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A realidade cansa

por Isabel Paulos, em 10.12.19

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Apanhou o metro e percorreu as cinco estações até chegar à Trindade. Já na baixa, cruzou as costas da câmara municipal do Porto e seguiu até à rua da Conceição, para entrar ao serviço na seguradora, onde trabalhava como gestor de sinistros.

À hora do costume sentou-se na cadeira em frente da secretária para preencher e verificar formulários digitais ou ainda em papel. Recebeu e remeteu emails com participações. Às 13:00 horas levantou-se e virou para a rua das Oliveiras, descendo até encontrar a porta do pequeno café improvisado de restaurante onde almoçava, em regra sopa, às quintas-feiras um prato. Gostava de poupar e da sensação de transgressão comedida. Havia dias que a refeição sabia melhor, outros pior. Não porque a cozinheira tivesse luas, mas porque havia dias em que barulho feito pelos restantes comensais ultrapassava o desejável. Nunca reclamou.

Não levantava ondas, não gostava de sobressaltos. Vivia para ter o seu sossego. Trabalhava há vinte anos na seguradora na mesma função. Nunca progrediu, por ser visto como cumpridor e eficaz mas pouco provido de rasgo, que é o mesmo que dizer sem capacidade de puxar o tapete aos colegas, incapaz de engraxar as chefias e sem jeito para se impor entre os demais.

Era filho cordato, há quinze anos marido atento e apaixonado e há doze anos pai dedicado. Pagava todos os impostos que o Estado cobrava. Nunca deixou de votar. Não estacionava o carro, que usava aos fins-de-semana, feriados e férias, em segunda fila, sequer fora dos locais de parqueamento. Nem ziguezagueava sem freio nas auto-estradas. Não injuriou o árbitro que marcou faltas contra o FCP nas raras vezes que foi às Antas ou ao Dragão, nem gritou filhos da puta aos adeptos da equipa contrária.

Tinha tido sonhos. E um maior que os outros. O de se dedicar a tempo inteiro às artes plásticas. Pintava esporadicamente nos fins-de-semana soalheiros e tinha um especial gosto por paisagens abertas e pássaros em ninhos. Nunca obteve grandes elogios às suas obras. Dos familiares e amigos o melhor que obtinha eram palmadinhas nas costas e comentários sobre o bom que é ter hobbies para relaxar. Sentia-se ferido. O entretém era o trabalho na seguradora, com que se sustentava e com o que se permitia ter uma vida familiar dita normal.

Melindrava-o tanto esse comentário sobre a natureza positiva do entretém, como os de falso incentivo dos poucos auto-intitulados artistas que conhecia. Peroravam sobre a intolerância ao emprego das nove às cinco e da incapacidade de fazerem aquilo que não gostam ou não acreditam. E deixavam transparecer a presunção de superioridade que sempre esquece a necessidade de subsistência e não raras vezes esconde uma vida à custa dos outros. Nunca fez reparos.

No dia 2 de Dezembro, no regresso a casa verificou o correio. Tinha uma conta da luz de 283,40 euros. Um daqueles acertos anuais em que a empresa cobra por estimativa o que estima serem as necessidades para sustentar os abutres que fazem a gestão da empresa detentora do monopólio da energia, apesar da aparência de mercado livre trazido pela distribuição por outras empresas. Uma ladroagem pensava o Luís. Uma ladroagem, mostrava a realidade. Desabafou a irritação com a mulher, que disse não terem outro remédio senão pagar. Era assim. E se não pagassem, a electricidade seria cortada. Já sabes, é a vida. É assim que funciona. Pagou.

