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Presidenciais

por Isabel Paulos, em 12.01.21

Procurei ver o menor número de debates que consegui, mas às vezes ia a passar na sala e à má fila lá levava com trocas de galhardetes. Possivelmente isto não tem cura e, apesar da fobia social, vou ter que me sujeitar mesmo às reuniões de Adictos dos Debates Anónimos. Ao assistir às discussões recreativas na televisão sinto-me sempre como o Statler e o Walforf. 

O que vale é que posso ressacar virtualmente.

'Enxerida'

por Isabel Paulos, em 11.01.21

Como dizem os brasileiros sou uma enxerida. Ah, o horror. Nada pior do que uma mulher intrometida. As senhoras querem-se cegas, surdas e mudas. Tudo isto me diverte. Não fosse a vida me ter dado um suave toque de tragédia e hoje seria um pelém e sentiria vergonha por querer saber o que é suposto ser sabido por quem não anda no mundo a ver passar os navios. Mas, felizmente, e apesar das fúrias, a realidade diverte-me mais do que qualquer outra coisa. Claro que esta veia de cusca traz consigo os inevitáveis equívocos. Isso dá-me ainda mais gozo. Além de me distrair com os outros, divirto-me com a vida em si. É uma comédia, sobretudo, porque como António Lobo Antunes não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço.

Boa semana.

Alicia Keys - It’s On Again

por Isabel Paulos, em 11.01.21

Provérbios e expressões idiomáticas

por Isabel Paulos, em 11.01.21

 

Falar com uma parede.

A ofensa

por Isabel Paulos, em 10.01.21

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*

Sabes que te perdes em abstracções e, em muitos casos, pecas por falta de nomear os problemas reais. Foges consciente das abordagens usuais que ocupam os jornais e as páginas virtuais. Não tomas para ti a todo o tempo, como é timbre dos utilizadores dos espaços de opinião, o papel de escrutinadora dos poderes fácticos e de defensora das verdades do momento. Não o fazes quer por falta de talento quer por ausência de vontade. Não é esse o papel que desempenhas - presunçosa e pouco dada à falsidade reconheces que o tens, mas cada macaco no seu galho e o teu quer-se recolhido

Muitas vezes referiste a aversão aos ditos e actos de superioridade e desrespeito pelos outros – possivelmente uma das ideias que mais te consome a vida, ao longo da qual te foi dito ou feito sentir diversas vezes que acusavas o toque com demasiada facilidade. Em tua defesa, esclareces que nunca serás imune à falta se sensibilidade e há muito te deixaram de impressionar os exemplos do domínio pela força gratuita ainda que dissimulada em palavras buriladas.

O que a muitos parece opinião, a ti afigura-se como ofensa. E não é por falta de consciência dos benefícios da liberdade de expressão e da democracia, nem sequer no plano mais mundano por falta de hábito de debate – cresceste e amadureceste a discutir e a defender com vigor o que acreditas. Felizmente, cresceste e amadureceste a ser contrariada, criticada, ridicularizada e nada disso te incomoda por aí além.

Sucede que cedo tomaste consciência, apesar da controvérsia e ironia te serem muito chegadas, que o hábito do debate não é um valor benigno per si, tal como o humor não é um valor benigno per si. Ao contrário do que é aceite como ideia unanime – e quanta unanimidade fictícia existe no presente – a livre opinião e o humor não são inócuas. São das mais perfeitas armas de combate e tanto servem na defesa dos mais nobres tesouros, como para saquear o adversário ou o próximo dos seus valores e potencialidades, tudo dependendo do coração e cabeça de quem peleja.

Dizes isto ciente que não há civilização ideal sem livre opinião nem humor, a menos que se tome a ignorância e a escravidão como um mal necessário. Mas também consciente, e aqui é que dói à maioria que perora de forma vã sobre democracia e tolerância, que a opinião e o humor para serem livres têm de ser universais. Não podem servir apenas as coutadas que se impõem não pela razão justa, mas pela força mediática em torno de mesquinhos interesses de cada tribo e que mantém o País manta de retalho de pequenas e grandes corrupções, conveniências, apetites e futilidades, incapaz de se sujeitar à justa autoridade dos princípios.    

