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Agnes Obel

Citizen of Glass

por Isabel Paulos, em 30.11.21

Diário

por Isabel Paulos, em 30.11.21

Manhã com poucas emersões. Não há tempo. Tarefas encadeadas, quase sem parar. Agendas, relatórios, telefonemas, emails, conferências de valores. Os poucos segundos para respirar serviram para comer o iogurte e tomar café, e juntar itens à última compra do supermercado. Preciso prever para deixar tudo orientado e já sei que me vou esquecer de qualquer coisa. Na quinta-feira ainda trabalho. 
Não li notícias. Ao almoço liguei e desliguei quase de imediato a televisão.
A tarde não deverá ser mais branda.
A disposição é boa: mesmo a engolir sapos o dia está bonito e a comunicação amena. A verdade é que também faço outros engolir alguns sapos, nada que não mereçam. Respeito com respeito se paga, desconsiderações com desconsiderações se pagam.

Vale amanhã ser Dia da Restauração. Portugal vive.

Estrebuchar

por Isabel Paulos, em 29.11.21

O tempo contado e essa vontade de te elevares acima do trivial. Despegar das notícias qual gaivota presa a estrebuchar as asas depois de apanhada na corrente de crude. Relês postais antigos e dás por laivos de beleza no passado recente. Perguntas como é possível coabitar os dois planos: o da dita realidade crua que é cada vez mais fictícia e o mundo do belo, das sensações tão frágeis, intensas e apetecíveis. Quase tido por escape, como se não fosse ele a própria vida, a própria verdade. Corrompido, cada dia mais corrompido pela torrente pseudo-informativa. Tens pouco tempo. Muito pouco tempo para esperas e floreados. Segues de enfiada em demorada escolha de palavras ao acaso. Baralhas-te e não queres nem saber. Desejas chuva bem molhada, árvores que se vão despindo, sol a romper entre o céu enublado, rios desbragados em rodopios envolventes, vento frio qual lâmina cortante, serra altiva num gemido de delícias tremulas e esse mar desvairado de maré cheia a vazar forte em êxtase.

A ler

por Isabel Paulos, em 29.11.21

Covid live news: WHO says ‘very high’ global risk from new strain; Portugal identifies 13 Omicron cases in Lisbon football team, notícia de destaque no The Guardian.

Piruetas

por Isabel Paulos, em 28.11.21

Ainda vai chegar o momento de vermos os detractores de Rui Rio dizer que tudo quanto fizeram foi ajudá-lo na caminhada para o poder. Abnegadamente, em prol do superior interesse do país, andaram 4 anos a picar e criticar o líder do PSD para reforçar a sua fibra e competências. A educá-lo nas contrariedades e no maior respeito pela convivência democrática. Como se altruisticamente fosse o interesse de todos os portugueses que estivesse na base dos constantes ataques e desconsiderações. A lábia não tem medida.

E com isto ver se me abstenho novamente de mais comentários sobre este assunto por uns dias.

Tílias - Jerusalém há 2000 anos

Título actualizado: fragmento 9

por Isabel Paulos, em 28.11.21

Regressou e nunca mais trabalhou por conta de outrem, desfiando-se um rol de pequenos negócios que foi engendrando. Começou com uma fábrica de alpercatas, mais tarde vendida ao P., que a transformou na fábrica de calçado [...] Mas o negócio mais espirituoso foi o do Jerusalém há 2000 anos. Tratava-se de arrancar de carro seguido de camião, com as peças de um cenário no qual era recriada de forma meticulosa a vida há 2000 anos, em Roma e em Jerusalém, antes, no momento e após o nascimento de Jesus Cristo, contando os episódios da sua vida através de um engenho electromecânico com figuras e cenários em movimento.

Nesta espécie de caravana do tempo deambulavam ele a tia T. e algumas vezes o teu bisavô J., através de Espanha, França e Itália, que em Portugal os ventos não estavam pelos ajustes com a religião. Não te esqueças que o anticlericalismo estava no auge por esses anos. E era assim que, por temporadas, desembestavam estrada fora, por várias aldeias, vilas e cidades mediterrâneas, para exibir o Jerusalém há 2000 anos, aproveitando para lucrar com o merchandising da época, a venda dos postais alusivos ao espectáculo.

