detrás do armário? para descrever o meu pantera branco e preto a combater o pedacito de fiambre que lhe dou às vezes à noite. Tira-o da gamela e, qual rato caçado após brava batalha, enterra-o debaixo do tapete da cozinha – onde sempre vão parar para meu desgosto os petiscos mais apreciados –, segundos depois vai lá tirá-lo, luta mais um pouco e acaba por comê-lo. Tal como gosta de enfiar as suas presas-brinquedo - cápsulas de garrafas, parafusos: essas coisas com interesse que encontra pela casa tomando a propriedade - debaixo de tapete da sala para voltar a ir buscá-las e brincar no dia seguinte. Muito arrumadinho, o meu bichano.

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Sempre que apanha uma planta a jeito testa o sabor, tendo preferência nítida pelos cactos, aliás, suculentas. Isto para não falar nos saltos e cambalhotas que dá ao pescar com unhas e dentes o peixe de pano da cana de pesca que tenho pendurado numa das cadeiras da mesa de jantar. Ou das corridas desaustinadas que dá no corredor e acabam em derrapagens, algumas vezes em traulitadas contra a parede – estou convencida que o facto de ser cego de um olho não lhe dá grande noção de espaço.

Como é possível que Attenborough não esteja sentado no sofá ou detrás da japoneira com os seus binóculos a apreciar a vida selvagem nesta casa? E os diálogos que o gato enceta com aranhas e mosquitos?, muito bem preservados por nós - se já tinha alguma tendência para achar piada a aranhas, desde que o Nuno abancou na minha vida não me posso desfazer delas senão com todo o cuidado, devolvendo-as delicadamente ao ar livre. Temo é que elas tenham percebido. Às vezes pressinto que as aranhas gozam comigo, como daquela vez em Outubro de 2019 que vi uma subir desaustinada a parede junto à cabeceira da cama, percorrer um pouco do tecto e mergulhar em queda livre para a minha almofada, um segundo depois de eu saltar de lá - valeram-me os bons reflexos - percebendo no movimento da fulana qualquer coisa malévola em mente - ou então não, era só a sorte a chamar por mim como dizem as bruxarias.

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Pois, disto não falam os documentários sobre a vida selvagem. O Ritz desabilitado dos princípios humanitários do dono ainda não participa desde amor e tolerância aos insectos e desata a miar meiguinho às aranhas assim que se mexem fora do alcance como se as tentasse encantar para caírem no engodo. Dos mosquitos e das traças de jardim corre atrás aos pulos e também lhes mia, explicando que é um desaforo não jogarem com ele a folia gato-gramatical do “já fostes”. De vez em quando lá leva a melhor. Isto de viver num apartamento com janelas a darem para o jardim dos vizinhos acaba por nos presentear com mais vida animal do que o citadino asséptico desejaria. Por mim, estou nas minhas sete quintas, gosto do matagal dos vizinhos – já assim ouvi chamar ao jardim com despropositado desdém a quem não percebe nada do lado bonito da vida.

 

Nota: na casa anterior preservei uma pequenina aranha três anos atrás da porta da rua. Uma das nossas brincadeiras era semana após semana perceber que a dona L. não dava por ela - também deve ver pouco mal, deve; cada vez mais me convenço disso.

Vidas só possíveis em casas como essa anterior na qual, apesar de rés-do-chão e como detesto sentir-me fechada, a janela da sala estava aberta a dar para o pequeno pátio 365 dias por ano - bom, fechava-a no Natal para os sogros alentejanos e friorentos, cujo amor aos bichos é ainda maior do que o nosso.

Bye, Bye Maria Ivone

por Isabel Paulos, em 15.10.21

 

Bye, Bye dissimulado.

 

Dito rápido

por Isabel Paulos, em 15.10.21

Hoje é péssimo dia para arranjar tempo, mas não quero deixar de dizer que o Observador e seus apaniguados estão agora a fazer com Rangel o papel que o Diário de Notícias fez há pouco mais de uma década com Passos Coelho: tentar depor a actual liderança nos jornais e redes sociais. Mais do mesmo. 

Isto de termos jornalistas e comentadores a fazer de colégio eleitoral para ungir os futuros líderes políticos do país não me oferece a menor confiança. As escolhas de jornalistas e comentadores auto-investidos de poderes que os cidadãos não lhes reconhecem ou não deviam reconhecer são totalmente arbitrárias, baseadas nas amizades e apreciações de gosto, raramente ditadas pela aliança competência/carácter. 

A lavagem cerebral na comunicação social - jornais e televisões - e redes sociais prossegue, os portugueses seguem de engodo em engodo guiados pelos ilustres intelectuais da treta.

Destruir e minar com ardil é facílimo, já construir exige trabalho e empenho.

Solução hidrogénio - Versão xico-espertismo

por Isabel Paulos, em 15.10.21

 

Quadro de lousa

por Isabel Paulos, em 15.10.21

Vêem, vêem, vêem, vêem, vêem, vêem, vêem,  vêem, vêem, vêem.

