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A soneca

por Isabel Paulos, em 31.03.22

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Falsidade

por Isabel Paulos, em 31.03.22

Das pechas que mais abomino por implicar manifesta falta de carácter é a desconsideração dos que se amam ou gostam e o enaltecimento de outros por pura conveniência. Quantas vezes nos deparamos com sujeitos que desprezam pessoas queridas ou próximas ou simplesmente pessoas de quem gostam e de quem muito recebem: desconsideram-nas por acharem manifestações de agrado ou simples delicadeza desnecessárias, pouco atraentes, incómodas ou inapropriadas, beneficiando isso sim através do elogio ou de acções de favorecimento mais palpáveis outros sujeitos sem especial valor só por representarem o que é tido momentaneamente por atractivo, conveniente e vantajoso.

É gente que merece a solidão no meio da multidão de falsos amigos. Normalmente, é assim que vivem.

Tílias - Cozinhotes

Fragmento 15

por Isabel Paulos, em 31.03.22
Em pequena os almoços e jantares em Valinhas tinham o seu quê de cerimonial. Mãos lavadas, toalha de pano sobre a mesa rectangular da copa e guardanapos de pano em argolas coloridas, as do pai e mãe verde seco e laranja, as dos manos N., F., e T., branca, amarela e verde petróleo, a minha vermelho escuro. Éramos sete à mesa, com a Eca, cuja argola era cinzenta. Ou mais quando ainda lá viviam os meus tios G. e R, e F. Nos últimos anos juntávamo-nos às argolas de prata dos avós - herdei com grande orgulho a da avó - na mesa grande da sala de jantar - para 18 pessoas. Não havia refeição que não começasse pela sopa e as que me lembro variavam entre as de agrião, nabiça, penca, couve branca, vagens e os cremes de cenoura, grão e feijão que davam direito a peixinhos (croutons) e ainda o caldo verde de Domingo. 
 
Guardo especial saudade de alguns pratos que nunca mais souberam ao mesmo, por ter deixado de haver mão que os fizesse tão bem. Não voltei a comer Lulas à Bordalesa acompanhadas de Arroz Branco como as de Valinhas, o meu prato favorito. Conservavam a tinta e creio que só a avó e a Eca as sabiam no ponto. Era o prato ideal para uma família grande como muitos dos outros tradicionais portugueses que me habituei em criança. Como o Bacalhau à Gomes de Sá, à Brás e à Espanhola. Este último só aprendi a gostar já na adolescência em Gaia. Tudo pratos fáceis de multiplicar para famílias grandes. Recordo-me também de adorar Arroz de Polvo e do Arroz de Tomate ou de Espigos com Pescadinhas de Rabo na Boca (marmotas) introduzidas em Valinhas, contra gosto da família no lado materno, por via da minha avó paterna. Ainda assim a mãe não autorizava, para grande desgosto do marido e filhos que se fizessem sardinhas e carapaus, tendo nós que esperar pelas Vindimas ou pelas idas ao Algarve para matarmos saudades das boas das sardinhas frescas. A mãe só aceitava peixe mais graúdo, mais até em Gaia, como robalos e douradas. Havia uma excepção, sendo apreciadora de linguados e havendo muitas bocas para alimentar a mãe trazia Azevias - mais pequeninas e económicas -, que se faziam com Arroz de Tomate. A Pescada com Todos, a que chamávamos simplesmente Peixe Cozido, era uma instituição a que aderimos e ainda hoje replicamos em casa. Porém o prato de peixe que mais vingou foi aquilo a que chamamos o Prato da Mãe e que na geração anterior era denominado o Prato do Pai, que mais não é do que o refogado de azeite, cebola e alho onde o bacalhau em lascas vai alourar, vertido entre camadas de batata, couve, cenoura, e ovo todos previamente cozidos e cobertos de béchamel antes de levar ao forno. Mais tarde em Gaia recordo que era comum comermos salmão, que adoro. Em dias não direi festivos mas quando aparecia gente para petiscar a mãe preparava pitéus como ameijoas ou camarões, mas o forte eram mesmo os doces. Em Angola era reconhecida por boa doceira, mas essa fase não apanhei. Tiveram mais sorte os meus irmãos. De qualquer modo, há três doces que não conheço melhor feitos por outras mãos: o Molotof, com todo o cerimonial da forma a boiar na água ferver para cozer as claras e a rabeta com os ovos moles no ponto cobertos por amêndoas torradas cortadas em palitos. Doce que só é bom no próprio dia e sem comparação possível com a gelatina horrível que servem em restaurantes ou outros poisos.  A Mousse de Chocolate, que só leva ovos, açúcar e chocolate e nem uma pitada de leite ou manteiga. Fofa e maravilhosa. E os Sonhos de Natal. sequinhos, ocos e muito saborosos. Quase me esquecia do Pudim de Chuchu que continua a fazer as minhas delícias. De qualquer modo, no dia-a-dia não havia doces, mas sim uma peça de fruta à escolha, mas obrigatória, para cada um de nós comida de garfo e faca.
 
