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Tintim por tintim

por Isabel Paulos, em 31.12.22

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Último jantar do ano 2022. A mesa posta segundo (vá, numa tentativa de) herança mista de Gaia e Porto da infância. Bom, nem toalha e guardanapos, nem centro de mesa corrido rectangular com enfeites natalícios e velinhas acesas - digamos que vale por aproximação, e estão presentes os frutos secos, bolo-rei e sonhos que deveriam estar no aparador. Menu muito mais recente: leitão para agrado do Nuno acompanhado de espumante. Resultado para mim: dor de cabeça imediata e uma soneca de 45 minutos no sofá a meias com o Ritz bem enroscado. Perfeitamente retemperada, atacámos os sonhos megalómanos trazidos da padaria da esquina - têm o triplo do tamanho dos que estou habituada e são mauzotes, mas cumpriu-se a tradição. E café com carderninho novo e lápis para anotar os nossos 24 desejos - 12 para cada um. À meia-noite é só endereçar a quem compete. 

As peças de roupa interior azul aguardam-nos: adoro tradições pirosas. São as pequenas-grandes felicidades.

Bom Ano Novo

por Isabel Paulos, em 31.12.22

 

Votos de Um Bom Ano 2023.

 

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 31.12.22

À semelhança dos anos anteriores havia pensado escrever dois balanços ou resumos do ano escolhendo as entradas favoritas e os livros lidos. Tal como pretendia dar início a um novo espanador. Nada disso me apetece hoje, nem creio que vá ter vontade para tal nos próximos dias, pelo que ficam sem efeito. Tal como terá (?) ficado sem efeito a cronologia da Covid nos anos anteriores.

Estive as últimas duas horas e meia a ler na diagonal o último ano e picos. Foi mauzote e ao ler o blogue percebi que nem se nota como foi difícil - ainda bem, melhor assim. O balanço dos acontecidos já interessa pouco, já passou. Vive-se. O balanço dos sentimentos já foi feito. Nada importa acrescentar. 

Deixo apenas em recapitulação o post que mais me disse hoje ao reler antes de desejar um Bom Ano Novo aos leitores e amigos das Comezinhas.

*

Ingenuidade

por Isabel Paulos, em 24.07.22
 

Seguir caminho insistindo em acreditar além da dúvida nas pessoas e no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos. Pôr o pé em ramo verde uma e outra vez. Correr o risco de acreditar e sofrer a correspondente desilusão não parece forma inteligente de viver. Não engrossar a casca. Seguir de varapau e trouxa ao ombro. Sempre. Indo. Deixar a pele sensível ao vento, sol e chuva. Ao amor. À rejeição. Ao desprezo. À indiferença.

Aprender.

Não sofisticar a retórica nem o coração em fraseados cheios de substância estudada, fictícia. Não empedernir os sentimentos com a lábia. Não falar do amor de cor. Não debitar rimas ou aforismos de bem-querença tão óbvios e certos que fedem a falsidade. Não lançar mão da eloquência para exaltar paixões que ardem mortas à nascença de tão calculadas. Não impressionar quem passa com profundas metáforas e perícias românticas. Preferir amar e perder a dar lições de amor.

Aprender.

Não aprimorar o pensamento com os penduricalhos da aparente erudição. Não falsear o pensamento com excesso de argumento e vã sapiência. Não dar ar de tratar por tu os mestres e as suas obras. Não aparentar possuir resposta pronta para cada data, cidade, nome, música, pintura e por aí fora. Não exibir descobertas recentes como as acompanhassem desde o parto. Não dar ar de saber mais do que sabe. Não dar ar de ser mais do que é. Não enxovalhar a falta de instrução alheia para enaltecimento próprio. Não decalcar rótulos e clonar senhas de irmandade interesseira. Preferir ficar aquém, cada vez que se vai mais além.

Aprender.

