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Verdes

por Isabel Paulos, em 19.10.20

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Valinhas, o meu paraíso da infância.

 

(mais uma vez fotografias de fotografias, o que piora ainda mais a qualidade da imagem; já sabem que, em regra, sou má fotógrafa e não me preocupo muito com o assunto.)

Jean Sibelius, Valse Triste

por Isabel Paulos, em 19.10.20

Apontamento

por Isabel Paulos, em 18.10.20

Tema de conversa de fim da tarde: Cabinda 1964-66. Mais matéria para a Quinta.

A caminho do Jardim Botânico

por Isabel Paulos, em 18.10.20

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Hoje foi dia de voltar a Ocidente e ir para as bandas da minha influência durante quinze anos. Enquanto vivi perto procurei ir regularmente ao Jardim Botânico – alturas houve em que ia todos os fins-de-semana. É pequeno e contíguo à VCI, o que prejudica bastante a serenidade que lá se procura alcançar. Mas enfim, o mundo não é perfeito. Além do mais, nem sempre é cuidado com o esmero que merecia e nos últimos meses tem estado com zonas interditas em permanência. Agora colocaram mais placas nas árvores – nota positiva. Terei que voltar com mais tempo para fotografar de perto folha, ramos e tronco e fazer jogar com as tabuletas.

De casa ao Jardim Botânico levo cerca de trinta e cinco minutos. Hoje, fiz o percurso de ida e volta todo a pé, e resolvi deambular pelo bairro de Guerra Junqueiro para esticar ainda mais a coisa. Duas horas de caminhada, com paragens para ver alguns pormenores ou tirar fotografias. Quando cheguei a casa o telelé anunciou-me que tinha atingido a meta aconselhada – 10.000 passos. Note-se que nunca instalei aplicação nenhuma para o efeito. No Huawei que tenho, a coisa vem por defeito. Fiz a conversão em função da altura e verifiquei que andei seis quilómetros. Nada mal. Estou de volta às grandes caminhadas. A ver se mantenho a regularidade.

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O livro da fotografia abaixo conta-nos a história da casa. Um mimo que dei à minha mãe, com quem tantas vezes calcorreei e hei-de continuar a calcorrear os caminhos que nos levam às japoneiras. Saber o ponto em que estão as camélias (e as hidranjas) do botânico é assunto fulcral à medida que os anos passam.

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A despropósito de Hemingway

por Isabel Paulos, em 17.10.20

Ao final de tarde dos derradeiros dias de Setembro, estava sentada no escritório e lembrei-me que teria de comprar um livro para o meu pai. Abri a página online de uma livraria e fui ver contos. Nada me inspirou. Queria qualquer coisa de viagens. Saí da empresa, atravessei a rua e entrei no centro comercial para me dirigir à mesma Bertrand onde vou há vinte anos. Encontrei um dos livreiros da casa. Em Agosto aconselhou-me em simpática e entusiasta descrição um livro fantasioso quanto baste para eu oferecer a uma adolescente de quinze anos – ainda estou à espera da reacção da presenteada mas temo que, apesar de leitora regular e por ser muito pragmática, não alinhe em grandes delírios literários. A ver vamos. Mas no mês passado duas ideias contavam: queria coisa leve sobre viagens. Lá fomos funcionário e eu até à prateleira da literatura de viagem.* Não continha mais do que vinte e cinco tomos. Estive cerca de meia hora a folhear estuchas intelectualizadas. Devem ser excelentes, todos. Mas para outro momento da vida – do pai e da filha. Ou mesmo para outra encarnação; nesta não há pachorra.

Lá no meio, a minha salvação: À Aventura com Hemingway, de Michael Palin. Como quase sempre faço quando compro um livro para oferecer, li-o parcialmente. Já costumo pedir na livraria que deixem um dos lados sem fita-cola para o efeito. Uma viagem pela vida aventurosa, lugares, destinos e paixões de Hemingway a pretexto de um programa para a BBC. O autor – um Monty Python apaixonado pelo nobel -, tem uma escrita limpa e fina ironia. Acertei em cheio. O meu pai adorou e trouxe-o uma semana depois, já lido, ciente de também eu o querer ler. Claro que, como usual, confessei já ter dado uma boa passagem de olhos. Fui intimada: devolve-me as letras que comeste.