Sucede que nos anos 30 a tia T. teve saudades da irmã R. e, então, resolveram vender a caravana do tempo, o Jerusalém há 2000 anos, ao que parece em mau negócio, e partir por uma temporada de um ano para o Brasil. Foi o regresso do tio A. T. P à América do Sul, desta feita não ao Equador, onde vivera anos antes, mas ao Brasil onde vivia a cunhada. Mataram saudades e regressaram aos empreendimentos em Gaia, à rua General Torres.

*

Desta saga existem os seguintes postais:

 

Tílias - Fragmento 1

Tílias - Fragmento 2

Tílias - Fragmento 3

Tílias - Fragmento 4

Tílias - Fragmento 5

Tílias - Fragmento 6

Tílias - Fragmento 7

Tílias - Fragmento 8

 

Rui Rio e os seus detractores

por Isabel Paulos, em 28.11.21

Insistir em ser justo, vendo a realidade pelos diversos pontos de vista e fazendo cedências quando se considera que há críticas que fazem sentido pode ser uma tarefa esgotante quando nos deparamos com o comentário de algibeira que pulula nas televisões, nos jornais e nos blogues. Ontem assim que se souberam os resultados da eleição no PSD comecei a ver repórteres a falar na escassa diferença de votos. Hoje dei pela já expectável crítica à falta de um discurso unificador por parte de Rui Rio.

Isto depois de quatro anos de poderosa campanha anti-Rio nos jornais e debates televisivos. A permanente desconsideração. A incapacidade de perceber o que é o interesse público e o que são as mera manhas e artimanhas da politiquice com que somos brindados todos os dias pelos jornalistas, comentadores e blogueres com maior visibilidade.

Quando há quatro anos me comecei a irritar com os comentários da televisão de puro desdém e sobranceria sobre um político que tem mostrado uma correcção invulgar neste país onde estar na política costuma ser sinónimo de falta de lisura, imaginei sempre que os detractores de Rui Rio mais tarde ou mais cedo iriam ter que engolir em seco. Mas não, a desfaçatez é enorme, continuam impantes na intriga habitual, sempre a fazerem-se passar por moderados, por grandes democratas. Sempre com argumentos que têm a aparência da verdade. Mas não passam de artimanhas trabalhadas diariamente para descredibilizar a liderança de um dos poucos políticos que merece confiança - não estão habituados a gente digna, de tanto chafurdar nos amigos dos interesses. Quem querem defender? Os amiguinhos passistas? Os que tentaram minar por dentro a afirmação de Rui Rio como líder do partido? Os amiguinhos do Twitter influenciadores de opinião cujas referências mútuas e encosto permanente para singrar profissionalmente e em sociedade à custa da bazófia e das relações interessadas são o modo de vida?

Unidade, dizem agora. Caça ao tacho é o que traduz essa vontade tardia de unidade.

Ao longo dos tempos sempre fiz críticas a Rui Rio, quando considerei justas. Nunca vi – até ontem - esta gente das televisões, dos jornais, dos blogues, do Twitter reconhecer qualidades e apoiar as medidas justas que propôs. Sabotam sempre, ainda que pensem como Rui Rio numa ou outra situação, a vontade de ajudar os amiguinhos e a si próprio a ascender aos lugarzitos que almejam, não permite que reconheçam publicamente a bondade das medidas. Sonham com um distribuidor de regalias e privilégios à frente do PSD. Claro que nos discursos dissimulam, falam em falta de oposição, em fraqueza. Rebaixam Rui Rio constantemente, tratando-o como um subalterno de António Costa - que parecem idolatrar, tais são os elogios constantes à sua sagacidade política, i. é, à sua intrujice. Faz parte da mundividência desta gente: é este o pobre mundo de ardil e a preto e branco que vêem. Habituados a ser muito corajosos em gang, nada sabem sobre a solidão de ter a razão consigo.