Na semana seguinte viu o Ceo da eléctrica proferir mais uma daquelas frases de vanglória. Desta vez, qualquer coisa como: o preço não é alto, as casas é que são mal construídas. Não quis ouvir mais. Sabia dos argumentos. Se não fossem estes, seriam outros. E viriam dúzias de assessores e técnicos sabujos explicar aos ignorantes a evidência de casas de terceiro mundo portuguesas, que não obedecem aos padrões de sustentabilidade e eficiência energética e ainda teríamos que ouvir queixumes sobre as dificuldades em desenvolver a actividade num país como o nosso, apesar os altos padrões de qualidade dos seus técnicos e gestores, reconhecidos internacionalmente. A mensagem ardilosa disseminar-se-ia e passaria a justificação aceite na comunicação social e nas redes sociais. A publicidade concluiria o trabalho vendendo lâmpadas ecológicas.

É assim com o sector energético. Foi assim com a banca. E estamos todos fartos de ver como são extraordinariamente competentes os gestores de topo da banca e quão merecedores são dos prémios internacionais de excelência. Se alguém levantar a questão sobre os impostos que o sector não paga, terá que ouvir à exaustão argumentos fabricados pela mais pura das intrujices, passível de ser engolida por ter uma aparência de verdade, dada pela lógica do discurso. Os gurus da alta gestão são mestres na lógica, exímios no método de criar uma realidade alternativa e auto-justificativa que permite a eternização das mais aberrantes injustiças.

O Luís teve que engolir a conta, sabido que não há nenhum governo da república que tenha posto cobro à ladroagem no sector energético. E que o último governo que não compactuou com um banco corrupto, há vinte envolvido em todo o tipo de ladroagens conhecidas por muitos que assobiavam para o ar, é odiado por grande parte dos portugueses, felizes com a geringonça do deixa andar e apesar de continuarem de tanga emprestada.

No dia 18 de Dezembro, comprou um tablet de marca portuguesa, para dar ao filho no Natal. Assim que o abriu percebeu o defeito grave, nem sequer funcionando a bateria. Dirigiu- se à loja do centro comercial para trocá-lo e deparou-se com uma gerente da loja que se negou a devolver o dinheiro em troca do equipamento, alegando quase não tinha margem de lucro com a venda e que era a marca que tinha que assumir a devolução. Desta vez, reclamou com conhecimento da DECO e um mês depois foi levantar os retidos ilegalmente 150,00 euros. Ficou ciente que quer a dona da loja quer os seus funcionários acham normal vender produtos com defeito e normalíssimo não assumir qualquer tipo de responsabilidade pelo facto. Percebeu também que é um mal transversal ao comércio, sendo banal ouvir dos colaboradores da loja que se limitam a vender, sendo a qualidade do produto da inteira responsabilidade das marcas fabricantes. Zangado, comentava com a mulher que ia montar uma banca de heroína e atribuir responsabilidade pelos danos provocados ao cartel da Colômbia. A Ana dizia-lhe que tinha de perceber que os lojistas têm uma vida chata e há muitos abusos por parte de clientes desonestos que usam, estragam e devolvem. E pagam os justos pelos pecadores. E o Luís engoliu o mês sem tablet e, sobretudo, o ar de desilusão do filho no dia de Natal.

Vivia há treze anos no mesmo apartamento, e há quatro anos que às primeiras chuvas via parte da casa ensopada. A empresa encarregue da gestão do condomínio, apesar das advertências, não mandava desentupir as caleiras nem o escoamento do terraço de cima. Todos os anos falava com a responsável pela empresa de condomínio e de todas a vezes a via com o sorriso dúplice sempre acompanhado de sins e com certezas e claros, traduzidos em pensamento por estou-me nas tintas para o que estás a dizer, quero lá saber. Tinha um antigo contencioso com o proprietário do apartamento de cima. Com as canalizações estragadas, desde há seis anos danificava significativamente três divisões da casa do Luís. Há cinco anos que a seguradora do vizinho e a do condomínio se negavam a pagar os seus danos. No dia 14 de Abril recebeu um cheque da seguradora com a indemnização de oitenta euros. Após cinco anos e três casos de infiltração, com danos comprovados e orçamentados, só tinham considerado um orçamento, o último, o menor. Depois de mais de uma dezena de visitas por parte de vizinhos, canalizadores, funcionários da empresa de condomínio e peritos das seguradoras para atestar os escorrimentos e o bolor das três divisões, foram oitenta euros.