Estes ires-e-vires dos livros – que faço em permanência com pai, e sobretudo, mãe -, fazem-me recuar ao final da infância e adolescência, quando trocava o mesmíssimo pacote de amêndoas com a minha tia e madrinha. Durante anos, no dia de ramos eu dava-lhe o pacote das amêndoas brancas e rosa do ano anterior, que me era devolvido como presente no Domingo de Páscoa seguinte. E assim sucessivamente, tornando-se o alegre vaivém numa anedota anual e poupança em escudos e glicose, devida tão simplesmente ao facto de madrinha e afilhada odiarem aqueles aglomerados de açúcar às cores. Se ainda fosse um ovo de chocolate ou umas boas amêndoas torradas caseiras, mas agora é tarde - passaram mais de trinta anos.

Sucede que a troca e leitura prévia dos livros oferecidos não resultam de não gostar dos ditos. Antes pelo contrário; a regra é dar o que gosto e acho que o brindado vai apreciar. Nem sempre acerto, contudo faço os possíveis. Ofereço à média de um a dois livros por ano a cada uma das cinco ou seis pessoas que sei gostarem de ler. Na maior parte dos casos, tento lê-los ou passar os olhos. Às vezes consigo arranjar tempo e gosto suficiente para os devorar na íntegra. Pode não ser uma coisa muito bonita de se fazer - será, aliás, considerado coisa feia e falta de educação -, mas é absolutamente às escâncaras e a forma de economizar. Apesar de não ser grande leitora, por mim, as livrarias não morrerão.

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* Antes dessa prateleira, estivemos no escaparate dos usuais destaques e novidades; tive que dizer ao simpático funcionário que esses não ia levar. 

Janela

por Isabel Paulos, em 16.10.20

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*

Nos últimos dias, além do sol morno de Outono, a suave brisa - uma aragem noroeste -, vem à janela amenizar os dias de trabalho. Tudo fica mais leve e gracioso. E eis que, sentada na secretária frente à luz, levo com o sol na tromba -, qual lagarta parda que esverdeia na pedra quente. E, ao acabar de escrever isto, o quase absoluto silêncio - estorvado por pouco mais do que murmúrios do lavar de loiça do almoço noutro prédio, da impaciente buzina, do ronco a motor dos carros na rua ou esparso avião no céu e, lá longe, da serra de metal - é quebrado, logo aqui perto, pelo latido forte e agudo do cão que mora debaixo da estranha espécie de eucalipto que vejo da janela. Sinto-lhe as patas nas folhas secas sobre a tijoleira, e invejo-o. Os pássaros, que aqui habitaram a Primavera, foram. Mas voltarão. Assim, com a cadência dos anos que passam.

Empresas

por Isabel Paulos, em 16.10.20

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Ao cuidado do PSD.

Interrompi o trabalho por uns minutos e abri a página da SAPO. Despertou-me a atenção esta notícia: Do hidrogénio à escola digital, até ao SNS. Estes são os 64 projetos financiados pelos milhões da Europa.

Fiz o seguinte fácil e prático exercício: passei o texto para uma página word e procurei a palavra ‘empresa’ – na qualidade de trabalhadora, o móbil da criação de riqueza e do desenvolvimento do País. Usei o ‘localizar’ – aqueles binóculos no canto superior direito do friso de tarefas do word -, e encontrei a palavra ‘empresa’ uma única vez.

Podem verificar, sff, junto do Governo que medidas estão a ser pensadas para aproveitar os fundos europeus para aquilo que mais dá paz, pão e liberdade aos portugueses? Muito agradecida.

Internet

por Isabel Paulos, em 16.10.20

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Passas tanto tempo na internet e a falar com gente desconhecida? Para quê? Para aprender qualquer coisa. Ando aqui para aprender. Aprenderias muito mais fora do espaço virtual. Não, não aprenderia. Estás redondamente enganado.

Martin Fröst - Copland: Clarinet Concerto

por Isabel Paulos, em 16.10.20

Voando um pouquinho aos 4'20'' e, divertindo, por exemplo, a partir dos 12'12''.

Bom dia. Boa sexta-feira.