Enchem a boca para falar de facciosismo, mas falam e agem sempre como adeptos de clubes de futebol. Têm linguagem de claque, nunca reconhecem o mérito àqueles que elegem como adversários. Sendo que o adversário neste caso é aliás um companheiro de partido, porque a maioria desta gente votaria PSD se isso lhe garantisse uma melhor saída profissional, ou aos familiares, ou aos amigos. Ou PS, a esta gente tanto faz votar PSD como PS, desde que esteja segura.

Felizmente os portugueses não pensam como estas medíocres elites de trazer por casa. O sentimento do país nada tem a ver com a voz desta gente que o tenta corromper. Quero acreditar que a 30 de Janeiro os portugueses possam mostrar a estes ilustres fazedores de opinião da treta que em Portugal mandam os portugueses e não os interesses de uma pandilha de amigos gananciosos.

Provérbios e expressões idiomáticas

por Isabel Paulos, em 28.11.21

 

Os cães ladram e a caravana passa.

 

Um brinde

- actualizado-

por Isabel Paulos, em 28.11.21

🍷🍷

Aos que não deixaram vencer a intriga politiqueira das nossas medíocres elites, que se entretém em retórica, jogos e estratagemas egoístas e inconsequentes, em vez de defenderem os interesses de todos. E nem me refiro ao candidato derrotado, a quem reconheço qualidades, mas à zoeira venenosa das trepadeiras políticas, televisões, jornais e demais meios de comunicação.

Obrigada, Portugal agradece.

Parece pouco, mais é essencial.

Agora, faço votos que Rui Rio e a sua equipa não asneirem, e corrijam alguns dos erros que cometeram nos últimos quatro anos, como o da redução dos debates parlamentares. E que oiçam algumas das críticas legítimas que lhe foram sendo feitas, nomeadamente pelo adversário nas eleições de hoje, lado a lado com a tal zoeira que é para enterrar.

Rui Rio ganhou. Ganhou reserva ética de Portugal. No dia 30 de Janeiro é só votar nele. 

*

Texto actualizado a 28-11-2021.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 28.11.21

Sonhos

por Isabel Paulos, em 28.04.21
 

Não sei se levada pela Lua Cheia se calhou, mas ontem dei comigo a planar em brandos pensamentos: que será feito daqui a quinze ou vinte anos das pessoas, lugares, escritas, ditos e sentidos que agora me preenchem os dias? Caminharão pelos meus sonhos? Tenho a sorte de ao fazer retrospectivas - e faço-as amiúde, apesar de não viver do passado -, dar conta que guardei sobretudo o melhor. Talvez por isso diga que os meus sonhos são tão povoados de lugares e pessoas como as telas de Bruegel – bom, apesar de tudo, os cenários são um pouco mais actuais. A dormir deambulo em constância por casas onde vivi e às vezes por casas por onde apenas passei. Além de passarinhar por espaços estranhos ou que só conheço dos sonhos, reencontro pessoas que conheci desde a infância. Na maioria vivas, algumas já desaparecidas, outras nem sei se respiram. Conheço algumas apenas dos sonhos – ah céus, sei que está longe de ser ideia nova, mas dormindo hei-de agarrar com ganas os sonhos até os confessar de modo a escrever coisa que valha a pena. Em regra, são sonhos bons ou pacíficos. Às vezes, lá sinto uma ou outra aflição nestas minhas gentes do passado vivido e sonhado. Raramente são pesadelos, apesar de ao surgirem serem de truz.

