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           A 15 de Dezembro 2014, a entrevista versou sobre o ano de 1999. Volvidos catorze anos sobre o último ano de liceu, a Ana Paula estava tranquila na vida pessoal e profissional. O bom-feitio e serenidade do marido e a alegria das filhas permitiam sentir-se confiante e realizada. O desembaraço no desempenho das tarefas profissionais, o à-vontade e a cumplicidade da maioria dos colegas de trabalho mantinham-na segura. Mas sentia falta de novo impulso, de mudança. Nessa entrevista de 15 de Dezembro, foi questionada sobre a razão de se ter inscrito no curso de psicologia, já nos trinta, depois de casada e mãe de duas filhas e da vida profissional preenchida. Ela respondeu tratar-se do apelo de progredir, da vontade de se valorizar. Sentia poder ir mais longe profissionalmente e sentia de alguma forma a vida um pouco estagnada. Não referiu o sentimento perfeitamente normal de ciúme ou inveja, aliado à sensação de injustiça. Na verdade, para si própria, no ano de 1999 pensava por que carga de água sendo uma mulher inteligente e capaz teria de estar às ordens de outrem. Lidava mal com a autoridade. Ter de responder perante a chefe de departamento, com quem antipatizava ferozmente, deixava-a irritada. Já não tinha idade para andar às ordens de ninguém, achava. E tinha uma ilusão. Via na licenciatura a carta de alforria. Como muitos conterrâneos achava que o curso superior além de salvo-conduto para uma vida livre de deveres de obediência, conferia o estatuto de pessoa respeitável. Além de mais, uma ideia incomodava-a. Isso da Helena estar a dar aulas em Coimbra. Porquê? Se nunca, ao longo do percurso feito em conjunto, entre a primeira-classe e o décimo-segundo ano, tirou notas muito diferentes. Se tivesse entrado na faculdade aos dezoito anos, possivelmente estaria a dar aulas, cismava. Mas estive na TAP, pensava saudosa daquele tempo em que o mundo se abriu um pouco. Já estivera ligada à aviação e agora estava confinada às tarefas administrativas naquele departamento, cada vez mais pequeno para as suas ambições. Como seria diferente, se tivesse ingressado na faculdade no final da adolescência. Quem sabe estaria, agora, a trabalhar num banco, como a Sofia, que acabou economia e é gestora. Diz trabalhar desalmadamente, por causa na loucura do crédito à habitação. O que vejo, pensava a Ana Paula, é que deixou o ar modernaço de vestir e passa na rua, em direcção ao Banco, de tailleur calça, blusinha clássica e sapato discreto de tacão alto, e pelo caminho há sempre alguém a chamar: ó doutora Sofia. Tal como a pirralha da irmã do Oliveira, até essa. Agora é advogada, tem menos dois anos do que eu e quando vai à câmara, até o presidente a trata com deferência, quando e chega para reclamar do atraso da emissão dos alvarás. Ó senhora doutora, tudo tem seu tempo, diga lá ao seu cliente tenha paciência, mais umas semanas e isso deve estar pronto.

       Mas para lá destas dores de alma que impulsionaram a vontade de completar o curso superior, dois factos determinaram a psicologia. A Sara, colega de trabalho, comprava revistas femininas, pelas quais a Ana Paula deitava os olhos. Na primavera de 1999, um artigo prendeu a sua atenção. Tratava-se de longo texto sobre o sucesso profissional no feminino. Testemunhos de empresária, estilista e psicóloga. Todas tinham singrado, desafiando as regras, destacando-se entre pares, apesar de vidas familiares extenuantes, apesar de todos os obstáculos impostos pela circunstância de serem mulheres. O testemunho da última prendeu-a particularmente porque fazia psicologia clínica e mostrava-se empolgada por ajudar a resolver dramas de mais variada espécie. Dizia a entrevistada gostar de dar as ferramentas com as quais os pacientes poderiam aprender a fazer as suas escolhas. A Ana Paula deixava-se enlevar pela ideia de dominar a psique. Saber como nos devemos comportar para obter o resultado assemelhava-se a uma ciência exacta que um dia dominaria. E, mais do que tudo, aprender a catalogar os outros, empregando os chavões que conservara na memória da disciplina opção de psicologia do liceu, uma arma que não poderia deixar aprender a manejar para arremessar a todos quantos não coubessem dentro da sua visão do mundo.

