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Nespereira

por Isabel Paulos, em 30.04.20

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Pois, lá está. Não sabes, mas eu explico: ela vai morrer. Não a podes deixar tantos dias sem água. Tudo na vida tem que ser cuidado e tens que tratar da planta se queres que cresça. Tudo na vida dá trabalho, minha querida. Devias ter optado pela buganvília, quase não requer água, perorava a Gabriela. Enquanto a Natividade se erguia do sofá com dificuldade para fechar as cortinas da varanda da sala onde a nespereira se ressentia do sol abrasador dos últimos dias. Só a regava uma vez por semana. Dava de beber à jovem árvore companheira e ficava a hora seguinte atenta a vê-la reerguer-se folha por folha. Sete anos antes confiara dois caroços de nêspera à terra do vaso e assim despontara o milagre de duplo mastro. Toda a natureza é feita de milagre, usava pensar. Como de costume decidiu não reagir. Sabia que inspirava nos outros o tom professoral e sobranceiro. Já a rego, disse secamente. Ai, Natividade, que tom desanimado. Tens que arrebitar. Nós, as mulheres, somos fortes. Isso das pieguices é com os homens. Vai à pê que te pê, não vales um cê e estás aí com sentenças, pensou a dona da casa para consigo. Mas disse apenas: se não te importas tenho coisas para tratar, falamos noutro dia. Estás a despachar-me? Perguntou a Gabriela, indignada. É isso, rematou a Natividade, com um sorriso bem-disposto e apaziguador na voz, acompanhando-a à porta.

(Setembro de 2018)






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