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       Em 22 de Novembro de 2014, após o pico de audiência e para descanso dos produtores, que viam a vida malparada com o insucesso inicial do programa, sobretudo, a dificuldade em entrar nas camadas mais jovens, o reality show lançou mão de novo trunfo. Se antes as audiências não estavam a sair como planeado, já que os habituais espectadores das casas do segredo não tinham aderido em massa ao novo formato, o espiolhar das intimidades e debilidades da protagonista conferira vigor ao programa e, agora, voltaria a não falhar com a aparição do Alexandre. A base de audiência da piada fácil e da falta de filtro estava ao fim de trinta anos muito ampliada. Se antes as anedotas versariam sobre a inabilidade para a condução das mulheres, agora que a realidade havia desfeito o lugar-comum, nem sequer sobrava ao piadista a ignorância das mulheres e, em especial, da Ana Paula quanto a assuntos de mecânica. O mote do debate foi, por isso, a sagacidade do Alexandre como vendedor. Vinha a propósito dos presentes de aniversário que os pais da Ana Paula quiseram oferecer nos dezanove anos: a carta de condução e um automóvel. Desejo da Ana Paula desde os dezoito; dos poucos não satisfeitos até então. O trio foi comprá-lo ao stand para o qual o Alexandre entrara há pouco tempo. Trinta anos depois ainda gozava de ter feito uma bela comissão. Saíra do liceu nesse mesmo ano e, no alto da impetuosidade dos quase vinte anos, contrapôs preço mais alto ao patrão, que estabelecera o preço de venda do carro em mil e duzentos contos em atenção a ser um recuperado. Se o vendesse por mil e trezentos, acordaram eles, somava à comissão de cinco por cento, metade dos cem contos que acrescera da sua lábia. E conseguiu, convencendo os pais da colega que o carro fora do José Malhoa, de quem eram apreciadores. Contou o Alexandre no programa ter dito aquela mentira porque a morada do antigo proprietário do carro era Rua José Malhoa, em São João da Madeira. E rindo a bom rir dizia: à custa do pimba mamei quase um salário mínimo de assentada. Tantos anos após e já na casa dos cinquenta, após ter contado o episódio dezenas de vezes, nunca tomara consciência do homenageado da rua ser o pintor. Em bom rigor, nem ele nem vários elementos da equipa de produção do programa, pelo que a entrevista do dia 22 de Novembro deixou o equívoco bronco entre a audiência. E quando mais tarde houve uma alma caridosa a chamar à atenção, o Alexandre apressou-se a tentar fazer querer que sempre soubera quem foi José Malhoa e mostrou-se espantado por não poder brincar com nada, porque há sempre virgens ofendidas. Naturalmente, a crítica atentava a liberdade humorística e a inteligência.

       Com ou sem pimba, a Ana Paula teve o primeiro carro, o Volkswagen Golf em segunda mão. Longe de ser o carro dos seus sonhos, depressa o tomou elemento de orgulho. Havia no stand vários carros Fiat e Renault baratos, dizia. Aliás, se quisesse um novo podia trazer um desses por menos, acrescentava. Mas eu quis um robusto e fiável. Papagueava os adjectivos em voga na publicidade da marca alemã que ouviu ao vendedor e amigo para a convencer e despachar o carro recuperado de acidente, no qual o dono deixara de confiar. Mas a amiga teve sorte, o carro acabou por não dar problemas de maior e resolveu a questão das primeiras deslocações entre Espinho e a Maia, nos diferentes horários do trajecto a percorrer para se juntar à tripulação de que fazia parte nos voos TAP.

       Estávamos em 1986 e o negócio automóvel iniciara boom inimaginável nessa década. A considerável melhoria das condições de vida no país proporcionou o acesso massivo ao automóvel. Bem de luxo até há década anterior, ao qual a grande maioria das famílias portuguesas não tinha acesso, o carro democratizou-se. Dos anos noventa em diante, poucas famílias em Portugal não o têm. Os utilitários vieram substituir em muitos casos, as motorizadas que circulavam em abundância nas estradas portuguesas com destino às fábricas ainda a operar no país na década de setenta e início dos anos oitenta. Foi de motorizada, numa Casal Boss, que a Ana Paula se habituou a andar em criança, ora sentada entre o pai e a mãe, ora à frente junto ao guiador. Depois dos oito anos começou a odiar aquele meio de transporte. Ainda teve de o suportar mais alguns anos, até aos pais juntarem dinheiro suficiente para comprarem o Renault 5 em segunda mão. Nele, em Maio de 1982, fez a primeira grande viagem para ir a Fátima. A mãe queria acender a vela a Nossa Senhora pelas muitas graças concedidas até então, o marido que a tratava bem, a filha cheia de saúde e boa aluna na escola, a casa onde não faltava o essencial e agora até o tão desejado carro. Não ia a Fátima pedir, mas sim agradecer. A vida corria bem e a Armanda era grata por tudo. Já a filha esteve no santuário, no alto dos quinze anos, com atitude mista de desdém e perplexidade. Se a gratidão da mãe a irritava profundamente, achando que a vida lhes devia muito mais, o fervor da multidão mexia intimamente, sem conseguir explicar o aperto de peito sentido ao assistir à manifestação de fé da mole humana que enchia de comoção a noite de doze de Maio do santuário. O cenário de velas acesas na escuridão, as ondas de silêncio, de oração e de cânticos humanizaram o figurino; até a Ana Paula baixou a cabeça ao ver passar da imagem de Nossa Senhora e não conteve a lágrima por explicar.

       Ao contrário da mãe, achava faltar o essencial em casa. Sessenta metros quadrados modestos divididos em três assoalhadas. A sala feita de pequeno sofá de pé alto e três lugares em napa verde escura, a cristaleira apinhada de pequenas peças de porcelana, a mesa de jantar de vidro e metal e quatro cadeiras de metal e assento de veludo vermelho, muito diferente do esplendor que via na novela brasileira da televisão. Faltavam os enormes sofás brancos cobertos por almofadas de seda coloridas, os brilhos dos grandes vasos e alvura das colunas e estátuas que preenchiam os amplos cenários das casas de gente rica construídos na brasileira rede Globo. E como odiava a cama estreita de formica bege encostada à parede, a condizer com o guarda-fatos de duas portas. Sonhava uma cama de casal, mas hesitava entre a de dossel idealizada em criança e a grande cama de ferro de cabeceira encostada ao janelão. Concretizou este sonho quando saiu de casa dos pais e arrendou o apartamento que transformaria num cenário meticulosamente idealizado ao longo dos anos anteriores, nele se entregaria mais tarde à paixão do desejado homem dos seus sonhos, com quem casaria.

       Em 1987, no entusiamo da montagem da primeira casa, ainda ouviu uma decoradora, amiga de colega da TAP, mas a sugestão da rede de pesca pendurada na parede da sala, junto ao bar, e âncoras, ânforas, conchas e estrelas-do-mar agarradas, fê-la recuar. Nessa a Ana Paula não caiu. Sabia bem que estava em desuso; recordava-se da ideia, ou do conceito, como se diria hoje, numa capa de revista de decoração da Livraria Neves, há seguramente oito anos, era ainda pouco mais do que criança. Além de mais, fazia lembrar as modestas casas da zona sul, a zona piscatória de Espinho. Quis a decoração mais despojada, mais clara e aberta e fê-la sozinha, sem recorrer aos conceitos do design interior aplicados pela amiga decoradora.




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