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Metáfora

por Isabel Paulos, em 31.03.21

O primeiro sinal de que há inconsistência neste texto é o seu título. Se fosse inteiramente capaz de escrever e transmitir aquilo a que me propus, não teria necessidade de anunciar no título a figura de estilo. Quem viesse a ler não teria dúvida. Seria escusado dizer o evidente e ir mais longe, tal qual fosse uma anedota, explicando-a. Tudo quanto não se deve fazer. O paralelo é então entre uma burlona que engana a fina flor endinheirada de Nova Iorque fazendo-se passar por um dos seus membros e muitos de nós que andamos pelo mundo online a fazer de conta que pertencemos ao leque de pessoas que sabem dos assuntos sobre os quais falam.

E assim – num parágrafo introdutório – se mata o que pela ideia até poderia ser texto com interesse e graça. A ver vamos o que posso fazer agora dos frangalhos. Antes da democratização os que escreviam e falavam, em regra, sabiam. Havia o drama de ter de obedecer à cartilha, estivesse certa ou errada e, claro, reverenciar as sumidades. Com a democracia mudou a cartilha e felizmente acabou o temor reverencial (ainda haverá gente a saber o que é?), mas dele se passou para a bandalhice, na qual todos se acham no direito de ter opinião ainda que nas suas frases a bota nunca bata com a perdigota.

Acresce que a internet é feita de sombras. Se cara a cara já era difícil perceber quem sabe ou não sabe do que está a falar – e são tantos os equívocos gerados pelas diferenças de personalidade e aptidões naturais de cada individuo que expressa as suas ideias –, imagine-se num espaço abstracto e virtual em que não se vê a tromba. Em rigor, vê-se a imagem que os autores colocam e é obviamente a melhor ou a menos horrível (no meu caso). É um sítio propício de ‘dar imagem de’, ao invés de ‘ser o que se é’.

Imagine-se que alguém quisesse passar por botânico. Bastaria recorrer aos muitos lugares acessíveis online – e se um pouco mais ambicioso, comprar uns livritos - para obter a informação necessária a convencer dezenas de papalvos que é um connaisseur. Quantos utilizadores da internet se põem em bicos de pés, peleando indícios e razões como se soubessem realmente do que estão a falar?

Ah, dirão muitos: a mim não me enganam os charlatães. Será? Do que vou vendo quanto mais convencidos os internautas estão da sua superioridade e capacidade de avaliação, mais incorrem em erros de julgamento. Outros dirão: uma conversa no real é suficiente para desfazer o logro. Será? Será que o facto do desenvolto autor na internet se revelar tímido, acanhado e incapaz de se exprimir oralmente com eficiência desfaz o logro? Como distinguir os casos de fraude dos casos de simples personalidade mais reservada ou tímida? Será que o facto do valente detentor de boa retórica exprimir in loco e com desenvoltura meia-dúzia de juízos preparados sobre assuntos previamente determinados confirma não se tratar de logro? Como destrinçar a argumentação válida da simples facilidade de expressão?

Como será que a maioria dos utilizadores da internet – e já agora dos media - se sentem em relação a estas questões? Será exagerado supor que a maioria jamais admitiria diferença entre aquilo que é e a imagem que dá? Cá por mim, sinto-me um pouco como Anna Delvey (Anna Sorokin) a passar cheques carecas, com uma nuance: pressinto que a qualquer o momento a polícia baterá à porta para me pedir identificação e notificar da acusação de passar opiniões carecas.  

Opiniões carecas seria o título deste texto se tivesse conseguido fazer um todo que me satisfizesse, como não – como foi um inconseguimento, nas palavras da antiga Presidente da Assembleia da República -, fico-me pela metáfora. É o que dá idealizar um texto ao acordar e só escrevê-lo à noite depois de um dia de trabalho. Foi o que se pode arranjar.

Boa noite.

Panca das casas

por Isabel Paulos, em 31.03.21

 

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Em 2018 cheguei a fazer proposta por uma destas casinhas em Gaia, só que velhota e por remodelar. Infelizmente, os donos precisavam de meio ano para se mudar.