O dono do apartamento causador dos danos ficava agastado com o problema, como se fosse ele a vítima. A seguradora questionava a existência de uma obra paga com indemnização da seguradora do Luís, que o próprio, accionou após terem aparentemente parado os escoamentos da primeira infiltração e que, com inocência, declarou ter recebido, por nenhum dos trafulhas envolvidos no processo ter tratado de assumir as suas responsabilidades. Por trabalhar na área sabia bem como a política da casa é quase sempre a de desconfiar dos lesados e furtar-se ao pagamento. Desta vez resolveu não desabafar com a Ana. Não queria correr o risco de ouvir sabes perfeitamente que há muitas fraudes e que os portugueses são peritos em enganar as seguradoras com orçamentos falsos. O seu não era falso. Os danos não eram falsos. E custou-lhe a ganhar o dinheiro com que pagou os estragos feitos pelo tarreco do andar de cima. Estava farto de pagar pelos outros.

No dia 4 de Maio encomendou online um bouquet de rosas para dar à mãe. Pagou e fez prova do pagamento. No dia 5 de Maio recebeu um email da empresa fornecedora a informar que a entrega seria feita no dia 6, na véspera do dia da mãe. Respondeu dizendo que não poderiam limitar-se a informar, sem perguntar ao cliente se aceitava a alteração ao acordado, e declarando que à pergunta que deveriam ter feito, respondia que sim, que aceitava a entrega antecipada, e agradecia respeitassem o horário de entrega, após as 12:30 horas. Às 11:10 horas do dia seguinte o entregador reclamava à porta de casa da mãe o facto de esta demorar mais de dez minutos, após o telefonema de aviso ao chegar à morada indicada. Quando o soube o Luís irritou-se. Nos primeiros segundos pensou ligar para reclamar, mas não encontrou o número, depois pensou enviar um email com conhecimento da DECO, depois pensou que iriam achar reclamações a mais da mesma pessoa. Deixou passar. Mais tarde haveria de receber um telefonema de marketing agressivo da própria associação ao consumidor.

A mulher tinha recebido uma indemnização por acidente grave de trabalho de quinze mil euros. Perguntou o que achava que fizessem. Decidiram-se por um depósito a prazo no seu banco, onde se deslocarem para começar o inferno dos conselhos. Seria melhor subscreverem obrigações daquela empresa sólida que dois anos depois haveria de colapsar. Se o tivessem feito, teriam perdido tudo, mas não aceitaram. Depois o banco tentou convencê-los a aderirem ao produto da seguradora do banco, afiançando cheio de lábia o enérgico funcionário que não tinha qualquer risco, até o Luís pedir a ficha técnica e ler as bem legíveis palavras: risco de perda total. Saíram do banco sem decisão. Voltaram para dar ordem que o valor ficasse disponível para subscreveram certificados de tesouro. Começou a saga do assédio, porque era mais vantajoso subscrever os certificados ao balcão daquele banco. Assim não pagariam as comissões de manutenção de conta. O Luís sabia que só as comissões absorveriam todos os juros líquidos de imposto. Disse que não. Ainda tentaram insistir. Levantaram-se e foram colher cheques ao multibanco, ao preço de mais de três euros cada.

Subscreveram os certificados do tesouro nos correios, na esperança que o Estado não colapsasse. Ao jantar o Luís viu Catarina Martins e Jerónimo de Sousa a regozijar pela reposição dos salários e pensões dos funcionários públicos e reformados. Viu António Costa prometer o céu aos portugueses felizes, cada fez mais felizes com as estatísticas do crescimento a aumentar o do desemprego a descer, tudo a bater certo menos o facto de tudo acontecer à custa de uma dívida colossal, e percebeu que não há produtos financeiros sem risco e que devem faltar quatro anos para chegar a fatídica factura dos consolos.