No capítulo carne do dia-a-dia com a minha mãe não vingava inicialmente a galinha e o porco, mas sim a vaca ou novilho. Devo confessar que aí preferia os rojões perfeitos da minha avó Rosa, ou mesmo os um tanto engordurados feitos pela Glória por indicação da avó Isabel, que mandava também assar frango com batatas amiúde o que me agradava e felizmente a distanciava da sofisticação dos jantares que dava em nova que sempre ouvi recordar à minha mãe e tios - com inclusão dos grandes peixes assados no forno bem tratados na cozinha antes de virem para a mesa, onde não admitia espinhas e peles. Mas voltando a Valinhas, sob orientação da minha mãe comíamos aquilo a que chamávamos Batatas Guisadas (Jardineira), que eu odiava, Massa Guisada (Carne Guisada com Massa para os possidónios), que gostava muito e Arroz com Guisadinho de Carne, que me era indiferente, todos contendo carne de vaca ou novilho. E Açorda ou Farinha de Pau com bifinhos, que gostava bastante. Consumíamos carnes que hoje dificilmente são admitidas nas dietas das modas, como Fígado de Vaca com Cebola (ambos cortados bem finos) e Batata Cozida, e Língua de Vaca, acompanhada de Guisado de Ervilhas e Cenoura e Arroz Branco. Lembro também que pontualmente havia Coelho ao almoço, raramente Cabidela e com frequência Bifes de Peru com Arroz de Cenoura ou Ervilhas ao jantar. E o horrível Empadão de Carne para mal dos meus pecados. Aos Sábados era comum ser Feijoada com carne de porco e vaca acompanhada de Arroz ou Grão com Massa e carne de porco e chouriço. Mais uma vez pratos bons para famílias grandes. Ao Domingo era invariavelmente aquilo a que chamávamos Maionese, e que mais não era senão Salada Russa com Maionese acompanhada de atum e sardinhas pequenas picantes em lata, feita pelos mais novos, cozinhote simples que todos adoramos e preparamos muitas vezes quando nos reunimos no Verão. A noite de Domingo era tenebrosa com as ideias de simplificação da minha mãe. Numa das fases da ementa constava esparguete (branca; eu gosto de a pintar sempre do rosa do tomate) com omelete de cebola - devo dizer que raramente comi coisa pior. Em dias festivos lembro-me do jeito da minha mãe para os canapés de entrada, assim com ovos recheados e uma série de entradas bonitas. Havia às vezes Arroz Árabe e de Açafrão -, que eu adorava. E também era comum o Timbale - tarte de massa folhada recheada com guisadinho de carne de vaca ou frango ou um creme de qualquer espécie. E é preciso dizer a verdade, o infalível Lombo Assado, que já ninguém podia ver. Salvavam-se as batatas assadas que eram sempre óptimas e o maravilhoso esparregado de nabiças ou couve da Glória. O Jantar de 25 de Dezembro era abrilhantado com o Bacalhau Espiritual feito pela minha mãe, que é perfeito e nada tem a ver com os sucedâneos que fui experimentando, seguido do Peru Recheado da avó.
 
