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Hóstias

por Isabel Paulos, em 31.08.22

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Pensei, pensei o que escreveria no regresso desta mini pausa de dedilhar na caixa de edição das Comezinhas. Teria de ser qualquer item impactante, que mexesse mesmo com o destino do mundo e o significado das coisas. Vai daí, congeminei trazer umas postas de red fish com palito a segurar a placa do preço. Só que ao passar pelo supermercado tentei-me com estas hóstias. Manias de criança. Na enfermaria do Externato da Misericórdia uma das irmãs encarregava-se de fazer e prensar as hóstias, dando as aparas aos alunos. Bem sei que é local um pouco estranho para tratar de hóstias, mas os tempos antigos eram diferentes e assim mesmo lá acontecia. As que hoje trago são de Salamanca, vendidas no Froiz. São óptimas. O sabor assemelha-se ao das línguas da sogra. O Ritz, gato europeu, e eu devoramo-las a meias, como em criança fazia aos gelados com o Ritz, cão Serra da Estrela.

Não estão consagradas, pelo que os ateus não precisam ficar preocupados com o perigo de contaminação e os crentes podem saboreá-las e divertir-se sem peso de consciência.

Piadinhas envolvendo religião, mais old fashion não podia haver. Soam às antigas graçolas de seminarista. Cada vez mais desinteressantes, as Comezinhas.

Boa noite.

Esperanza Spalding no Carnegie Hall

por Isabel Paulos, em 26.08.22

Agenda

por Isabel Paulos, em 26.08.22

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Desde há semanas tenho vindo a pensar escrever sobre emigrantes e gente que viveu nas ex-colónias. Deixo o tema em agenda, mas sempre vou dizendo que pretendo aflorar o preconceito com que uns e outros foram ou são mimados. A noção básica que muitas das críticas têm tanto a ver com ressentimentos e frustrações de quem maldiz quanto com as pechas que eventualmente sofram os primeiros.

Outro tema para ficar em agenda é uma vez mais o dos dissimulados. Há 22 levei com uma história absurda de um tipo com perfil falso. Passado todo este tempo, ainda não me pediu desculpa de modo identificado e directo e acha-se no direito de continuar a atazanar a partir de perfis falsos, mantendo a pose digna quando assina o nome verdadeiro. Não me chegava esta abécula e percebo, agora, que outro também gosta de dar ar respeitável quando identificado, mas de tretas palermas de modo encapotado. Claro que dirão que isto são boatos e é evidente que esta gentalha ficará impune. Quem sai mal na fotografia serei eu, que dou ar de tonta com a mania da perseguição, mas pouco me rala que a verdade não seja visível aos outros. Conheço-a. Nesta choça onde vivemos ser pulha é requisito para ter sucesso. Isto só me serve a mim, para que saibam como os tenho na conta de vermes. O post servirá para colocar o ponto final que há muito me aconselham pessoas lúcidas.

Por último, ao voltar destas pequenas férias do blogue vou tentar as tais pinceladas (muito fraquinhas, já se sabe) sobre alguns países da Europa. Isto é, vou tentar regressar ao Espanador. Vamos ver se consigo.

Deixo-vos com Esperanza Spalding no Carnegie Hall. Até já.

Rouff

Benjamin Brand

por Isabel Paulos, em 25.08.22

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 25.08.22

Gente sensível

por Isabel Paulos, em 12.06.20
 

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Antigamente chamávamos a isto timidez. Para além de algumas extrapolações, que me parecem pouco mais do que auto-justificativas da incapacidade de encarar as más escolhas e o fracasso, é bom que se estudem estes aspectos da personalidade. Determinam decisivamente a vida de cada um. Conhecê-los, aprender a aceitá-los e a lidar com eles pode ajudar muito a superar difíceis obstáculos. Não é fácil ser sensível e introvertido. Além de poder ser um travão de conquistas pessoais, pode ser fonte de grandes equívocos e injustiças.

Waldemar Bastos

Muxima

por Isabel Paulos, em 24.08.22
 

Que Muxima ilumine os angolanos.

Aqui a pensar com os meus botões comovidos e orgulhosos das declarações de rua dos angolanos: jamais diria "que N. S. de Fátima ilumine os portugueses". A vida é estranha.

Angola tem o condão de me fazer chorar, de me fazer sentir.

Os outros

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 24.08.22

Mais notas sobre o que toda a gente pensa e sente mas não diz. Razão para a tão comum falsa sensação de coerência - a ausência de contradições revela tantas vezes a omissão de algumas verdades por puro cálculo. Omitindo partes da realidade alcança-se a tal falsa coerência.