Lavou a loiça e sentiu a costumeira indisposição. Achou que se sentiria melhor de andasse um pouco a pé. Saiu de casa e deambulou pelas ruas da zona suburbana onde vivia. Recomposto voltou, e ao atravessar a passadeira quase em frente da porta de casa, surgiu um automóvel de alta cilindrada que veloz lhe fez uma tangente de milímetros. Ficou imóvel do lado do passeio, já junto à entrada para casa, quase inerte. Impôs-se reagir e dirigiu-se à porta, enfiando a chave na ranhura, quando começou a estremecer. O corpo tremia com varas verdes. Esteve assim alguns segundos. Impôs-se e respirou fundo. Mais relaxado, chamou o elevador e seguiu até ao sétimo andar, e dirigiu-se de imediato para o quarto sem uma palavra.

Antes de se despir foi fechar o estore da janela e não pode evitar olhar para a terceira janela a contar da esquerda do sexto andar do prédio em frente, de onde dois anos antes se tinha atirado a mulher triste dos caracóis. Uma vizinha que durante alguns anos saía de casa no seu Fiat Punto à mesma hora que o Luís ia para o metro. Não sabia nada dela, além do que ouvira no dia seguinte na padaria da urbanização. Vivia sozinha, e apesar de estar reformada continuava a dar aulas gratuitamente numa associação de um bairro social. Reservada, não deixava de ser simpática com os vizinhos, até com os da porta do lado, de onde vinha o cheiro insuportável a mijo de gato. Fechou o estore. E olhou para o ecrã de televisão que se transformou numa tela de cinema. E entrou na sede da eléctrica em Lisboa, para se abeirar de uma ampla e faustosa secretária, de onde emergia um vulto enfarpelado, que fugiu espantado em direcção à janela da vizinha de caracóis e sorriso triste. Saltou. Juntaram-se outras sombras engalanadas. E atrás delas, corria uma silhueta pispirreta que só teve tempo de dizer que só tirava oito euros de lucro por cada aparelho, antes de se atirar. Atrás desta, outras três silhuetas. Uma acenava afirmativamente com a cabeça ao mesmo tempo que ria com os dedos numa sombra chinesa, outra trazia na mão uma folha quadriculada e olhava para o número catorze da solução de uma equação simples e perguntava se seriam positivos ou negativos. Todas caíam da mesma janela. Até uma sombra de um tarreco de cor verde de bolor agitava um cheque de oitenta euros. E atrás, duas ou três silhuetas de gente a sugerir as mil e uma formas de aplicar a fortuna do cheque, antes de se despenharem da janela.

Estremunhado acordou deitado em cima da cama, coberto apenas com a manta de xadrez, com que a Ana tinha tido o cuidado de o proteger. A televisão estava ligada na SIC, e ouviu novamente os elogios aos grandes sucessos do País, camuflados de críticas inócuas ao status quo. Estava a decorrer um daqueles debates políticos, onde o requisito para participar é não questionar um átomo de ideia preconcebida. Quando se preparava para adormecer novamente foi surpreendido por um vibrante alerta televisivo com a indicação de Última Hora: Estados Unidos respondem a teste nuclear de Quim Jong-un, com ataque massivo às bases militares norte-coreanas.

É o início do terceiro conflito à escala mundial, treme o Luís, aumentando o som do aparelho. Instintivamente apura o olfacto e tenta perceber se cheira a gás. E diz à Ana que espera que haja manhã seguinte. A Ana diz-lhe que não seja dramático. É claro que vai haver amanhã. Mas acrescenta: vai haver amanhã, mas não para todos. Sabes que no Correio da Manhã estão a noticiar que hoje houve um número anormal de ocorrências para o 112. Parece que houve o surto repentino de suicídios nas últimas duas horas. Imagina tu, que se for verdade o que estão a dizer, saltaram catorze pessoas de janelas neste fim de noite.

O Luís começou a balbuciar qualquer coisa como: sabes quem foi? Não obteve resposta; a Ana não o conseguiu ouvir. Vestiu-se novamente e desceu os sete andares pelo elevador para ir comprar cigarros à estação de serviço no fundo da rua.

 

                                                                                    (Escrito em Maio 2017, revisto hoje.)





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