Um país que festeja impante a liberdade todos os anos, mantém parte substancial da sua população a sobreviver de salários miseráveis e ambições pífias. Os estratos superiores da pirâmide social – hoje aferidos pelos recursos económicos e pela imagem -, egoístas e mesquinhos vão contando hipocritamente a anedota do elevador social. Na verdade, precisam da desigualdade como pão para a boca. Não só no sentido material da coisa, porque as desigualdades de rendimento são efectivas e gritantes, mas no sentido cultural também. O seu relevo na sociedade depende da sobrevivência de uma maioria pobre, inculta e resignada. E por isso se assustam tanto com os radicais.

Um país onde tudo se compara e a inveja é rainha, onde ser alguém significa possuir no mínimo o quadruplo rendimento dos seus administrados, onde assim que se chega a um patamar económico confortável se tenta mimetizar a etiqueta tradicional para impressionar a maioria dos portugueses que a desdenha, e se lê livros cujo léxico e conteúdo não é acessível nem inteligível à maioria da população. Um país onde a classe média é apenas remediada e onde muito poucos têm muitíssimo, quantas vezes à custa de negócios espúrios e da exploração dos impostos pagos por essa mesma classe média. Um país onde a grande corrupção não pode ser definitivamente repudiada por falta de legitimidade de parte substancial da população habituada a praticar ou consentir a pequena trapaça.

Um país que prefere continuar as bravatas contra a direita populista ou a esquerda radical, em vez de se unir em favor do justo, aceitando como boas quando razoáveis e merecidas as ideias de uns e de outros. Apesar da consciência de que são usadas apenas como pretexto para hastear bandeiras populistas, correspondem muitas vezes a anseios justos da população, que são a todo o momento desdenhadas e espezinhadas nos textos dos jornais e espaços de debate das mais respeitáveis figuras da opinião. E aqui está a ofensa que ninguém quer ver, mas existe, é real e magoa. Podem desmontar estes argumentos indo buscar os clássicos e os oitocentistas – que como as estatísticas dão para todas as leituras, para provar tudo e o seu contrário -, podem tentar colar-te o rótulo de lírica, ingénua ou ressentida. Tu sabes e eles também que estás a dizer a verdade que não lhes convém.

Não te cansarás de o dizer, ainda que só. É preciso ouvir a voz da população descontente, não só a que vota nesses partidos radicais, mas sobretudo a zangada que não vota há anos. Há que deixar de falsas declarações de pesar pela abstenção a cada eleição, retirar o peso da fúria e tirar espaço ao oportunismo. Não é normalizar, como dizem os desatentos ou desleais que se acham superiores aos seus compatriotas, até porque normalizada está ela, por enquanto mais pelo silêncio do que pelo reivindicação - até quando? É preciso esvaziá-la do que tem de maligno – a fúria da tirania, peneirando as razões válidas de descontentamento uma a uma. Trazê-las para o espaço moderado.  

Antes se ridicularizassem as elites - as antigas e as recém ascendidas -, que fingem pelejar pela justiça e democracia quando tudo quanto fazem é falar em pobreza ao mesmo tempo que recusam acesso a melhores salários e rendimentos, e sempre arranjam bons e liberalíssimos argumentos como a falta de produtividade. Pena que não usem igual raciocínio em causa própria. Enchem a boca para falar em educação e da necessidade de mais leitura, mas pouco lhes dá mais prazer e ser do que olhar cima da burra para os boçais e ignorantes. Se fosse a justiça e a democracia que os preocupasse não se dedicariam tanto tempo a desprezar os compatriotas, menorizando-os e achincalhando-os. Estariam a dar exemplo. Não sentiram desdém pela pobreza e ignorância. Estariam, sem disso se gabar em proveito próprio, a educar e regozijar cada vez que alguém passasse a viver em melhores condições. A alegrar-se cada vez que alguém se sentisse respeitado e percebesse o significado de democracia e liberdade na pele.

Não te venham com histórias da carochinha da defesa da democracia. Não é a ideia de que o poder está nas mãos do povo e no proveito dele que vês defender, apenas os interesses mesquinhos de tribos mais ou menos trapaceiras. E desta forma não há País, nem autoridade, nem Nação. Somos coisa nenhuma.

 

A culpa inteira

por Isabel Paulos, em 09.01.21

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*

Os dedos na ponta do nariz

como em criança no focinho

eterno do Serra da Estrela,

curado a aspirina. A febre,

essa, arde-te na orelha esquerda.

Mas que interessa? Está tudo bem;

na perna não larva o peito.

 

A ruína em brasa na mão direita,

pingou-te sem pesar a culpa inteira.