Perguntar não ofende.

por Isabel Paulos, em 15.10.20

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Só uma pergunta inocente: as multas por não ter a aplicação do caça ao pikachuOIP.jpgsão aplicáveis aos milhares de cidadãos que não têm smartphone nem bluetooth? Cá em casa um de nós é cego e usa telemóvel do tempo da Maria Cachucha, mas gostaria muito de aproveitar esta medida para pedir ao Governo o financiamento para, sei lá, um Samsung Galaxy S20 Ultra 5G ou a mesma versão em Huawei, que não somos racistas. Arranja-se, Sr. Costa? Com acessibilidades, sff. Muito agradecida.

Fora do tempo

por Isabel Paulos, em 15.10.20

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Viver fora do tempo teve a enorme vantagem de te ensinar a comover mais com aquilo que és e valorizas – especialmente a liberdade, as pessoas queridas e as que trazendo o tempo em si enriquecem a humanidade -, do que com as exigências do mundo. Se o planeta e o rectângulo feito casa parecem esboroar na ideia de urgência e de manicómio, manténs-te fiel ao caminho sem te deixares abalar por decisões atabalhoadas e excitadas de quem governa.

Foste dizendo nos últimos anos o que havia para dizer. Desadequada, sossegas a mente dizendo o que há para dizer com a antecedência devida. Não te pesa nem um pouco não estares em cima do acontecimento. Isso compete a quem está dentro do tempo e precisa de nele vingar. Sabes que despontaste fora do tempo, assim fizeste a aprendizagem e amadureceste. Gozas o teu trajecto, grata por ainda conheceres os carreiros discretos do discernimento. E por ainda haver caminho a palmilhar.

*

Chegou o momento de fazer um sudoku por semana, para começar a tratar da conservação de ferramenta essencial.

David Fray

por Isabel Paulos, em 15.10.20

Coloquei o vídeo acima para que conheçam (se não conhecem já) David Fray. Mas o que queria mostrar – e me deram a conhecer ontem -, é o vídeo de ensaios - Swing, Sing & Think: David Fray – Bach’s Keyboard Concertos. Se puderem vejam a partir do minuto 43’.

Um miúdo pleno de génio, que nos demonstra em poucos minutos a diferença entre técnica e arte. E nos deixa extasiados. Talvez – extrapolação minha -, fosse boa ideia sairmos das nossas velhas certezas formais e regras rígidas para conseguirmos perceber onde anda a beleza – e a verdade -, da vida. Se conseguirem, oiçam-no dizer onde está o virtuosismo (1:22').

(muito obrigada a quem me apresentou esta preciosidade.)

Momento cuchi cuchi

por Isabel Paulos, em 14.10.20

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Na meia-idade o balanço é feito neste estado de espírito: o limbo. Entre o conservadorismo cansado e pousado, de quem já viu tudo quanto havia para ver, nada o espanta e sabe que nada muda. E o contestatário que trepa pelas paredes e força as grades repressoras, levando tudo por diante para alterar o que está mal.

Diziam-me há poucos dias que fora a questão da corrupção e do nepotismo – e mesmo aqui se assemelham, variando apenas o grau -, o Governo está a fazer aquilo que um governo do PSD faria, com a vantagem não negligenciável de não ter ruído ou contestação. Concordamos que um governo PSD jamais poderia restringir liberdades como sucede agora, sob pena de grande contestação social. Pudera, nenhum de nós tem dúvidas que a rédea solta sob a conivência da comunicação social e da população é privilégio de quem está no poder neste momento. Divergimos talvez num ponto: para mim a corrupção e o nepotismo não são uma inevitabilidade. Ou, melhor, assente a existência destas pechas e de que são um traço enraizado na nossa cultura, valerá a pena bradar e vexar – até porque o grau de desfaçatez é tal que não podemos ir lá com pruridos -, fazendo vergar corruptos, sejam cúpula sejam cidadão comum.

