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Ao de leve

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 15.05.22

Há gente que constrói, aprofunda e cria raízes e há gente que passa. Aos dezassete ou dezoito anos e por ligação a uma amiga do teclista de um dos grupos que actuava nessa noite na Escola de Jazz do Porto lá foste cair. Uns tempos antes em conversa com alguém cujo nome, rosto e tudo mais te esqueceste por completo, mas julgas estava ligado à actuação dessa noite, foi sugerido que te ouvissem cantar, para apurar a voz. Descartaste de imediato qualquer hipótese de que te ouvissem fazer figuras tristes, consciente da tua inteira desafinação, falta de ouvido e de noção de ritmo.

À noite lá estavas a ouvi-los. Despistada como sempre foste, afastaste-te da tua amiga até arranjar um poiso que te parecesse confortável. Não havendo lugares sentados, encostaste-te a uma mesa alta com botões, onde jazia o objecto mais desejado: um cinzeiro, já com beatas. Por comodismo ias pegando no dito quando precisavas e pousando de novo na mesa. Até que alguém sugeriu delicadamente que te desviasses um pouco para o lado e deixasses de roubar o cinzeiro ao Mário Barreiros. Assim fizeste, muito atrapalhada, tendo recebido como resposta um simpático e compreensivo sorriso.

À época não fazias a mais pequena ideia do que era uma mesa de mistura nem a produção de um concerto ao vivo. Mais tarde voltaste a estar próxima dessas máquinas engenhosas e de toda a parafernália de equipamento audiovisual. Mas, infelizmente, não criaste o hábito de visitar a Escola de Jazz do Porto. E só quando o Pedro Abrunhosa começou a ter grande visibilidade é que te apercebeste da dimensão profissional do Mário Barreiros e apenas há poucos anos soubeste que foi fundador da dita Escola.

Quando te lembras deste episódio, ficas com a nítida sensação de como passas pela vida ao de leve. Sem saber. Sem tomar conhecimento do que era suposto. Como passageira. Sem criar raízes, nem construir. Nem tomar consciência a cada momento de como as pessoas e circunstâncias te tocam de passagem. E de como as tocas ao de leve. Como forasteira.






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