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       Por altura do primeiro casamento a protagonista perdeu algumas amigas. A mais antiga, Helena, fora para Coimbra viver numa casa arrendada a meias com a prima e a amiga, e estudar na faculdade de História. Só vinha um fim-de-semana por mês a casa e, com o tempo apertado, deixou de aparecer n’ O Nosso Café, ponto de encontro das amigas até então e também de ligar para o telefone de casa da Ana Paula. A Sofia Soares, a estudar na faculdade de Economia no Porto, saía de manhã cedo de Espinho e regressava ao fim do dia, logo começando a criar relações na Invicta, para onde fugia cada vez mais aos fins-de-semana. A Lara manteve-se em Espinho a trabalhar num pronto-a-vestir para desagrado do pai, que insistia querer a filha na universidade. Mas ela planeava algo importante, viver independente. Independente ou nem por isso porque a ideia era casar rapidamente. O certo é que a paixão pelo Rui deixava pouco tempo para almoços demorados no restaurante Graciosa com Ana Paula, prolongados muito além do horário de entrada no hotel. Aproveitando ainda a ida ao centro e dar duas de letra com colegas do aparthotel da Solverde. Sabia que o Dr. Paulo Gouveia não voltava do almoço antes das quatro e meia. Podia, perfeitamente, de vez em quando, entrar às quatro e preparar o ar atarefadíssimo a bater a pequena resma de folhas A4 na mesa, como sempre fazia quando alguém passava na salinha de entremeio, à entrada do escritório do director, onde ficava a secretária. A mesa continha o canto esquerdo sempre apinhado de dossiês, que mais não faziam na secretária senão ser objecto de decoração, e o centro era ocupado pela máquina de escrever eléctrica Oliveti, essa sim, muito usada pela Ana Paula, para dar seguimento às muitas cartas e comunicações ditadas pelo Dr. Gouveia. No canto oposto à resma inútil de dossiês, ficava o moderno telefone de baquelite clara e teclas luminosas, muito utilizado fosse como filtro das chamadas a passar ao director, e demais contactos profissionais, fosse para pôr a conversa em dia com as outras funcionárias do hotel. Fez algumas amigas no Solverde. Mas, nessa altura, a amiga mais presente e de maior proximidade era a Marta Soares.

       Era comum ir jantar a casa do jovem casal, e o Pedro simpatizava com esta amiga da mulher, até pela forma quase poética de percorrer o Porto. Acabado o décimo segundo ano, a Marta começou a trabalhar como administrativa na seguradora Tranquilidade, na baixa do Porto, e o postal envelhecido e sofrido feito cidade deixava-a emocionada. O anfitrião afirmava-se tripeiro velho, dos que têm orgulho na sua terra e conhecem bem os seus recantos. Não conhecia assim tão bem; movia-se sobretudo a parte ocidental da cidade, em especial na Foz e na Boavista. Pouco sabia da alargada Campanhã, das genuínas Fontainhas ou do alto arvoredo de Arca D´Água e os túneis e galerias subterrâneas. E, sobretudo, suspeitava a Margarida, passara distraído um par de vezes pelo Passeio das Virtudes, sem se deixar morrer ali mesmo perdido num dos ângulos mais belos da cidade. Ainda não era um verdadeiro apaixonado do Porto. Mas o ar deslumbrado da espinhense ao falar da sua terra, deixava-o orgulhoso. Dizia a Marta Soares apanhar o comboio em Espinho e gostar da companhia do mar no primeiro troço da viagem e das casas de veraneio das praias de Granja e de Miramar, antes de mergulhar no aglomerado feio e confuso do dormitório em que se transformou Gaia, mas que ao chegar ao Porto, antes de descer na histórica estação de São Bento e subir à Avenida dos Aliados, se deixava por segundos na base da Praça, junto aos Congregados, olhando à esquerda, a ingreme rua dos Clérigos, rematada pela vista da torre, e à direita, a não menos ingreme rua 31 de Janeiro, para a Margarida sempre rua de Santo António, no cimo da qual se erguia a Igreja de Santo Ildefonso, mas dizia a Marta Soares que antes de lá chegar tremia à passagem sobre a centenária ponte D. Maria. A velha ponte de rijo ferro-fundido, um tabuleiro pousado num arco preso por numerosas traves de reforço, construída por projecto de Gustavo Eiffel na década de setenta do século XIX, e que esteve em funcionamento até então. A mana mais velha da icónica Ponte D. Luís dos dois tabuleiros, inaugurada na década seguinte e mantida em funcionamento, com circulação automóvel nos dois tabuleiros, até os anos 2000, quando o superior ficou destinado ao metro. O Pedro falava de uns amigos que viviam em Gaia, acima das caves, mais perto da Avenida da República. Onde, nos tempos antigos, havia boas casas e diziam as más-línguas viviam as amantes dos homens-ricos do Porto. Dizia ele que esses amigos contavam histórias fantásticas da ponte a balançar no dia de São João, a principal festa da cidade. Se queria ser um portuense à séria teria de conhecer a sensação de atravessá-la a pé no meio da multidão e dos abanões sob a morrinha caída certa na noite perfeita do Porto. Não tivera ainda a oportunidade de experimentá-lo em noite de festa. Mas ensaiara a medo atravessá-la a pé no sentido Gaia-Porto num dia invernoso, e não pôde deixar de ficar fascinado pela tal escuridão da cidade, que se ergue do rio, sob o vento e a chuva e confirmar a altivez de milhafre ferido na asa, do Porto do Carlos Tê e de todos que o sentem seu. Também ele conhecia histórias sobre a ponte D. Maria, e muitos sabiam do número de parafusos caídos ao Douro a cada comboio. O pensamento atemorizou a Marta Soares até 1991, quando passou a atravessar o rio, pela nova ponte, a São João, projectada por Edgar Cardoso.




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