Fazer a vida de pequenos passos. Sempre aquém, indo além. Indo. De varapau e trouxa ao ombro. Não fugir da ingenuidade como se fosse condenação à condição perpéctua de incapacidade e fracasso. Aceitar a candura. Condescender com falhas próprias exibindo-as sem pudor para sobreviver à auto-exigência. Desde início aqui nas Comezinhas, como no Fora do Baralho. Aqui como acolá há 20, há 40 anos. Acreditando além da dúvida no carácter sincero e benigno dos gestos e sentimentos de quem passa. De desilusão em desilusão, mesclada de pequenos e raros tesouros que ficam para a vida.

Aprender.

Le Portugal face aux palaces verts

por Isabel Paulos, em 31.12.22

Fim de etapa

por Isabel Paulos, em 30.12.22

Acabou o ano de trabalho.

Tarde ou cedo

por Isabel Paulos, em 29.12.22

O cúmulo do absurdo do estado de dúvida permanente dá-se no momento em que te reconheces meia ensandecida e olhas em redor e vês a loucura disseminada – sim, normalmente isto seria tão só a confirmação que não estás bem, sucede que além desta prova em causa própria sabes-te amplamente acompanhada. Tudo a rolar como se houvesse sentido, todos a fazerem de conta estar muito sãos, com grande capacidade de análise, a dar ar de lucidez enquanto disfarçam a tremedeira dos joelhos do juízo que, tarde ou cedo, a todos toca.

Adiantas uma explicação para o estado de coisas. Face à inexistência de justificação lógica e racional para os acontecimentos é humano procurá-la fora da razoabilidade. Chamem-lhe o que quiserem. Talvez optes pela expressão: força do Universo. Ou pela palavra: Natureza. Os tempos de excesso de explicação e argumento originam a exaustão da mente humana. Dizem-te brincando: como é possível uma mente inteligente e lúcida cair na esparrela? Bom, não dizem esparrela, usam outro termo qualquer. Respondes que não tens culpa, não está ao teu alcance dominar o pensamento a todo o tempo. Dizem-te também: isso resulta da ansiedade. É possível. É uma batalha diária, de aplacar as associações estapafúrdias num constante processo de domínio. Um trabalho minucioso de domesticar ou domar os devaneios. Sabes que a faculdade de pensar de forma razoável a tempo inteiro (quase inteiro, já que és humana) voltará e aguardas paciente enquanto vais ora rindo ora agoniando com os teus desatinos mentais, lembrando como passaram tantos anos desde o momento que havias passado por isto, na altura com a agravante de tudo ser novo para ti. Não é que não temas a tolice e os seus caprichos, mas agora já a tratas por tu numa espécie de intimidade que te permite o luxo de escreveres posts como este.

Sabes que há quem tema a exposição das fragilidades, receando ficar vulnerável e sujeito a ataques soezes. Talvez não tenham noção da força inerente à assunção das fraquezas. Talvez precisem de escudos para os jogos de medição de egos e o vício das controvérsias sob a moldura da liberdade de expressão e o lugar-comum da tolerância, no lugar da mais ampla e verdadeira abertura de espírito. É deixá-los arrancarem a grande velocidade rumo à sonora e brilhante glória efémera. Assistirás da bancada.

Ennio Morricone

por Isabel Paulos, em 29.12.22

Mantra: não quero saber, não quero saber do país e das suas poucas-vergonhas.

Tudo quanto quero é música relaxante e abstrair das decisões geniais dos meus concidadãos nos últimos anos.

Foi o Governo (e o Presidente) que escolheram recentemente. A maioria foi atrás do pote de mel havendo alternativa de caminho de menor facilitismo.

Os outros que poderiam ter feito a diferença passaram os quatro anos anteriores a escarnecer da alternativa. A divertir-se à custa dela com presunção e bazófia. Arrastando consigo a tendenciosa comunicação social. Já que gostam tanto de se divertir à custa da suposta ingenuidade, falta ardil político e seriedade, habituem-se. Têm o que pediram. Apreciam desdenhar de tudo a eito e não respeitar nada nem ninguém? Sonham com o calculismo e a insensibilidade como paradigma de boa governação? Mas à falta dela, admiram a manha e astúcia dos adversários, preferindo-os aos vossos mais próximos? Tomem-nas. Assim terão a vida feita, plena de assunto para criticar, escrutinar, esquartejar - terão sempre o vosso ganha-pão e montanhas de likes e memes para rir. Não vos faltarão compradores de opinião.