E pronto, estas são as memórias de muitos dos pratos que fizeram a minha infância. Devem faltar imensos, de que me recordarei mais tarde. É a vida. Entretanto enquanto estava a acabar o texto tocaram à campainha e era o carteiro com uma encomenda. Uma prima do Nuno que vive no Algarve a mandar favas, coentros, salsa e doce de amora. O primo chorou-se das saudades do Estufado de Favas com Chouriço e lá vou eu ter que aprender a fazê-las - também as comi desde criança, mas não sei preparar. Desta não me livro. Bem lhe disse que sou mais de escrever sobre comida do que de cozinhar, mas ele não se compadece e já anda por aí a babar.

 

Da mesma saga existem os seguintes postais:

Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima

Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos

Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade

Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil

Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade

Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001

Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch

Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas

Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos

Fragmento 10. Tílias - Avó

Fragmento 11. Tílias - Virinha

Fragmento 12. Tílias - Sonhos

Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância

Fragmento 14 - Tílias - Café

 

Cozinhar

por Isabel Paulos, em 30.03.22

Sendo incapaz de estar sossegada ou sem ideias e planos futuros, ainda que a maioria fique suspenso ou se perca, enquanto estive fora pensei em fazer obras em casa. Como a sala neste apartamento é muito pequena pensei em deitar abaixo uma parede (não faz parte da estrutura) e prescindir de um dos quartos para estendê-la. Para além de outras alterações mais pequenas, já tinha o plano todo traçado e as divisões mobiladas mentalmente. Ontem quando acordei da sesta estava mais lúcida e pensei: se fosse para ficar nesta casa em definitivo podia fazer sentido, mas à velocidade que mudas de casa é uma estupidez. Seria fazer obras para retirar valor ao apartamento que passaria a tipologia inferior. Desisti. Vou-me ficar apenas pela nova cabine de chuveiro.

Posto isto, hoje tive que arranjar outro tema para me entreter. Sabendo que preciso recomeçar a cozinhar e convém ter ideias para pratos que me desfaçam o tédio de ter que pensar todos os dias na ementa fui procurar uns caderninhos de receitas da Círculo de Leitores. Não era exactamente o que queria, já que o que procuro é receitas de pratos vulgares da cozinha portuguesa para aprender os truques que no dia-a-dia acabamos esquecer e facilitar tornando-os desenxabidos. O melhor será pedir à minha mãe o livro de receitas manuscrito. Isso sim. Aprender a fazer as Lulas à Bordalesa com arroz, o meu prato favorito em criança. Se bem que estes livrinhos da Círculo de Leitores têm as Lulas Recheadas que a minha mãe também fazia e eram bem boas.

De qualquer modo, por agora vou colocar aqui uma selecção de receitas da dita Colecção Bom Apetite - nome de um mau gosto atroz -, da Círculo de Leitores. É sempre bom ter umas ideias para massas, saladas e tortilhas. O engraçado destes livritos é ver com as modas das receitas são datadas. Na primeira década desde século tudo eram as courguettes, que entretanto passaram de moda para dar lugar a outros vaipes das marés culinárias. Aqui ficam as de há uma década e meia.

 

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Legumes

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Massas

Esparguete com courgettes.jpg

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Saladas

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Batatas

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Batatas assadas com creme de cheiros.jpg

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Marisco

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Home Sweet Home

por Isabel Paulos, em 29.03.22

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Diário

por Isabel Paulos, em 28.03.22

Não conhecia nem conheço, senão destas estadas, nenhum elemento da equipa médica, de enfermeiros e auxiliares. Ao fim de 11 dias neste hospital, à parte de pequenos momentos de desorganização tudo quanto devo realçar é o cuidado, a dedicação e até delicadeza de todos.

