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O calhau

por Isabel Paulos, em 28.04.20

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Naquela pequena aldeia perdida do universo todos acreditavam que a pedra caída do céu era amaldiçoada. Desde que irrompera da abóbada celeste, rasgando a atmosfera e enterrando-se a meia altura no solo com estrondo ensurdecedor, era tomada por todos como causa única dos problemas dos aldeões. Todos, desde os grandes dramas aos mais pequenos dissabores. A rocha não fizera mais do que existir, como todas as outras pedras ao longo dos milhões de anos do universo: existir e despegar-se do resto da matéria, o que aligeirando as coisas é criar vida. Calhou ser ali e calhou ser um calhau. Só que os aldeões não viram ali vida, mas morte. A morte das batatas. O início de toda a tragédia. O facto é que os reais estragos foram pouco além da mata fanada de pinheiros e eucaliptos, da leira de batatas e da horta do tio Venceslau. O pedregulho, a que ele chamava casa da música, por ser a coisa mais parecida que viu numa ida ao Porto com o absurdo que caíra na horta, tinha a dimensão da dita e o mais que criara, além de todo o alvoroço, fora a impossibilidade de acesso às batatas. E ao cebolinho, e à alface, ao feijão-verde, às cenouras. Enfim, uma infinidade de coisas que o mundo para lá da tabuleta que diz Lama não vê senão no supermercado, na despensa ou no frigorífico.

Mas se o problema não era de grande monta senão para o tio Venceslau que ficou sem rendimento, o caso agravou-se quando a Julinha, que distribuía o pão pelas aldeias em redor, espalhou a notícia da maldição da Lama. Dada às bruxarias, a Julinha asseverava que numa noite de nevoeiro foram avistadas almas penadas em redor da pedra e que na manhã seguinte a terra que a rodeava começou a amarelar, transformando-se em areia, como aquela que o tio Venceslau tinha visto na Foz do Douro. E que a Julinha em nova também vira nessa coisa das praias. Nas quais, apesar de não viver assim tão longe mar, há anos não botava os pés. Ainda assim estranhava que ali, logo naquela terra tão farta em água que todos queriam drenar e afastada do mar salgado secasse de forma tão repentina. De tal forma que, algumas noites depois, vira peles das cobras largadas na superfície da pedra. Elas conhecem o seu senhor, dizia a Julinha. As serpentes rendem-se sempre ao diabo.

Começando a correr o boato que a terra da Lama era seca e fora amaldiçoada desde que lá caíra o pedregulho, as aldeias vizinhas começaram a cavar um fosso nos seus limites. Um sem-número de questiúnculas sobre a propriedade dos terrenos e as marcações do território da freguesia foram levantadas, ao ponto do Casimiro abrir a cabeça com a sachola à tia Jacinta, por lhe roubar três metros de terra para fazer o fosso. E foram elevadas a grandes questões de discussão outro sem-fim de bagatelas sobre os melhores métodos de construção e financiamento da vala. Assim ficou cercada a Lama apenas unida ao resto do universo por uma ponte dissimulada por uma benemérita da aldeia contígua para que levassem gasóleo até à Lama ou de lá saísse algum aldeão doente para o hospital. Sucede que a artimanha da benemérita Ana, uma espécie de ponte levadiça feita de um reboque de tractor que se estendia até à outra margem, foi denunciada por zelosos vizinhos e logo incinerada em sinal de total repulsa pelo crime lesa-majestade de pôr em risco o resto do universo.

De imediato alguém propôs levar a questão ao tribunal da cidade. Decorria o julgamento e já a acusação contra a Ana era a de ter trazido para o lado de cá do universo a secura amarela da terra. Fotografias fizeram prova. Imagens de areia nos campos da Ana, junto ao local onde estacionara o tractor com o reboque. Vejam, ainda há marcas dos rodados. Vejam, vejam, aqui estão as marcas do ultrajante tractor, perorava o advogado das vítimas, que se tinham constituído como assistentes depois de formarem a associação dos lesados da Ana. Do outro lado, o estagiário defensor oficioso da benemérita trouxe dezenas de fotografias que provavam cabalmente que toda a terra do concelho se tinha amarelado e feito areia em data muito anterior ao engendrar da ponte encoberta e até do próprio fosso. Mas a prova foi considerada nula por não haver registo de autorização das imagens por parte dos proprietários das terras fotografadas. Ora é sabido que isto das leis é assunto muito sério e há valores intransponíveis como o direito à imagem das terras.

A dactilografar os testemunhos das longas sessões de julgamento estava a Joana que era prima da cunhada de um repórter da televisão. Ao contar-lhe a história, logo o dito achou que tinha encontrado o filão da sua vida. E tinha. No dia seguinte, o jornal do canal de televisão para que trabalhava abriu com a fronha ainda espantada da Ana acompanhada pela leitura sibilada do pivot: mulher de cinquenta e quatro anos acusada de propagar a desertificação do concelho de Ribeira da Fraga aguarda sentença. E lá estava o repórter a entrevistar toda a vizinhança da famigerada benemérita malfeitora, incluindo o primo da Julinha, que era nascido e criado na Lama, mas para aqui tinha vindo viver por casamento. O ambicioso repórter quis saber mais sobre a pedra amaldiçoada. Pediu ao primo que ligasse à Julinha e lhe passasse o telefone. E assim foi.

Sucede que a Julinha, tal como parte substancial dos aldeões da Lama, tinha ensandecido com o correr dos meses, farta do estafermo do fosso e de ninguém se dignar sequer a telefonar mesmo quando nasciam ou morriam na Lama familiares e amigos de gentes de outras aldeias. E começou então alucinada a contar ao repórter que se abrira um buraco na terra duas vezes o tamanho da casa da música do tio Venceslau e que o diabo espichava serpentes e lama de fogo como um vulcão daqueles que a gente vê na televisão. A lava principiou a alastrar poucos metros à volta da pedra, mas dia após dia ia um pouco mais além. O jornalista, que tinha deixado de tomar os antidepressivos por não assumir a doença, começou a ver fumo branco a surgir do lado das terras da Lama e com a excitação caiu redondo num sono de vários dias. Não sem antes enviar uma mensagem à namorada por whatsapp: avisa o chefe que vem aí o fim do mundo: depois de amarelar e se tornar areia, a terra vai arder. No dia seguinte o jornal da noite abria com a imagem da divertida fronha benemérita, que já estava por tudo, e o pivot a anunciar que o estado iria exigir em tribunal uma indeminização à causadora de tão grave crise ambiental.






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