Agora habituem-se, como diz o vosso adorado grande estratega, tão elogiado nos anos transactos. Só não façam de conta que foram ao engano e não espalhem as culpas ao acaso, buscando no passado remoto cordeiros para sacrificar. Só não culpem os outros pelas vossas asneiras recentes.

Desanuviar

por Isabel Paulos, em 28.12.22

Para desanuviar da novela lusa de endogamanço exibida nos últimos dias numa estação perto de si, de artistas com feições a lembrar o mundo music hall pimba, nada como uma voltinha num dos cavalos de ferro no Comboios do Mundo, apresentado no fim do Jornal da Noite da SIC. Com partida de Inverness, atravessando as Terras Altas escocesas, o Parque Nacional de Cairngorms, as destilarias de espírito gentil - whisky -  entre a neve, com destino a Edimburgo e à magnífica ponte ferroviária de aço: ponte do Forth. 

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Depois disso e de leituras muito leves, resta aquecer o saco de água quente e tirar proveito do presente de Natal que de modo interesseiro dei ao Nuno: um rádio compacto, à moda antiga, para mesinha cabeceira. Bom, além de leitor de cd tem também entrada usb - modernices. Pequenas-grandes felicidades.

Boa noite.

 

The Nylons

por Isabel Paulos, em 28.12.22

  

Depois de espevitar com isto, voltei a Katie Melua que vai ser a banda sonora de hoje. Sereninha.

A expectativa

por Isabel Paulos, em 27.12.22

Quão frustradora pode ser a expectativa. Podando os melhores pensamentos e sentimentos alheios. Querendo encaixá-los, emoldurá-los em inconscientes desejos e ambições próprias. Ainda que o acto intencional seja benévolo - como quem poda uma árvore para que produza mais e melhor fruto - minado de falta de ampla compreensão, pode pura e simplesmente desmembrar a planta à bruta, sem efeito útil.

Uma conclusão ressessa no meio do turbilhão

por Isabel Paulos, em 27.12.22

Quando as ideias fervilham, a vida quotidiana continua a ocupar o espaço normal no tempo e os acontecidos dobram ou triplicam, não é humanamente possível reduzir as primeiras a escrito. Aproveita-se contudo o  pouco que vai sobrando. E nesta época festiva efervescente caiu-me no regaço este apontamento: apesar de ser verdade aquilo que aqui foi dito inúmeras vezes acerca do peso do acaso e do quão aleatório é o caro privilégio do reconhecimento, não vale a pena zangar-nos com os vaidosos e oportunistas que sempre invocam para si ou para os que admiram especiais qualidades de dedicação, trabalho esforçado e talento, escondendo deliberadamente os favores, as facilidades, as oportunidades, a sorte. Em muitos casos estão convencidos da tal superioridade moral por trabalharem mais e melhor e, sobretudo, por considerarem ter domínio sobre as suas acções e mão na vontade própria. Como estariam cientes do contrário se o vento que lhes calhou soprasse em sentido inverso. Precisam de explicação lógica que satisfaça e justifique o ego – é uma necessidade fisiológica ou, em rigor, na pirâmide de Abraham Maslow, a necessidade de estima ou status.

Anseio simples

por Isabel Paulos, em 27.12.22

Quem me dera num ápice voltar ao normal. É tudo. 

