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       Dois anos depois da Inês, nasceu a Mariana, e dois meses mais tarde a silhueta da mamã voltara à perfeição que exigia a si mesma. Nunca sequer pôs a hipótese de não se manter em boa forma. O seu ponto de honra. Engrenou cedo no capítulo da imagem e vida saudável, e conforme relatou numa entrevista de Dezembro de 2014, sempre se cuidou e acha importante que: as mulheres, principalmente as mulheres, se cuidem, não desistindo da sua felicidade. Se nos anos oitenta, apesar do nojo sentido em dividir a água da piscina com outros, foi convencida pela Helena, praticante de sempre, sobre os benefícios da natação e começou a nadar regularmente na piscina municipal de Espinho, nos anos noventa foi com semelhante desconfiança, por se lembrar da deprimente Volta a Portugal, que passou aos percursos de bicicleta na companhia das cunhadas e o marido, pai das duas filhas, e em 2000 largou a bicicleta,  inscrevendo-se em aulas de aeróbica e fitness no ginásio frequentado por muitas colegas da câmara municipal.

       Com pouco mundo, estava habituada a criticar e desdenhar de tudo quanto lhe era estranho e não superara o teste do recomendável pelo modismo. Aderia às novidades sem hesitações, mas com condições. E estas eram facilmente detectáveis por ordem de cronológica: a televisão defendia, as massas aderiam e as amigas praticavam. Máxima actualizada no século XXI para as redes sociais defendem, as massas aderem e as amigas praticam. Estando satisfeitas as três condições, adoptava-as com o fervor próprio de quem tem brinquedo novo. No caso da bicicleta dos anos noventa, tornou-se por meses em obsessão. A razão de ser da existência como meio de locomoção era o que menos relevava. Interessavam outros pormenores próprios da ideologia da moda. Era sua propriedade. A recente aquisição passaria rapidamente a verdade intemporal. Quando se referia à bicicleta, dir-se-ia viera ao mundo com ela, tal a minúcia como descrevia as características. O sentido de propriedade era ilimitado. Com natural ignorância atrevida, seria capaz de descrever as características ou habilidades ao fabricante ou ao praticante profissional, e se preciso fosse daria achegas sobre eventuais defeitos de algumas versões menos in, sem sequer perceber o mecanismo de funcionamento, era proprietária de uma Vilar, a melhor marca portuguesa de bicicletas, afiançara o vendedor.

       O peso da ideologia da moda esteve presente em parte substancial das decisões tomadas ao longo da vida. E mais não esteve porque as cruas circunstâncias impostas pela realidade a desviavam da gloriosa caminhada na vanguarda. Ou, em rigor e, à claridade e justiça das ideias, revelam-na tão só o cliché do seu tempo. O joeirar dos nomes das filhas seria mais uma evidência da constante preocupação em estar na moda.

        No início da primeira gravidez convenceu-se que seria rapaz e hesitava entre o, então, vulgar e apelativo nome Diogo, e os quase tão populares Gonçalo e Francisco. Curiosamente, em criança, fartara-se de gozar com colegas de nomes tradicionais como António, Francisco, Manuel ou Joaquim, para si nomes de gente parola; gente da agricultura, como chamava aos lavradores. Mais tarde, as revistas cor-de-rosa e a televisão abriram novos horizontes e afinal esses nomes parolos, os tradicionais, eram os nomes eleitos pelas pessoas que apareciam nas festas elegantes. Como não podia deixar de ser aderiu de novo, como grande parte dos concidadãos, ao festival do nome da moda. Se fosse rapaz seria Diogo; teria de estar na crista da onda. E, sobretudo, precisava de se demarcar do passado bafiento. Até aos sessenta do século XX as crianças eram, em regra, baptizadas em função dos costumes. Ou se dava o nome dos pais, avós ou padrinhos, ou o nome escolhido pelo padre que presidia ao ritual. Menos comuns, apesar de as haver, as escolhas em função do gosto pessoal dos pais ou das modas de momento, como o caso dos nomes femininos afrancesados, as velhas étes. Depois dos anos sessenta popularizaram-se primeiro os nomes compostos, entre um ao gosto dos pais e outro de família, ou já compostos por dois nomes conjugados ao gosto dos pais. A democratização trazida por Abril, o acesso às primeiras novelas portuguesas e às revistas de sociedade, e a permeabilidade da convivência entre classes, muito ampliada nas escolas portuguesas, vulgarizou os nomes tradicionais e civilizados. Os nomes comuns entre gente bem medraram numa larga faixa da população ascendida socialmente e, agora, reparava desdenhosa nomes estrangeirados, considerados de mau gosto.

       A Ana Paula teve duas filhas. E quanto a nomes de rapariga, ou nomes de menina, na sua linguagem, nem as civilizadíssimas Marias das revistas a convenceram. Não valia tudo o que era popular. Ao decidir o nome das pequenas possuía duas certezas, sempre mantidas, Maria nunca, que dava em micas e os nomes das avós ou madrinhas jamais, achava ela, porque além de bronco era de total falta de imaginação. As filhas, como espectável, seriam Inês e Mariana.





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