Os outros. Digo muitas vezes que o meu tesouro são os outros e pode parecer uma treta para disfarçar o narcisismo e dar o ar de pessoa equilibrada e terna, mas lamento: é isso mesmo (a adversativa aqui faz um sentido do carambas). A par das grandes figuras da minha vida, na qual mãe e Nuno figuram em destaque pela dose monumental de conhecimento que me passaram (atenção, chegou cá muito pouco e deturpado por responsabilidade minha, as fontes são bastante mais ricas e lúcidas), outros familiares e amigos contribuíram enormemente para o que sei e sou. Digo isto porquê? Por me fazer imensa aflição a forma pouco franca com que muitos exibem conhecimento sem pagar tributo. Dir-se-ia que nasceram ensinados e que tudo o mais adveio de esforço próprio. Ora, sinto-me precisamente no lado oposto, daqueles que absorvem o que os outros dão. Talvez seja uma das razões para tantas explicações soarem a infantilidade. Um dia alguém me disse que tirava o melhor dos outros. Senti-me um pouco vampira, a sugar o sangue dos incautos. Mas é certo que faço isso mesmo, sugo os outros, como todos, aliás. A diferença é que e o admito e declaro.

Como todos conheci centenas de pessoas. Poucas de modo mais próximo. Alguns fizeram-se amigos, muito poucos amigos para a vida. De todos herdei tiques, expressões, manias, verdades e preconceitos. Cresci numa família grande e os laços mais estreitos ou alargados talvez me tenham dado a dimensão do espaço de liberdade para escolher, para procurar saber. Cada um traz um mundo e foram muitos mundos a conhecer, tive de seleccionar os de maior interesse. Sei lá se numa perspectiva justa ou meramente aleatória.

Ao longo dos anos para lá dos conhecidos há aqueles que nos chegam através das escolas e faculdades, dos livros, dos meios de comunicação social, da internet. Aí a relação é, na maioria dos casos, unidireccional. Oiço, leio, aprendo. Absorvo os outros sem os conhecer. Ao lado das muitas dezenas de pessoas com quem fui trocando palavras, herdando laivos de temperamento (odeio a palavra idiossincrasia), há uma mão de gente (bem, sobram dedos) que segui com mais atenção e por mais tempo. É curioso este termo “seguir” a mim soa sempre a qualquer coisa de ilícito, tipo stalker. E dou por mim a pensar se neste meio não seremos um pouco perseguidores mútuos que se vão conhecendo uns aos outros de ginjeira - muitas vezes sem trocar uma palavra. Sim, por mais que se resguarde a intimidade (não aqui nas Comezinhas, que são um antro de pouca vergonha), ao fim de algum tempo vão-se conhecendo os traços de personalidade. Tudo isto para dizer que me parece importante a consciência do que aprendemos com os outros e a estupidez que é armarmo-nos em carapaus de corrida. Sim, ao lado destes poucos com quem tanto aprendi, há dúzias de intelectuais, de gente de acção e de tantos que a eles se encostam, que falam e escrevem e tudo espremido não vale (quase) um chavo. Como sou aproveitadinha, admito que até desses herdo ideias e palavras. Isto para que haja noção do grau de honestidade que coloco nestas últimas palavras. Por tudo isto me fazem tanta impressão sabichões de geração própria.

O certo é que para imbecil narcisista que passa a vida a falar de si própria vou tendo bastante disponibilidade para ouvir e ler os outros (ainda que tantas vezes discordando para dentro e algumas entrando em fúria). Tantas vezes disposta a dar atenção a gente que não demonstra ter um pingo de respeito pelos outros, apesar de todas as falinhas mansas, grandes defesas da tolerância e indignações tão sentidas contra as injustiças. O certo é que, tal como em criança, os outros me continuam a causar curiosidade e, como gosto pouco de cinismo, perplexidade. Tivesse mais vidas para os conhecer. Vá, se esta for comprida, já não é mau. Pode ser que venham surpresas boas.

Não se constrói um carácter sólido sem consciência das bases que o sustentam e dos limites que o circunscrevem. Dar ar de tonta e ignorante ajuda-me a preservar o espaço vital. Não obstante, estou muito atenta, curiosa e, por mais intransigente seja e para alguns mente estreita, estou genuinamente de espírito aberto a tentar perceber o mundo. Os outros continuam a fascinar-me. Uns mais do que outros, vá (e assim com um "vá" e um advérbio a seguir se estraga estrategicamente um texto).

