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O agora

por Isabel Paulos, em 26.06.20

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O medo paralisa e, sabendo disso, a magnífica máquina que o pescoço sustenta desdramatiza. Banaliza o perigo para que possa com ele conviver e sobreviver. Levanto-me todos os dias preparada para rir com patetices ou irritar-me com pequenos nadas, como se a vida fosse eterna. Se só me pesasse a consciência da finitude, que sentido faria escovar o cabelo se logo em seguida ele se desgrenha? Dar um beijo ao Nuno sabendo que um dia não nos teremos? Convencer clientes que mais adiante se eclipsem? Regar as plantas que acabarão por murchar? Falar ao telefone com os meus pais, sabendo que de cada vez que estou com eles os posso contaminar? Sorrir cúmplice com meus irmãos, sobrinhos e amigos in loco, no whatsapp ou email, julgando que os posso perder? Partilhar e ler opiniões e desabafos na internet, acreditando que tudo terá um fim?

A carapaça de juízo que nos impede de sentir a realidade com crueza integral faz-nos melhores. Dedico-me às tarefas diárias com afã, para ter tempo para os pequenos prazeres diários. Nem dou pelo coronavírus quando ao entrar no autocarro puxo a máscara um pouco para cima para tapar o nariz, por trazê-la tanta vez descaída na rua. Ou se a volto a pôr ao sair do gabinete para cirandar pela empresa. Ao tirar os sapatos ou lavar as mãos quando entro em casa, ou ao esfregá-las com gel desinfectante à entrada no escritório. Todas estas rotinas são feitas por mim – e pela maioria das pessoas, creio – sem a presença constante do gume da navalha encostada ao peito. Seria o inferno se vivêssemos em permanente estado de alerta.

Esta magnífica máquina que o pescoço sustenta – que às vezes desconfia da magnitude da tragédia -, permite que vejamos os sinais do recrudescimento da pandemia e que tenhamos cuidados reforçados sem nos deixarmos amedrontar. É a vida. Tenhamos o jogo de cintura necessário para enfrentar este cobarde coronavírus, que leva sobretudo os nossos mais velhos e indefesos. Saibamos protegê-los, vivendo com sensatez e coragem o agora.





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