Falámos depois no papel do Presidente da República. Diziam-me: vou votar nele. Está a fazer tudo bem, dentro da medida do possível. Como assim? Por saber que deve sustentar um Governo imune aos ataques jornalísticos e políticos e à contestação popular - o Governo ideal para estar num momento difícil como este? Não. Está a fazer zero, zero de melhor. Não marca a diferença pela positiva. O que vejo é Governo e Presidente da República – e já agora os portugueses -, à espera que chovam fundos da UE para lhes resolverem a vida e para permitir – sob o pretexto da estabilidade e da paz social; pasme-se agora até se invoca o patriotismo -, que tudo continue com os vícios de sempre. Fundos que irão ser destinados – se nada for feito -, a subsidiar cidadãos (em muitos casos bem), mas não a incentivar a criação de emprego e riqueza, através de criteriosa definição de benefícios e incentivos para as empresas – sob a condição de não serem desbaratados na infestação de empresas sugadoras fantasma. Aliás, restos de fundos. Porque o grosso, como vem sendo habitual, vai cair no saco roto de bancos falidos por mão criminosa e empresas públicas ingovernáveis por mãos delapidadoras.

A Banca insalubre receberá injecções de capital, que alguém explicará - para sossego de consciências ilustres e o amaciar da goela do povo -, que não é dinheiro dos contribuintes, mas sim emprestado por outros bancos – que hão-de receber o quinhão para o efeito –, e pelo fundo de resolução; logo, dirão, verba reembolsável. Este argumento faz-me sempre lembrar os serviços gratuitos das operadoras de comunicação e da dificuldade que tive há uns anos em explicar a adolescentes - obviamente desconfiados da minha inteligência e adequação à realidade moderna -, que nada é gratuito nos serviços dessas empresas.

O aceno com o bicho papão da crise política impede que haja discussão sã sobre o Orçamento de Estado para 2021 – ah céus, fosse o malandro do professor Cavaco Silva a colocar a espada sobre a cabeça dos partidos e seria gozado à exaustão (ainda estou para descobrir alguém que assuma ter sido cavaquista além do jornalista José António Saraiva e, já agora, da tonta que escreve estas linhas). Mas como é o professor Marcelo, é cuchi cuchi. Já sabíamos por Rui Rio que não havia oposição, mas agora ficou assente que a proibição vem de Belém – com o pretexto de que neste período não há poder de dissolução do parlamento. Estamos assim a modos que em assembleia nacional, e até já temos conversas em família sobre logística natalícia da parentela para compôr o ramalhete.

E como são ternurentos, o nosso Primeiro-ministro e o nosso Presidente da República (inverto a ordem do protocolo propositadamente e para fazer notar as prevalências reais), promoveram arbitrariedades nas medidas de contenção da pandemia, impondo restrições em função de quão seriam ou não populares. Pelo que tivemos enterros com lotação limitada e os nossos mais velhos fechados nos lares ou em casa sem visitas dos familiares, lado a lado com o despejo de vários autocarros na Alameda, junto à Fonte Luminosa para os festejos do 1º de Maio – já agora, moeda de troca para miminhos orçamentais -, e o espectáculo de humorista no Campo Pequeno, com a presença do regime, como convém aos artistas apaniguados.

O fulgurante consenso cuchi cuchi prevalece no topo de hierarquia do Estado. Estamos nisto. Nada de contrariar quem tenha peso na opinião pública, logo efeito eleitoral. Agora que não há beijinhos e abraços, nada como fazer do medo colectivo e do patriotismo armas políticas. Mas para quê? O grande intuito parece ser manter a pequenez de sempre, já que aos olhos do poder – e da generalidade dos portugueses -, toda esta miséria parece normal e aconchegante. Resta saber se devemos abstrair, relevar ou irritar. Será que serão precisos mais 10 anos para concluir?

*

A imagem da Candy Candy, uma animação que via em criança (no início dos anos 80), foi a coisa mais cuchi cuchi que me ocorreu. De referir que já na altura - apesar de criança -, tinha alguma vergonha de ver coisa tão florida e inverosímil. É, por isso, caricato que seja a imagem que me ocorre para definir o momento político actual.

Glenn Gould

por Isabel Paulos, em 14.10.20

Descoberta de ontem. Bom dia.

Provérbios e expressões idiomáticas

por Isabel Paulos, em 14.10.20

À noite todos os gatos são pardos.

