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Nomes feios

por Isabel Paulos, em 30.01.20

crianças

Como crianças brincamos no recreio e, por qualquer capricho, chamamos nomes feios aos outros quando não ficamos em primeiro lugar no jogo. Ou, quando ficamos em primeiro lugar e os outros amuam. Substituímos os é batotice, és burro, és camelo e quem diz é quem é por néscio e, claro, por fascistas, racistas, feministas, marxistas e demais insultos arremessados entre trincheiras que, sobrevoadas por um olhar mais distante, pouco se distinguem entre si.

O nosso é um recreio de escola rica ou, pelo menos, remediada. E quanto mais insultamos os outros, mais claro fica que não sabemos o que são tragédias, dramas ou dificuldades, como a fome, a pobreza, a solidão, a guerra e o genocídio.

A nossa fomezita é de a do prato menos cheio na cantina na escola, mostrada em reportagem televisiva para servir de argumento da oposição quando um qualquer governo faz cortes porque o país está endividado até ao tutano, a mesma cantina que meses depois serve para falar do combate à obesidade e da necessidade de uma alimentação mais saudável. Não é a fome que cola as paredes da barriga, a da subnutrição, da magreza extrema, não é aquela que se espelha num olhar que salta da cara e tenta disfarçar quando pousa num prato de sopa e um naco de pão, transformado em ambrósia, o manjar dos deuses. Não é uma fome envergonhada.

A nossa pobreza é a das casas de bairro frias, com humidade e rachadelas. É a do pão com rissol ao almoço, a da roupa, do calçado e dos guarda-chuvas baratos do chinês. É a do calor forte nas férias do verão, com piscinas insufláveis de plástico na varanda e a ventoinha ligada na sala, junto à televisão que, às vezes, faz cair o quadro eléctrico, quando a ela se soma o grelhador das febras. É a do carro com tinta desbotada e enferrujado estacionado à porta de casa. Não é a das moscas pousadas na cara, das tendas montadas na lama, das filas para aceder à água potável, ao alimento ou à aspirina, ou dos barracos de lata, dos piolhos, das pulgas, do esgoto e fossa a céu aberto, e do buraco comunitário. Não é a pobreza da mulher que sonha com uma cama de lençóis lavados e macios e uma retrete e um lavatório com água como quem deseja um palácio. Não é a de quem nunca teve nada ou ficou sem nada. Nada. Não é uma pobreza muda.

A nossa solidão é a do egoísmo. A do cada um por si. É contra os outros. Às vezes contra todos os outros. É a das angústias existenciais e circunstânciais. É a da distracção, da falta de tempo, do menosprezo. Não é a solidão do mendigo que dorme nos cartões à nossa porta, perdido de bêbado ou simplesmente perdido nos pensamentos de tanto tentar afogar algum desgosto familiar, desespero financeiro ou doença mental. Não é a solidão do Sr. António que já muito velho foi resgatado da rua e alojado e empregado por um qualquer benfeitor e que, no dia em que lhe foi feito um lanche para cantar os parabéns dos 80 anos, revelou ter sido a primeira vez na vida que festejava um aniversário. Não é a solidão calada de uma vida inteira.

A nossa guerra é a guerra das televisões, dos misseis que caem em países lá longe, que não sabemos bem onde ficam no mapa, por não fazerem parte dos nossos roteiros turísticos, mas ficamos a conhecer por as gentes de lá, com telemóveis como os nossos, nos fazerem visitas guiadas às cenas de conflito. É a guerra de estratégia dos políticos e generais de facções, das conferências da ONU, das declarações vãs de boas intenções dos seus secretários-gerais. É guerra de quartel ou protegida, que dá belas historietas para almoçaradas e palmadinhas nas costas dos comensais ou puro aproveitamento para protagonismos. Não é a guerra calada das vísceras à mostra do camarada em agonia, não são os segundos decisivos para o soldado matar ou morrer, não são as solitárias e difíceis decisões do graduado. Não é a guerra do olhar silencioso e cúmplice entre camaradas quando se diz o nome de um homem, de uma terra ou de uma data.

O nosso genocídio não é, simplesmente. Não é o cheiro sentido por uma criança da carne da sua mãe, do seu pai, dos seus irmãos, a ser queimada e da visão das cinzas a cair nos seus pés. Não é, ainda.

Por isso, não me venham com merdas de marxistas e fascistas, sff.

por Isabel Paulos, em 29.01.20

OIP

Só por compaixão à falta de mundo e de sensibilidade aturo, sem chorar a rir, delírios e ilações que, das duas uma, ou são barro à parede a ver se pega ou foram aprendidas em sessões de psicanálise de fazer chorar as pedras da calçada de tão comoventes.

