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A reacção

por Isabel Paulos, em 22.06.20

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Nenhuma simpatia me anima na figura de André Ventura e no Chega, mas não posso deixar de ver a sua existência e quiçá o crescimento como uma espécie de desforra da agenda dominante da elite política nacional e da comunicação social. Dos quarenta e seis anos de discurso benevolente com o marxismo-leninismo do Partido Comunista e vinte anos de apoio descarado ao ideário marxista-trotskista do Bloco de Esquerda.

Nas últimas décadas raramente o discurso preponderante nos jornais e na intelectualidade pôs em causa o extremismo ou radicalismo destes partidos. O facto do PCP recusar sistematicamente a demarcar-se dos regimes opressivos da Coreia do Norte, de Cuba ou da Venezuela foi visto como faits divers para preencher espaços humorísticos ou de curiosidades dos jornais. Nem o acesso privilegiado - o lobby - de militantes e simpatizantes do PCP a lugares e cargos na função pública alguma vez foi escrutinado. Pelo contrário, era promovido e amiúde elogiado, sobretudo nos meios culturais. Vícios que o Bloco de Esquerda também aprendeu a enfermar ou a matriz não estivesse tão próxima, apesar das pirraças e derivações ideológicas. Realidades nunca expostas na prosa dominante da comunicação social. A mesma que também não consegue perceber e denunciar a leviandade com que o Bloco de Esquerda aborda a economia, desprezando os seus principais agentes – trabalhadores, empresários e empresas – reduzindo-a à figura paternal do Estado Providência que amealha e distribui rendimento - dinheiro, essa massa abstracta e etérea que ora nasce na árvore das patacas ora tem origem na malvadez de medonhos capitalistas – e dos cidadãos beneficiários de protecção.  

Ainda bem que esta afinidade - da comunicação social e dos meios intelectuais e académicos com voz no País -, aos partidos mais à esquerda tornou a coabitação em democracia possível. Distanciou-os da imagem original de radicais esquerdistas, elevando-os à categoria de partidos do sistema, até ao ponto de, em 2015, passarem a fazer parte da solução governativa – com um pé dentro e outro fora, no melhor dos mundos.

Agora não estrebuchem quando da outra ponta do arco político aparece um partido radical de direita. É a vida. Para uma acção há sempre uma reacção. E o Chega, mais do que uma manifestação tardia da onda das novas direitas radicais europeias, é uma reacção ao desequilíbrio existente no País há quarenta e seis anos, que (apenas) se tornou evidente em 2015.

Os últimos cinco anos impuseram uma mudança. A partir do momento em que a esquerda radical deixou de apenas pesar na sociedade civil, passando a ter peso na acção legislativa e nas decisões governativas, impondo uma agenda identitária e de maior centralização dos poderes do estado, deixou de ser possível à direita fazer de conta que não via, como fez nas últimas décadas.

Mesmo os jornais conotados com a direita – e não me venham com a treta que não existe esquerda ou direita ou que é esta é uma visão redutora, porque se há coisa que os últimos meses têm mostrado à saciedade é que a dicotomia não é uma abstracção e que o excesso de preciosismo terminológico e semântico tem como efeito útil único não se dizer o essencial e o inteligível para a maioria das pessoas – como, no passado, n' O Independente entretiveram-se sempre mais a destruir a direita do que a denunciar os vícios da esquerda. Uma espécie de temor reverencial às conquistas de Abril e o medo de ser rotulado de salazarista ou fascista fez com que muitos seres pensantes do burgo fechassem os olhos ao laxismo, à incompetência e a amiguismo socialista, ao mesmo tempo que não perdoavam qualquer demonstração de falta de estofo intelectual e ou de etiqueta a Cavaco Silva. Nem, claro, de qualquer erro na acção governativa. Tivéssemos nós uma imprensa com o mesmo vigor e rigor ao questionar a acção dos governos socialistas e das iniciativas dos partidos mais à esquerda e estaria bastante mais sossegada.

Não questiono a necessidade de investigação de todo o acto governativo, das suas razões e das suas consequências. Este escrutínio faz parte dos alicerces da nossa democracia. É sempre saudável ver uma comunicação social atenta à corrupção, aos erros e incongruências na governação. O que não posso aceitar nem justificar é que essa especial atenção seja muito mais branda e cúmplice quando vai na direcção dos partidos mais à esquerda, que haja maior pudor quando os visados são socialistas, comunistas e bloquistas (e queridos animalistas, claro).

Por tudo isto não deixa de ser com ironia que leio a doce entrevista sobre o Chega a Riccardo Marchi, publicada no Observador. Uma entrevista na qual o autor demarca o partido da velha direita radical ideológica – dos fantasmas do fascismo e do nacionalismo - e na qual refuta quase todas as críticas pesadas que são feitas ao Chega. Mas, sobretudo, em que define o novo partido como um partido reformista e perfeitamente enquadrável no regime democrático. Nem por encomenda André Ventura podia pedir mais. Os ventos, por agora, sopram favoráveis. Imagino quanto espuma a esquerda ao ler uma entrevista assim.

Seria bom que no PSD lessem a dita entrevista e começassem a dar corda aos sapatos, que se faz tarde. Digo isto com a maior das franquezas, até porque gostaria muito de ter razões para votar no PSD nas próximas eleições legislativas.





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