Cenas do próximo capítulo

por Isabel Paulos, em 31.03.21

Esta história de há dois anos, da jovem russa que se fazia passar por herdeira alemã, enganando bancos, hotéis e outras entidades em Nova Iorque vai dar azo ao próximo postal sobre tanta gente, como eu, que gosta de dar bitaites online. Somos quase todos Anna Delvey. 

Agora, a questão é arranjar uma horita para compor um texto com tudo quanto me vai na telha.

Earl St. Clair

por Isabel Paulos, em 31.03.21

Agenda

por Isabel Paulos, em 30.03.21

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No final das férias do ano passado, em Setembro, comecei a espanar o planeta de ocidente para oriente. Das Américas, para a Europa e África. Fui adiando a continuação e a primeira razão é porque empanquei na Rússia - e na imolação de jornalista russa - que era, juntamente com a Turquia, o país que viria a seguir. Como vem aí a Páscoa e um fim-de-semana alargado, pode ser que consiga desenguiçar a Rússia e desembestar pelo oriente.

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Para já, recordo os postais de Setembro último:

E.U.A.;

Peru;

Venezuela;

Brasil

Áustria;

Hungria;

Nigéria

Angola

Moçambique.

 

Susana Peralta

por Isabel Paulos, em 30.03.21

A forma como se expressa denota que não consente o pensamento nem aos outros nem a si própria. Ou seja, debita em vez que raciocinar enquanto fala.

Vou abster-me de comentar o conteúdo, já aqui disse o que penso sobre as ideias da economista. Mas a forma também conta e uma vez que surge como pessoa de peso na comunicação social e, por isso, com impacto na opinião pública, não se deve deixar passar em claro o evidente.

Bem-querer

por Isabel Paulos, em 30.03.21

A palavra amiga gira o dia, o gesto gentil muda a noite. A nobreza do acto cria vida, e mesmo que a vida não possa ser vivida, é sentida.

Black Man · Earl St. Clair

por Isabel Paulos, em 30.03.21

Parabéns, mano Nico

A ver

por Isabel Paulos, em 29.03.21

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Foi hoje às 21h00, na RTP 1. Aqui.

 

De novo, os equívocos

por Isabel Paulos, em 28.03.21

Para lá da opinião e de visões antagónicas do mundo. Para lá do contraste, do divergente, da crença em valores distintos, estão os equívocos. Já aqui fiz dois ou três postais sobre ambiguidades. Todos nós carregamos sensibilidades, traumas, mágoas, fúrias que a outros podem não dizer rigorosamente nada por pertencerem ao leque de assuntos em que estão absolutamente resolvidos - seja por nunca terem vivido os problemas, seja por os terem superado ou tão simplesmente nunca terem congeminado que a questão existisse. E mesmo quem parece absolutamente seguro da maioria das pequenas ou grandes mágoas de muitos, tem as suas próprias, que aos últimos passam ao lado.

A diferença está, sobretudo, na maior ou menor inteligência e sensatez com que se espelham ou resguardam as menoridades, as fragilidades. E no grau de liberdade com que cada um escolhe abordar estas questões.

Acresce que falar por indirectas, não falar claro, não ser honesto nos propósitos, na medida do possível, declarando aberta e claramente aquilo que vai pensando e sentindo ao longo dos dias ou anos, traz consigo perigos vários para as pessoas que consigo convivem.

Não falo em desonestidades activas, no intuito de prejudicar – em canalhices de quem tem prazer em fazer mal aos outros. Falo tão só na eterna desconfiança nos outros e na defesa permanente do seu espaço à custa de meias palavras, de sugestões e ambiguidades. É verdade que todos temos valores e pessoas a defender. Por vezes não declaramos abertamente o que pensamos ou sentimos pelo facto de tal impor sofrimento noutros. Tal é legítimo. Tal como é legítimo omitir informações que põem em causa realidades de que não estamos absolutamente certos, ou de cuja justiça tenhamos dúvida. Mas para lá disto estão os equívocos por falta da verdade e clareza que pomos nos nossos gestos e palavras.