Pior que dar erros por hesitar apesar de conhecer as regras, é errar em palavras que não tenho qualquer dúvida e que por pura estupidez escrevo mal pontualmente.

Se fosse uma daquelas pessoas que passa a imagem de muito segura de si chamar-lhe-ia gralha, mas reservo este termo apenas aos casos de trocas de caracteres e situações semelhantes. No caso é erro. Erro.

Refiro-me a um postal de Julho.

Bom dia.

Porto

por Isabel Paulos, em 14.10.21

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Jardins do Palácio, 14 de Outubro 2021.

*

Intervalo de 20 minutos num dia agitado. Amanhã a previsão é de muito trabalho. Nada que não se cure com o fim-de-semana retemperador.

Febre

por Isabel Paulos, em 14.10.21

Está um dia quente em termos políticos.

Dia em que se aconselha nervos de aço nas diferentes casas e capelinhas.

Mas é ver casas...

por Isabel Paulos, em 13.10.21

... e o resto é conversa. Desta vez não é para mim. A melhor notícia que os próximos me podem dar é que estão a pensar mudar de casa. Entro imediatamente em acção, como se fosse para mim. ;)

(para quem ainda outro dia disse que era raro usar reticências ando a abusar.)

Melancolia

por Isabel Paulos, em 13.10.21

Passei o dia com música na orelha direita - a da esquerda ouve tudo o resto incluindo um rádio do corredor. Ouvi sobretudo Bruce Springsteen e não aconselho. Não porque não seja óptimo - afinal é um dos meus grandes amores desde os 12 ou 13 anos. Mas porque as escolhas de hoje - deixei o youtube a correr solto o dia todo - são tristes, até um tanto deprimentes. E nessa coisa da tristeza é bom ter mão e não a deixar correr ao Deus dará. É contagiosa. 

Amanhã vou colocar qualquer coisa mais animada. Já carpi o suficiente hoje.

Missiva

por Isabel Paulos, em 13.10.21

Recebi carta do nosso SNS. Se quiser posso fazer a cirurgia bariátrica já, escolhendo um outro hospital muito próximo. Noutras cidades do Norte seria daqui a um mês ou dois. 

Respondi por email que espero, antes de ter lido o verso da carta que sobre isso mesmo pedia decisão. 

Ainda hoje vou enviar email a questionar previsão mais precisa (entre 7 semanas a 6 meses é um período longo).

O bom é que desta vez, ao contrário das outras, ser sujeita a tratamento ou cirurgia não vai conduzir ao aumento maluco de peso, mas à redução. Enfim, começa a chegar o momento de libertar-me da irmã gémea que trago acoplada. O único senão é a fome de rato, mas convenhamos que ajuda será grande.

(Norte) de António Franco Alexandre

por Isabel Paulos, em 13.10.21

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*

O poema «(Norte)» está incluído no conjunto de inéditos intitulado «CARROSSEL» e foi publicado neste livro.

Obrigada, Ricardo Álvaro.

Bruce Springsteen

One Minute You're Here

por Isabel Paulos, em 13.10.21

Lado B

por Isabel Paulos, em 12.10.21

É difícil descrever o sonho de hoje. Se disser que estava em Piccadilly Circus dou um ar parolo-pretensioso - por ser um dos poisos mais batidos pelos turistas em Londres onde só estive duas vezes, sendo escusada a referência. Mas de facto aí decorria o sonho. Se disser que era eu que lá estava corro o risco de mentir por não ter a certeza de no sonho ser a própria. Era o meu pensamento em voz inexistente. Se explicar bem o que se passou - não só não haver correspondência com a figura física, como até não haver figura física, mas tão só uma abstracção, espécie de ente invisível que detrás da cortina translúcida vê o cenário e ao mesmo tempo que descreve participa no diálogo: chamemos narradora-personagem do sonho - se explicar bem o que se passou, dizia, deixarei uma vez mais a imagem de ter a pê da mania de complicar o básico ao mesmo tempo que sugiro imagens consideradas clichés pelos literatos, que sempre conhecem e etiquetam com jargão técnico ou académico uma passagem onde a ideia foi retratada magistralmente e não com a falta de fibra intelectual desta que agora escreve; não me refiro a quem por mero interesse ou curiosidade faz associações a outras leituras. Se tentar descrever o enredo dou ar de fóssil, por estar num ambiente neo-decadente-deprimente a comentar com desconhecidos transeuntes londrinos vermo-nos regressados aos anos 80. Aos trapos berrantes, acetinados e de mau gosto, aos chumaços. Às ruas sujas, ao gingar grosseiro da população de dedos amarelos a agarrar beatas de cigarro antes de as atirar para a sarjeta entupida. À gíria pseudo-engraçada. Aos toxicodependentes de passo e língua acelerados pelo descontrolo neurológico.

