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Corridinho

por Isabel Paulos, em 31.05.20

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Apetece-te fazer um corridinho de pensamentos soltos, despejá-los na folha branca do word, sem preocupações com o que queres ou não transmitir. Sem querer saber qual será o início do texto, as voltas do entremeio, quanto mais do final. Há sempre alguém que te diz: expõe-se demais. É verdade e ninguém mais do que tu sabe isso. Mas não é menos verdade que se fossemos por aí, muito de bom se teria perdido no que se escreveu até hoje. E isto sem a pretensão de te comparares a quem escreve com competência e seriedade. A propósito lembras-te da tentativa de versejar que fazes amiúde. Acabas quase sempre por assumir o texto em prosa, por falta de disponibilidade mental para levar a sério os versos. Terias de ser capaz de reduzir o rompante, o desabafo, a fúria, a paixão a palavras precisas, concisas e limpas. Além de desencantares a melodia. Sem ideia de rima, que essa nunca te atraiu. Já a melodia às vezes vem-te à cabeça e a coisa corre solta e alegre, mas depois há tudo o resto, os palavrões densos que estragam a leveza, os verbos que estão a mais, os artigos que nunca sabes se deves usar ou não, e o todo, às vezes, demasiado yin-yang, muito preto e branco. É curioso que não sabes onde vais buscar a melodia. Sempre foste dura de ouvido além de completamente desastrada no ritmo e coordenação motora. Lembras alegre as aulas de música do ciclo preparatório, nas quais desalinhavas a turma não acertando nos movimentos rítmicos. Já na altura apalhaçavas, na certeza de tirar peso ao handicap. Tal como nas aulas de francês, quando escangalhavas a turma a rir, se a pedido da professora conjugasses o futuro do verbo regarder em voz alta. Eram muitos erres para baralhar e a baralhar não falhavas nenhum. Mais tarde, no Instituto Francês do Porto, tiveste oportunidade de voltar a fazer vergonhas do género, a tentar dizer mer méditerranée. E continuas sem conseguir dizer. Pior que dizer erres, é dizê-los misturados com emes. Uma desgraça.

Mas a poesia atrai-te. Só ela é capaz de dizer tudo numa ou duas palavras. Despir-te inteira, sem as delongas elucidativas da prosa. Na prosa explicas, contas, quase te dissecas a ti e aos outros. Na poesia o mundo consome-te. A ti e aos outros num sorvo só. Como se não deixasse tempo nem espaço para menoridades, para a serradura e limalha. Há muito serrim na prosa. Na poesia os tornos, formões e limas estão afinados e amaciam as palavras até ficarem sem rugosidades que não sejam verdade. E a memória volta à escola e às ferramentas. Madeiras, mecanotecnia, electrotecnia. Quando é que imaginaste que um dia estas disciplinas te iam ser úteis, para além da evidente utilidade prática. Todos devíamos ter umas luzes de oficina para resolver os problemas de ordem prática que vão surgindo. Sabes o que é uma chave inglesa, ou de fendas e estrela, um maço ou nível. Mas tens dificuldade em dividir as palavras em substantivos, advérbios, verbos, adjectivos e quejantes. Ou melhor, se pensares até sabes, mas a coisa não sai imediata por te teres esquecido as categorizações. Ao fim destes anos todos, devias voltar a pegar numa gramática e num prontuário, e procurar saber o essencial. Mas o mundo está cheio de coisas fundamentais para saber.

A prosa continua sem rumo onde te levar. Assim à toa. Pensas no que queres dizer, e nada te ocorre por segundos. Reparas que alguém deve estar a lavar um terraço, por ouvires o esfregar da vassoura molhada na tijoleira. E é Domingo e tens tempo para prestar atenção. Por falar nisso, o texto já vai longo para blog, pelo que o vais dar por terminado, corrigir e publicar. Dez ou quinze minutos depois fica rectificado - com gralhas, o mais provável - e lembras-te de uma conversa de ontem sobre viagens. Cobiças o tema e equacionas a hipótese de esticar este texto. Mas não, fica para mais tarde. Talvez um outro post, quem sabe ainda hoje ou noutro dia próximo, sobre a saudade das viagens. E é mais meia-hora para corrigir isto de novo.

*

Adenda 03/06/20: reli o texto hoje encontrei pelo menos um 'imaginas-te' em vez de imaginaste; uma pouca vergonha.






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