Medo da franqueza? Medo da exposição? Tanto quanto sei é muito mais perigoso resguardarmo-nos de todos, para confiar apenas nos eleitos. A traição não vem normalmente de todos, mas sim dos que figuraram entre os eleitos.

É naquela

por Isabel Paulos, em 28.03.21

Recordo os tempos de liceu em que se dizia: oh, foi só isso? Isso ‘é naquela’. ‘É naquela’ tinha o sentido de insignificância. Coisa a não valorizar. Vem isto a propósito da confiança e de confiarmos as nossas histórias aos outros. Passei a assumir uma postura de relaxe quase total depois de anos excessivamente cautelosa com muitos e negligente em que relação a poucos. Confiar as nossas histórias a outro é da nossa inteira responsabilidade e é evidente que a partir do momento que as deixamos escapar, não mais temos mão nelas. Até aí, é sabido. Para lá disto, está a traição, outra história.

A exposição nas Comezinhas serve para recuperar o espoliado para utilização indevida. Nada como a história regressar à primeira pessoa. Assim tudo volta ao sítio e ‘é naquela’.

Escolhas

por Isabel Paulos, em 27.03.21

 

Deixa as palmadinhas nas costas para quem gosta de caminhos fáceis. A chacota pode significar tão só que estás no caminho certo. 

 

Futebol

por Isabel Paulos, em 27.03.21

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*

Cresci a ver jogar futebol. Até aos vinte e tal anos seguia regularmente os jogos, sobretudo, os do meu Portinho. Via os jogos à moda dos rapazes que sabem 'da bola', ou seja, a saber o que era uma boa marcação, uma boa recepção, um bom passe, um fora de jogo bem ou mal tirado, uma boa leitura de jogo, um bom pé esquerdo, enfim, essas coisas de quem cresce entre um pai e um irmão - o mais novo chegou a jogar à séria, o primogénito nunca foi grande fã, o do meio começou a ligar mais tarde -, absolutamente apaixonados pelo futebol. Da segunda metade dos anos 70 recordo os pequenos sacos  vermelhos (ou encarnados possidónio) e brancos da TAP em formato cilindro com roupa dos meus três irmãos nos dias em que iam para a ginástica no Futebol Clube do Porto a 50 quilómetros de casa. Levava-os a minha mãe que os trazia no fim das aulas na Faculdade de Filosofia. Eu ficava, por ser ainda muito pequena para essas andanças. Não tenho nem nunca tive paciência para conversa sobre arbitragens, questiúnculas e feiras de vaidades. Cresci entre gente que, mais do que falar sobre, valorizava o desporto: o gosto antigo da minha mãe pela ginástica e a prática do meu pai e irmãos do ténis. O Futebol Clube do Porto era o clube de paixão do meu pai e a casa onde os meus irmãos faziam desporto. É coisa que está no sangue, por assim dizer.