Desde há muitos anos sonho ocasionalmente estar numa divisão de uma das casas onde vivi ou por onde passei e ao atravessar a porta ou parede já me ver noutro compartimento doutra casa. À medida que o tempo passa os sonhos vão incorporando mais paredes, mais janelas, portas, ruas, campos. A vista da janela pode ser de uma cidade, mas a rua para onde dá a porta ser de outra. A maioria das vezes, esses são cenários puramente oníricos, mas há ocasiões em reconheço estar numa das casas reais por pormenores mínimos: os vidros foscos martelados de início de século da despensa ou do corredor de Valinhas - casa não especialmente bela, mas geométrica, de hera a meia haste, sem qualquer pompa e fanada de tinta nas paredes. O meu paraíso. Vou pescar as cenas dos meus sonhos às memórias, das mais recentes às mais longínquas. O jogo de cubos empilhado na caixa que faz as vezes de mesinha cabeceira. Os mosquitos mortos a chinelo na paredes do apartamento em Troia. As tábuas corridas do chão. A cadeira de escritório de napa preta de costas para a janela da avenida de Gaia e a campainha que toca. Ou o tupperware laranja guardado no segundo armário cor de salmão da cozinha. Os três lanços de escadas do apartamento em Cacilhas. O chuveiro já sem água no terraço da casa de Pedras d' El Rei. A vista do quarto para o plátano e o pátio da urbanização em Gaia. O chão de cerâmica clara por onde rolam dispersas as missangas cinza do colar partido. A ampulheta em cima da camilha redonda. O pau de giz, a chaminé a o leite do gato na velha casa transformada em centro de estudos. Duas mangas verdes na cozinha de Benfica. O menino Jesus no Natal no lugar habitual do telefone junto à pequena janela que dá para o Douro e os reclamos das Caves de Vinho do Porto. As plantas penduradas por cordas ao tecto junto às escadas e a cama que sai da parede na Covilhã. Ou o esqueleto nu das tílias trespassado pelo luar no Inverno. A janela sem cortinas em Arca d’ Água, palavras por dizer no sofá e a mini televisão de dez centímetros que acabou em Angola. Nas Antas, os decalques do quarto mais pequeno lá em cima, os sustos nas escadas da cave, o cheiro na copa vindo das gavetas com roupa de cama guardada ponteadas aqui e acolá de saquinhos de alfazema. A varanda sobre o parque de campismo em Lagos. Quatro cadeiras de ferro e a mesa com tampo de pedra manchada do ambientador vertido por descuido na casa com vista para a Segunda Circular. O cheiro a estrume nos campos - sim, nem só da maravilha de cheiro a terra molhada, eucaliptos e madressilva se faz o campo, a mata e os jardins. A nespereira a crescer no parapeito da janela dos arrabaldes de Lisboa. O velho armário com portas de correr na casa das portadas ainda perpassadas com disparos centenários do lado sul do rio. O piano na janela de João Grave. O interruptor alto e solto no átrio do mínimo apartamento em Sacavém. O cheiro a lenha queimada a crepitar na salamandra e o aroma da arrecadação comprida onde se guardavam as maças nas prateleiras e as batatas do lado de lá – a esse espaço dedicarei memória escrita na Quinta. A gaiola do hamster na lavandaria em Vila do Conde e as conversas vindas da cozinha. Ou o bruaá do estádio do Bessa. Um momento único da vida em que, talvez por esta permanente andança, me insurgi contra as mudanças de casa, afirmando que queria ficar quieta. Não foi com certeza um momento que me definisse, pois que as mais das vezes sempre tive vontade de partir ou mudar. Apesar de não partir para longe nem muitas vezes nem por muito tempo. Por vezes, sonho com os lugares e as gentes das viagens. Mas não é muito comum. Acredito que quando for mais velha, essas memórias venham em força. E também em forma de sonho.