Como tantas vezes disse ao longo destes anos, sou toda olhos. Hoje, com Nat King Cole, sou toda ouvidos, sou toda orelhas.

 

Adenda. Quando era novita encanitava-me gente, sobretudo, mulheres que faziam muitas referências familiares: filhos, maridos, etc. Achava uma falta de respeito pelos ditos. Como as coisas mudam. 

Nat King Cole

Tell Me All About Yourself

por Isabel Paulos, em 24.08.22

Bem sei que hoje devia colocar o brilhantismo de Stockhausen para impressionar os passantes. Talvez o Quarteto de Cordas com Helicópteros (não percam este extraordinário músico que o Nuno me recomendou ouvir há uma boa dúzia de anos quando falámos em música absurda), mas aqui nas Comezinhas é tudo muito ó simples.

Bom dia.

Diário

por Isabel Paulos, em 24.08.22

Depois de mês e meio, só faltam três dias para acabar a fase mais trabalhosa - têm sido as férias de colegas e a sobrecarga normal nestas alturas. Salvo Fevereiro e Março, no caos total, este foi o período de maior trabalho. Apesar ter levado esta temporada mais levezinha, com dedicação e empenho mais sereno - em Fevereiro senti-me a andar sobre brasas. Aliás o final do ano passado e início desde foi no geral para esquecer. Talvez aproveite a próxima semana para descansar do blogue. Há muito não faço uma pausa e estar aqui mergulhada impede-me de vir à tona apreciar muito do que é importante e também de tratar de assuntos mais prosaicos que ficam suspensos. Além de precisar mesmo de descansar a cabeça disto. Parecendo que não, escrever e trocar tretas, cansa (tenho sempre dúvida nesta vírgula: vai contra a regra, mas faz-me sentido; e agora fiquei com dúvida se devia usar o plural no último verbo, mas não estou nem aí, é tarde). Sempre me cansou - quem diria. Escrever, digo. Fica baralhado? Tanto melhor - é puxar pela cabeça.

Depois em Setembro tenho 15 dias de férias oficiais para descansar. O programa, ainda por delinear, é o mais caseiro possível. Sem sair do Porto (vá, e Matosinhos, Gaia e talvez um esticãozito desprogramado): praia, esplanadas, parques, ronha e obras. Mentira. Lembrei agora. Tenho de ir a Lisboa e Almada, talvez logo no início das férias. Pode ser que ainda apanhe a exposição "Prisma" do Vhils. Não marquei a viagem à terra das tulipas e dos grandes pintores para Setembro e sim para um fim-de-semana alargado de Outubro. Por um lado fica menos caro, depois se vou para Norte é para levar com frio e chuva na tromba. Já que ultimamente quase não as faço, há que levar à séria as raríssimas saídas.

Durante muitos anos Agosto foi-me insuportável. As férias de criança e da adolescência naturalmente foram excepção. Não sou particular fã do Verão, por não gostar muito de calor - apesar de gostar de praia e mar, desde que não seja para ficar pasmada a esturricar na toalha. Canso-me com facilidade do calor. Este ano até estava a correr bem (emagrecer ajudou), mas começo a sentir os sinais de quem se extenua no Verão. O melhor desta época é preceder a Estação mais bonita do ano. Gosto do Outono (e do Inverno) - soou-me bastante a redacção da primária, mas fica assim mesmo: mais uma vez, livro escancarado em tom infantil.

Drawing the line

Hyekung Jung

por Isabel Paulos, em 23.08.22

Dúvida matinal

por Isabel Paulos, em 23.08.22

Será que podemos medir o grau de insanidade pelo número de provocações que sentimos ao longo do dia? Explico-me. Não é normal cruzar-me com uma carrinha de entregas de produtos alimentares e ficar vidrada na palavra “Recheio” ou num camião de equipamentos técnicos e siderar no nome da empresa porque sim, por associar a qualquer coisa, tal como desde sempre nas matrículas. Mas isso por ter aprendido com as colegas da primária um joguinho que nunca parei de fazer – às vezes penso se aos 82 anos, quando voltar a fumar, continuarei infantil e ainda “lerei” as letras e números das matrículas, reduzindo-os à unidade para lhes encontrar significados. Nem vale a pena perguntar a técnicos se estas coisas são normais, porque habituados que estão às anormalidades graves, tudo lhes parece quase são – até gaivotas a grasnar ou carros a buzinar com lógica. Tudo faz imenso sentido na cabeça dos tolinhos. Claro que se tivesse verdadeiro talento para a escrita, tudo isto me daria imenso jeito, por só assim ser possível tomar consciência dos pormenores belos do Universo. Ontem enquanto lia descrições magistrais da Natureza dei por mim a pensar que o facto de ser muito míope não me permitiu aperceber de muita da beleza do mundo – resta-me escrever sobre a realidade um pouco desfocada. O que será a sensibilidade? A apetência para encontrar sentido, beleza e surpresa no Universo por mais esdrúxula pareça aos pragmáticos?