Fui às Antas ver dois jogos. É possível que tenha ido mais alguma vez e não me lembre. Da primeira recordo sobretudo que chovia copiosamente e do medo de malhar e rolar por ali abaixo até ao campo - logo comigo para quem é menos cansativo subir escadas do que descer, não por vertigem mas por o cérebro se esquecer de trabalhar nessas ocasiões e de me avisar atempadamente qual pé devo lançar a seguir. Nos anos 80 assisti ao jogo no estádio com o Covilhã - ainda jogava o Geraldão – e em 87, como qualquer portista, chorei baba e ranho de felicidade. Mas no início dos anos 90, sofri in loco, nas Antas, contra o Bayern - perdemos por dois. Ao longo nos anos admirei jogadores como o Futre (de quem fui vizinha), Fernando Couto, Luís Figo (da concorrência), Jorge Costa, Jorge Andrade e Ricardo Carvalho. Não me ficava pelos brilharetes, fintas e fogo-de-artifício de quem mais do que de futebol, gosta do espavento e do espectáculo envolvente. A discreta e fundamental posição de central sempre me impressionou mais do que o resto. E também jogadores – fosse qual fosse a posição -, cujo perfil fosse mais reservado - bom, o Futre é um caso à parte: na altura que jogou no Porto eu tinha entre 11 e 13 anos e, naturalmente, achava piada à exuberância. Nos anos 90 houve uma fase que acompanhava o campeonato espanhol (torcia pelo Barcelona, coisa que só mudou muito mais tarde por causa do Cristiano Ronaldo), o italiano (mais pelos nossos jogadores) e algum inglês. Gostava muitíssimo do correr de bola em Espanha, alegre, enérgico e resoluto. Houve alturas em que seguia o campeonato espanhol todos os fins-de-semana tal qual o português. Detestava a agressividade e mau-feitio rendilhado das lutas corpo a corpo e faltas sucessivas do futebol italiano. Gostava do atravessar de campo em dois ou três passes longos e decisivos do futebol inglês e, sobretudo, da forma como os jogadores não faziam as fitas infantis como os mediterrâneos, especialmente os portugueses e italianos.

Ao Dragão - lindo de morrer, mas gélido o suficiente para acabar em pneumonia no mais saudável e resistente dos adeptos -, fui três vezes, e é impressionante mas não me lembro quem era a equipa adversária numa delas. Nas outras duas foi o Braga, e uma das ocasiões o melhor jogo da época - imagino que haja quem desminta, mas não quero saber. Foi na época 2010/2011, com o mui senhor André Villas-Boas ao comando do Portinho: jogou-se muito de parte a parte, tendo Porto e Braga oferecido hora e meia de puro prazer àqueles quarenta mil (?) adeptos, que puderam ver o que é trocar bem a bola, jogar limpo, competitivo e muito emotivo, sem manhosice. Eu que vejo muito mal ao longe e acho que se vêem os jogos muito melhor na televisão, adorei lá estar naquela noite em que ganhámos por 3–2, com o mister simpatia Helton na baliza e o afável touro Hulk a marcar um dos golos - os outros dois foram do Varela.

Apesar destas investidas raras nos estádios e de quando em vez assistir a um jogo na televisão, quando me aproximei dos trinta perdi o gosto por este desporto. Transformado em tema principal das televisões, meios de comunicação social e alguns espaços digitais, o excesso de miudezas, mesquinhices, diz-que-disse e apelo ao invólucro deixou-me a léguas do futebol. Além de um ou outro jogo do Porto, acompanho distraída esporádicas exibições das fases de qualificação da Selecção (e por falar em homens discretos, a devida vénia a Fernando Santos) e, claro, muito atenta às fases finais dos europeus e mundiais.

O facto de viver com um sportinguista que não liga peva nem percebe nada de futebol – e que, como eu, se lembra de um tempo onde desporto na televisão não equivalia a futebol, mas a uma infinita variedade de modalidades -, ajuda ainda mais no distanciamento e dou graças por nesta casa não se subscrever em especial nenhum canal cabo dedicado ao dito desporto rei. Tenho, isso sim, saudade de ver os Jogos Olímpicos de fio a pavio. Passar madrugadas a ver basquete, atletismo, ginástica rítmica e artística e tudo mais. O futebol hoje em dia cansa-me. Só apetece tirar o som da televisão, apagar as letras do monitor, e pedir: deixem-nos trabalhar jogar em paz para que nos possam dar prazer e alegria.