Perpetuum Jazzile - True Colors

por Isabel Paulos, em 13.10.20

Impulsos

por Isabel Paulos, em 13.10.20

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Registo: ontem ao final da tarde comprei uma lata de leite condensado e comi umas colheradas ao chegar a casa. Facto que não acontecia há anos. Isto está bravo.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 13.10.20

Somos mesquinhos

por Isabel Paulos, em 10.06.20
 

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Não sei se escreva um poema que descreva o que agora sinto, se uma prosa a tentar descobrir as causas do nosso permanente estado de mesquinhez. Confusa com o que sinto sobre mim e tão só sobre o que sinto, procuro perceber o que nos derrota eternamente como Nação. Quero crer que é a mesquinhez que nos impede de sermos melhores. Em vez de poupanças financeiras, que nos permitiriam futuro mais desafogado, poupamos na crença de bondade dos propósitos do outro. Pequenos como somos, medimos o outro como a aluna pouco dotada da faculdade que, ao olhar de alto a baixo a colega, a enforma numa das poucas categorias de gente que preconcebe. Quantas vezes estremeci de indignação ao ver gente julgar e condenar outros por opiniões, expressões, modos de vestir, penteados, etc. Sei, todos o fazemos. Também o faço, é certo. Mas ao menos tenhamos consciência da nossa estupidez e não a façamos corresponder a uma verdade, muito menos ofendamos outros por causa dos nossos preconceitos.

A estupidez ignorante chateia. Incomoda e ganha lastro, contaminado todo o mundo moderno, através da comunicação social e das redes sociais. Mas muito mais grave e o que não augura nada de bom é que quem podia fazer a diferença, quem tinha a obrigação de o fazer - por ter tido acesso a maior rendimento, melhor instrução, melhores leituras, melhores oportunidades profissionais, maior contacto com estrangeiro através das viagens -, dá, em muitos casos, mostras a todo o momento de ser mais mesquinho do que quem está longe de ter tido todas essas benesses. Não raro, começa logo por considerar que foi à custa do trabalho e dedicação que conseguiu o lugar ao sol e que a ralé se quer ser alguém tem que se esforçar, estudar, trabalhar. Como se a maior parte da ralé não se esforçasse e trabalhasse a vida inteira a troco de nenhum reconhecimento. Os favorecidos poucas vezes assumem a sorte que tiveram. E há sortes de vários tipos: a família e o país onde nasceram, as pessoas e as oportunidades com que se cruzaram ao longo da vida e, sim, a condição física e as capacidades intelectuais e emocionais. Nenhum destes factores se deve à partida a esforço de espécie alguma de quem se considera superior. Pode vir a ser trabalhado, mas no essencial ou se é bafejado ou não. Pelo que, a primeira coisa que uma pessoa favorecida deveria fazer era estar grata e reconhecida pela sua condição. E a segunda seria retribuir o que recebeu.

Mais ainda do que a estupidez ignorante, tenho visto muita estupidez letrada. Sobranceira e desdenhosa. Quem podia fazer a diferença não sabe ou não quer fazer. Não sabe porque isso implicaria esforço honesto e todo o empenho que tem ao valorizar-se não é em prol de algo maior, mas sim da pequena vanglória ou tão só vantagem económica. Não quer porque teme perder a pose de superioridade, a vaidade. A pequenez valoriza mais a forma do que a substância, valoriza mais aparência do que é íntimo e verdadeiro. E nada de nobre se constrói de floreados e disfarces. Nem uma ideia válida, muito menos uma Nação.

Se temos alguns ou muitos trabalhadores trapaceiros a fazerem de conta que produzem, também temos empresários que pagam miseravelmente e medem o que trabalhador gasta nas férias ou noutro qualquer item, com inveja de que este tenha vida. Se temos alunos da faculdade cada vez mais preguiçosos, com pouca capacidade de concentração e disciplina, temos alguns professores ressentidos, raivosos e sem um pingo de respeito pelos alunos e pelas pessoas em geral. Reflexo de uma sociedade ela própria invejosa. Uma sociedade que perde menos tempo a tratar de si própria, do que a reparar no que outro está a comer e quanto pagará na mesa do lado do restaurante, ou que carro é que o vizinho comprou no mês passado, ou a opinião divergente que alguém emite e cujo preconceito nos faz enclausurar a sete chaves um significado único.

9 de Junho de 2020.

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Yann Tiersen

por Isabel Paulos, em 12.10.20

Voltando ao teletrabalho e à boa companhia de ouvido.

Provérbios e expressões idiomáticas

por Isabel Paulos, em 12.10.20

 

Ficar verde de inveja.

 




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