Por isso não me falem por meias-palavras sem se revelarem. O que me quiserem dizer, digam-me de forma clara e identificada. E se não for importante, não digam. Não me cansem. Todo Universo me fala por meias-imagens, meios-sons e meias-palavras e faz isso por temporadas há muitos anos. Será desde sempre?  É muito cansativo. Desgasta-me o cérebro. Fico exausta. Há momentos em que tenho saudades do tempo em que flores eram tão só flores que desabrochavam e morriam e os pássaros eram livres até caírem "no céu" e não "do céu", como diria o Poeta. Era tudo tão mais simples.

Esperanza Spalding

On the Sunny Side of the Street

por Isabel Paulos, em 23.08.22

Uma esplêndida Terça-Feira para os pouquinhos leitores das Comezinhas. Obrigada pela companhia.

Diário

por Isabel Paulos, em 22.08.22

Correria imensa toda a manhã e início de tarde e franca má disposição, só atenuada quando agora com o café do fim do almoço o Nuno me sugeriu que comprasse uma lata de tinta e fosse pichar na Torre dos Clérigos umas verdades. Distendeu (na acepção castelhana) o clima pesado.

Tenho 15 minutos para sossegar e preparar-me para uma tarde de muito trabalho. Devia ter aprendido a meditar em 10 ou 15 minutos. Mas nem sei como se faz, nem o tempo que demora. Lá vou ter de procurar informação - depois de na semana passada ter lido diálogos hindus.

A ler

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 22.08.22

Ah, como são belas as balelas sobre os livros e a importância da leitura cheias de coraçõezitos, arco-íris e florzitas. A leitura faz-nos mais tolerantes, sentenciam os oráculos da sabedoria das frases feitas e floreados. E quem questionar e disser que nem sempre e, muitas vezes muito antes pelo contrário, é estúpido. Pois, com certeza.

Esta luminária russa é só mais uma das muitas que povoam o mundo, algumas portuguesas, à nossa dimensãozita de discretos e dissimulados democratas pela frente e autênticos pulhas manipuladores pelas costas - quando não mesmo discretos alucinados. Desculpem-me o azedume (e as palavras fortes que só melindram sensibilidadezitas hipócritas), mas foram muitos anos a ver insultada a minha pouca inteligência com tiradas palermas que resumem a tirania à ignorância e falta de erudição dos ditadores e de todos os que a professam e praticam. Nunca reparando na comum tirania intelectual e doentia, pública ou privada, frontal ou encapotada.

A ler, dizia, no Observador.

Quem é Alexander Dugin, o homem que previu o rastilho da guerra na Ucrânia e que gosta de ser considerado o "Rasputine de Putin"?

 

Alexander Dugin é um homem complexo, Charles Clover que o diga. O antigo correspondente do Financial Times em Moscovo conheceu Dugin enquanto preparava o livro Black Wind, White Snow: The Rise of Russia’s New Nationalism (sem edição em português), sobre o nacionalismo russo. A primeira impressão deixou-o baralhado, como descreve na obra: “Dugin podia parecer um filósofo louco, um eremita Dostoievskiano. Mas, na verdade, era um tipo divertido, na moda e fácil de se gostar, bem como um dos intelectuais mais interessantes e com mais leituras que já conheci.”

[...]

Seis anos depois, já com maior distância (e fora de Moscovo), Clover mantém a mesma avaliação: “Ele é a pessoa mais interessante para se ter como convidado num jantar”, partilha o jornalista com o Observador. 

[...]

Na realidade, Dugin falará menos línguas (nove, dizem), mas não há dúvidas das suas capacidades intelectuais. 

[...]

Além da política ativa, Dugin procurou outra forma de influência, cultivando relações com figuras de destaque.

[...]

