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Miudezas

por Isabel Paulos, em 15.06.22

Hoje trouxe a antipática que há em mim para o serrote – como se algum dia a deixasse descansar em casa, quieta e sossegada, sem fazer estragos. As linhas seguintes vão desde pequenos vícios aos grandes defeitos de carácter. Trato de miudezas decorrentes da educação e da falta dela. Mesquinhices aos olhos de alguns, talvez. No caso, dos acusadores profissionais. Não de todos, mas dos especiais de corrida que julgam e condenam sumariamente sem nunca se olharem ao espelho. Serei uma delas?

Há várias décadas convivo com uma pessoa peculiar. Uma mulher inteligente, perfeccionista, de habilidades e talentos vários, incluindo as competências profissionais. Sucede que entre muitas qualidades não se contam duas importantes: o respeito pelos outros e a noção do ridículo. Sendo uma mulher grande e muito pesada sempre a vi criticar outros de modo vivo e sem pejo por comerem demais e se deixarem engordar. Pergunto-me há mais de trinta anos que justificação dará si própria para o corpo enorme que transporta. Há pessoas que se desculpam com problemas de saúde, dizem não comer quase nada, etc.. Não é o caso, sendo uma mulher inteligente não iria tão longe. De qualquer modo, nestes trinta e quatro anos de convivência nunca a vi reconhecer um defeito que fosse. Fala sempre com enorme propriedade, como se encerrasse a verdade em todas as matérias. Além de ser de um egoísmo a toda a prova. "Primeiro eu" é o lema que melhor a define. Os outros são paisagem.

Conto uma situação caricata para que se possa sentir do que falo pelo pequeno exemplo. Num jantar de grupo levei um bolo avisando desde logo que a proveniência era uma casa comercial sem pedigree. Pois a pessoa em causa, pedindo que o aproximassem do seu lugar, aí reteve o dito bolo até final da refeição, e a cada fatia que partia e provava desdenhava e denegria o doce, afirmando que bom era o da confeitaria tal ou da aqueloutra extraordinária doceira pejada de referências e tagatés. Certo é que sem exagero comeu sozinha mais de metade do bolo, sem deixar que os restantes comensais dele se abeirassem. Até hoje o Nuno e eu nos rimos a bom rir desse jantar. O bolo estava péssimo, portanto.

É apenas um exemplo dos muitos com quem me cruzei ao longo da vida. Aliás um exemplo bastante benigno já que causa mais riso do que prejuízo, salvo talvez o egoísmo que é sempre pecha que prejudica a convivência criando nos que estão à volta carga de trabalho e de tolerância que não é de todo justa nem saudável. Conheci bem vários casos de gente cheia de si e sem um pingo de consciência dos seus defeitos, outros menos bem. Atribuo a razão para a existência deste alheamento ao facto de vivermos numa sociedade rapidamente ascendida e pouco educada que exacerba a auto-estima e o egoísmo. Sabendo disto não deixa de me espantar a forma como de dedo em riste se acusam outros de defeitos próprios, nunca os reconhecendo em si. Tal como me impressiona a forma como se desdenha de tudo o que não tem referência de qualidade quantas vezes sem outro fundamento que não seja a aparência.

A característica patente na história do bolo é já muito repetida ideia nas Comezinhas: viver em função de rótulos. Come-se pelo rótulo, fala-se e escreve-se por tiques, veste-se pela marca e pior de tudo: cultivam-se relações pelo estatuto que se julga encontrar no outro. E desdenha-se de tudo quanto não inspire brilho e condição ambicionada. O que conduz a situações de um ridículo só. Desde logo pelos equívocos provocados pela falta de noção do que é ser educado. Ao longo da vida não pude deixar de reparar em pessoas que na ambição de se tomarem íntimas de indivíduos que admiram (ou invejam) pelo pedigree se sujeitam a ser totalmente desconsideradas e vexadas sem acusar o toque - é o preço que estão dispostas a pagar para trepar. Porém a cobiça não é exclusiva dos escaladores sociais. Há quem provindo de gente bem instalada e educada há várias gerações seja tão desprovido de inteligência, de hábitos de trabalho e reflexão que considere normal o caminho dos catálogos. Já aos das primeiras gerações não costuma faltar esperteza, mas sim chá. Não conseguem por isso deixar de cair na armadilha do possidónio.

Voltando à incapacidade de reconhecer defeitos e passando para um plano mais pesado, acresce que por razões profissionais comecei a compreender que em muitos casos quanto mais ferozmente se ataca, menos razão se possui. Os vígaros, os corruptos, os criminosos têm quase sempre um poder de argumentação e uma fúria convicta fora de comum. De consciência mais do que limpa, são sempre alvo de injustiças e estão sempre prontos a gritar com sobranceria e bem alto impropérios vários. Pior: é desta forma que conseguem singrar, ter sucesso e obter privilégios injustificados. O facto dos outros se acanharem, não quererem conflito, é meio sustento da vigarice. Estou aliás convencida que colocando lado a lado no polígrafo um inocente consciente das suas fraquezas e um criminoso cheio de si e das suas razões, facilmente a máquina acusaria o primeiro pelo titubear, inocentando o segundo face à grande lata.

Todavia estes são apenas os trafulhas cheios de si, o mais comum dos tipos. Em menor número são os mais sofisticados. Uns mais inofensivos, outros bastante mais sinistros.

Os mais inofensivos são os manhosos. Percebendo ser portadores de determinada imperfeição que vêem descrita por outrem, prontificam-se a chutar para canto, diluindo o defeito num certo grupo para passarem despercebidos. Mostram ter consciência da existência da concreta imperfeição, mas mais uma vez, nunca a reconhecem em si. Já a estirpe mais perigosa relativiza a imperfeição, elogiando-a como supra-sumo de humanidade e cume de inteligência, ironia e sofisticação para disfarçar podres próprios de maior monta. Vou evitar usar palavras como pulhice e velhacaria já que fazem cócegas na sensibilidade de homens que se têm por muito polidos, malgrado estarem apenas de pezitos em pontas na expectativa de virem a ser pessoas respeitáveis. Mas voltando aos mais perigosos, é gente em geral bem sucedida e encostada numa tribo que em sociedade gosta de usar o sarcasmo ou mesmo a ironia como arma de arremesso disfarçando de dedinho no ar, voz mansa e requebros de postura as alarves ofensas, violências e, pasme-se, grandes condenações a quem se atravessa no caminho. Gente que mente, usa, sacaneia, corrompe e rouba sempre cercada de bajuladores que esperam aceder ao fruto das pilhagens, quanto mais não seja aos lugares-comuns e certezas em voga nos círculos restritos que alimentam por lhes darem ser. A particularidade que melhor os define é a condenação do moralismo primário através da ironia para descredibilizar inimigos e adversários, forma como dissimulam o facto de serem eles próprios o expoente máximo do falso moralismo.






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