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Dissonância

por Isabel Paulos, em 29.03.20

relógio de sol.jpg

*

Em certos dias revivo o século passado. Na verdade, tenho a impressão de ainda não ter despegado da época oitocentista e festejado a chegada ao século seguinte. Rio e digo que sou muito mais velha do que as gerações que me precedem e, por isso, continuo a varrer a casa com vassoura e a achar as mopas um atentado de desperdício.

Não há como ignorar. Nem quero. Cresci e amadureci (não muito, vá) a prezar os relatos, as paisagens e as gentes d’outros tempos. Estimo-os tanto quanto os contemporâneos com quem convivo. Alguns parecem-me, aliás, mais próximos. Sento-os comigo na sala e conversamos. Educam-me, resmungam e riem comigo. Até que os levo à porta, porque se faz tarde e tenho o presente alheio para viver ou o jantar para fazer.

Noutros dias recordo como comungava da modernidade acelerada e sofisticada. E como era empenhada e convencida das razões e convicções sem querer saber se eram as minhas. Às vezes, estas são as recordações do agora, deste instante. O curioso mundo surge-me ao contrário. Faço história do presente (ou do futuro, mas não vou complicar já) e vivo e sinto no passado (ou no futuro).

Diz o pedagogo que devemos aprender com o passado - com a história -, e tirar lições para o presente. Mas como? Faria sentido se presente e passado não se invertessem como me acontece de facto. Preciso sim de aprender com o presente. Mas não com um qualquer.

Componho as ideias no tempo que quero e não no que me é dado. Para seguir a corrente do rio está pronta a multidão. Sou como o peixe que sobe o rio para desovar. Sufoco claustrofóbica presa no tempo alheio, esse presente alienado e desaustinado que não escolho.

Nem sequer quero o amanhã que acalentei a sonhar e me fez suspender a vida inteira no presente que rejeitei. Não quero saber do presente ou futuro alheio, que não sabe o que quer da vida, nem de si nem dos outros.

E há dias em que recordo ou vivo o futuro, conforme o desejo se concretizou ou não. Como num passe de mágica faço o truque dos idiotas felizes, e fundo-me no amanhã como se ficasse todo ao meu alcance e parte dele bastante vivido e até sofrido.





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