Na madrugada de 17 para 18 quando me debatia com dores agudas ponderei chamar um Uber e ir para os Lusíadas ou o Arrábida (onde já fui operada há 7 anos). Estava convencida que iria tomar uma injecção e voltar para casa no próprio dia. Se o tivesse feito a esta altura do campeonato já teria deitado as mãos à cabeça apesar da comparticipação da Médis. O facto de ter cá feito o bypass gástrico e saber que a crise de pedras da vesícula ser uma complicação possível decorrente da perda rápida de peso, levou-me a decidir chamar o 112 para me trazer para o Santo António. Desde o momento que pus os pés na ambulância até à boa disposição com que acordei hoje da anestesia e agora em que estou prestes a levantar-me, quase tudo foram bons modos, disponibilidade e cuidado.

Como há 15 anos só posso estar agradecida ao SNS. 

Chet Atkins

Young Thing

por Isabel Paulos, em 28.03.22

Agradecimento

por Isabel Paulos, em 28.03.22

🍀🌼🍀

Obrigada. 

Diário

por Isabel Paulos, em 28.03.22

Mais uma. Já está e correu tudo bem. 

Ponto de situação

por Isabel Paulos, em 27.03.22

Ainda não é desta que termino o primeiro Espanador. Falta-me a Nova Zelândia e confesso que não tenho apelo especial para escrever sobre a terra da grande nuvem branca. Hoje estive nas leituras prévias, mas não consigo espremer nada para que saia um postal que me contente. No caso da Coreia do Norte já tinha feito as leituras há dois meses, mas quando o disco pifou fiquei sem as notas que tinha tomado desde a pré-história. Acabei por isso por me limitar ao século XX.

Estive a congeminar e o próximo Espanador vai incidir sobre países europeus, precisamente aqueles sobre os quais se parte do princípio tudo saber quando, se formos francos, há grandes lacunas de conhecimento sobre aspectos básicos. Como é meu timbre admito a ignorância e estou com vontade de me dedicar à história da Inglaterra e do Reino Unido.

Em novita engoli a enciclopédia geográfica, tendo estudado a história de todos os estados independentes existentes à época, mas ninguém dirá. Repito uma vez mais aquilo que já aqui disse variadas vezes: tenho memória de peixe. Dificuldade em reter na memória o que absorvo. Cada um é como cada qual e não há como insistir. O Espanador é uma forma de me obrigar a fazer leituras sobre aquilo que me interessa e escrever os postais em regra um exercício de puro gozo ao mesmo tempo que fico na expectativa de reter informação útil sem a pretensão dos registos de grande desenvolvimento e aparente profundidade tantas vezes absolutamente desinteressantes e artificiais - excluo naturalmente os casos dos verdadeiros conhecedores que conjugam a capacidade de penetração e aprofundamento da história com capacidade analítica e verdadeira aptidão para estruturar o pensamento. Fora destes casos o pretenso conhecimento repele-me, sobretudo, quando anda de mãos dadas com a doutrinação e revela a pequenez espiritual dos autores. É caminho por onde não tenciono enveredar nunca, a menos que perca o juízo e o amor-próprio.

O meu hotel

por Isabel Paulos, em 27.03.22

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;)

Teatro

por Isabel Paulos, em 27.03.22

No último ano penso a vontade de assistir a uma peça de teatro. Nunca ganhei o hábito, tendo ido muito poucas vezes em novita ao Teatro. Li no Observador que a Seiva Trupe tem novo poiso no início da Rua Costa Cabral, e vem mesmo a calhar. Afinal em meia hora a pé estamos lá.

Acabei também por ver a programação noutras salas, como a da Casa Allen. A ver vamos se nos próximos meses supro mais essa lacuna na minha vida. Por agora inclino-me para os clássicos, poupando-me aos experimentalismos e doutrinações. Enfim, quando escolher e for assistir a uma peça aqui darei nota da experiência.