Escrevi este postal hoje por uma razão muito simples: sonhei na noite passada com a classificação da Liga. Não faço ideia por que carga de água fui sonhar com isso, mas o facto é que sonhei que este fim-de-semana o Benfica empatava a 1-1, o Sporting perdia por 2-1 e o Porto vencia - neste caso não me apareceu, como nos outros, o painel digital a vermelho com o resultado. No sonho estávamos contentes porque alcançaríamos o Sporting. Apesar de muito alheada do que se passa no futebol, na última vez que vi a classificação estávamos a 10 pontos, pelo que pelas minhas contas é preciso que a quimera se concretize 3 vezes e meia para conseguirmos. Além de mais agora, escrito o postal, fui consultar o calendário da Liga e vi que este fim-de-semana não há jogos. Telefonei ao meu pai que me confirmou a razão: jogam as selecções. Resumindo: como bruxa não valho um chavo. E estamos nisto.

Porto, sempre.

A ver e ler

por Isabel Paulos, em 26.03.21

 

Sobre as relações dos E.U.A com a Rússia e a China convém ver a última edição do Leste/Oeste, de Nuno Rogeiro, e ler o artigo EUA vs RPC: os pontos quentes da nova Guerra Fria, de Jaime Nogueira Pinto,  cujos excertos se seguem.

 

O recente encontro entre os responsáveis máximos pela política externa de Washington e de Pequim, em Anchorage, no Alasca.

[...] Blinken começou por falar nos encontros que acabara de ter na Coreia do Sul e no Japão e das “profundas preocupações” que ali tinha partilhado com coreanos e japoneses.  E “as profundas preocupações” então discutidas com os dois aliados –  “dois dos nossos mais próximos aliados” –  incidiam sobre “as acções da China no Sinkiang, em Hong Kong e em Taiwan”, os “ciberataques contra os Estados-Unidos” e a “coerção económica” da China aos “nossos aliados”. Acções que não eram “meros assuntos internos” já que ameaçavam a ordem internacional e as suas regras elementares.

E concluía: The United States relationship with China will be competitive when it should be, collaborative when it can be, adversarial where it must be.  Curiosamente, este “competição quando devida, colaboração quando possível, hostilidade quando necessária” aproxima Blinken do “Contenção, Détente e Roll Back”, a estratégia para combater a União Soviética na Guerra Fria, inspirada no “long telegram” de 1946, de George F. Kennan, então número dois da embaixada americana de Moscovo.

[...]  Sullivan, para continuar ao ataque, referindo a cimeira virtual de Biden com os líderes do chamado grupo “Quad” – Índia, Japão, Austrália –, na sexta-feira, 12 de Março; um “encontro histórico” de uma aliança mais ou menos adormecida, que nunca tinha reunido a tão alto nível e que era claramente uma “aliança de democracias” para conter a China. E sublinhou que a prioridade dos Estados-Unidos era o bem dos Estados-Unidos e a protecção dos interesses dos seus parceiros e aliados.

Em resposta, o Conselheiro Yechi contra-atacou com o longo prazo, dizendo que a China esperava, em 2035, acabar a sua etapa de “modernização básica” e terminar, em 2050, “a modernização total”. Falou depois dos sucessos da China no combate à Covid 19 e à pobreza – apesar de o PNB per capita da China ser 1/5 do dos Estados-Unidos.  E passou à unidade da China, sublinhando que “o povo chinês” estava “todo à volta do Partido Comunista Chinês” e que os seus valores eram “os valores comuns da Humanidade”, a saber, “a paz, o desenvolvimento, a decência, a justiça, a liberdade e a democracia”.

E da unidade da China e dos seus valores democráticos seguiu para as divisões e fragilidades da arrogante democracia americana: era importante que os Estados-Unidos “mudassem a sua imagem” e parassem “de promover a sua própria democracia no resto do mundo”, até porque “muita gente nos Estados-Unidos” tinha “pouca confiança na democracia norte-americana”, enquanto na China, “de acordo com os inquéritos de opinião”, os líderes chineses tinham “o largo apoio do povo chinês”.

E voltou à Guerra Fria: os Estados-Unidos tinham de abandonar “a mentalidade de Guerra Fria”; de resto, um dos problemas pendentes no mundo resultava da hipervalorização, pelos Estados-Unidos, da segurança nacional “através da força e da hegemonia financeira” e “levantando obstáculos às actividades comerciais”; enquanto a China actuava com isenção ideológica nas relações ligadas à importação e exportação, isto é, “de acordo com os padrões científicos e tecnológicos.”

