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A despropósito de Hemingway

por Isabel Paulos, em 17.10.20

Ao final de tarde dos derradeiros dias de Setembro, estava sentada no escritório e lembrei-me que teria de comprar um livro para o meu pai. Abri a página online de uma livraria e fui ver contos. Nada me inspirou. Queria qualquer coisa de viagens. Saí da empresa, atravessei a rua e entrei no centro comercial para me dirigir à mesma Bertrand onde vou há vinte anos. Encontrei um dos livreiros da casa. Em Agosto aconselhou-me em simpática e entusiasta descrição um livro fantasioso quanto baste para eu oferecer a uma adolescente de quinze anos – ainda estou à espera da reacção da presenteada mas temo que, apesar de leitora regular e por ser muito pragmática, não alinhe em grandes delírios literários. A ver vamos. Mas no mês passado duas ideias contavam: queria coisa leve sobre viagens. Lá fomos funcionário e eu até à prateleira da literatura de viagem.* Não continha mais do que vinte e cinco tomos. Estive cerca de meia hora a folhear estuchas intelectualizadas. Devem ser excelentes, todos. Mas para outro momento da vida – do pai e da filha. Ou mesmo para outra encarnação; nesta não há pachorra.

Lá no meio, a minha salvação: À Aventura com Hemingway, de Michael Palin. Como quase sempre faço quando compro um livro para oferecer, li-o parcialmente. Já costumo pedir na livraria que deixem um dos lados sem fita-cola para o efeito. Uma viagem pela vida aventurosa, lugares, destinos e paixões de Hemingway a pretexto de um programa para a BBC. O autor – um Monty Python apaixonado pelo nobel -, tem uma escrita limpa e fina ironia. Acertei em cheio. O meu pai adorou e trouxe-o uma semana depois, já lido, ciente de também eu o querer ler. Claro que, como usual, confessei já ter dado uma boa passagem de olhos. Fui intimada: devolve-me as letras que comeste.

Estes ires-e-vires dos livros – que faço em permanência com pai, e sobretudo, mãe -, fazem-me recuar ao final da infância e adolescência, quando trocava o mesmíssimo pacote de amêndoas com a minha tia e madrinha. Durante anos, no dia de ramos eu dava-lhe o pacote das amêndoas brancas e rosa do ano anterior, que me era devolvido como presente no Domingo de Páscoa seguinte. E assim sucessivamente, tornando-se o alegre vaivém numa anedota anual e poupança em escudos e glicose, devida tão simplesmente ao facto de madrinha e afilhada odiarem aqueles aglomerados de açúcar às cores. Se ainda fosse um ovo de chocolate ou umas boas amêndoas torradas caseiras, mas agora é tarde - passaram mais de trinta anos.

Sucede que a troca e leitura prévia dos livros oferecidos não resultam de não gostar dos ditos. Antes pelo contrário; a regra é dar o que gosto e acho que o brindado vai apreciar. Nem sempre acerto, contudo faço os possíveis. Ofereço à média de um a dois livros por ano a cada uma das cinco ou seis pessoas que sei gostarem de ler. Na maior parte dos casos, tento lê-los ou passar os olhos. Às vezes consigo arranjar tempo e gosto suficiente para os devorar na íntegra. Pode não ser uma coisa muito bonita de se fazer - será, aliás, considerado coisa feia e falta de educação -, mas é absolutamente às escâncaras e a forma de economizar. Apesar de não ser grande leitora, por mim, as livrarias não morrerão.

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* Antes dessa prateleira, estivemos no escaparate dos usuais destaques e novidades; tive que dizer ao simpático funcionário que esses não ia levar. 





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