Passando ao de leve o espanador pessoal

por Isabel Paulos, em 26.12.22

É um nada difícil responder à questão: o Natal correu bem? Tenho respondido sempre: muito bem. Mas já que as Comezinhas valem como diário convém honestidade. À parte de ter passado um bom pedaço da manhã de 24 à porta das urgências do Santo António – aproveitei o “sossego” do momento para “mensajar” as Boas Festas a familiares e amigos - e o fim-de-tarde de visita lá dentro – nada de preocupante com a familiar visitada, tirando pouco mais do que o transtorno de lá estar. À parte de ter espatifado no chão o doce que levava para a Consoada, o que vale é que para contrariar a doçaria o Nuno e eu fizemos duas taças de salada de fruta para o jantar de 24 e o almoço de 25. À parte dos alinhadores dos dentes não encaixarem e de às vezes ter guinadas de dor forte – ao que parece é inerente ao processo de alinhamento. À parte da vizinha de baixo ter vindo queixar-se da infiltração de água da varanda que o Condomínio tinha ficado de tratar há meio ano, e de amanhã ter de accionar o meu seguro, apesar pagar também o seguro do Condomínio – inverte-se a situação por que passei em Bessa Leite, ficando com a perfeita noção que nisto de responsabilidade dos seguros vale a arbitrariedade total. À parte de hoje depois do almoço ter sido mordida superficialmente por um cão pequeno e irritante, só por o ter calcado num difícil movimento de quadratura do círculo no passeio, tentando impedir que abalroassem o Nuno - pronto, talvez tenha sido desajeitada -, tendo dito a inteligente dona do cão tinhoso: calcou-o. Borrifando-se para o facto de ele me ter magoado - foi muito superficial, nada que o Ritz não consiga fazer a brincar -, enquanto o Nuno esboçava uma reacção de desagrado e eu o puxava para sairmos daquele inferno momentâneo de estupidez - o que mais faço na vida é desenfiar-me de complicações como se nada fosse comigo e como se não fosse afectada. À parte das milhentas solicitações e da cabeça a mil. Tirando estas coisitas menores, o Natal foi óptimo.

A 24 Bacalhau Escondido, dizem que é assim que se apelida agora o primeiro prato que publiquei aqui nas Comezinhas em Dezembro de 2019 - feito pela minha mãe fica bastante mais bonito e delicado, com os ingredientes cortados mais miúdos e ordenados; para o ano tento fazer um mais bonitinho para figurar no blogue. Foi a primeira Consoada sem o Bacalhau Espiritual. A 25 Peru com batata assada, arroz, e introdução deste ano: ervilhas e cenouras estufadas a substituir os grelos e penca do dia anterior e o azeite fervido com alho. À sobremesa bolo-rei, sonhos, aletria (tentei uma nesga mínima, mas não, definitivamente não sou fã), panetone (não comi, ainda não aderi a esta novidade de há 20 anos da minha mãe) e salada de fruta (agora me lembro, esqueci de preparar o abacaxi da minha mãe, mas a salada continha, por isso não vem mal ao mundo). Primeiro ano sem rabanadas - foi estreia em muitos aspectos. Muita conversa, riso e troca de lembranças a 24; conversa viva, riso, cães, duas ou três horas a jogar Trivial e depenicar frutos secos a 25. Como nos esquecemos do café (acho que também foi a primeira vez que tal aconteceu) às seis da tarde estávamos cheios de sono. Acabou com a vitória do par de jogadores que tinha mais queijinhos no Trivial.

Isto é que é Natal?, perguntava há 20 anos a russa Maria. Ou seria a Nina ucraniana? Nem cantam? É, não cantamos. Conversamos e sobretudo gozamos com os defeitos uns dos outros, o que acontece sempre que nos juntamos. O Natal é só mais um pretexto para implicarmos.

Lulas

- evolução dos calamares en su tinta -

por Isabel Paulos, em 26.12.22

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Há quem chame Lulas à Bordalesa, outros estufadas ou guisadas à Portuguesa. Não sei nem faço especial questão de saber o nome. Em criança tratávamos o prato por "Lulas", com pequenas fatias de pão torrado no fundo da travessa ensopadas no molho de estufar as ditas - tal como alguns pratos alentejanos o pão serve para aumentar a dose e economizar - acompanhadas de arroz branco. Era o meu prato favorito em criança. Continuo a adorar arroz branco, e de mil e uma maneiras; prefiro-o à batata e à massa, apesar de não torcer o nariz a quase nada. O gosto pelo arroz branco diziam-me vir da costela Magalhães.