Recordas, agora, sequer sentiste dor,

resolvida a dissolver o susto

ateaste com desembaraço maior pena.

 

Nas garras carregas as falhas

cruas, nem todas tuas.

E quanto mais despes a humanidade,

mais te pesa a carga alheia. – Larga-a

num assomo de liberdade.

 

La Luna - Pixar

por Isabel Paulos, em 09.01.21

 

*

Nestes dias frios de paranóia colectiva, em parcial silêncio entre a apreensão e o pavor, desejosos por voltar à tona para mostrar a vossa superioridade e indiferença face à natureza, se procurais ideias e piadas novas e complexas para empunhar, esquecei os filmes da Pixar. Não são nem trazem novidade, não impressionam inteligências agudas, nem comovem corações sofisticados. 

São muito pouco para vós que sois tanto, deuses terrenos do vosso tempo.

São bonitas, só. 

 

(agora sim, emendado - até ver.) 

 

A peste

por Isabel Paulos, em 08.01.21

Como nota de rodapé, digo apenas que tinha planeado escrever hoje sobre as crenças e maldições em anos de peste, calamidades e fenómenos naturais. Coisas da História, em que tantos são tão versados, mas esquecem quando mais são precisas.

Vejo que há quem com mais tino já esteja a chamar à razão os insensatos das verdades da ciência fácil. Gente lúcida. Fico sempre agradecida.

Aquém

por Isabel Paulos, em 08.01.21

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*

Teorizas a infinitude:

ficas sempre aquém.

A eterna inquietude

não te é estranha.

 

Do grosso além

se consciente de ti,

percebes irremediável aquém

e aí tens consolo.

 

Temes verter da pena

juízos apressados do ouvir dizer.

Almejas maturar em lento tino,

distante do búliço vertido - 

golfadas incessantes

de dados e acontecidos.

 

Ao invés de ver e ouvir mais,

tendes a sentir mais.

Em vez de colectar acontecidos

 e dar mão ao argumento, 

experimentas e pressentes

tudo quanto és.

 

Será simples ou simplista

o rasto deixado?

 

Boa sexta-feira

por Isabel Paulos, em 08.01.21

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Começar a manhã no cantinho, com o frescote a fazer bem às ideias.

Quase fim-de-semana. Yeah.

Razão x Emoção - Pixar

por Isabel Paulos, em 07.01.21

Episódios de Janeiro 2021 - As alcofas e a rua

por Isabel Paulos, em 07.01.21

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*

É muito difícil poisar numa ideia justa face aos últimos acontecimentos, e não só os da banda de lá do Atlântico, como dos de cá. As ilações fáceis começaram a ser tiradas da cartola. Do lado de lá, diz-se que as autoridades são menos actuantes face a desordeiros de um determinado tipo do que doutro. Do lado de cá, quase se chama assassino a quem resolveu abraçar os pais no Natal, alcunha-se de asno o populista e no alto da soberba e cegueira não se percebe o que está a passar.

Os que mais contribuíram para escalada de revolta dos desordeiros do tipo detestável (há os desordeiros do tipo justificável) são os mesmos que puxam dos galões da democracia e tolerância como se algum dia tivessem sabido o que isso era. Vivem e viveram a desprezar e injuriar aqueles a que chamam burros e ignorantes e estranham levar agora com a sua patética fúria. A importância que têm na comunidade, o seu rendimento, o prato e o copo que encheram diariamente foi servido, não como julgam à custa do trabalho e esforço digno, mas à custa do silêncio dos agora desordeiros dos dois tipos, e era em silêncio que os desejavam para poderem continuar repimpados das suas alcofas principescas. Até há pouco, o sossego dos desordeiros do tipo defensável foi mantido com promessas patetas e ocas de compreensão, o dos segundos com desprezo. À resposta vinda da rua, a que assistem no último ano dos seus aposentos calafetados, respondem com histórias da carochinha engolidas pelo resto da massa amorfa da população, que come a democracia, como comeria uma ditadura fascista ou comunista. O que é preciso é o cimento da unidade em torno de um inimigo comum: o vírus, os assassinos que visitam os pais no Natal, o populista que aproveita o debate e faz a primeira entrevista digna desse nome ao actual Presidente da República, com perguntas que muitos dos portugueses comuns queriam fazer aos políticos que nos desgovernam há décadas e jamais seriam feitas por um jornalista da nossa praça.