Se prosseguir perco-me do sonho e dou-lhe continuidade como se fizesse algum sentido, mas já será pura ficção acordada: cândida militante, procuro sempre razões – que a maioria vê como maçadoras teorias da treta marteladas – pelo que aproveitando o embalo em jeito pós onírico comentaria com os meus desconhecidos e pedestres interlocutores – perdeu-se o saudável hábito antigo de conversar enquanto se faz caminhadas? -, que nos últimos 20/30 anos a estilização dos usos e costumes tornou o mundo de tal modo arrumadinho que quase todo o desalinho é estudado e, por isso mesmo, entediante. Tudo está normalizado e tende ao perfeitinho. À sofisticação do humor e da linguagem dissimulada-moralizadora. Ora, sabendo que o mundo evoluiu em avanços e retrocessos nunca iguais, mas de inspiração em épocas anteriores intercaladas, dissertaria com os meus estranhos compinchas de sonho sobre o furor apocalíptico e apelo frenético ao sórdido e à perversão que vemos no cinema e nas séries televisivas. Não serão meras buscas de imperfeição e excitação? De uma réstia de humanidade?

*

Duas notas.

Seria muito mais fácil e lógico encontrar as razões para este pendor apocalíptico dos dias correntes no crescimento desmesurado da população, nas alterações climáticas, nos avanços tecnológicos e da engenharia espacial, nas descobertas da física e da genética, nas assimetrias de distribuição de riqueza, na profusão de distúrbios psicológicos e no acesso generalizado à informação. Tudo factos, tudo matéria-prima de primeira água para ficção (sem ponta de ironia). Mas se pensasse pelos padrões normais, estaria a esforçar-me por tentar criar enredos de ficção para vender e não a escrever pura e simplesmente o que me vem à veneta e me apetece.

Num qualquer horóscopo li que por estes dias os sagitarianos (tal como outros signos) iriam bancar os mártires ao mesmo tempo que emitiriam sinais contrários (de que está tudo bem) para gerar sentimentos de culpa nos outros. Às vezes penso se faço isso aqui nas Comezinhas. Não sei se passa, se não, mas estou de facto constantemente a policiar-me. Hoje em dia esta permanente autocrítica que sempre me acompanhou - há quem a apelide de culpa medieval - dói menos, começa a ser tique.

The Killers

Dustland

por Isabel Paulos, em 12.10.21

Não ceder à tentação

por Isabel Paulos, em 11.10.21

Se acreditas expressar o que pensas da forma que julgas mais verdadeira, apesar de tão questionável como outra qualquer, não deves ceder à tentação de perder o cunho – por mais tosco e criticável pareça e por mais pedrada de que seja alvo. Quem vai à guerra, dá e leva. É um caminho infeliz o de querer fazer parecer o que não és ou mais do que és. É o caminho do mais do mesmo. A retórica bem-sucedida, com muito público e facilmente aceite – redonda, com os mesmos lugares-comuns de sempre e estudado equilíbrio entre o belicoso e as luvas-de pelica - denuncia os perpectuadores de egoísmos e caçadores de proveitos próprios de sempre.

Memória

- e confessos -

por Isabel Paulos, em 11.10.21

Tem alguma graça a adesão em força às palavras de Cavaco Silva e a interpretação que delas fazem: sendo previsível uma vitória do PSD nas legislativas de 2023 deve haver uma congregação de esforços em volta de um candidato que corra com Rui Rio e a sua oposição frouxa. A saber: Paulo Rangel. A ironia disto está no facto de nos últimos anos qualquer referência de apreciação (ou de simples consideração) às palavras de Cavaco Silva ser quase equiparada a lepra, não só à esquerda (o que se percebe), como à direita (o que explica o eterno desatino do país) e de repente gerar-se uma quase unanimidade em volta do acerto da entrevista dada.

Ao contrário da generalidade dos portugueses, em muitos casos contaminados por uma comunicação social inconsequente e entretida com fait divers, tive e tenho a maior consideração por Cavaco Silva, mas não me vou deixar enganar segunda vez. Nos anos precedentes às legislativas de 2015 o então Presidente Cavaco Silva insistiu à exaustão na necessidade de um bloco central, falando dele quase como uma inevitabilidade, de tal modo que eu (tonta, desconhecendo a natureza de Costa), habituada a ouvi-lo e temendo que o seu desejo fosse avante, não votei PSD – por não querer contribuir para um sistema sem escrutínio sobre as decisões governativas – mas em quem achei que poderia fazer oposição. Viu-se. Seguiu-se a caranguejola, a qual acabei por sufragar votando no PCP - nas seguintes voltei a votar PSD.

Vem agora Cavaco Silva criticar a Oposição débil e sem rumo e o Governo que não conseguiu aproveitar as boas condições de sustentabilidade herdadas de Passos Coelho - serão a mesma Oposição e Governo que queria ver coligados? -, dando azo à profusão de artigos dos eternos impenitentes Guerreiros do Apocalipse anti Rio.





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