Hoje fui comê-las ao Orfeu. Não me souberam especialmente bem, por responsabilidade própria, já que não mastiguei as primeiras garfadas com o devido tempo e paciência, o que origina sempre mal-estar.

A ver se um dia as aprendo a fazer em casa. Não têm parecença com as cortadas às rodelas, cor-de-rosa alaranjado. São rosa escuro e a definição de cor aqui é tudo. Lá terei que descobrir os ingredientes. Creio não terem tinta, mas lá que ficam com o semi-ar disso, ficam. Será?

*

Adenda. À noite falei com a minha mãe sobre este post. Recordou-me que o que comíamos era uma evolução - degenerescência, digo eu -, dos Calamares en su tinta feitos pela minha avó. Lá está, a cor da tinta de lulas frescas é o nó górdio desta importante questão.

Contratação Pública

por Isabel Paulos, em 26.12.22

A propósito do livro Como o Estado Gasta Nosso Dinheiro, de Carlos Moreno, sugerido pelo leitor Jorge aqui, que não li.

*

A gestão ruinosa no grosso da contratação pública - parcerias públicas privadas e empreitadas feitas sob o conforto de cobertura de risco total por parte do Estado em benefício de "eleitos" por laços partidários, familiares, de amizade ou mera troca de favores e de grandes grupos empresariais - tem sido denunciada por inúmeros portugueses em comentários na comunicação social e redes sociais. Sê-lo enunciado por quem fez auditorias e esteve no Tribunal de Contas, e o faz de forma mais depurada de subjectividades, confere o benefício de perceber os interstícios da coisa. Deitei os olhos a parte das primeiras páginas: noções de finanças públicas. Passei à frente. Li o índice, fiquei curiosa quanto às sugestões do autor para resolução. À falta do livro, encontrei-as aqui (espero que sejam fidedignas): InVerbis - Estado gasta por mês 130 milhões sem concurso.
Apesar de perceber a intenção da proposta de obrigatoriedade de consulta a três entidades que operem no mercado, uma delas, uma PME, da obrigatoriedade de justificação no caso desta não ser incluída, os cuidados de divulgação e a responsabilidade dos infractores extensível aos decisores políticos, a verdade é que tudo isto se esvai na multiplicidade e na astúcia das práticas de corrupção que dominam o país. Por exemplo, ao avisar concorrentes dos critérios, ao estudar e aplicar exigências que excluam de facto as PME ou qualquer outra para além do "eleito" previa e intencionalmente e que assim sirvam para justificar a exclusão das primeiras. Todos estamos fartos de saber que a maioria dos concursos públicos são feitos por medida. Nem a divulgação e dita transparência é capaz de resolver a questão. Quanto à responsabilização, a forma como tudo é feito impede a prova dos factos. Como provar intenções e subentendidos? Qualquer defesa dos arguidos alegará sempre narrativa fantasiosa. O ardil da corrupção joga com esta dificuldade de partindo dos indícios se poder fazer prova de incumprimento ainda em sede de Tribunal de Contas e da falta de consequências no foro criminal resultante do facto de termos legislação e um sistema judicial excessivamente garantístico.

Espanando ao de leve

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 25.12.22

Comecemos pelo centro nevrálgico. Como andava distraída do que se passa em Israel vejo com quase surpresa o regresso de Benjamin Netanyahu depois de destituído há ano e meio. Parei naquela solução sui generis de coligação com cabeça de série dividida. Bem me parecia ter visto Henrique Cymernam no ecrã nos últimos tempos. Está explicado. O resto, pretextos para vender notícias, meros fait divers.  