Custa? Dói o populismo? Dói a ignorância? Dói a intolerância? Tudo isto esteve e está latente em parte substancial da população portuguesa, que assim se via corroída por dentro, sem que alguém algum dia tivesse coragem de a curar. É a conversa de tasco, caros príncipes dos megafones requintados e exclusivos de elite. A conversa de tasco entrou-vos por casa adentro, à hora de jantar. Que chatice. Interrompeu-vos os deleites de repastos e colóquios tão soberbos. Será hora de perceberem que os ditos moderados representados em partidos de poder não podem continuar a ignorar a população como fizeram nas últimas décadas. E compreender que quem já o começou a fazer, está no caminho certo. Não é a chamar burro ao populista que se evita a tragédia da vitória do populismo. Não é a chamar asnos a parte substancial da população que se evita a tragédia da ditadura. É a perceber que razões válidas existem na histeria do descontentamento. É trazê-las quando justas para os programas dos partidos moderados e levá-las a sério. Porque a História está farta de mostrar que não se deve ignorar a fúria das populações para dar guarida a alcofas de príncipes alheados da realidade.

Bring Me The Horizon - I don't know what to say

por Isabel Paulos, em 07.01.21

Dignidade

por Isabel Paulos, em 06.01.21

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*

Se te cobiçam

o pequeno engenho

e louvam as tuas penas,

não te perdoam

o riso desajeitado

e a reserva de ternuras.

 

Querem-te inspiração corrosiva

e não te absolvem

a distância nem a dissonância.

Supõem-te ora explosiva ora esfuziante

Trova boba do circo mental,

mas coerente e cooperante.

 

Desejam-te a lavrar sentidas baboseiras

que enchem os corações de logros,

a esboroar à simples chamada da razão

de quem sem meneios ama,

e sucumbidos ao interesse sórdido

de quem engana.

 

E dás por ti de juízo tolhido,

corroída por mentir,

a pedir a quem te ama

e finge não ver

saiba ler na tua alma

segredo tão nu.

 

E que te iluda também,

como sabes foi capaz.

Na sabedoria faça desta trama

uma justa novela,

sem amantes despojados –

ainda que inventados -,

de armas desiguais.

 

Mar tranquilo

por Isabel Paulos, em 06.01.21

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*

O rasto vivido emaranha

os dias vindouros.

Farrapos hesitantes bóiam,

pegam-se ao corpo

nos mares serenos

por ti rejeitados com nojo

das delícias que temem a vida

e veneraram cenários idílicos.

 

Desejas em ardor

lembranças inteiras e plenas,

que sabes virão

no dia em que a morte te despegar

dos desperdícios imundos.

 

Viverás, enfim, numa redoma de piedade

que te devolverá a inocência

dos primeiros dias,

e deixarás de lastimar

dela não ter memória.

 

Alegría (Antonia Font) - Andrea Motis Cover

por Isabel Paulos, em 06.01.21

Bom dia.

Mar eriçado

por Isabel Paulos, em 05.01.21

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*

Não foi calmaria

que o destino te deu,

mas turbulência.

 

Não te reconheces

na mansidão

nem reflectes serenidade.

 

Estranhas lados certos

e razões únicas.

No teu mar revolto

encontraste a paz

que pôde ser.

E no desassossego

 repousaste.

 

Falsas unanimidades

por Isabel Paulos, em 04.01.21

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*

Creio que existe um pequeno país que aprecia pequenos protagonistas feitos enormes por enormes megafones e uma enorme pátria feita de enormes anónimos, felizmente, moucos.

Forest Blakk - I Wish I Knew

por Isabel Paulos, em 04.01.21

*

A escolha musical hoje é minha e trata-se de um nome que nunca tinha ouvido sequer falar.

É o bom que tem o youtube.

De referir que as Comezinhas têm contado com a mais uma alma ligada à música. Muitas das selecções feitas ao longo dos últimos três meses, que passaram pelo jazz, clássica e ópera, tiveram o dedo do Artur.