[...] Vinha agora a resposta às “profundas preocupações” americanas. O Sinkiang, o Tibete e Taiwan eram “parte inalienável do território da China” e a China opunha-se firmemente à interferência dos Estados-Unidos nos seus assuntos internos: “exprimimos a nossa firme oposição a tal interferência, e adoptaremos acções firmes como resposta”. Quanto aos “direitos humanos”, que dizer dos Estados Unidos? Havia “muitos problemas de direitos humanos nos Estados-Unidos” e não tinham propriamente “começado com o Black Lives Matter”.  Qualquer tentativa para derrubar os “assim chamados Estados autoritários”, estava “condenada ao fracasso”. E seria lícito que os Estados Unidos, “campeões em ciberataques e nas suas tecnologias”, acusassem os chineses de ciberataque? [...]

 

[...] Nós, os mercados terceiros

Mas, antes que seja tarde, convém que não nos esqueçamos pelo menos de uma das dúvidas e das perguntas decisivas: preferimos viver num mundo dominado pela América ou pela China?

 

Boa disposição

por Isabel Paulos, em 26.03.21

De onde vem a boa disposição? Resumo: escrever nas Comezinhas é apenas como ligar o amplificador das desde sempre e eternas conversas de mim para comigo. Não estranhem, eu própria estranho e por isso quase sempre tive o amplificador desligado para não perturbar o normal funcionamento do mundo. Mas, que querem? Às vezes distraio-me, perco a vergonha e vai disto. Desligar as próprias infindas conversas é que, dizem: não há remédio, senão a morte. E essa espero que venha o mais tarde possível, pois tudo isto sempre me divertiu mais do que causou embaraço.

Madrid

por Isabel Paulos, em 26.03.21

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El Rastro - Madrid, Novembro de 2005.

Palermices

por Isabel Paulos, em 26.03.21

Escrever meia-dúzia de linhas quase à toa só para fazer de separador entre Elton John e o madrileno El Rastro: não condizem. Hoje é sexta-feira, yupi. Hum, não tenho nada para dizer. E muito para fazer antes de entrar em fim-de-semana. Cada vez mais criança. Eheheh. Ainda só vai em três linhas no word e em 58 palavras. Palavras gastas assim em palermice. 64. O sol está a forçar as nuvens, a tentar rompê-las, mas elas estão a dar luta. 81. Nada, mais nada de inútil a dizer. Hum, quase 6 linhas. Acho que consegui. Vitória. 97.

Elton John

por Isabel Paulos, em 25.03.21

A dita

por Isabel Paulos, em 25.03.21

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*

Fiz de novo o teste: vai na 51ª referência ao termo mais vezes usado no mundo no último ano. Estaria tanto mais orgulhosa de mim quantas menos entradas nas Comezinhas da palavra Covid (52). Porquê? Por isto e sobretudo por pensar 'para quê?'. Se é o tema recorrente do mundo inteiro, acrescentar o quê? Se quase tudo quanto se diz é chover no molhado. 

Deixo só a conclusão de que nem eu nem o motorista da Uber acertámos. Nem uma semana, nem duas. Já vamos em três e não há aumento dos casos, apesar de haver aumento do índice de contágio. Será que é à quarta ou quinta? De qualquer modo, não tínhamos razão e ainda bem.

Dou ideia de alheada do mundo? Olha que bom, tanto mais contente estou.