A Ucrânia começa a assinalar – escrever celebrar seria ofensivo para os ucranianos - o nascimento de Jesus a 25 de Dezembro, segundo o calendário gregoriano, para demarcação da Igreja Ortodoxa Russa, que segue o juliano. Na invasão da Ucrânia pela Rússia os Estados Unidos estimam que haja 40.000 vítimas civis, a Comissão Europeia calcula 20.000 mortos e feridos. Ambos estimam 100.000 mortos e feridos entre as forças ucranianas e 100.000 mortos e feridos entre as forças russas. Putin faz o seu número de circo de Natal ao dizer que a Rússia está pronta para negociar.

A coqueluche portuguesa da Igreja Católica fala em tempos de surdez e na necessidade de ajuda mútua. De fragilidade e vulnerabilidade humana. Tomara tenha uma vaga noção do que isso seja e não se limite a debitar banalidades agradáveis aos ouvidos dos outros e ao reconhecimento alheio. Tomara esteja enganada e a ser injusta.

No Irão continuam os protestos contra o regime teocrático de governo muçulmano xiita que dirige aquela república islâmica desde 1979. Verificaram-se centenas de assassinatos e milhares de detenções de protestantes desde a morte de Mahsa Amini a 16 Setembro detida e morta pela polícia da moralidade por usar o véu islâmico de forma incorrecta.

A empresa britânica Airfinity estima que a China registe mais de um milhão de infecções e cinco mil mortes por dia. Não há dados oficiais chineses fiáveis publicados.

A variante do tipo BF.7 do Ómicron que foi detectada em Espanha é a mesma registada na China com números exponenciais de infecção. As autoridades de saúde espanholas desvalorizam afirmando que a taxa de mortalidade nesta variante não é alta.

Reacende-se a  disputa pelas Ilhas Curilas entre o Japão e a Rússia com movimentações militares de parte a parte.

Serviços de Informações e Segurança moldavos acreditam numa invasão do seu país pela Rússia em 2023.

As tensões entre a Sérvia e o Kosovo agudizam-se, denunciando a primeira-ministra da Sérvia o desrespeito dos direitos de autonomia dos sérvios kosovares.

Na Áustria desapareceram duas pessoas por avalanche. Na Galiza seis passageiros de autocarro perderam a vida em despiste. Em França um radical matou três curdos. No Canadá e Estados Unidos uma tempestade de frente de ar árctico provocou 22 mortos.

É Natal.

Café de Natal no +1

por Isabel Paulos, em 25.12.22

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Feliz Natal

por Isabel Paulos, em 23.12.22

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*

Votos de um Bom Natal.

 

Sexta-feira

por Isabel Paulos, em 23.12.22

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Não houve tempo para ir a casa. Almocei a solo no Orfeu. E conferenciei: estão abertos segunda-feira. Talvez venha às Lulas à Bordalesa. Já do lado de lá da rua, um cheirinho a água de rosas que me encantou.

 

 

 

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Ao contrário do forte odor adocicado vindo do rótulo "uma das melhores confeitarias do Porto" com as inefáveis filas nas traseiras resultantes da fama do bolo-rei. Há anos que lá não entro. Não gosto do pretensiosismo (nem de cheiro a doce, mas disso ninguém é responsável). 

Mais uma mexerufada

por Isabel Paulos, em 23.12.22

Um memogravador talvez ajudasse nos dias em que se encadeiam tarefas em tarefas e os pensamentos surgem na ideia sem tempo para os reduzir a escrito nem em traços tão gerais que só dêem para agenda. Isso para quando estou em casa, já que fora será difícil debitar em voz alta o que me vai na cabeça. Logo verei.

As manhãs teriam tudo para a mente ser mais profícua, mas quase tudo se perde. Ou não, talvez mais tarde os rasgos venham desfeitos e ligados a outros como massa de bolo na batedeira. À hora de almoço ainda se aproveita qualquer coisa, a partir daí vai em decrescendo até chegar a esta hora (depois das dez da noite) e já não me conseguir lembrar das 37 ideias geniais que tive mais cedo. E pensar que em novita gozava dizendo que a minha inteligência só funcionava de madrugada – como a vida muda. Agora - nos últimos anos - pouso a cabeça na almofada e poucos minutos depois estou a dormir.