As ideias de Dugin, porém, estiveram sempre bem definidas. Inspirado em Julius Evola, que foi condenado em Itália em 1951 por ter tentado “restabelecer o fascismo”, Dugin afirmou que é necessário aplicar um “fascismo genuíno, verdadeiro e radicalmente revolucionário”Mais recentemente, tem defendido a aplicação da “Quarta Teoria Política”, que diz que após o fascismo, comunismo e liberalismo, é agora necessário uma quarta ideologia que combine “as teorias sociais e económicas da esquerda com os valores tradicionais”. Economicamente, porém, Dugin também já defendeu em público que é possível aplicar um modelo economicamente liberal, que “coexiste perfeitamente bem com os regimes autoritários mais estritos”.

[...]

É também uma ideologia que define o conceito de identidade nacional de forma diferente daquela que as fronteiras atuais desenham. Para Dugin, todos os antigos territórios da União Soviética, com exceção dos Bálticos, devem fazer parte do bloco euroasiático liderado pela Rússia. Foi por isso que, aquando da guerra na Geórgia, em 2008, Dugin foi fotografado com armas no terreno e popularizou o lema “Tanques para Tbilisi!”, capital da Geórgia.

[...]

Agora, com a invasão russa a estender-se para lá de Donbass, as previsões de Dugin parecem assustadoramente reais. “Ele tinha este plano explícito de que não deve existir um Estado ucraniano e que toda a costa do Mar Negro deve ser russa”, ilustra Andreas Umland. Com as tropas russas a tentarem tomar Mariupol e a atacarem Odessa, parece que o objetivo de tomar a costa do Mar Negro já não é exclusivo de Dugin. Charles Clover, por seu turno, volta a sublinhar que há uma interseção grande entre as ideias do próprio Dugin e de alguns setores do exército russo: “A ideia de que a costa norte do Mar Negro deve ser controlada pela Rússia é um imperativo estratégico da Rússia que já se tinha tornado evidente na guerra da Geórgia.”

Roberta Flack

Killing Me Softly With His Song

por Isabel Paulos, em 21.08.22

Ouvido

por Isabel Paulos, em 21.08.22

No Jornal da Noite da SIC.

«No início deste mês a Central Nuclear de Zaporijia voltou a ser alvo de bombardeamentos sucessivos.
[...]
Kiev exige a retirada das tropas russas e acusa Moscovo de usar a Central como escudo para bombardear as tropas ucranianas.
Moscovo acusa Kiev de querer recuperar o controlo da Central à força e rejeita os apelos internacionais para desmilitarizar as instalações.
Perante o risco crescente de um desastre nuclear a Agência Internacional de Energia Atómica quer entrar em Zaporijia para inspeccionar a Central o mais rapidamente possível.»

*

A ideia inicial era fazer uma piadola com o facto dos russos se queixarem dos ucranianos, esses brutos, quererem recuperar à força a sua central - se numa guerra é de todo ridículo, numa invasão é a anedota total -, mas ouvida a reportagem fiquei sem tanta vontade de gracejar, pelo perigo que dali vem.

Disparates

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 21.08.22

Ora, vamos lá tratar de assuntos sérios, importantes e graves que todos pensam e sentem mas não dizem. Antes de mais a explicação para não destacar com a tag opinião a grande maioria das entradas. Só pontualmente se podem considerar opinião e ninguém tem de levar, sem vontade, com as minhas memórias e os constantes estados de alma expressos nos múltiplos posts diários. Há um ou outro que por achar ter laivo de opinião fundamentada ou estar melhor conseguido levam a tag - e outros tão só porque sim, me apetece. É por isso. Mais assuntos prementes que assaltam os meus neurónios cansados de tanta preguiça neste fim-de-semana e que jorram agora sem aviso prévio?

Pode ser já a questão dos neurónios. Não, afinal antes ainda quero dizer outra coisa. Ontem e hoje andei a ler as Comezinhas - é como digo, narcisismo galopante, de que aliás todo este postal é uma manifestação. Reparei que tenho escrito para chuchu, como me disse um amigo. Há um par de meses dei uma entrada dura sem me ter apercebido da data em que estávamos. Não foi intencional, como outra foi no passado. Não é que não pense tudo quanto escrevi, mas seria escusado dizê-lo naquele dia.

