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Tcheka & Mário Laginha

por Isabel Paulos, em 31.05.22

Caminhos

por Isabel Paulos, em 30.05.22

Converso com quem conheço bem. Diz-me que tem saudade do tempo em que acreditava num punhado de ideias feitas e como era mais feliz então. Percebo-a. Se bem que o meu período de certezas tenha sido curtíssimo, não haja dúvida que a auto-estima dispara nessa inconsciência. É muito mais fácil encontrar contentamento estando bem consigo e certa das ideias próprias ou da tribo a que se pertence.

As respostas fáceis dizem que esse (o das certezas) é o caminho das pessoas inteligentes, saudáveis e felizes. Resumindo: o caminho da batota é o indicado pelos sábios dos dias presentes.

Arejar

por Isabel Paulos, em 29.05.22

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Apanhar ar na medida do possível.

A ler

por Isabel Paulos, em 29.05.22

Estará na História a origem das desigualdades entre países pobres e países ricos?

O livro "A Jornada da Humanidade", de Oded Galor, analisa a história do desenvolvimento económico, pondera as causas para diferenças entre países e projeta um futuro risonho. Mas com que fundamentos?, de José Carlos Fernandes, no Observador.

Embora a divergência entre países resulte da complexa interacção de múltiplos factores, cuja relevância relativa vai variando ao longo do tempo, por vezes é tentador identificar decisões ou eventos singulares que funcionam como ponto de viragem na história. Por exemplo, Alexandre Herculano atribuiu, em 1871, no discurso “Causas da decadência dos povos peninsulares”, o declínio de Portugal e Espanha a partir do século XVI aos éditos de 1492 (em Espanha) e 1496 (em Portugal) que determinaram a expulsão de “judeus e mouros, raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram”

Se nessa dupla expulsão houvesse que seleccionar um único exemplo para ilustrar como a decisão dos monarcas ibéricos representou um “tiro no pé”, dificilmente se encontraria alguém melhor do que o judeu Abraham Zacut (1452-1515), um dos expoentes da matemática e astronomia do seu tempo, nascido em Salamanca. Os contributos científicos de Zacut foram cruciais para colocar Portugal e Espanha na vanguarda da Europa – entre eles estão um novo tipo de astrolábio, especificamente concebido para medir a latitude em embarcações, e o Ha-hibbur ha-gadol (O Grande Livro), uma colecção de 65 tabelas astronómicas que constituiu um precioso auxílio à navegação em mar alto. O Ha-hibbur ha-gadol foi elaborado entre 1470 e 1478 e traduzido para espanhol em 1481 e para latim em 1496 (ano em que surgiu uma nova versão castelhana, o que atesta o interesse suscitado pela obra). A versão latina, com o título Tabulae tabularum celestium mottum sive Almanach perpetuum (Livro de tabelas dos movimentos celestes ou Almanaque Perpétuo), foi impressa em Leiria pelo judeu Samuel d’Ortas e foi traduzida para latim por José Vizinho, um judeu natural na Covilhã, que fora aluno de Zacut e se tornara médico e conselheiro de João II de Portugal. Foi na corte de João II que Zacut buscou refúgio após o édito de expulsão de 1492, mas o ano em que a sua obra foi publicada em Portugal foi também quando Manuel I promulgou o édito de expulsão dos judeus, o que fez com que Zacut acabasse os seus dias em Damasco.

[...]

Galor não menciona a expulsão dos judeus da Península Ibérica, mas chama a atenção para outro evento singular, quase contemporâneo, que poderá ter contribuído para o início do declínio de outra super-potência: o Império Otomano. Enquanto na Europa a imprensa de tipos móveis desenvolvida por Gutenberg desencadeou, na segunda metade do século XV, uma verdadeira revolução na difusão e preservação do conhecimento, em 1485, “o sultão otomano publicou um edital a proibir a impressora de tipos móveis em escrita árabe, uma tentativa para aplacar os receios da influente elite religiosa de perder o monopólio sobre a disseminação dos conhecimentos da religião – e, em menor grau, dos escribas, que sofreriam com a concorrência”.

