Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Expressão e identidade

por Isabel Paulos, em 05.08.22

À primeira vista, e talvez à segunda apesar da grande volta, quantos mais mundos forem pisados mais rico é o conhecimento e a linguagem. Os périplos físicos e psicológicos dão mundo, calo e vocabulário. A forma de expressão de cada um é o repositório dos vários mundos transcorridos. Alguém nascido no Funchal terá experimentado os termos e pronúncia madeirense e o convívio diário com o mar. Uma e outra dão identidade aos sonhos e limitações. Uma adepta de um clube de futebol conhecerá as regras do jogo, vibrará com as vitórias e sofrerá com as derrotas. Um bom marceneiro conhece bem as madeiras, as árvores e o modo de construir um móvel por encaixes sem necessidade de pregos. Uma mãe pode ter mais sensibilidade para perceber a forma de tratar a maleita do bebé do que o pediatra. Quantos mais compartimentos da realidade tocarem a mãe, o marceneiro, a adepta de futebol e o madeirense mais versados ficam no mundo. Quanto mais curiosos, observadores e pacientes forem mais sábios serão. Pelo contrário, é muito comum quem não passando por tais partes do mundo delas desdenhe por falta de curiosidade, preconceito e necessidade de demarcação por presunção. E se atenha apenas a determinados compartimentos, privilegiando-os e tornando-os estanques, como se fossem via única de conhecimento. É a clausura da prosápia. Desdenha-se de uma pintura por nunca se ter perdido cinco minutos a olhar um quadro surrealista por ser absurdo, despreza-se uma música bem construída por ainda não ter o selo dos pseudo-melómanos e passa-se a dissertar sobre a dita como seu amante e connoisseur anos depois, ridiculariza-se um livro por se ter transformado num ícone universal pela triste vontade de se demarcar de manifestos artísticos democratizados para dar o ar de sólido e destacado intelectual.

É o aglomerado de mundos transcorridos que dá identidade a cada um. Esta nasce da mexerufada de vocábulos e expressões herdados daqueles com quem se conviveu e convive pessoal, social e profissionalmente, dos livros lidos e de tudo o mais que se leu, das viagens, do mundo interior e da imaginação, dos sonhos, do cinema e outras artes. Ao privilegiarmos universalmente, mediante o uso globalizado da internet, determinados compartimentos em detrimento de outros começamos a restringir aquilo que dava identidade a cada um, criando uma linguagem uniforme e pobre, apesar da aparência de democraticidade e representatividade da imensidão de mundos reunidos no espaço universal, que é o mundo online. Viver da popularidade quantificada por rankings, da imposição comercial de ideias clichés e contra-clichés e da vulgarização de atitudes de superioridade intelectual e moral é, por não permitir a expressão com identidade, o caminho da desordem e, como reacção, da tirania.

Se este texto parece defesa dos identitários não foi intencional. Pensei alto, com abertura, sem medir consequências. Não parece que seja um mau caminho. Em todo o caso, saiu muito ao lado da ideia inicial como é costume por procurar mais questionar do que registar certezas. Ficou por abordar a história ou evolução da comunicação. Talvez noutro dia.


4 comentários

Imagem de perfil

De João-Afonso Machado a 06.08.2022 às 01:18

Põe bem o problema. O mundo é para ser conhecido in loco. A internet não tem sentimentos mas está já a ser muito mais do que um auxilio.
Não é possivel uma literatura ou outra forma de arte e comunicação feitas a partir do simples conhecimento virtual.
Imagem de perfil

De Isabel Paulos a 06.08.2022 às 15:58

É um equilíbrio difícil esse de tirar o melhor partido das potencialidades da internet sem nos deixarmos corromper pelo lado mau, alienando o essencial.

Um excelente fim-de-semana.
Imagem de perfil

De ROMI a 06.08.2022 às 07:14

Sem dúvida, há factores que exercem influencia na conduta das massas. Na excelência tem de haver rigor, e por norma há um défice alternado que resulta na mediocridade, se avaliado por quem se pauta nos valores exímios do comportamento. Já alguém dizia, por mais que nos esforcemos, a nossa avaliação depende sempre da competência de quem avalia. O problema é que poucos são os que se esforçam e poucos são os competentes..
Jamais seremos seres perfeitos. E como são sete da manhã e metade do meu cérebro ainda ficou na almofada, termino citando Evelyn Beatrice Hall (erradamente atribuída a Voltaire): "Posso não concordar com o que diz, mas defenderei até à morte, o seu direito de o dizer."
Atenção, concordo com o que dizes, isto foi mais para desculpar os prevaricadores e para terminar em chique  
Imagem de perfil

De Isabel Paulos a 06.08.2022 às 16:17


Sabes que quando escrevi a palavra paciência neste texto foi para fugir ao termo tolerância, por estar muito banalizado. Sim, temos que praticar mais a flexibilidade face à opinião dos outros. A verdadeira, não a aparente. A isso, aos fingimentos, mais vale reagir à bruta quando ultrapassam as marcas. A questão da aparência (em que tanto insisto) aplica-se também aos exímios avaliadores.
Foste chiquérrima. ;) Apesar de a ter ouvido várias vezes nem sabia a quem era atribuída, muito mesmo a quem devia ser. De Voltaire fiquei-me pelo dito "cada um deve cultivar o seu jardim" (em "Cândido, ou o Optimismo"). Óptimo mote de vida,  mesmo sem a ironia original. Um incentivo a ganhar perspectiva própria sobre o mundo.

Comentar post






Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D