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Mais automóveis

por Isabel Paulos, em 30.01.21

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Voltando aos pequenos e risonhos episódios da vida, recordo um almoço há mais de 30 anos. A mesa não estava completa; naquele dia estaríamos talvez dez. Avó à cabeceira. Já não me lembro bem se ainda vivíamos em Valinhas ou se lá estávamos de férias, como usual nos anos seguintes. Apelando à memória creio que terá sido no meu último ano, sendo que os meus irmãos mais velhos já viviam há dois anos em Gaia e nós mais novos permanecíamos; aliás, o T. ainda quis ficar mais tempo para terminar o liceu perto dos amigos.

O tio F. comentou: ontem de madrugada ao vir para casa apanhei uma fogueira no meio da estrada, um perigo. Diz o meu irmão F. num repente distraído: pois estava, ali em São Miguel. O silêncio impôs-se por uns segundos. Vi o olhar fulminante do N. da direcção do F. e entre os quatro naquele instante morreu o segredo, com a eterna desconfiança ou cumplicidade (nunca cheguei a perceber) do tio F. e a distracção dos restantes adultos entretidos nas suas conversas. Pensei na injustiça: pronto, mais uma vez os manos pegaram num dos carros e andaram a dar umas voltas. Eu tinha 12 anos. Eles entre os 15 e os 18. A injustiça traduzia-se no facto de a mim só estar autorizada entre irmãos a condução dentro da quinta. Depois de anos de corridas de bicicleta e andanças das motorizadas, guiava a VW Brasília da minha mãe e o Carocha da comunidade; para dizer a verdade não sabia bem quem era o proprietário do Carocha, talvez o tio G. que vivia na Austrália.

Quando me mudei para Gaia, o F. continuava nas suas aventuras. Chegando ao cúmulo de ser proprietário – ainda menor –, de um velho chaço comprado em sistema de vaquinha entre colegas do liceu, no Porto. Passei a achar mal que pegasse nos carros dos meus pais e ameaçava-o que ia contar. Ele chamava-me chantagista. Um belo dia, vinha eu a sair do liceu, em Gaia, e vejo-o na citroën GS da nossa mãe à minha espera em frente ao portão. Entrei, ralhei, ri. E demos uma grande volta por Gaia inteira. Finda a volta ele deixou-me no liceu e à minha saída do carro diz: acabaram as queixinhas, agora é cúmplice. Fui tramada.

Foi com igual espírito que me explicou coisas importantes para a vida, como noções financeiras. Em criança tínhamos um cofre mealheiro de madeira com quatro compartimentos, quatro ranhuras e chave comum, pelo que fomos habituados a saber o que os outros tinham e a isso respeitar. Já adolescente passei a usar um cofre amarelo com segredo. Um dia abro o cofre com o código e lá dentro tinha um post it a dizer ‘Vale 5.000 mil escudos’. Foi o meu primeiro título de crédito – devidamente quitado -, e talvez explique a minha maior propensão e facilidade para matérias financeiras e fiscais do que para o Direito puro e duro.

 






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