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por Isabel Paulos, em 30.10.19
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O Bando - Um Conto de Natal

por Isabel Paulos, em 30.10.19

   



A carrinha arrancou com o teu piano, corri as cortinas da janela e pensei: depois de amanhã é Natal e com o piano por afinar não vais tocar. Pousei a mão no teu ombro e anunciei que vou contar uma história na consoada para contrabalançar. Agora que aprendemos a esticar o tempo até à altura da nossa idade, e sabemos achar graça além da alegria, vou revelar a história do meu bando. São amigos que nunca cheirei. Sequer vi ou ouvi, mas nem por isso deixei de tocar. 
Vislumbrei-os em sonhos, em filmes, em livros; na imaginação pejada de memórias vagas, desde o tempo em que o meu nariz mal chegava ao balcão da loja de tecidos do Sr. Fernandes na rua dos Clérigos, até este instante em que te levantas para desenlear, como costumas dizer, o cabo dos auscultadores. Depois de amanhã vou pedir que os desligues. Nem computador, nem telemóvel. À falta dos acordes do Ave Maria de Gounod haverá tão só memória, em forma de história contada.
Começaram a chegar nas tardes chuvosas, quando estava aconchegada na camilha da braseira da casa das tílias. O mais bem-disposto era o Trinitá. Entrou na sala com aquele ar indolente, arrastado na padiola, a assobiar no tom da batida da sertã. Foi ele que me ensinou a cozinhar feijão à faroeste. Por isso, não estranhes que não use tacho. Quando virei as costas para ir buscar um copo de água à cozinha, já estava a ser interrogado por um monge tibetano, bem velhote, com os seus mil e novecentos anos, muito admirado com o à vontade do cowboy italiano. Queria saber a razão do nome Trinitá e a associação a Deus. Mas fiquei sem entender bem a razão; talvez por não ter chegado a ler os dois tomos da história da Irlanda. Saíram pela janela da sala, e atrás deles corriam dois miúdos. Traziam ambos turbante; o do turbante vermelho chamava-se Zhu, e o outro, de turbante escuro, viria a ser um temível pirata. Tenho a impressão que foram primos destes rapazes que escreveram o livro da sabedoria, onde aprendi a ler nas correntes dos rios, nas montanhas, nas chuvas e nos ventos, os nunca brilhantes resultados dos testes do liceu; esqueci sempre coisas importantes, como a existência do oráculo dos ossos, o começo da escrita chinesa há três mil anos. Mas, bem-feitas as contas, o que é isso para o Australopiteco, que estava sentado na ponta do banco de pedra, no cantinho das casa das tílias, a conversar com a Carochinha e o João Ratão, sentados nas cadeiras de estopa. Assisti às conversas. A Carochinha tinha conhecido o piteco dos três milhões de primaveras, na sua primeira encarnação, por altura do degelo há doze mil anos, quando desceu das planícies verdejantes do agora Sahara para cumprimentar o Mostrengo. O tal que muito mais tarde, assustou os navegadores portugueses, de mãos atadas ao leme pela vontade de um homónimo do João Ratão, ou seria da Nação? Não desfiz a dúvida, mas a sei pela Carochinha que comigo deu voltas em torno na casa, rolando o seu montinho de caca, que foi tudo mal-entendido. Queria brincar aos barquinhos e não tinha noção do seu tamanho; coisas de solitário. A admirar as pequenas flores cor-de-rosa, dos arbustos que rodeavamo terreiro, encontrei o Cabinda muito orgulhoso da sua terra, que acabou engolida por Angola, por Portugal a ter desenhado assim. Ouvi dizer isto aos adultos, sentados à grande mesa de jantar, quando perguntei porque é que o meu amigo se zangava por lhe chamarem angolano. É a história da humanidade, essa desenhada às vezes a régua e esquadro, outras a trincheira, quando muito a tratado. Talvez por isso, ao descer a rampa para ir para a escola, tenha visto a rainha Ginga junto ao tanque em cima de um inglês. Soube mais tarde que não gostava de cadeiras, mas sim de se sentar em escravos e o