Agora sim, os neurónios. Há coisa de oito anos fiz um teste de Q.I. rápido e simplificado naqueles sites lifestyle brasileiros (creio que era versão traduzida). O resultado rondou os 108 e dizia que andava na média - até agora não tive disponibilidade e coragem de fazer um à séria, não vá ter surpresas mais desagradáveis. Convencida e fora da realidade como sou fiquei cabisbaixo, qualquer coisa menos do que Einstein ou Kasparov soava-me a pouco - o Q.I. destes senhores estava acima dos 160 nas épocas boas - em suma, tenho sempre a desculpa de ter feito o primeiro teste de Q.I. aos 40 e por isso o resultado não ser brilhante. Fiz duas vezes testes psicotécnicos; uma em miúda associada a testes de apetência por áreas que aldrabei o mais possível para dar o resultado que queria e outra num processo de recrutamento para emprego, cujo resultado não soube, mas sabendo como me correu deve ter sido pior que péssimo. Mas vamos ao que interessa, face ao teste feito há oito anos estava justificado o facto de ter sido uma aluna mediana, quando não medíocre. Salvo até ao 7º ano do liceu em que as notas eram boazitas e apesar de ter entrado para a faculdade aos 17 anos. Voltei à velha sensação da porcaria de parte lógica que tenho e da eterna intenção de voltar a estudar matemática para trabalhar a parte lógica deste cérebro que começou a preguiçar na adolescência - burrifico com cálculo e lógica, o que noto até na leitura de textos, e se quiser ser totalmente franca, até ao ler comentários. Não é que ontem na página de abertura do Edge publicam um estudo sob o título "Portugal entre os países mais inteligentes", ou qualquer coisa do género. Passei os olhos no pdf das conclusões do estudo e vi que a nossa média anda nos 94.4. Foi surpresa total para mim que tal fosse um bom resultado. Chamem-me parvalhona, mas podíamos ser mais ambiciosos.

Por estudar lembrei-me dos apontamentos da faculdade. Cerca de 20 dossiers organizados de que em 2018 me desfiz no papelão. Fiquei apenas com os livros, por ser incapaz de me desfazer de um livro. Curiosamente custou-me bastante mais deitar fora as lembranças das viagens. Tinha uma caixa com bilhetes de avião, comboio, barco, entradas de cinema, mapas, brochuras de museus, todas das viagens que fui fazendo (não muitas). Foi tudo. Dessas sinto um pouco, mas há-de passar e prevalecer a memória que sobrou. Nuns casos até guardava os talões de compras - a ideia era quando fosse mais velha ter noção do custo de vida nos diversos locais. Às vezes com os apagões de memória sofridos há viagens que ficam obscurecidas, perco a noção até do ano em que as fiz quanto mais de pormenores que vivi. O método para as localizar são os extractos bancários - sim sou daquelas que guarda extractos com 25 anos. Os cadernos da primária há muito desapareceram e os do liceu praticamente nunca existiram - por alguma coisa haveria um dia de me dar o tilte. Os meus escritos soltos e trocas da cartas e postais (não eram muitos), aos 33 anos, como aqui já contei várias vezes, cortei-os a tesoura em fitas fininhas antes de deitar no papelão.

Por apontamentos lembro-me de letra. A minha é péssima de ler e é assim desde o final da adolescência. Não que alguma vez tenha sido boa. Mas não saí à minha avó e, sobretudo, à minha mãe, com caligrafias exemplares. O que mais me envergonha não é a dita, que sendo como é, é a minha, mas o facto de não conseguir escrever sem rasurar. Tudo, desde sempre. Lembro-me como ficava fula comigo quando rompia os cadernos na primária de tanto usar a borracha. Enganava-me sempre. Continuo a enganar. Sempre que é preciso preencher um formulário entro em stress. E fiz eu o curso de Direito - onde estaria com a cabeça? Imagine-se o que sofri. Em miúda mais velha quando deixava um post-it ou cartãozito com recados aos meus pais e irmãos - na época não tínhamos telemóveis - acabavam por me dizer que não me esforçasse, não valia a pena porque ficavam na mesma sem perceber o recado. Além da má caligrafia os erros sempre me perseguiram. Ainda aos 12 anos escrevi um bilhete a um dos meus irmãos que estava a viver em Gaia, quando eu ia vivia em Valinhas: terminei com o seguinte P.S.: Desta "fez" não dei erros. Claro que foi paródia em família. No primeiro ano da faculdade emprestei apontamentos de Ciência Política e vi que causei grande algazarra grande entre colegas: vieram dizer-me que os meus apontamentos eram divertidos por desenhar o "pê" e o "éfe" da mesma forma, sendo que uma das palavras mais usadas na cadeira era "poder". Nunca Ciência Política tinha sido tão interessante, não sei porquê nunca mais me pediram apontamentos, salvo quando os comecei a gravar em cassete ou passar a word. Ainda há umas semanas, fui atender a carteira que entrega o correio na empresa, pediu-me para assinar e disse-me, gozando com a minha cara, que ia vender aquela rubrica de médico por um milhão.