Preguiça e divertimento

por Isabel Paulos, em 28.01.20

582

Pode ser que o um dia me predisponha a escrever um post à séria. Pleno de substância, rigor, dados estatísticos discutíveis, análises comparadas, conclusões absolutas, mas enquanto isso não acontece por preguiça vou falando, com os meus botões por gosto e divertimento, sobre coisas que verdadeiramente me interessam: a natureza humana e o nosso carácter integral feito de virtudes e pechas.

De rebolar a rir

por Isabel Paulos, em 28.01.20

sem nome

Os banhos de ética e as declarações do género: sou muito honesto/a, nunca minto, nunca finjo. Só falta mesmo a cereja em cima do bolo do 'estou de consciência tranquila', a frase que descansa qualquer alma.

As novas lavadeiras

por Isabel Paulos, em 28.01.20

sem nome

Um nico de presunção não faz mal a ninguém e sempre alivia o tédio. Vamos lá a isto.

O que repele na argumentação de seitas e tribos do Twitter e do Facebook é o grau de infantilismo e de vulgaridade que assombra os cerebrozitos. Desde o tempo dos grupinhos de liceu – normalmente de meninas desinteressantes, porque há trinta anos a maioria dos rapazes não ligava a assuntos fúteis -, não via gente a perder tanto tempo a dissertar sobre o acerto ou desacerto do aspecto do cabelo, o tamanho e padrão do vestido, a piroseira da marca da camisola ou do fato mais justo, o cenário fashion ou kitsch - como se fossem manifestações essenciais ao carácter -, o diz que disse, o leva e trás, a pura intriga e revanche, tudo isto disfarçado de opinião ou pensamento sobre actualidade, política e cultura.

A sensação que tenho é que os cochichos fúteis das senhoras de outrora foram convertidos pela boa democracia em popular mexerico de tanque comunitário, sendo as novas lavadeiras, na maioria dos casos, homens com idade para ser avô e, em certos casos, ditos intelectuais.

E diverte particularmente ver os/as próprios/as - as novas lavadeiras - a desdenhar da falta de urbanidade, das fake news e do cariz desprezível das redes sociais, como se fosse um fenómeno inteiramente novo. Não, gente. Não é. A única diferença é que há microfone comunitário e é mesmo plural. Esta coisa da democracia é uma chatice para quem queria aceder aos privilégios que via em poucos e, agora, vê alargados a quase todos. Que aborrecida é igualdade. Onde estará o pedestal cobiçado?

Com diria a minha avó: ‘ainda estão muito perto’.

As Teresinhas e o SNS

por Isabel Paulos, em 27.01.20

sem nome

Hoje, na consulta, a médica do alto de relativa juventude e usual fácies e tom sobranceiro, depois de me tratar como débil mental, como episodicamente acontece entre a classe médica e os pacientes, informou: a reunião é a 11 de Março. Não quer anotar? Acho que não preciso, respondi. Ãh, não? É uma data célebre, acrescentei perante o olhar insistente. Reacção dela: É? Ãh.

Da brecha

por Isabel Paulos, em 26.01.20

sem nome

Julgo conhecer bem e perceber o argumento conservador e retrógrado de não se poder abrir a brecha, sob pena de não mais suster a força da reivindicação. É a lógica da firmeza e irredutibilidade usada em certos discursos. O que me ocorre ao ouvir esse argumento é a imagem da barragem, a constatação de que não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe e a interrogação do que é o bem.

A constatação de que a barragem com todas as comportas cerradas conduzirá a que o leito do rio fique repleto e penetre nas terras adjacentes ao longo do percurso e, por fim, galgue a própria barragem engolindo tudo quanto encontra a jusante.

A contestação da leviandade da ideia de que o futuro é sempre melhor do que o presente e este sempre melhor do que o passado; de que o mundo tem sido um contínuo de avanços civilizacionais, quando o facto é que corre em soluços de avanços e retrocessos.

A dúvida se o bem que se quer proteger é a justiça no acesso lícito de todos ao conforto material e liberdade ou a manutenção de privilégios de poucos.

Hakuna Matata

por Isabel Paulos, em 26.01.20

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(Terraço no Porto, 26 de Janeiro de 2020)

Ouvi dizer

por Isabel Paulos, em 26.01.20

furação

Hoje Nuno Rogeiro, na SIC Notícias, ao recomendar o livro Le Siècle Vert, do filósofo Régis Debray, sublinhou a ideia de que o homem também tem que reagir contra aquilo que se chama o mal natural. Se virmos bem a natureza é um mundo onde triunfam os mais fortes e, portanto, o homem também tem de moderar a natureza que o envolve.