Corrupio

por Isabel Paulos, em 29.05.22

De castigo: corrupio cem vezes. É da febre e da dificuldade em respirar por inchaço provocado pela inflamação das vias respiratórias (relatório completo). Desculpas. ;)

Já agora, Póvoa de Varzim. 

BYUNG-CHUL HAN

por Isabel Paulos, em 28.05.22

A Sociedade da Transparência, a Sociedade do Cansaço.

Estranhezas

por Isabel Paulos, em 28.05.22

Tenho curiosidade em saber a razão para as minhas (muitas) visitas às Comezinhas serem registadas nos últimos dias nas estatísticas como sendo de Lisboa e Oeiras. Não é que ficasse desagradada com o corrupio de espreitadelas dessas zonas do país, mas à quantidade delas (e ao facto de repente ter poucas do Porto) só podem ser minhas.

Diário

por Isabel Paulos, em 28.05.22

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É já uma imagem muito repetida neste blogue. Para quem só aprecia outro tipo de peixinho, é uma sensaboria, mas cá vai: abriu a época da caça à sardinha. Pena que houvesse mais olhos do que barriga. A fome não deu sequer para metade do prato. Se ao menos isso de reflectisse na balança seria feliz, mas qual quê: já lá vai o tempo em que tinha boas notícias todas as semanas. Estagnei a perda de peso nos menos trinta e dois quilos. Não é que seja mau até esse ponto (recuei sete anos), mas bem precisava de menos dez quilitos ou um pouco mais (para recuar quinze). Voltar há vinte e tal anos está fora de causa. Ao que parece a introdução o pão (a minha perdição, ao lado de tudo quanto seja hidratos) está a dar cabo do plano que corria segundo o padrão normal até ao mês passado. Enfim, comilona me confesso.

Antes do almoço ajardinei os vasos da varanda e sonhei pela enésima vez com uma pequena casa com minúsculo quintal - quero mesmo arranjar sarilhos. Sucede que mantenho atenção aos sites imobiliários e os preços das casas continuam a subir: agora nem na periferia está ao meu alcance uma pequena moradia com jardim. Continuo a achar absurdos os preços imobiliários, que só se justificam pela compra por atacado por estrangeiros. Para os rendimentos médios portugueses o valor da habitação está exorbitante. Mas de que vale afirmar isto? Num estado que caminha para o socialismo a questão é resolvida com remendos ínfimos (mas muito anunciados e badalados de modo repetitivo) de apoio há habitação económica para os mais desfavorecidos. É assim que entre nós se resolvem os problemas. As empresas de distribuição de electricidade esbulham os clientes? Não faz mal, continuem a fazê-lo e que se criem contratos acessíveis para os mais carenciados. A habitação está cara?, não faz mal, continue a especulação e crie-se uma bolsa de rendas acessíveis para os mais vulneráveis. É a forma de governar à portuguesa. A da esmola.

Houve alturas em que pensei mudar-me para Vila do Conde ou Póvoa de Varzim, mas iria complicar a vida, a menos que ficasse em definitivo em teletrabalho. Ainda assim, é uma ideia para a (distante) reforma: viver numa cidade mais pequena que tenha mar. Não há como ter sonhos, ainda que pouco viáveis. Mantém-nos vivos.

Ainda sem planos para o resto da tarde e noite. Todos os que tinha foram gorados pela Covid. Não sei se leia, se escreva ou faça pura ronha. Ando numa preguiça só.

A ler

por Isabel Paulos, em 28.05.22

Madeleine Peyroux

por Isabel Paulos, em 28.05.22

Comentários nas Comezinhas

por Isabel Paulos, em 27.05.22

Decidi neste fim-de-semana abrir comentários nas Comezinhas. Não o faço agora por não estar com paciência no momento para ver as definições e configurações. Preguiça. Espero não mudar de ideias. Não é que preveja que existam muitos, sequer vários comentários. Aliás, ao longo destes três anos foram poucas as mensagens na respectiva caixa colocada na banda lateral direita, como são pouquinhos os leitores. Explicar que isto não é vitimização ou pedinchice, mas tão só vontade de ser rigorosa em vez de lírica ou palerma enaltecendo-me à toa como está na moda e reconhecida gratidão aos poucos que se dão ao trabalho de ler as minhas patetices com apontamentos esparsos de sensatez, é tempo perdido, mas ainda assim fica registado o que seria escusado.