Dr. Livingstone apareceu confortável. Num final de tarde ventoso, fui ajudar a fechar as portadas do piso de cima da casa, subi ao torreão, reparei que uma das antigas arcas de madeira estava entreaberta e faltava um cobertor de papa. Ao acabar decorrer os ferrolhos das portadas, voltei-me e estava o índio Tupi encostado na porta, envolto no cobertor a beber chá-mate. Trouxe-me notícias da América do Sul e do mundo sobrenatural e esotérico que me atrai tanto. Passamos horas sentados no chão do terraço a olhar para o céu estrelado, a conversar sobre livros com feras selvagens e brigas humanas pelo poder, que saboreei sem sequer ter percebido. Coisas que admito por ter idade suficiente para saber que pouco nos dá tanto prazer como aquilo que não entendemos.
Convidei a fada Oriana para o chá preto das cinco. Mal chegou contou que assistiu no comboio a uma discussão entre Van Gogh e Goya. Ouviu-o dizer que os seus conterrâneos tinham degenerado. A regra e a severidade protestante fizeram capitular a sua terra. Goya abanava a cabeça em desacordo. O homem dos desastres da guerra peninsular acreditava em mentes esclarecidas. Tivesse o outro conhecido a intolerância religiosa, vivido em Espanha no seu tempo, ou mesmo mais tarde, na década de trinta do século XX, e veria o lado negro humano. A fada Oriana lembrou-se da carta que Jorge de Sena escreveu aos seus muitos filhos, e juntou-se a Goya para tentar contrariar Van Gogh. Tinha uma costela dinamarquesa, percebia melhor a luz sombria dos comedores de batatas e o hino à vida da amendoeira em flor e, se bem que quase acreditasse que os males da história não se repetem se forem lembrados, o seu afã de bem dizer a vida não foi suficiente para contradizer o sofrimento de quem pensa e cria com verdade.
A última vez que fui à casa estava esventrada e metade das tílias tinham caído, mas ainda pude ver o Cabinda, a quem tu chamas dred da Cova da Moura, só porque nesta encarnação foi parar à Amadora, veste roupas largas e usa penteado a condizer, em amena conversa com a fada Oriana. Contava divertido as caricatas neuras da namorada. Na última zanga saiu de casa, enfiou o Buda cor-de-laranja de porcelana debaixo do braço e apresentou-se assim no check in de uma pensão. O recepcionista ainda pensou fotocopiar o cartão de cidadão da imagem, contra a lei, mas deteve-se face ao olhar furibundo da mulher que pegava decidida na mala de plástico rijo verde alface, com o autocolante das últimas férias em Maiorca. A fada Oriana riu; preferia o mar e as rochas da Granja como seu sossego de conchas e búzios, e pensou que o poeta deveria estar à sua espera.
Aproximei-me deles. Sorriram e apontaram para a janela da garagem de onde vinha uma luz trémula de vela. Abeiramo-nos da pequena janela lateral e vimos que já não havia nem carro nem ferramentas, apenas uma mesa no centro com um livro aberto, e uma cadeira onde estava sentado o monge copista, dos que passam horas a fio a registar os textos sagrados, até não haver luz do dia e a vela tremelicar. Desenhava com uma pena os últimos poemas. Acabou, ergueu-se e esperou que a tinta secasse. Com o livro na mão, veio ter connosco. Deu uma chave à fada Oriana, avisou que estavas quase a começar o concerto e o resto do bando estapafúrdio nos esperava. Entregou o livro da poesia de Fernando Pessoa ao dred da Cova da Moura, declarando-o seu guardião. Agradecidos os presentes de Natal, despedimo-nos e subimos as escadas de pedra. A fada Oriana abriu a porta, o Cabinda pousou o livro na papeleira e juntamo-nos aos outros para te ver sentado ao velho piano roufenho do salão fazer soar os primeiros acordes da tua ode ao reencontro.

                                                                                                                                                                                               29/10/2017




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