Esse é outro "trauma": a rubrica. Aquela ideia que é falta de personalidade não a desenhar da mesma forma sempre e para todo o sempre, para mim é como o casamento: uma impossibilidade. Não sei, às vezes sai-me diferente. Até gostava de ser uma pessoa normal, mas lá está: se fosse capaz.

Ia escrever sobre mais assuntos interessantíssimos e de grave e séria importância para o mundo e seu destino, mas creio que o texto está a ficar longo. E isto é de uma fulana que tem consciência que o cérebro está ferozmente viciado no individualismo e no umbigo. Imagine-se se não soubesse. Não me valeriam todas as gotas do mercado tomadas em simultâneo.

Don McLean

American Pie

por Isabel Paulos, em 20.08.22

A letra é um autêntico tratado sobre o mundo da música entre os anos 50 e o início dos anos 70. Com referências (às vezes subtis outras explícitas) aos grandes compositores e grupos de rock e blues de então. Entre outras referências de época fora do mundo da música. De quiserem consultem por aí, o Google devolverá imensa informação.

Diário

por Isabel Paulos, em 20.08.22

Hoje não fiz nada de útil. Dia de preguiça completa depois de um sonho bonito. À noite entre outras coisas que esqueci e não deviam ser muito interessantes, sonhei que soprava ruidosamente num umbigo lindo de uma criança pequena que não conheço - aquela brincadeira que faz rir os bebés. Bem sei que os meus sonhos parecem de encomenda, mas não invento, foi exactamente esta imagem que sobrou da noite passada. Mais adiante virá mais e também é outro sonho verdadeiro, nada de contar tretas falsas para encher o olho ou enternecer quem passa. A manhã foi feita de sorna, leituras leves e deambulações no pensamento. Pura ronha. Depois do almoço, que não comi, tratei de agendar a tal viagenzita para Outubro e andei uns minutos no Google maps a acautelar que posso fazer as visitas aos museus calcorreando a cidade. Exausta de tarefa tão cansativa fui dormir novamente. Desta vez, entre outras coisas que me lembro, mas não interessam muito (enfim, casas, a panca do costume, mas desta vez junto a canais por influência da futura viagem) sonhei que estava junto do ancoradouro quando se aproximou de mim um cão grande e de pêlo curto dourado. Tive cautela na primeira festinha para perceber se era dócil, mas além de ser meiguinho era bem alegre e mexido. Seguimos para junto dos vários barcos ancorados no cais à procura do dono, de quem se tinha perdido.
Há épocas em que a minha vida é um drama, de tão difícil. Mas ironia por ironia, sempre digo que quando tudo são doçuras fico apreensiva, temo sempre o que está por vir, apesar de todos os sinais indicarem que não é nada de mau. Gato escaldado de água fria tem medo. Já houve alturas medonhas.
Acabei de ler este diário ao Nuno, antes de dar enter na publicação. Diz ele: é o que toda a gente pensa e sente mas não diz (como sou preciosa no sentido de explicativa, conto que ele não disse "não diz", fez correr os dedos nos beiços como quem cerra um fecho de correr).

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 20.08.22

Mais um postal daqueles

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 26.05.21
 

Antes de virar a página - se é que a página se vai deixar virar -, deixo mais um postal ressabiado, com os melhores cumprimentos.

Há talvez dois meses alguém próximo e a quem quero muito bem recomendava-me em tom mais de confidência do que de conselho: cuidado, assim entregamos o ouro ao bandido. Não, o interlocutor não era uma mulher, nem o tema eram as afectividades. O assunto era a opinião e a forma como a expomos e defendemos.

A ideia talvez se traduza na cautela de não colocar inteligência nem verdade nas palavras, para evitar ofender. E não verdade no sentido absoluto – de convencimento da nossa inteira razão -, mas tão somente na franqueza posta no que dizemos. Ele contava como ouvira uma conversa entre duas ou três pessoas de opinião muito divergente e elogiava a forma correcta e sem sobressaltos como foi travada. Em causa o respeito pela opinião do outro. Acompanhei-o na tese: também admiro quem consegue. Desacompanhei-o na conclusão: respeitados os mínimos de educação, não me parece que tenhamos de apagar a paixão para fazer de conta que não somos quem somos.