Tetê Espíndola

O Meu Amor

por Isabel Paulos, em 26.03.22

O espanador - Coreia do Norte

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 26.03.22

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16. Coreia do Norte

 

A anexação da Península da Coreia em 1910 pelo Império Japonês originou natural revolta dos coreanos e durante a Segunda Guerra Mundial fê-los juntarem-se ao esforço de guerra dos norte-americanos no fito de recuperarem a independência. Sucede que com o fim da guerra as duas potências vitoriosas acordaram na Conferência de Potsdam que a Península da Coreia fosse dividida em duas zonas de influência com ocupação militar provisória assente no marco divisório Paralelo 38: a zona norte ficou sob domínio soviético e a parte sul sob influência americana. Em 1950 a Coreia do Norte, com apoio soviético e mais tarde a participação chinesa, invadiu a Coreia do Sul com intenção de reunificar o país sob o comando de Kim Il Sung. Do lado da Coreia do Sul houve intervenção de tropas americanas. Em 1953 o armistício de Panmunjom determinou uma trégua que pôs fim ao conflito sem que viesse a ser assinado um verdadeiro tratado de paz.

Na Coreia de Norte vingou um regime comunista pró-soviético de partido único concentrado na industrialização e na auto-suficiência, que veio a perder o apoio russo em razão da cisão sino-soviética. A partir dos anos 70 a economia norte-coreana começou a decair com a crise energética provocada pela crise petrolífera passando a estar altamente endividada. Nos anos 90 estima-se que 800 mil pessoas tenham morrido de fome.

É difícil perscrutar o que se passa na Coreia do Norte atenta a ausência de informações sobre o que se passa neste país isolado do resto do mundo com um governo norteado por uma política extremista, com total opressão interna e intenções de agressão externa. Um país onde existe trabalho escravo e execuções públicas. Além de reconhecido como pólo de actividades cibernéticas maliciosas. É por isso de extrema importância o testemunho de quem está dentro dessa bolha tenebrosa que é a vida norte-coreana.

A realizadora do filme Soup and Ideology Yonghi Yang conta em documentários a história da família - coreanos emigrados no Japão em busca de uma vida melhor, com toda a envolvente de discriminação associada e a particularidade da comunidade coreana no Japão espelhar o conflito norte/sul do país de origem. Descreve a sedução no pós-guerra da primeira facção pela Revolução Comunista. Relata a forma como nos anos 70 o pai, entusiasta do regime socialista da Coreia do Norte, deu os três filhos rapazes adolescentes como uma espécie de presente de aniversário a Kim Il Sung, enviando-os orgulhosamente para o país de origem para viver na capital, Pyongyang. E a forma como pouco depois os pais se aperceberam do erro que cometeram ao receberem cartas dos filhos, nas quais se mostravam sempre muito agradecidos e tecendo louvores à Coreia do Norte ao mesmo tempo que juntavam fotografias dos próprios cuja magreza extrema os denunciava famintos. A realizadora descreve que esteve mais de uma década sem ver os irmãos e quando autorizada a visitar a Coreia do Norte, os viu por breves minutos, sendo orientada a usar o tempo nas visitas a museus laudatórios da história da Revolução.

A génese do programa nuclear da Coreia do Norte, intensificado nos anos 80/90, remonta aos anos 60/70 quando a União Soviética forneceu o primeiro reactor e foi construído o segundo - em resposta às pré-existentes ogivas nucleares na Coreia do Sul instaladas pelos Estados Unidos. Os norte-americanos negociaram nos anos 90 troca de ajuda económica pelo desmantelamento do programa nuclear norte-coreano, que nunca se concretizou, tendo-se a Coreia do Norte desvinculado do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares em 2003, continuando a desenvolver e modernizar armas nucleares e misseis balísticos, em violação das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. No último ano Kim Jong Un tem promovido o lançamento de diversos misseis balísticos e ameaçou suspender a moratória de quatro anos quanto a testes nucleares e lançamento de mísseis balísticos intercontinentais.

 

Desta saga existem nas Comezinhas as entradas abaixo indicadas, muito desiguais entre si.