E como é que as pessoas que conheci me chegam aos sonhos? Tão só por me lembrar delas. Guardo os rostos dos meus colegas da escola primária e das irmãs professoras. Da cozinheira, cujo nome está entre o esquecido e debaixo na língua. Sentava-se na soleira da porta ou nas escadas a descascar as favas.  Era magra e vestia sempre de preto, apesar de muito nova. Enviuvou cedo. Lembro-me do sorriso do F. e das suas aflições com a asma - também o F. lá de casa as tinha -, das fúrias e das brigas com o Z.R., das cópias do caderno da I.P., com a letra muito bonita, alinhada e sem rasuras, das meias e dos chinelos da C. Lembro-me do baque e expressão na cara da F. ao ver o mar pela primeira vez na Nazaré, quando lá fomos em passeio escolar. Lembro-me dos casamentos na escadaria. Do terreiro, dos baloiços e do escorregão e da torneira da água rente à parede e do tanque. E, claro, da enfermaria e dos curativos. Da sala do jardim-de-infância e dos colchões e caminhas de grades. Das paredes da sala da quarta e segunda classe. Das prateleiras de madeira no cantinho forradas a oleado, que albergavam os livros, e que me calhavam - acho que escolhi a tarefa -, limpar o pó. Sim, heresia das heresias: na escola primária da Misericórdia de quando em vez os alunos mais velhos davam uma ajuda na limpeza. As mesas eram limpas com Vim em pó e esfregão. Tínhamos de ter cuidado de não raspar o autocolante com a imagem no canto do Papa João Paulo II, que será sempre o meu Papa - todos tempos um, suponho. Lembro-me da carinha de bebé e da bata aos quadradinhos azul e branco do B., que estava no infantário quando eu andava na quarta classe - uma das minhas batas era amarelo claro e tinha um folho no peito, e usava o estojo redondo vermelho e preto em forma de joaninha. Lembro-me de cantarmos as músicas das Doce nos recreios. Dos buxos dos jardins da frente, dos peixes, da capela, do portão e das cambalhotas dependurados nos ferros que o trancavam.

Tal como me lembro das casas que albergavam o ciclo preparatório e liceu de Felgueiras, de muitos dos meus colegas, professores – da professora Dulce Moura, uma velha senhora que sobrevivera a um cancro difícil e nos dava ciências - e funcionários - lembro-me da velha Rosinha, que parava a vassoura para me chamar e consultar de perto os pontos de tricot das camisolas que eu trazia vestidas, para tirar ideias. Recordo mais ainda dos cinco anos no liceu de Gaia. A Biblioteca Municipal e os cafés – ainda hoje não faço grande diferença entre café e biblioteca, locais onde aprendi por igual, suponho. Do Glass e as almas e as conversas que os habitavam. E depois da faculdade, que em sonhos nunca acabei: falta sempre fazer um qualquer exame ou vários. Como todos nós tenho um baú enorme de recordações. Que se estendem pela dezena de locais de trabalho por onde passei e das pessoas que os povoavam. Vivências díspares entre si. Desde a chegada no primeiro dia ao primeiro Banco, onde assim que cheguei encontrei no edifício um conhecido por piso, até à estranheza e distância total de ambiente e gente que envolvia outro qualquer emprego. E os lugares e ocasiões de convivência: as reuniões familiares alargadas, as festas, as saídas à noite, os cafés e as conversas com os amigos, os bares e discotecas, alguns concertos. As praias, sobretudo, as de Lagos e as noites nas suas ruas. Todos estes lugares e gentes, que na grande maioria não voltei a ver, visitam-me quando durmo. Em paz, gosto de os rever. Há ainda os espaços online, onde conheci gente real ou virtualmente. O facto de não haver presença física, não invalida que me entrem nos sonhos e se instalem com a maior das naturalidades. Agora, em perfeita comunhão com todo o passado e presente.

Puxando mais para ali ou acolá, tudo isto é comum a grande parte das pessoas que vivem o tempo presente. Aliás, há imensa gente com existências muito mais preenchidas e ricas, até porque na verdade sempre levei uma vida bem caseira e pacata. Nada de novo, portanto. A não ser a pretensão de achar que por ser reservada, atenta aos outros, a mim e a muito do que nos rodeia – e absolutamente distraída do tanto que me poderia conduzir a uma vida mais fácil e exemplar, mas certamente menos minha -, posso um dia vir a escrever qualquer coisa de jeito sobre aquilo que quem conheci e eu vivemos, vimos e sentimos.

Hum, muito me contam

por Isabel Paulos, em 27.11.21

 

Muito me contam. A Concelhia do Porto do PSD estava com Rangel, diziam.

Relevante, não? Definidor, não?