Perborato

por Isabel Paulos, em 03.01.21

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*

Depois de um fim-de-semana alargado e atípico em que preparei quatro máquinas de roupa para aproveitar o tal sol de Janeiro que as Calendas não anteviram, eis que dou por mim a fazer, pela segunda vez na vida, o que me habituei a ver em criança: uma barrela de perborato. Nos tempos em que se usavam guardanapos de pano – coisa que aboli em casa por não ter vocação para escrava -, era costume usar este químico para voltar a dar alguma brancura aos guardanapos e toalhas manchadas de vinho e outros vestígios dos repastos. A solução é simples: deita-se uma porção do pó milagroso, junta-se água muito quente, mexe-se e, em seguida, vá de colocar o tecido tingido dentro da poção mágica com ajuda de uma colher ou garfo de pau, tapando-se no fim para o cozinhado sair perfeito. À falta de recipientes, uso a caixa da roupa suja para o efeito. No caso de hoje, não se trata de toalhas e guardanapos – até porque nos últimos anos optei pelos individuais e caminhos, salvo pontualmente nos dias festivos -, mas das cortinas da cozinha que apanharam humidade e manchas das plantas que as roçavam.

Extraterrestre como sempre fui, não tenho máquina se secar, prefiro vassoura ao aspirador e às mopas com paninhos recarregáveis, não deixo usar produtos químicos nos móveis de madeira e uso detergente em pó em vez de pastilhas. E cada vez que deito o pó na gaveta, penso: a minha mãe usa cápsulas há trinta anos, a minha avó já usava pastilhas, onde raio fui eu buscar estas manias? Aos sábados antes do almoço fazemos um mini arrumo e limpeza da casa; a mim compete-me exactamente arrumar e varrer. Pego na vassoura e são cinco ou dez minutos de puro prazer. Só embirro pelo facto da dona L. à segunda-feira usar na minha vassoura favorita – de pêlo macio – na varanda. É das poucas embirrações que tenho com a pessoa educada e delicada que me deixa feliz e contente todas as tardes de segunda-feira, ao brindar-me com uma casa a cheirar a lavado e a roupa passada.

Teria sido mais chique dizer a L., com aquela superioridade de quem vê o mundo lá de cima, mas desde criança me senti tolhida de vergonha por essas faltas de respeito. Nada que não tenha troco na justa medida: no local de trabalho, tratando eu a pessoa que limpa o escritório por dona F., sou mimoseada com um: Isabel, posso limpar a sala? Pois muito bem, que vivemos num país muito democrático onde a televisão ensinou os portugueses a tratarem todos pelo nome, quando não por tu. E o meu tolhimento é tão arcaico e desajustado quanto a educação. Isto são, claro, devaneios de quem conheceu um mundo antigo e lendário onde ainda não havia doutoras, mas um tríplice catálogo de senhoras, donas e senhoras donas, em função não só do nascimento, como da ocupação ou função que tinham na sociedade. E a este propósito também achei particular graça quando uma enérgica nova-rica, acabada de educar em faculdade de gente favorecida, me corrigiu por lhe ter dito em tom de brincadeira e sem qualquer sentido pejorativo: oh dona P., faça o favor de qualquer coisa. Pois ela, ciente do seu requinte e estatuto alcançado por fazer parte de tão nobre fauna estudantil, resolveu educar a pelintra: que não, que era senhora dona. Eu claro, não só anui, como pedi desculpa: pois que sim. E pensei com os meus botões: olhando bem para ti sob o critério do tríplice catálogo deves estar a roçar o senhora pela borda de baixo, mas a vida fará de ti uma dona a quem chamarão doutora ou senhora dona, sem que tu nunca venhas a sonhar o real significado e alcance de tal epíteto. Que interessa isso? Viva a democracia e as tuas certezas. E tens razão, a tua Las Vegas é muito melhor do que a minha. Creio até que acenderam as luzes só para a tua chegada.

Bem sei que todos temos as nossas pequenas vaidades e tudo isto soa a misto de mesquinhez e presunção, mas passei ano após ano a conter-me, evitando dizer o que pensava – e o que realmente era -, para não melindrar os outros. Normalmente quem assim age tem como paga ser ainda mais desconsiderado neste mundo moderninho feito da aparência. Pelo que tarde ou cedo, chega momento em que a paciência e os paninhos quentes se esgotam. Há escolhas que se fazem cedo: há quem viva a pisar quem passa pelo caminho para ser alguém, quando todo o meu empenho em ser alguém – passe a imodéstia - se traduz em coisas tão simples como pedir ao dono da loja de móveis na Rua da Picaria que me fizesse oito cadeiras em palhinha sem o fio embutido nas costas e travessões, para que se parecessem com o mais rústico conjunto de cadeiras que havia na casa onde cresci, e onde a minha avó me costumava ralhar em criança pequena por trepar para a cadeira apoiando os joelhos na palhinha. Ou, tão simplesmente, em aprender a fazer uma barrela de perborato.

 




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