Quanto aos que acham obrigatório (não sei se do ponto de vista moral, estou por descobrir) abrir comentários nos blogues, digo apenas que Deus nos livre dos puros doutrinários do pluralismo. Têm sido sempre os mais tiranos, os que baseiam a vida na lei do mais forte, os que mais impõem os seus apetites e preconceitos aos demais e os que mais distorcem a liberdade em seu favor, ainda que façam tudo isto dissimuladamente.

Nego-me a fazer parte ou mimetizar tribos que vendem falsa imagem de perfeição, continuarei a admitir que lido mal com o contraditório: sou um poço de defeitos.

Abrirei comentários por me apetecer. Também por respeito ao punhado de gente que por aqui vai passando, em cujos blogues deixo comentários, não me parecendo justo não dar a oportunidade de se quiserem, palpitar. Naturalmente possibilidade extensível a todos.

*

Adenda: afinal já estão abertos. Foi muito rápido.

Nova realidade

por Isabel Paulos, em 27.05.22

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Desta fui apanhada. Tive sorte de estarmos numa fase mais benévola do bicharoco (por enquanto apenas afectada na garganta, com congestionamento nasal e suores). Depois do teste feito à hora do almoço fiquei retida em casa. Ficarei uma semana em teletrabalho. A nova realidade para tantos.


Mais exposição. Falta de noção do ridículo. Falta de bom gosto. Vitimização (última acusação). Que mais? Nem sei. É que não se aproveita nada neste blogue. Nadinha.

Eternos adolescentes

por Isabel Paulos, em 27.05.22

É curiosa a aversão aos relatos realistas de intimidade pessoal ou familiar. Os críticos não desprezam enaltecimentos bacocos de feitos individuais ou de linhagem. Neste oásis à beira mar plantado tudo quanto seja panegírico é social e intelectualmente aceite e louvado. Agora descrever a realidade tal qual ela é ou invocar memórias não abonatórias de si próprio ou dos seus próximos é crime de lesa majestade: egocentrismo, narcisismo e exibicionismo, no mínimo. Matéria esconsa de que se foge, essa a da verdade. Se a autora for mulher, uma menoridade, com toda a certeza.

Eis uma das razões por que nunca crescemos, mantendo-nos eternamente no sebastianismo, a viver de mitos e balelas fantasiosas. Líricos.

Por esta razão o cunho diarístico em Portugal nunca pegou - vulgaríssimo noutras paragens como entre os ingleses. Diários neste país quase não se vêem, a menos que sejam tímidos disfarces deles, tão encriptados quanto o medo dos portugueses em dizer a verdade. Vivemos infantilizados. Continuamos uma sociedade machista e atávica a que interessam mais as esfregas do ego de bravos e impolutos marialvas (ainda que enviesadas ou dissimuladas, isto é, aparentemente depuradas de ego) do que o banal (e rico) relato da vida, das relações e do quotidiano tal qual se apresentaram.

Como reparo que a democratização faz como que os tiques do modo de estar de gente civilizada se disseminem por mimetismo na sociedade ao fim de décadas, ainda vamos ter disto por muito tempo.

A realidade vai continuar a impressionar e assustar eternos adolescentes por resolver.

*

Nota. Neste pequeno texto o corrector da SapoBlogs não reconhece quatro palavras: panegírico, diarístico, atávica, impolutos. Todas elas vulgar léxico.

Fim do acordo de comodato com Berardo

por Isabel Paulos, em 26.05.22

Será que ainda se vai a tempo de ver a  Colecção Berardo em Belém até Janeiro de 2023? Há dois anos estive à porta, mas por faltar pouco mais de meia hora para encerrar não cheguei a entrar.

Diz-se na notícia do Observador que o próximo Museu de Arte Contemporânea poderá conter obras daquela coleccção. Não é garantido.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 26.05.22

Grandes dúvidas

por Isabel Paulos, em 28.02.20
 

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Nos polígrafos fico a saber o que por aí se diz. Bastante mais informada, é verdade. Resta a dúvida se não se trata do megafone de rumor versus politicamente correcto em vez de detector de mentiras. Em todo o caso, puro entretenimento. That's all folks.