Vidas incontáveis

por Isabel Paulos, em 25.03.21

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*

Sempre fico contente ao ver na televisão ou internet ideia de negócio ou de carolice para reparação e troca de objectos usados e electrodomésticos. Não consigo perceber como num mundo em que as bandeirinhas da ecologia se agitam excitadíssimas seguras pela mão esquerda, ao mesmo tempo que na mão direita se exibe a última geração de Iphone ou o 5G, o mercado da segunda-mão da tecnologia não se imponha em força. Só há uma explicação: as pessoas não estão interessadas em proteger o ambiente mas em guinchar qualquer coisa que pareça tão in quanto os novos ténis de marca ou smartphones com funções de que nem sequer imaginam a utilidade, tantas vezes usando o aparelho pouco mais do que para telefonar, trocar mensagens nas múltiplas redes sociais, aceder a outras aplicações que expõem toda a sua vida e fazer jogos - nada contra, o caricato é apenas o facto de precisarem de uma máquina topo de gama para o efeito. É como comprar 'porches' e 'ferraris' para andar em carreiros.

Durante dois ou três anos as minhas visitas ao Custo Justo ocupavam tanto tempo como hoje as andanças pelos blogues. Lá fiz - estou a contar pelos dedos, mas pode-me escapar alguma -, meia-dúzia de compras que vão da guitarra à Colecção Mil Folhas do Público. Cada compra tem uma história: de encontros à porta de Centros Comerciais a visitas às casas de origem para ir levantar os objectos a comprar. Lembro-me vagamente da figura e conversa de cada um dos vendedores e, nalguns casos, de familiares. Há quem venda quadros por ter mudado a cor predominante da decoração da sala, outros por os terem trazido das Antilhas e logo deles se cansado, há quem venda a guitarra por ter desistido de aprender ao fim de dois meses, há quem venda o serviço completo de loiça Vista Alegre por ter casa pequena para o muito acumulado pelos pais entretanto desaparecidos e há quem venda livros por falta de espaço.

E há pessoas como eu sem vergonha de dizer que fizeram estas compras em segunda-mão e as juntem ao que compraram de novo ou ao que têm transmitido de geração em geração. Assim, ao gosto da tradição – de conservar o que é legado –, junta-se o prazer da pechincha.

A palavra pechincha remete-me para a infância. Quando criança havia uma loja no Centro Comercial Brasília chamada Pechincha, dedicada à venda de objectos para casa. Neste caso, de objectos novos, frágeis e delicados, especialmente de loiça, cristal e vidro. Era um dos espaços que mais frequentava com a minha mãe antes do Natal ou por ocasião dos muitos aniversários que precisavam ser assinalados com uma lembrança. O que mais recordo era da minha mãe a fazer-me sinal ou dizer para ter cuidado, pois tudo ali era frágil e estava apoiado em mesas muito baixas sem protecção. Imagino que com a educação em voga entrar hoje na companhia de uma criança num espaço assim seria a morte do artista.

Mas voltando às compras de objectos usados, a minha melhor compra no Custo Justo foi o serviço de loiça Ema do grupo Vista Alegre, com cerca de 120 peças. Nem queria acreditar no preço quando vi o anúncio. Uma verdadeira pechincha num serviço com desenho e motivo que me agradava. Não podia escapar e não escapou. A razão de venda? Desaparecimento de uma mãe minhota com duas filhas a viver em apartamentos normais para os tempos modernos, ou seja, pequenos. Sem espaço para albergar os quatro serviços completos da antiga casa e, entre eles, a última aquisição da progenitora. O único trabalho que tive foi o de tirar as etiquetas das 120 peças.

É evidente que quem faz compras no Custo Justo corre riscos: o de ser enganado ou, pior, de estar a comprar produto fruto de roubo ou furto. Mas com as devidas reservas e cautelas podem fazer-se boas aquisições nestas páginas de venda online. E descansem os desconfiados, não dou presentes em segunda-mão. A única presenteada com estas boas compras – tantas vezes as melhores –, sou eu mesma e a minha casa. E considero este tipo de compras - tão usuais por esse mundo fora -, um indicador de sensatez num mundo de consumo frenético onde o ter mais e mais e novo e de marca e caro é a regra. Para deitar fora e logo substituir por mais e mais e novo e de marca e caro. Um sufoco. Não faço compras no Custo Justo há anos, e ainda não deitei nada fora do que lá comprei em segunda-mão.

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