 

Diário

por Isabel Paulos, em 27.11.21

Nada disto é novidade. É o que dá andar desfasada do tempo, seja com atraso seja com adianto. Ontem comprei um eBook pela primeira vez na Bertrand e fiquei bastante contente ao ver que em poucos minutos a ele tive acesso. Bastou-me instalar o Adobe Digital Editions e voilá, um livro à disposição. Para quem como eu o culto do livro não impede de gostar de ler noutros formatos, foi uma conquista. Ressessa, sei. É coisa já com divulgação e uso de anos. Estava habituada a ler em simples pdf obras disponibilizadas em páginas de entidades públicas, ou tão só por pesquisa no Google. É vulgar nos últimos 20 anos apanhar obras completas disponíveis online. É fácil colocá-los no telemóvel e ir lendo à medida dos apetites e disponibilidades de tempo, se bem que prefiro sempre (e a minha miopia também) a leitura no monitor do computador. Mas ainda não tinha comprado eBooks. Aproveitei a Black Friday de ontem para os livros que vou oferecer no Natal aos meus pais e ao Nuno. Nenhum é surpresa para os ditos, preferi que me dissessem o que querem para saborearem o que lhes dá prazer. A minha mãe que diz sempre que cada vez lê menos, cada vez lê mais e é a mais fácil de presentear, por ter sempre um a correr e vários na calha. Vai voltar à China do século XX no feminino. O meu pai que diz sempre que cada vez tem menos vontade de ler coisas grandes e que o aborreçam, animou-se quando lhe disse que não iria ter mais de 200 páginas e que ia até à Hungria sem que ninguém o agredisse (somos parecidos pai e filha). O Nuno vai desanuviar da física que já me cansa a mim ver a minha mãe fartinha de coisas demasiado complexas. Ao fim de 5 ou 6 livros sobre física a coisa começa a ficar densa demais e é bom saber parar, por isso vão descansar com a astronomia. O meu primeiro ebook é de astrologia, cada macaco no seu galho.

Há uns dias vi no Olx para venda muitos dos livros que me faltam da colecção Mil Folhas (são muitos, nem tinha noção até há poucos anos que a colecção era composta de 100 volumes, ora tenho apenas os primeiros 57 e alguns outros soltos), mas optei por não mandar vir. Enquanto não desbastar parte substancial do que cá está, vou tentar não me embrulhar em mais compras. Digo isto mas ainda no mês passado trouxe mais uma pazada deles. Ai, as intenções. Recorda-me uma conversa de há poucos dias em que alguém me dizia que tinha dois avós (bisavós, em rigor): um que gostava de ler e outro que gostava de livros e que verificava isso pelo estado de conservação dos ditos. Quando compro livros fico sempre a pensar, mas afinal em que ficamos? Gostas de ler ou de ter livros? Sei, é compatível. Mas há-de haver uma tendência preponderante. Sobretudo, há fases na vida em que se lê muito ou pouco. No meu caso, alguma coisa ou pouco. Hoje noutra conversa, digital desta feita, uma partilha de excertos de uma obra e a referência a ser um dos autores de formação da pessoa com quem conversava. Fiquei a pensar quem seriam os meus autores de formação. Além dos poetas que já por diversas vezes referi nas Comezinhas que me acompanharam na adolescência, dos cronistas que lia então e das investidas na filosofia, creio que o existencialismo terá sido a base. Era uma visão muito descrente, muito condicente com a adolescência. Valeu-me ter entremeado essas leituras com a inteligência aguda e bem lusa de uma escritora portuguesa maior e as leves histórias chilenas também no feminino.