Neste momento vou parar os dedos e fazer um último esforço de memória. Fiz. Demorou três ou quatro segundos e veio a ponta da cauda de uma ideia - as ideias são como as estrelas cadentes, temos de ser rápidos a avistá-las, senão já passaram -, a que atrelei outra. Vamos lá tentar. A questão de nos vermos ou não reflectidos no olhar do outro. Corre no pensamento de alguns que é coisa negativa, com origem no egocentrismo. E se for apenas um dom especial associado à observação de perscrutar no olhar, voz e atitude o pensamento do outro. Uma qualidade desenvolvida mais por pessoas ditas introvertidas ou inseguras. E se essa especial percepção existir mesmo não sendo mera mania de perseguição ou falta de confiança? E se ainda que haja consciência que é um transtorno viver com esta aptidão, se perceber que desperdiçá-la inteiramente não é um caminho sensato – nem viável. Ou vá, arranjemos um consenso: se optarmos por uma visão nem tanto ao mar nem tanto à terra. Porquê incentivar sempre a elevação da auto-estima e a vaidade própria se a dita potencia tanto conflito e erro de avaliação? Alguém cheio de si tem quase nula percepção da forma como os outros o vêem. A auto-estima é fabricada por necessidade de alimentar o ego e não por uma avaliação real de qualidades e defeitos – que nos é dada também pela forma como nos damos em família, social e profissionalmente. Os freios são colocados pela relação com o outro. Se ela for equivocada, baseada apenas no que é visível por ter sido declarado, perde-se todo um mundo de realismo que usualmente se escamoteia romantizando ou diabolizando o real ou pior escrutinando como se estivéssemos perante um Juízo Final – é esse o estado actual de mentalidade dominante. Num mundo de vaidade e certezas não há espaço para o fortuito ou o acaso. Nem para entendimento. Tudo deve ser explicado esmiuçadamente para provar a culpa dos condenados do dia, nem que amanhã tudo se esqueça e se passe a outros. Os heróis são escolhidos com igual leviandade. Nada tem adesão à verdade, apenas ao enredo construído num laborioso no sense por excesso de descrição.

Saltando de tópico. Julgo já ter abordado a ideia mais do que uma vez, mas repito. A necessidade extrema de alguns em exibir desprezo elitista pela aversão à violência, desonestidade e insensibilidade, mostrando não só vasto conhecimento como tolerância pelo sórdido, desde que a fonte objecto de análise seja inteligente ou estranha e cativante. A versão erudita da atracção pelas histórias de faca e alguidar. O pézito no chinelo dos iluminados no pretexto de intelectualizar e humanizar o mundo imundo. A fórmula fácil de garantirem gozo próprio à custa do sofrimento alheio e obviamente de se mostrarem mais sofisticados e, de modo artificial, emocional e intelectualmente seguros. O logro é patente no recurso constante ao mimetismo dos contra-clichés fabricados a partir do consumo produtos de propriedade intelectual vendidos ou disseminados em circuitos supostamente restritos que lhes dêem sainete.

Para terminar, um cálculo aritmético difícil. Como encontrar a dose certa de lucidez na criatividade – sim, hoje reabilito o termo. Quem se permite seguir sem freios nem filtros (como se vulgarizou dizer; acho piada por há cerca de 20 anos ter usado a ideia já no sentido deste último parágrafo, já na altura contra-corrente e antecipando o rótulo da moda) dir-se-ia seguir um caminho mais genuíno. Não sei se é verdade. Perder a noção da realidade, do bem e do mal, do que é saudável e nocivo pode parecer um caminho altamente apetecível e rentável do ponto de vista criativo mas não me parece desejável ou sequer honesto do ponto de vista artístico. Faz-se à custa do (falso) facilitismo, da exploração de fragilidades próprias e alheias. Por várias vias possíveis. Por exemplo, pelo consumo de álcool ou estupefacientes ou pela falta de tratamento de perturbações mentais. Fica caríssimo sob ponto de vista financeiro e da saúde. Muito prosaicamente não me parece bom caminho.

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