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Casa & Conforto

por Isabel Paulos, em 15.05.21

Diz-se que as mulheres se perdem em lojas de roupa, sapatos e acessórios. Eu perco-me em lojas de móveis, loiças, atoalhados e quinquilharias. Até naquelas que juntam à decoração, materiais de construção. Esse é o meu mundo de fadas. Claro que aos 20 anos, apesar de nunca ter ligado peva a coisas da moda, me fazia confusão ver senhoras com a idade que estou agora deliciarem-se nas compras em lojas de ferragens ou materiais de construção. Apesar de tudo nessa altura ainda perdia algum tempo com os trapos. Alguma propensão para a descontracção e desvalorização do vestuário, calçado e acessórios, aliada ao facto de ter começado a engordar valentemente e de nos últimos anos ultrapassar os cem quilos, afastou-me em definito desse mundo coquete. Pode ser que me dê a parvoeira – não estou a insultar ninguém, apenas a mim –, e daqui a dois anos quando voltar a ter um corpo normal me dedique a estar mais de cinco exasperantes minutos em lojas de roupa.

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A coisa nasceu cedo. Por um lado fui educada a ignorar marcas, e acrescentei a isso a desconsideração pelas tendências. O facto de ter passado a infância numa quinta, num mundo mais masculino do que feminino, cedo me fez gostar de estar à vontade como os rapazes e logo que comecei a determinar o que vestia, preferi calças e, entre as calças, jeans. Nunca me achei menos feminina por isso, achava sim que tinha os movimentos soltos e uma postura minha, que as saias ou os vestidos não permitiam. Além do que, como muitas raparigas, sofria de complexos achando que estava melhor com as pernas tapadas. Lembro do desgosto que dei em casa quando comecei a insistir nas saias compridas até ao tornozelo, as únicas que que consentia. Não deve ser fácil imaginar uma menininha de ar delicado, e ela começar a ter um ar aciganado – não é insulto, eu gostava. Lembro na adolescência de amigos próximos homossexuais se meterem comigo pelo tipo de indumentária que às vezes achavam pouco feminina. Nunca me importei e nem por um segundo pus em causa a minha orientação sexual – como supunha que alguns deles pusessem -, em função dos trapos. Sabia desde muito cedo que gostava de rapazes e também tinha a certeza que não tinha vocação para estar permanentemente atenta à postura das pernas. Nem para os ralhetes familiares, que desde criança fui alvo, por não me saber sentar. Era o que me faltava. O que os outros achavam podia-me chatear mas nunca demover daquilo que era e queria. Na casa dos vinte, quando estava mais magra e mais bonita, cuidava-me mais e sentia-me bem com isso. Mas as saias e os vestidos eram peças usadas esporadicamente, preferindo sempre as calças no dia-a-dia por uma questão de conforto e carácter prático. E também nunca tive grande pachorra para saltos-altos apesar de ter havido alturas em que os usei. Pensando bem, aquilo é um pouco estúpido. Por mais que se saiba usar, são no mínimo cansativos e de facto não tenho vocação para o martírio. Agora com este peso e corpo estranho naturalmente nem pensar em usar saltos finos, quando muito aqueles sapatos geralmente feios de tacão largo. E a regra do dia-a-dia é andar com sapatos quase rasos confortáveis ou sapatilhas - ai credo, os ténis possidónios. Sempre que arranjo uns de que gosto muito, compro mais um ou dois pares de cores diferentes para fazerem várias temporadas. Aliás, há anos que faço o mesmo com blusas e calças: se gosto muito, compro mais do que um exemplar igual ou de cores diferentes. Assunto arrumado por mais tempo e menos idas às lojas, o que é óptimo.

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Agora copos, pratos, xícaras e demais quinquilharia, isso sim é coisa que me enche as medidas. Ou roupa de cama, de mesa, atoalhados. Disso gosto, mesmo. Apesar de não ser grande decoradora, cresci a ler revistas de móveis e decoração – pensando bem cresci a fazer de tudo. Já depois da mais tenra infância em que achava que quando fosse grande ia escrever (à máquina), em criança mais velha achava que ia ser arquitecta, para depois na adolescência decidir que ia ser diplomata - viu-se. O escrever à máquina, que julgo associava a qualquer coisa parecida com o ser professora, vinha do exemplo materno. A arquitectura além das revistas, vinha do gosto despertado por uma professora para o desenho de plantas de casas. Vício que tive – apesar de sempre ter desenhado mal -, durante mais de 20 anos e que esbarrou na constatação no 9º ano em Arte e Design da evidente falta de talento e não menos patente preguiça. A diplomacia começou logo por esbarrar na decisão pelo curso de Direito, quando devia ter decido fazer o curso de Relações Internacionais, para o qual também entrei aos 17 anos numa universidade privada, e mais tarde, novamente na preguiça e falta de alento.

Mas ninho nunca me faltou. Casa e tudo quando a compõe, com mais ou menos talento e gosto para a decoração. Com mais ou menos arte, ninho nunca me faltou. Talvez por isso dê tanto valor às ´coisas de casa´, a quem comigo a habita e à paz de espírito.






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