Tirando isto dormi até tarde, coisa rara nos últimos anos. Dei uma arrumação à casa. Tratei das plantas da varanda. Ao passar a cozinha com a esfregona (coisa raríssima) o Ritz ficou encantado com a possibilidade de atacá-la. Colocou-se em posição de ataque e vai de corrida, mas azareco: com o chão molhado derrapou como se fizesse patinagem artística e espatifou-se. Adoro vê-lo nestas situações. É a minha vingança por me ter dado cabo das luzes azuis e verdes do pinheiro de Natal. Estragou-me a série. Sobraram apenas as vermelhas e laranjas. O Nuno mete-se comigo e diz que é um sinal: são as cores dos partidos que tu gostas, diz-me. Refere-se naturalmente ao PSD e ao PCP e ao meu devaneio antigo desta improvável coligação. Almocei pouco por andar a tentar perder os quilos que engordei ultimamente. Estou cheia de fome. De resto apenas os preparativos normais para quem vai ser internada no dia de aniversário para ser operada no dia seguinte. Precisamente 6 anos após a cirurgia de extracção da tiróide. Céus, quanta exposição, pensaria noutras alturas cheia de medo de ridículo e muito em consonância com a educação que tive e de que me vou afastando paulatinamente por têmpera, apesar de me sentir cada vez mais próxima por coração.

Os assuntos mais relevantes do dia com o recuo de 45 anos foram espraiados ao final da tarde em conversa bem familiar. Relatos paternos que fui ouvindo ao longo da vida sem prestar a atenção devida e começo a ter consciência de ter a responsabilidade de preservar para memória futura.

A última novidade é que reabriu mais um supermercado na zona: o Froiz. Agora além do Continente e do Pingo Doce, fico com mais este a menos duzentos metros de casa. Isto já para não falar nas mercearias. Muita escolha. Enfim, privilégios de quem vive na cidade.

Nada disto move a humanidade, mas move este grãozinho de poeira que por cá anda. Nada disto é relevante, mas é uma vida que por cá anda.

Para terminar, dizer apenas que felizmente o Nuno não ligou a televisão à hora de almoço, o que me permite estar longe das excitações covídicas e dos acontecidos no PSD por umas horas. À noite inteiro-me dos notícias, que espero sejam favoráveis a Rui Rio, pelas razões que me escuso continuar a esmiuçar. De qualquer forma, digo apenas que o país não merecia ser entregue às mesmas mãos politiqueiras de sempre. Já nos chega um Governo habilidoso, não precisamos de mais ardil e ambição desprovida de respeito pelo interesse comum.

Boa noite

por Isabel Paulos, em 27.11.21

Sexta-Feira

por Isabel Paulos, em 26.11.21

Mortinha por que chegue o final da tarde. Ai... aiiiii (pena não poder dizê-lo em voz alta e aguda), está quase.

Bobby McFerrin

Don't Worry Be Happy

por Isabel Paulos, em 26.11.21

Como um tolo em cima da ponte

por Isabel Paulos, em 26.11.21

É assim que muitos se sentem com frequência: devo concordar ou não concordar?, digo sim ou não?, gosto ou não gosto?

É natural que se veja falha grave nesta eterna hesitação, achando a dificuldade em definir posições prova de deficiente inteligência. Há quem vá mais longe e ache que se trata de uma falha de carácter: falta de personalidade. Ou considere simples cobardia e vontade de agradar a todos, necessidade de aprovação. Os muito afirmativos e convictos colhem mais simpatia. 

É sem dúvida um handicap importante no caso de pessoas com responsabilidades profissionais a quem é pedido que decidam. Além de poder complicar as relações pessoais onde a todo o instante é preciso optar por soluções ou caminhos diferentes.

O que poucos reparam é que esses mesmos eternos indecisos são em muitos casos os que ponderam mais factores e condições envolvidas em cada situação. Os mais conscientes.

O bloqueio temporário sobre a decisão está muitas vezes ligado ao perfeccionismo, à vontade de não errar, ao receio de ser injusto. Ainda que o resultado visível pareça o mais longe possível da perfeição, dando amiúde a ideia de atabalhoamento (de atrapalhação) e a tal imagem de necessidade de aprovação.

Tentar ser correcto tem um preço elevado: pelo menos o de dar a ideia de eterno desnorte.

Observador

por Isabel Paulos, em 25.11.21

A dar tudo por tudo na rampa final para as eleições internas no PSD, o porta voz oficial da propaganda de Paulo Rangel, o jornal Observador, segue impante. 