 

Sonny Rollins

por Isabel Paulos, em 26.05.22

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 26.05.22

Aparência

por Isabel Paulos, em 09.02.22
 

Hoje não tive muito tempo para pensar, ainda assim a meio do dia ocorreu-me que vivemos numa época em que a verdade passou a ser aferida pela popularidade da preposição afirmação. No reino da moda dos fact check jornalísticos, eles próprios altamente manipuladores, não resta nada à busca de verdade senão o tempo de antena e a notoriedade. As afirmações não valem por si enquanto verdadeiras ou justas, mas apenas como foco de atracção do maior número de adeptos e a forma mais organizada como se juntam em claque e ecoam a sua tese.

A realidade é, ela própria, construída em cima de vagas de disfarces e denomina-se inteligência a habilidade de adequação ao mundo de ficção ilusão assim criado. Um logro só, o alheamento na 'era da informação'.

Vocábulos como ‘facto’, ‘verdade’ ou ‘justiça’ perderam completamente o significado, passando a meros joguetes para atrair likes ou seguidores. E ai de quem disser o contrário - proscrito da modernidade. Vale a forma e a aparência. 

 

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 26.05.22

Socorro, o mundo é gigante

por Isabel Paulos, em 16.07.21
 

Se há o hábito de pensar na vida, fatalmente se chega à conclusão que o mundo e o conhecimento sempre estarão além. Com maior ou menor felicidade todos os dias se argumenta, todos os dias alguém se debruça sobre fracção ínfima do Universo e tira conclusões. Ainda que tenha o cuidado e a seriedade de questionar o que é preconcebido no raciocínio e aquilo que passa ou não o teste de validação de veracidade, esta será sempre parcial. No dia seguinte, talvez no próprio dia, quando não no exacto momento em que se acaba de proferir a afirmação original, se a postura for honesta, outros raciocínios irão contradizer o pensamento inicial. A procura da verdade é um processo difícil e doloroso, em que a todo o momento se é confrontado com as próprias contradições.

E se há mais de dois milénios no Ocidente – no momento em que surgem os primeiros questionamentos e arranjos filosóficos - parecia possível chegar-se a uma concepção do mundo satisfatória, hoje a tarefa é monumental. Não só o conhecimento do mundo físico aumentou exponencialmente, como os processos de intelectualização do pensamento se foram complexificando de modo absurdo.

E nem é preciso recuar tanto. Se retrocedermos aos séculos imediatamente anteriores - ao tempo das enciclopédias -, percebemos como havia genuína intenção de conseguir reunir em obras mais ou menos extensas todo o saber do Universo.

Onde parará este optimismo e ingenuidade quando comparados com a estupefacção face ao fluxo massivo de dados, informação, conhecimento e sabedoria actualmente à disposição da população mundial? Será que a maioria apenas conseguirá ter a percepção dos dados e da informação – forçando muito a barra, como diriam os brasileiros: o seu julgamento viverá nas sombras da caverna de Platão – e só uma minoria alcançará o conhecimento e sabedoria – ousando mais uma vez: acederá à realidade fundamental das formas ou ideias.

Porém, a questão é: face ao gigantismo da realidade a conhecer, será possível chegar à Verdade, dada a dificuldade de obter uma concepção que explique de forma satisfatória o Universo, o seu funcionamento e o sem-número de ideias que sobre ele versam?

