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Momento cuchi cuchi

por Isabel Paulos, em 14.10.20

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Na meia-idade o balanço é feito neste estado de espírito: o limbo. Entre o conservadorismo cansado e pousado, de quem já viu tudo quanto havia para ver, nada o espanta e sabe que nada muda. E o contestatário que trepa pelas paredes e força as grades repressoras, levando tudo por diante para alterar o que está mal.

Diziam-me há poucos dias que fora a questão da corrupção e do nepotismo – e mesmo aqui se assemelham, variando apenas o grau -, o Governo está a fazer aquilo que um governo do PSD faria, com a vantagem não negligenciável de não ter ruído ou contestação. Concordamos que um governo PSD jamais poderia restringir liberdades como sucede agora, sob pena de grande contestação social. Pudera, nenhum de nós tem dúvidas que a rédea solta sob a conivência da comunicação social e da população é privilégio de quem está no poder neste momento. Divergimos talvez num ponto: para mim a corrupção e o nepotismo não são uma inevitabilidade. Ou, melhor, assente a existência destas pechas e de que são um traço enraizado na nossa cultura, valerá a pena bradar e vexar – até porque o grau de desfaçatez é tal que não podemos ir lá com pruridos -, fazendo vergar corruptos, sejam cúpula sejam cidadão comum.

Falámos depois no papel do Presidente da República. Diziam-me: vou votar nele. Está a fazer tudo bem, dentro da medida do possível. Como assim? Por saber que deve sustentar um Governo imune aos ataques jornalísticos e políticos e à contestação popular - o Governo ideal para estar num momento difícil como este? Não. Está a fazer zero, zero de melhor. Não marca a diferença pela positiva. O que vejo é Governo e Presidente da República – e já agora os portugueses -, à espera que chovam fundos da UE para lhes resolverem a vida e para permitir – sob o pretexto da estabilidade e da paz social; pasme-se agora até se invoca o patriotismo -, que tudo continue com os vícios de sempre. Fundos que irão ser destinados – se nada for feito -, a subsidiar cidadãos (em muitos casos bem), mas não a incentivar a criação de emprego e riqueza, através de criteriosa definição de benefícios e incentivos para as empresas – sob a condição de não serem desbaratados na infestação de empresas sugadoras fantasma. Aliás, restos de fundos. Porque o grosso, como vem sendo habitual, vai cair no saco roto de bancos falidos por mão criminosa e empresas públicas ingovernáveis por mãos delapidadoras.

A Banca insalubre receberá injecções de capital, que alguém explicará - para sossego de consciências ilustres e o amaciar da goela do povo -, que não é dinheiro dos contribuintes, mas sim emprestado por outros bancos – que hão-de receber o quinhão para o efeito –, e pelo fundo de resolução; logo, dirão, verba reembolsável. Este argumento faz-me sempre lembrar os serviços gratuitos das operadoras de comunicação e da dificuldade que tive há uns anos em explicar a adolescentes - obviamente desconfiados da minha inteligência e adequação à realidade moderna -, que nada é gratuito nos serviços dessas empresas.

O aceno com o bicho papão da crise política impede que haja discussão sã sobre o Orçamento de Estado para 2021 – ah céus, fosse o malandro do professor Cavaco Silva a colocar a espada sobre a cabeça dos partidos e seria gozado à exaustão (ainda estou para descobrir alguém que assuma ter sido cavaquista além do jornalista José António Saraiva e, já agora, da tonta que escreve estas linhas). Mas como é o professor Marcelo, é cuchi cuchi. Já sabíamos por Rui Rio que não havia oposição, mas agora ficou assente que a proibição vem de Belém – com o pretexto de que neste período não há poder de dissolução do parlamento. Estamos assim a modos que em assembleia nacional, e até já temos conversas em família sobre logística natalícia da parentela para compôr o ramalhete.

E como são ternurentos, o nosso Primeiro-ministro e o nosso Presidente da República (inverto a ordem do protocolo propositadamente e para fazer notar as prevalências reais), promoveram arbitrariedades nas medidas de contenção da pandemia, impondo restrições em função de quão seriam ou não populares. Pelo que tivemos enterros com lotação limitada e os nossos mais velhos fechados nos lares ou em casa sem visitas dos familiares, lado a lado com o despejo de vários autocarros na Alameda, junto à Fonte Luminosa para os festejos do 1º de Maio – já agora, moeda de troca para miminhos orçamentais -, e o espectáculo de humorista no Campo Pequeno, com a presença do regime, como convém aos artistas apaniguados.

O fulgurante consenso cuchi cuchi prevalece no topo de hierarquia do Estado. Estamos nisto. Nada de contrariar quem tenha peso na opinião pública, logo efeito eleitoral. Agora que não há beijinhos e abraços, nada como fazer do medo colectivo e do patriotismo armas políticas. Mas para quê? O grande intuito parece ser manter a pequenez de sempre, já que aos olhos do poder – e da generalidade dos portugueses -, toda esta miséria parece normal e aconchegante. Resta saber se devemos abstrair, relevar ou irritar. Será que serão precisos mais 10 anos para concluir?

*

A imagem da Candy Candy, uma animação que via em criança (no início dos anos 80), foi a coisa mais cuchi cuchi que me ocorreu. De referir que já na altura - apesar de criança -, tinha alguma vergonha de ver coisa tão florida e inverosímil. É, por isso, caricato que seja a imagem que me ocorre para definir o momento político actual.





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