Descanso de mar

por Isabel Paulos, em 25.01.20

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(Póvoa de Varzim, Julho de 2016)

 

Deduções

por Isabel Paulos, em 25.01.20

sem nome

A prática dos media - que competem com as redes sociais ao fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas na lavagem cerebral à população em matéria de racismo, reclamações do funcionamento de entidades públicas e da vida empresarial, da actuação das forças de ordem pública, da protecção aos animais e ao ambiente etc. -, é a da dedução alentejana, representada na seguinte anedota.

O ti Manel sai de casa de madrugada e vê uma vez mais o vizinho à sua porta. O outro cumprimenta com um bom dia, compadri. E ele põe-se a pensar: bom dia? Ora, dia noite, noite lua, lua céu, céu estrela, estrela serra, serra queijo, queijo leite, leite vaca, vaca boi.... hummm querem lá ver que o filho de uma magana me está...

A ladrão de casa nada é vedado

por Isabel Paulos, em 24.01.20

ladrão.Portugal no seu melhor: um ladrão, filho de líder do gangue, a dividir mesa com jornalistas, e com o maior desplante e cobertura dos media, a perorar sobre a falta de seriedade de uma ladra, filha de líder da pandilha.

É por estas e por outras que não há leaks que surpreendam.

Sonsos & trogloditas

por Isabel Paulos, em 23.01.20

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O exibicionismo do carnaval identitário provoca bestial reacção. Da toca onde viviam calados e dissimulados saltam perigosos trogloditas que, a pretexto da moral e bons costumes ou do resgate de velhas liberdades, disfarçam obscenidades de carácter que fariam corar de vergonha o mais liberal participante do corso da diversidade. Os sonsos voltaram a ser visíveis, e em força. E o mais moderno jogo de retórica é: Quem quer ser mais sonso? Não consigo apurar resultados preliminares, para ver quem está a vencer: identitários ou trogloditas.

Luaty Beirão

por Isabel Paulos, em 23.01.20

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Ouvi dizer

por Isabel Paulos, em 22.01.20

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Ao activista e professor universitário angolano Domingos da Cruz, na SIC Notícias, sobre a investigação Luanda Leaks: não é um jogo desinteressado, não há intenção de ajudar o povo angolano, pelo contrário, há um reposicionamento estratégico no xadrez geopolítico internacional com vista a manterem os seus interesses em Angola, uma vez que o poder mudou de mãos.

Isabel dos Santos

por Isabel Paulos, em 22.01.20

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Desculpem qualquer coisinha, mas por onde andam os vibrantes defensores do Estado de Direito e furiosos denunciadores dos julgamentos em praça pública de outrora? Talvez tenha a visão toldada, mas estou com dificuldade em vê-los.

Indizível

por Isabel Paulos, em 22.01.20

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Dizem que há matéria íntima ou de consciência inconfessável, mas na qualidade de péssima estratega digo o que penso: entre tantos liberais impolutos e doutrinadores – da esquerda à direita - sinto-me conservadora: mantenho os maus hábitos e voto quase sempre no PSD, quando me chateiam em branco e se me enfurecem no PCP. Em suma, só voto em conservadores.

Pulverização partidária

por Isabel Paulos, em 22.01.20

sem nome

Sobre a pulverização partidária poderei estar a confundir o que é ou será com o que deveria ser mas, apesar de algum temor, não estou convencida da inevitabilidade da degradação da democracia em Portugal por contaminação de radicalismos e populismos. Não me esqueço de há dezoito anos alguém de esquerda me anunciar a morte do PS como grande partido de poder, prevendo a ascensão de BE a votações na ordem dos 20%. E de voltar a ouvir semelhante comentário mais tarde.
Para o melhor e para o pior Portugal é o país do ‘temos que ser uns para os outros’ e isto em política traduz-se por sacrificar a ideologia em troca de uma fatia de poder ou influência (para os eleitos) e de conforto financeiro (para os eleitores). E os arranjos fazem-se ao centro e não nas franjas, pelo que a reconfiguração pode traduzir-se em 'parte baralha e volta a dar' alargando um pouco a influência às franjas. Na esquerda já se verificou. Na direita, a ver vamos se recompõe e faz esse o caminho.

Vieira de Leiria

por Isabel Paulos, em 21.01.20

VieiraDeLeiria(Praia da Vieira, Junho de 2019)

Rancho de corrupção

por Isabel Paulos, em 20.01.20

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Grão bom inatacável (oh, que pena!) para a panela; grão mau inatacável (ossos do ofício, o que não mata engorda) para a panela; grão mau para o lixo (ah, que prazer) e pedras para quem as apanhar.

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