Não disse na altura, mas a imagem que me veio à cabeça naquele momento foi a de um vídeo que recebi no dia de Natal com a reacção de crianças à chegada de cachorros como presente de Natal. Os miúdos muito comovidos foram quase todos bastante efusivos. Qualquer um de nós que tenha a memória da chegada de cachorros na infância percebe como o coração dispara e a alegria transborda. Mas reparei que entre eles havia dois irmãos – um rapaz e uma rapariga de ar frágil e delicado, muito contidos nos gestos e movimentos. Tão presos na expressão que ao se aproximarem cautelosos do cachorro segurado pelo adulto e ao fazerem festinhas – estou a escrever de memória – usaram as pontas dos dedos. Também se comoveram - era visível -, mas não transbordaram, apesar de estar convencida que se perguntados, diriam amar muito o bicho, com verdadeiro sentimento. Cada um é como cada qual.

Esta imagem espelha muita da opinião que abunda no espaço público. Por vezes lugar-comum outras, por mais correcta e sensata seja a exposição às vezes até mesmo fiel aos factos, parece-me artificial e sem alma. Dita por ir na corrente, por ser decente. Conveniente. Há momentos que até a inconveniente não é expressa com qualquer sentimento de verdade – de franqueza -, mas apenas para inchar o ego, chocar e com isso arranjar mais clientela. Interessa a imagem que se dá, e até a falsa imagem de frontal é estudada. 

Lamento, mas habituei-me a mexer nos bichos embrenhando bem as mãos e dedos no pêlo, na pele. Revirando-os, espevitando-os, rastejando com eles pelo chão. Ao cão, companheiro de passeatas e confidente de infância, além de o mimar, tirava-lhe por brincadeira os ossos dos dentes e quando moribundo tratei-o como possível, extraindo - numa última tentativa de o salvar - dezenas de larvas do peito provocadas por uma ferida grave e feia com que nos apareceu em casa depois de desaparecido por uma quinzena. Aos gatos catava as pulgas. Às gatas assistia-lhes aos partos. Gosto de mimar, não sou de passar as pontas dos dedos nos bichos, nas pessoas nem nas opiniões. Cada um é como cada qual.

Damos o ouro ao bandido? É evidente: reparo e registo. Que sejam muito felizes com ele – com o ouro e o seu brilho. E nós sejamos fiéis ao que somos. Está tudo bem, cada um com aquilo que valoriza.

Não acredito que a realidade melhore por ser efabulada em boas intenções. Não acredito num país soberano com uma dívida como a nossa e envergonha-me a mão portuguesa permanentemente estendida. Envergonha-me a corrupção. Irritam-me a mentira e os trapaceiros. Reparo em vozes e oratórias muito honradas, cheias de certezas, desencontradas nos corpos e vidas muito videirinhos que as transportam. Não acredito na maior parte das boas intenções apregoadas. Sobretudo nas políticas e nas opiniões políticas. Irrita-me que ninguém tenha coragem para dizer o desagradável e o difícil por ir contra o que a população quer ouvir. Irrita-me ainda mais que cada vez que alguém sugere qualquer coisa de semelhante seja de imediato caluniado, como se não estivesse apenas a constatar a realidade. Irrita-me mesmo a hipocrisia com que se deixam cair na solidão pessoas e gestos nobres, a pretexto de não se perder o estatuto, o lugar, as amizades de conveniência. Irrita-me a traição por motivos fúteis e materiais. Na verdade, convenço-me cada vez mais que não é a população que quer ouvir as balelas demagógicas do costume, mas quem decide e está bem instalado. Fazer melhor implica trabalho e muitas vezes sofrimento. E não, nunca advoguei teses do sacrifício nem acho que nos devamos andar a martirizar. Mas não se consegue fazer melhor à custa de festinhas com as pontas dos dedos, amiguismos e pancadinhas suaves nas costas.

O facto é que aquele que disser coisa razoável pode ver as suas palavras deturpadas e os argumentos invertidos e desvirtuados. Vale tudo pela retórica e pela mentira. O objectivo? Deve ser o de manter o país na mediocridade e na eterna dependência, à semelhança dos portugueses, cada vez menos autónomos, menos capazes, menos livres. Mais presos de movimentos, a fazer festinhas ao cachorro – que amam muito - com as pontas dos dedos.

Não é fácil estar ciente da menoridade do que aqui acabei de escrever: conhecer múltiplas objecções que inspira - sim, cada um é como cada qual, ninguém é melhor do que ninguém nem se deve colocar em posição de doutrinar os outros -, mas ainda assim publicar sem pudor o texto acreditando que por pouco que seja, alguma coisa valerá.

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