A atitude de alguns é a de se alçar ao patamar do conhecimento e da sabedoria, pisando os que pressupõem a eles não conseguirem aceder, não tomando consciência da fragilidade do próprio conhecimento. Raramente vejo os bem-pensantes admitir erros e contradições. Salvo em falso discurso para dar o ar da tolerância – quando não de condescendência sobre os pobres néscios. Raramente confessam as suas fragilidades e não parecem perceber que sem o fazer não têm ossatura nem o direito de apontar erros a terceiros. Ora, a prosápia é a forma mais infame de desconhecimento – os que têm a possibilidade de aceder ao conhecimento, têm obrigação de perceber os mecanismos de construção do pensamento; têm maior responsabilidade. Sucede que não raro, ao menos em Portugal que é a realidade que conheço, foge-lhes o pezito para a pura maledicência e presunção sem fundamento – se é que alguma vez a presunção pode ter razões de base atendíveis. Perdem-se em injúrias contra a ignorância atrevida, a ignorância voluntária; em suma, contra a estupidez. Odeiam o mundo da discussão das massas, ficam de pêlo eriçado quando observam uma mulher ou um homem fora do mundo académico, fora do gueto de amigos intelectuais, fora da tribo daqueles que preconcebem como pessoas que se podem ouvir ou ler. Nuns casos, a arrogância é de tal modo doentia que são incapazes de escutar ou decifrar o que dizem os anónimos por falta de pedigree (e por contraposição aos peões dos palcos formais e institucionais do conhecimento), noutros a falta de seriedade é de tal ordem que ouvem e lêem estes homens e mulheres desconhecidos e aproveitam abusivamente os seus contributos, sem jamais os considerarem como iguais ou reconhecerem a validade do seu pensamento.

A título de exemplo, esta arrogância face ao presente texto ditaria qualquer coisa do género: olha, uma atrevida ignorante a tentar numa passagem dar o ar de inteligente, com paralelo infundado e desajustado a Platão sem perceber nem aprofundar, por ignorância voluntária, o estudo da obra. A presunção exigiria três citações, quatro referências bibliográficas e uma menção a amigo interessado rotulado de eminente pensador, para que o texto pudesse ter validade. Quando a simples abertura de espírito e humildade ditaria que antes de etiquetar o presente texto como lixo, se pudesse talvez vislumbrar numa simples linha ou par de palavras, um pequeno e modesto rastilho para pensar.

Mas não, o julgamento será: é muito atrevimento, muita ignorância, muita estupidez.

O mesmo acontece aos incalculáveis milhões de observações de desconhecidos encontradas no espaço online. A mais pungente manifestação da Democracia – as redes sociais -, não é necessariamente um esgoto a céu aberto como tantos querem fazer crer. As redes sociais têm muitas fragilidades, mas estão expostas e as suas falhas são na maioria das vezes assumidas pelo pensamento dominante. Ao contrário das debilidades de quem só conhece livre pensamento (esclarecido) nos canais recomendados, tantas vezes por critérios pouco claros e pouco honestos. Na melhor das hipóteses, por medo de ser engolido por essa onda gigante de opinião.

 
 

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 26.05.22

Novos Julgamentos

por Isabel Paulos, em 11.12.20
 

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*

Tal como julgo ter esgotado por uns tempos os postais sobre a insensatez de não se ouvir o que têm a dizer os extremos mais à direita, depois de em Portugal passarmos quatro décadas de beneplácito com os extremos mais à esquerda, vou tentar secar de uma vez o tema dos fact-checks, polígrafos e afins. Ciente que não vou conseguir e que, como se costume, me vou meter em mais uma alhada interminável.

Quem tenha assistido à forma como a mentalidade predominante evoluiu nas últimas décadas e presta atenção no modo desajustado com que se diz repôr a verdade dos factos com esse tipo de mecanismos, percebe que esse mundo é um saco de gatos onde cabe tudo: desde factos propriamente ditos a preconceitos, suposições, intenções e juízos de valor e tudo mais quanto se possa imaginar.

Quem tem uma noção do que é o Direito sabe o quão ingénua ou perversa é a ideia daqueles acreditam ou dizem acreditar que a interpretação da lei se faz por juízos objectivos. Julgar o Direito mera questão técnica é uma tolice. Para lá de todo o conhecimento da lei propriamente dito e da técnica, está o espírito da dita e é ele que guia a interpretação ou julgamento mais correcto. Não se pode interpretar uma lei, sem perceber a sua causa, aquilo que lhe deu origem. Muito menos aplicá-la ao caso concreto. E até o espírito da lei pode ser questionado porque, como tudo na vida, obedece aos critérios de tempo e espaço.