 

1. O espanador - E.U.A.

2. O espanador - Venezuela

3. O espanador - Peru

4. O espanador - Brasil

5. O espanador - Áustria

6. O espanador - Hungria

7. O espanador - Angola

8. O espanador - Nigéria

9. O espanador - Moçambique

10. O espanador - Rússia e Ucrânia

10.A. O espanador - Ucrânia

11. O espanador - Turquia

12. O espanador - Síria

13. O espanador - Israel

14. O espanador - Índia

15. O espanador - China

 

Abafo

por Isabel Paulos, em 25.03.22

As paixões passam: vividas e devaneadas. Consomem o que têm de melhor, os ímpetos, os sonhos, a vontade. Labaredas descontroladas não se compadecem do razoável e conveniente. Bem pode dizer que é perda de tempo, que é de todo inadequado ou mesmo nocivo, mas entrega-se em silêncio ao homem ou à ideia de um homem, imprudente, de mãos abertas, sem freio, absorvendo o mundo que ele transporta. Eis que o tempo vai passando, depara-se com ilusões e enganos. O fogo vivo faz-se brasa mais quieta. O assomo de realidade, de contrariedades, de pé no chão faz-se abafo. A brasa dos sonhos desencantados amorna até se transformar em cinza para adubar um coração mais sofrido, mais rico. Saiba ele fazer chegar à mioleira o que aprendeu.

Diário

por Isabel Paulos, em 25.03.22

Mais uma semana retida. E na segunda-feira a cirurgia. Resta por isso conformar-me a ter que passar mais uma semana reclusa e arranjar o que fazer. Nada como aproveitar o tempo para acabar a primeira série do Espanador. É a isso que me vou atirar neste fim-de-semana. Entretanto há também um laivo de postal na cabeça sobre articulação da actual guerra e as implicações dos principais actores geopolíticos com uma ideia em que venho a insistir nos últimos meses: a virtualização da realidade. Não me atiro já a escrevê-lo por acarretar dizer exactamente o que penso sobre algumas posições dos actores políticos e o terreno da opinião estar minado. É preciso ser cuidadosa, não por medo de ser acusada de ter posições inaceitáveis, mas por não ser compreendida. Não é que me doa a crítica ou isolamento, mas o certo é que os rótulos voluntariosos impedem a comunicação, tornando-a supérflua. Não adianta dizer o que se pensa se quem lê tiver uma postura de total relutância baseada no preconceito ou em visões maniqueístas. 

Num registo completamente diferente tenho lido a Matemática para Pessoas com Pressa, e confirmo a minha extrema dificuldade no campo da lógica. Julgo que quando tiver tempo será melhor ler o livro a meias com o Nuno, sempre me vai iluminar uma ou outra ideia e desembaraçar os meus embrutecimentos na área das ciências.

Farfalla

por Isabel Paulos, em 24.03.22

Ennio Morricone

Karol - Habemus Papam

por Isabel Paulos, em 24.03.22

Sinais preocupantes

por Isabel Paulos, em 23.03.22

 

Duas notícias que deixam sinais preocupantes. A primeira face à Polónia ser Estado-membro da NATO e a noção que guardo do tempo de estudo e interesse pelo direito internacional do grau de gravidade implícito num corte de relações diplomáticas. A segunda desde logo pela perigosidade de colocar a hipótese do uso de armas químicas, mas também pelo sinistro que tem sido este constante mapear prospectivo dos acontecimentos por Joe Biden nos últimos dois meses, que os russos dizem tomar por uma espécie de espicaçar ou provocação. Em abono da verdade, gelo a cada declaração deste tipo de Biden. É sinistro. Dirão que é tão só a antecipação dos passos do inimigo, e correspondente aviso ao mundo. Não me parece tão linear, muito menos desinteressado. Espero que escrever isto não signifique para algumas almas ser pró-Putin. Não pondo em causa a importância de definir posição e de declarar apoio à Ucrânia, que continua a ser massacrada e palco de sucessivos crimes contra a humanidade, a mentalidade de jornalismo imediatista faz com que muitos precisem de correr e medir o grau de apoio (de língua) à Ucrânia, num joguinho infantil absolutamente dispensável para pessoas sensatas, que têm muito clara na sua mente a indignação e repúdio da barbárie infligida pelo facínora do Putin, não precisando de medir e exibir o grau de indignação para auto-satisfação ou para alimentar espírito de claque.

Ouvindo

por Isabel Paulos, em 23.03.22

Contra-corrente. A Ucrânia pode mesmo vencer a guerra? Sim, pode.

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