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        Era com a Lara que a Ana Paula desabafava sobre as desconsiderações sofridas no primeiro casamento. Contava à amiga que as mulheres da família do marido, senhoras, corrigiria ele se a ouvisse, a tratavam com desapreço. Notava-o nos entreolhares trocados entre a sogra, as tias e as cunhadas, ou na falta de atenção dada quando falava ou contava uma novidade, sempre interrompida por observações e assuntos que nada lhe diziam. Faziam questão de a deixar à margem, queixava-se, e quando desabafava com o Pedro, ele desvalorizava ou pior, ofendia-a muito dizendo ser uma questão de aprender a portar-se como uma senhora. Levava seis meses de casada, quando ouviu isto pela primeira vez e nunca mais a relação voltou aos tempos das meiguices e das delicadezas.

       Quando estavam com a família do Pedro o dia acabava em discussão, ou porque o menino advertia não se dizer enxertar, mas encetar, quando ela abria o pacote de arroz para preparar a mariscada do jantar, ou porque ela constatava comer-se arroz com arroz, e cheiro de carne, em casa dos sogros. Levando o Pedro a trazer à baila as origens da mulher. E não era o mais odioso do casamento, pior era a forma controladora de vigiar as fatiotas da Ana Paula, sempre a medo que caísse nas piroseiras de nova-rica. E mais, como controlava o seu comportamento perante os outros homens. Se no início apreciava a maneira de se apresentar da mulher, depressa se cansou e começou a temer e criticar o exibicionismo. Ela não se deixava ficar e ripostava, se quisesses uma discreta, casavas-te com uma songamonga amiga das tuas irmãs e primas, sempre com aquele ar de tia desinteressante que aproveita os restos do jantar e se veste para estar na aldeia, a aquecer-se na lareira e a fazer malha. No campo, na quinta, na Matinha, a tricotar, emendava o Pedro, pronto a esquecer a bulha.

       Aborrecia a Ana Paula com constantes jantares e reuniões de familiares e de amigos. Todos os pretextos eram válidos para jantar em casa de familiares, amigos ou colegas de trabalho. Havia semanas, nas quais eram mais as saídas, do que os serões em casa. No início, a mulher encarou tais hábitos de boa vontade, mas depressa se cansou, até porque não raro o menino fazia questão de desvalorizar ou ridiculizar o pronunciado pela mulher, frente aos outros, mostrando de forma descarada que o seu mundo era este e ela a intrusa. Além de não se sentir bem-vinda nestes constantes encontros, sabia faltar tempo à intimidade do casal, atulhados como estavam de gente a cercar.

       Apesar de gostar da imagem de mulher casada e vida social intensa, sabendo causar certo frisson nas hostes espinhenses, o desencanto instalou-se rapidamente. Podia ser uma mulher fútil, mas não estúpida. Apesar do prazer de parecer o que achava ser uma socialite, e do gozo em causar impacto nos que não distinguem gente educada de gente que se exibe, sofria por não ser admirada, sequer respeitada pelo marido. Casara apaixonada e a mágoa crescia a cada dia. Podia lidar com o desprezo, até manipulá-lo, mas não o do homem que amava.

       A relação esfriou ainda mais quando o Pedro, a propósito das deslocações profissionais a Lisboa, para reuniões no ministério da agricultura, uma segunda-feira por mês, começou a ir no Intercidades do fim da tarde de Sábado, a pretexto dos comboios seguirem muito cheios ao Domingo. Enquanto a Ana Paula passava a noite de Sábado a roer-se de fúria, ele circulava na noite do Bairro Alto, entre o Frágil e o Pavilhão Chinês, na companhia dos amigos de Lisboa. E aproveitava os Domingos para se passear nos Jardins da Gulbenkian, almoçar na Praça dos Restauradores e ir de eléctrico até Belém. Dos Domingos solitários nasceu a certeza na Ana Paula de não ser aquilo que pretendia da vida, e numa noite de segunda-feira, assim que meteu a chave à porta, o Pedro ouviu da mulher: podes dar meia volta e ir à tua vidinha. O casamento acabou.

       A Lara apoiava bastante, viver uma relação sem respeito não era vida para a amiga, que era bonita, trabalhava e podia muito bem seguir outro rumo. Estar agarrada a um homem que não a apreciava não era coisa digna de mulher resolvida. Também desabafava com a Marta Soares, mas esta amiga mostrava-se pouco atreita a dar conselhos. Percebeu, desde início, que o casal tinha maneiras de estar muito diferentes e, apesar de achar o Pedro um homem interessante, concordava com a Lara. Era asneira da grossa deixar passar em claro as desconsiderações dos homens. Mas nunca manifestou qualquer opinião nesse ou noutro sentido, mantendo-se o mais neutra possível, até porque sabia que a resoluta Ana Paula saberia dar bem conta do recado. E deu.






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