Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Mistela de apontamentos

por Isabel Paulos, em 01.12.21

Ainda não são onze e a noite sem pressa espera por um dia de intervalo. Pergunto-me que dirão entre si os casais por essas casas fora em Leiria, Freixo de Espada à Cinta, Tavira, Odivelas. Que cogitarão os mais velhos ensimesmados? Morreram mais de 5 milhões de Covid no mundo e quantos – outros tantos? - por falta de tratamento. Uns seriam outros, outros próximos. Família, amigos, colegas de trabalho ou a estes relativos numa rede que não tem fim. Abraça o mundo inteiro numa irmandade de apreensão. Conhecidos daqueles com quem se trocam meia-dúzia de palavras na rua, no elevador. Conhecidos com quem se convive diariamente durante anos. Todos de uma forma ou outra foram tocados pelas consequências da pandemia, que voltou a ser tema principal das televisões e redes sociais com a entrada em cena da nova variante de vírus.

Pergunto-me que discutirão os grupos de jovens encostados nos muretes das zonas habitacionais. Na solitária troca de mensagens instantânea de uma qualquer rede social com outros jovens a 10, 100, 300, 3000 quilómetros de distância. Enquanto estudam ou jogam online, ou jantam refeições pedidas numa qualquer plataforma de entrega de comida. E os solteiros e divorciados, que impressões trocarão com os namorados, familiares e amigos? Para além das frases curtas a que o mundo instantâneo nos subjugou. E os que vivem sós por escolha ou não e que pouco falam com outros – que pensarão? Questiono-me o que vai na cabeça das crianças pequenas também já agarradas aos jogos online e redes sociais, como há 30 ou 40 anos os miúdos se viciavam na televisão.

Em Dezembro – entra já amanhã – fará dois anos dos primeiros ecos não velados sobre a Covid. Imediatamente antes – um mês?, dois meses?, mais? - já havia movimentações por parte de organismos multinacionais a sugerir uma mudança repentina na nossa vida para que era preciso estar preparado.

E nós? Os que não sabemos nem fingimos saber mais do que os nossos concidadãos e com eles vamos partilhando as nossas apreensões, incertezas, zangas. Os que vamos indo e vendo, tentando apalpar a torrente informativa para perceber o que nos espera. No que devemos acreditar?

As conversas na maioria das casas ainda devem continuar a passar pelos mesmos assuntos. Alegro-me ao ler que ainda é na família que os portugueses mais pensam. Segue-se, por esta ordem: trabalho, comida, tarefas domésticas, sexo, amigos e futebol. São as conclusões de um desses estudos recentes que enchem as páginas da internet. Com certeza não incluíram o vírus pandémico nos questionários. De qualquer modo a ser assim há uma certa normalidade, salvo o facto de não sobrar tempo para pensar na vida – e são tantas as formas de o fazer, por exemplo, através da expressão artística, activa, passiva ou assim-assim. Não é novidade que haja pouco tempo para parar e pensar. Nunca esse tempo entrou para as médias. O que não diz tudo, porque também não se contabiliza o tempo de intriga e maledicência e esse ocupa um lugar cimeiro desde que o mundo é mundo. Há estudos até que dizem ter sido um dos contributos para o aguçar da inteligência humana.

Olhando uns períodos acima, não posso deixar de indagar se depois de pensar tanto na família, no trabalho, na comida e nas tarefas domésticas, não se esquecerão do sexo. Não é por nada, ou melhor até é, quanto mais não seja pelo desequilíbrio emocional que daí pode advir. E não estou a fazer apelo a surubas, mas ao tão banal e intemporal uso antigo de fazer amor ou foder, ou as duas coisas em simultâneo para os mais afortunados.

Resumindo. O que mais fazemos é trabalhar fora ou em casa e enfardar, sem tempo de parar para pensar. Ainda assim não alinho nos insultos sobre a estupidificação que daí advém. É só estar atento para perceber que o ócio não é caminho garantido para o conhecimento ou a sabedoria, nem para a felicidade, assim como sabemos que fanáticos do trabalho podem ser óptimos pensadores, além de gente contente consigo mesma. Não é por aí.

Mas reflectindo ainda um pouco sobre os resultados. Não são maus de todo. Se traduzirmos família por amor - afinal é no seu seio que brota parte importante da afeição, do cuidado, da pertença – vemos que no mundo, apesar dos mais de 5 milhões de mortes por Covid, mais uns tantos inquantificáveis por falta de tratamento, os valores ainda não estão invertidos. Haja esperança.

O que pensarão e em que conversarão os jovens, crianças, conjuges, solteiros e divorciados e os mais velhos por esse mundo fora? Para além das frases curtas. Nem me pergunto por aqueles que têm algum conforto material como nós, mas pelos refugiados na floresta da fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os que fazem a travessia no Estreito de Dover. Na família com certeza, nos muitos que perderam pelo caminho. No sonho longínquo de arranjar trabalho. No delírio de um prato de comida quente e uma manta. Em água para se lavarem. Tudo isto numa voragem de partir de onde a vida é madrasta e percorrendo milhas de tragédia em tragédia com os olhos postos na terra prometida que não os deseja e hesita entre recebê-los e fechar as portas, devolvendo-os à tragédia inicial ou a uma qualquer outra intermédia. Os nigerianos ou moçambicanos a quem não chegava a pobreza para agora se verem a braços com a violência brutal dos terroristas islâmicos? Ou as afegãs obrigadas a voltar ao obscurantismo? Os uigures “reeducados” nas prisões chinesas? As raparigas desaparecidas e mortas no Peru ou o México por violência doméstica ou tráfico humano? As crianças vendidas para tráfico sexual nos civilizadíssimos países da Europa Central? Onde andará a família?

Entretanto passam onze da meia-noite.






Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D