E vem isto a propósito da dificuldade de fazer juízos de valor válidos sobre o quer que seja, incluindo factos. E se isto é assim para gente que está habituada ao estudo e interpretação das leis – disciplina com uns séculos de experiência -, imagine-se para os detentores há relativamente pouco tempo do poder de divulgação de notícias e escrutínio dos vários poderes instalados na comunidade e a tentação que existe de se arvorarem em juízes supremos de todo e qualquer comportamento humano.

E é neste contexto que vemos gente convencida – sem qualquer hesitação de tão inteiramente convencida -, de ser capaz de julgar como verdadeira, falsa ou talvez nem tanto determinada afirmação, sem se dar ao esforço de perceber nada do que está por detrás de cada declaração produzida. Percebendo zero da causa das coisas. Correndo para o que mais parece interessar hoje em dia: intenção de julgamento rápido. Os fact-checks dos jornalistas caem no mesmo logro das redes sociais. Acreditam ser detentores do poder de julgamento e com isso pretendem fazer vingar a mentalidade dominante. A mais atraente para cada um destes auto-investidos juízes.

O que me levou a escrever as linhas precedentes foi a constatação de que há jornalismo que usa as redes sociais como fonte e ganha-pão e, para cúmulo, em vez de estar agradecido, destrata-as para se arvorar em grande senhor dos factos. Ora, as fontes – agora com voz própria audível e com todos os vícios que sempre tiveram -, merecem respeito. As redes sociais, ainda que não embelezem a democracia, são a mais pungente manifestação da dita.

 
 

Nebulosa

por Isabel Paulos, em 25.05.22

Talvez tenhas exagerado nas recapitulações ao republicar várias de uma vez. Nem sequer foi uma seriação muito cuidada. Adiante. Desde ontem andas com ideia de escrever uma nebulosa sobre a dificuldade em dizer exactamente o que pensas. Há épocas em que o terreno parece estar minado. Custa-te menos expores a intimidade – e custa muitíssimo, apesar de poder parecer que o fazes de ânimo leve – do que declarares o que pensas verdadeiramente sobre o tempo presente e o que se avizinha ou pelo menos algumas ideias que te assaltam ocasionalmente. Se fizesses associações entre as desgraças actuais e passagens bíblicas serias de imediato rotulada de louca – como se estivesses a salvo, enfim. Se revelasses premonições logo serias etiquetada de cretina fora da realidade e do tempo. Se te permitisses expressar de modo claro a inviabilidade de um planeta com oito mil milhões de pessoas e a inevitabilidade de uma redução drástica na população mundial serias catalogada de uma assentada de louca, burra e, sobretudo, desumana. É difícil viver e tentar pensar em voz alta num tempo no qual em cada esquina está um piedoso e convicto cientista de trazer por casa pronto a dar ordem de excomunhão ao senso comum com o aplauso dos intelectuais da praça muito contentes com a liberdade que se respira à volta do seu umbigo.

Se tivesses arte e sabedoria suficiente para criar ficção digna de retratar o tempo presente, poderias escapar ao cativeiro. Mas não tens. Foge-te o pé para a realidade, por mais inverosímil que a tua visão possa parecer a olhos alheios. Além do que te falta arcaboiço de conhecimento acumulado para chegar aos vértices de cada questão. Por outro lado, sentir-te-ias ridícula e falsária pondo-te em bicos de pés, vivendo da aparência a debitar sapiência colada a cuspe como se fosses uma qualquer erudita – num tempo em que é cada vez mais fácil e há mais artifícios para dar o ar de que se sabe. Sabes pouco, além do que o senso comum e a atenção ao mundo te permite conhecer. E não podes deixar de frisar uma vez mais ideia tão repisada nas Comezinhas: o constante abafar e ridicularizar do senso comum em prol da doutrinação e da valorização da aparência gera o descambar do próprio bom senso em agressividade, ódio e violência.

O conhecimento da história da evolução da humanidade e da própria ciência não é incompatível, antes pelo contrário, com a valoração da força da Natureza no Universo. Reparas que é cada vez mais comum a ignorância e petulância na invocação da ciência e da erudição. Notas que a intolerância é cada vez mais aceite se tiver sinal positivo, isto é, se for proveniente de quem tem voz. E mais, cada vez mais confundida com Liberdade.

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