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Diário de ontem

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 16.09.21

Ontem reli postais sobre a exacerbação da falta de auto-estima da esquerda e a ideia de que é a esquerda académica, intelectual e bem instalada que promove o activismo tonto e não os verdadeiros penalizados pelas ofensas às identidades. Sem deixar de perceber que há verdade nesta observação, e com eterna tendência para ver dos dois lados, tentei contrapor a visão da balofa auto-estima da direita, ancorada na ideia da sempre possível superação dos obstáculos, crença cega na vontade individual e na inexistência de desigualdades para quem acredita em mantras motivacionais e que os fins justificam os meios.

Enquanto decorria o debate das autárquicas no concelho de Lisboa, dei por mim assustada com a memória do que escrevi há dois dias e ainda não publiquei por querer corrigir e maturar, assente na contraposição entre o artifício e o essencial, sendo que este último estaria na conexão com a natureza – a ideia base da Quinta. O sobressalto prendeu-se com voltar a ler um rápido resumo da biografia de um contemporâneo profeta e chanfrado homicida cujo pensamento passa a páginas tantas por esse tipo de ideias. É preciso muito cuidado para não perder o pé, pensei.

Do debate ouvi apenas partes. Fiquei agradavelmente surpreendida com o bom senso (quem diria) da prestação da representante do PAN, entediada com os paradigmas da candidata do Bloco de Esquerda, irritada com a prepotência da independente apesar do que disse fazer sentido, hesitante em relação à candidata do Nós Cidadãos, sem dúvida com trabalho bem pensado e bem feito além de coragem para a denúncia, mas fiquei sem conhecer alternativas. Encolhi os ombros ao ouvir o representante da Iniciativa Liberal, tive esperança que três dos candidatos que enunciaram críticas certeiras mas banais ao poder instituído dessem o passo seguinte e concretizassem políticas. Fiz por não ouvir o Presidente da Câmara em exercício - sei, não é uma atitude inteligente, mas tenho que poupar a minha saúde. E reparei que o bonito próximo secretário-geral do PCP parecia ele próprio o Presidente da Câmara de tal modo está instalado e mais à vontade do que qualquer um dos outros nas questões concretas da governação municipal; nem se esqueceu de elogiar - a pretexto de motivá-los - funcionários da edilidade numa descarada caça ao voto.

Entretanto ontem ou anteontem – perco um pouco a noção – Rui Rio esteve muito bem no comentário à inacreditável postura da maioria dos juízes do Tribunal Constitucional, ao afirmarem que a mudança para Coimbra desprestigiaria a instituição. A única nota que se pode fazer aqui é esta: a maioria dos juízes do mais alto órgão de Justiça não passam de parolos e pouco podemos esperar do país quando assim é. Sim, a postura é própria de pacóvios ascendidos à capital. No Livro dos Três Princípios procurei deixar bem claro que um dos mais graves problemas do país é esta saloiice dos representantes dos mais altos cargos da nação – passa por juízes, mas também por políticos, intelectuais, académicos e comentadores televisivos, por exemplo. Nada pior do que entregar o poder (em sentido lato) a deslumbrados.

Para rematar digo apenas que teria gostado de ter sido poupada à visão e audição de um velho senil a dizer obscenidades. Quando penso que Fernando Nobre poderia ter sido Presidente da Assembleia da República, penso: céus, que susto. Mas na realidade ainda conseguimos pior. Fernando Nobre e Ferro Rodrigues são o pior retrato do país.

*

Adenda: percebi depois de publicar que me tinha esquecido de Moedas. Não foi mesmo intencional, mas de facto também não me entusiama, tal como Medina parece-me um avençado do lobby lifestyle das bicicletas.






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