Jornalismo de excelência, dizem.

(e pensar que é para isto que pago a subscrição do jornal.)

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 25.11.21

A única forma de conseguir algo (escrevi algo?, escrevi algo?, céus) positivo e consistente é persistindo, não desistindo do que se considera correcto e justo para o país. Nem que pareça tontinha de todo, hei-de continuar a bater nas mesmas teclas. E quanto mais obstáculos encontrar e com desdém me deparar, mais insistirei. Por saber que só não deixando cair os assuntos nos enredos habituais que servem pouco mais do que para manter o país no atraso conveniente a uma pequena minoria, se pode ser justo com a maioria. Em matérias como a dos baixos salários temos que contar sempre com a inefável tirada “ah, todos queríamos salários mais altos, mas…” esta fingida abordagem serve um propósito: enganar papalvos.

Sempre temos os peritos em enredar-se em argumentações de grande ciência (económica, social ou política) que pouco mais fazem do que abortar qualquer tentativa de mudar para melhor as condições de vida dos portugueses. Há sempre argumentos infalíveis que provam por A+B que a solução, a bem do país – sempre na aparência de ser a bem do país, quando se trata apenas de perpectuar interesses pessoais e egoístas - a solução, dizia, não é tão simples: ter-se-á que ter em linha de conta 34 outros factores de inquestionável pertinência e qualquer um que não os enumere e disserte longamente sobre eles (apesar de os já ter ponderado) e esmiúce cada um de preferência com referência ao nome de meia-dúzia de autores e obras de aturado estudo (algumas de amigos do peito, é sabido que as luminárias têm no mínimo 97 amigos de grande intimidade) é considerado pouco mais do que imbecil, e sempre descredibilizado com o rótulo de simplório, ignorante ou populista.

Este é o método infalível para fazer cair qualquer melhoria no país. Qualquer laivo de tentativa de tirar o país do lodo ancestral esbarra nestas luminárias, nestes piolhos em camisa lavada  que atravessam as décadas, os séculos sempre de bicos de pés esticados no intuito de abancar nos privilégios de onde podem finalmente desdenhar dos ignorantes – cada época tem os seus ascendidos: os de hoje opinam no Twitter, na televisão, nos jornais, lado a lado com gente respeitável, a quem tentam mimetizar os tiques e não, infelizmente, o hábito de ter consideração pelos outros.

Quando os despautérios, as incongruências, as desonestidades, as injustiças são patentes é escusado continuar a dar crédito a que não tem  senão na aparência a menor intenção de os combater. A especulação imobiliária e os salários baixos são assunto de crucial importância para a vida dos portugueses e é fácil ver o que é certo e errado, sem mais enredos.

*

O bê-á-bá

por Isabel Paulos, em 12.05.21
 

Capturar.JPG

Perguntar não ofende.

Explique-me quem puder, como é possível aceitar viver pacificamente num país onde 60% dos trabalhadores por conta de outrem têm salários iguais ou menores a 800 euros mensais, sabendo que:

  •  o preço médio das casas é de 1.942€ m2 - para que fique claro aos distraídos: 194.200 euros por imóvel de 100m2 -, sendo que um empréstimo junto da banca no valor de 174.000 euros (o máximo concedido para o valor de referência) representaria uma prestação mensal na ordem dos 485 euros mensais a 40 anos - ou de 840 euros a 20 anos.
  • no empréstimo para compra de automóvel de 18.000 euros o valor mensal a pagar seria de 370 euros mês por 5 anos.

Muito agradecida.

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Sem imaginação para títulos

por Isabel Paulos, em 25.11.21

- Qual o teu principal defeito?

- A burrice recorrente.

- E a principal virtude?

- A repugnância pela mentira. Ter aprendido a distinguir a verdade da falsidade num espaço, num gesto, num olhar, numa palavra.

- Isso é muita presunção.

- É.

Steffany Gretzinger

Tell me the truth

por Isabel Paulos, em 25.11.21

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