       Pragmática projectava com apuradíssimo sentido de oportunidade. Olhou à volta, viu a câmara municipal, e tentou perceber onde estava o furo certo para progredir. A psicologia clínica era uma tentação, mas o certo é que há quatro anos ali trabalhava, ganhara experiência e contactos e sabia estar ali a sua chance. Fez as contas aos anos para a reforma da directora dos recursos humanos e atirou-se de cabeça à psicologia. Tudo batia certo, pensava. As estrelas pareciam conspirar a seu favor. Se tudo corresse como idealizava, daqui a quatro anos estaria a dirigir aquele departamento, para o qual pediria transferência. Teria tempo para conhecer os cantos à casa e mostrar serviço. Daí em diante, a atitude no local de trabalho mudou radicalmente, empenhando-se seriamente.

       Entre colegas omitiu o alcance total dos projectos futuros. Dedicou-se a compor a fábula da injustiçada. Precisava de sair do urbanismo, por não suportar a chefe e as injustiças que via ocorrer debaixo do nariz. O seu profissionalismo e mérito não eram reconhecidos. Entre família, abriu um pouco o leque do sonho, dizendo que noutro departamento poderia ter mais sucesso. Ao Orlando, só ao Orlando, que a compreendia como ninguém, admitiu achar-se capaz de dirigir os recursos humanos. Foi no regresso do jantar do sexto aniversário da Inês que falou pela primeira vez na hipótese. Como habitual, tinham ido à Torreira festejar. Chegada ao restaurante puxou cadeira, pendurou a carteira Gucci e sentou-se junto à janela, enquanto o marido e as filhas discutiam onde encostar a catrefada de objectos que transportavam consigo, entre os telemóveis, a Nintendo, os patins, os capacetes e as joelheiras. A avó, acanhada, pensava qual seria o seu lugar, dando a mão ao marido na esperança que pudessem ficar juntos. Os sogros da Ana Paula foram cumprimentar os donos do restaurante, seus amigos, e as miúdas atiram-se sobre as cadeiras em frente à mãe do outro lado da mesa, junto à janela. A cuidadosa Armanda pensou em deixar o lugar ao lado da Aninhas para o Orlando, e sentar-se a seguir de frente ao Casimiro. Sentas-te ou quê! Berrou a filha. Sentou-se. Estava acostumada a ser destratada pela filha e de certa forma sabia merecer, pelo modo tonto como permitira levasse sempre a melhor e que, desde bebé, tivesse satisfeito todos os seus caprichos. Deseducara uma mimada, das que dão mostras a todo o momento do seu egoísmo. Ao longo dos últimos anos pode apreciar a filha adulta. Consumia-se num sentimento ambíguo, misto de orgulho e de remorso. Se por um lado, gostava de ver a determinação e coragem da menina, por outro sentia enorme remorso de não a ter ensinado a respeitar os outros. Via como falava do trabalho, dos colegas e superiores, agindo como se todos a devessem servir. Reparava que, em casa, exigia do marido e das filhas eterna gratidão. E o modo de se comportar no supermercado, atropelando quem ela se cruzasse no corredor ou exasperando os outros até arrumar primorosamente as compras no saco. No regresso a Espinho, viu uma vez mais a filha conduzir distraída a falar com o Orlando. Lá de trás, do banco junto do marido e das meninas, como se referia às netas, pôde voltar a testemunhar a atitude da Aninhas na estrada, conduzindo como se tivesse prioridade em todas as situações. Teria gostado que a filha fosse mais cuidadosa com os outros. E com ela, a mãe.

       Mas se havia coisa que tirava a Ana Paula do sério eram os salamaleques. A delicadeza e a mesura eram no seu espírito demonstrações de falta de inteligência, mas também de hipocrisia. Não concebia ser possível haver gente que cuidasse do bem-estar dos outros e gostasse genuinamente de tratar bem os outros. Pessoas que agissem assim, das duas uma, ou eram burras e, por isso, subservientes, como a mãe, achava ela, ou então hipócritas e a falsidade servia apenas para conquistarem a simpatia da pessoa objecto da delicadeza. Além de mais faziam lembrar gente da família do Pedro. Fosse por que razão fosse, as pessoas polidas e delicadas eram necessariamente motivo de desdém e chacota. Estava certa que todos agiam por interesse. Precisava de ser simpática e cordial com as chefias não porque lhes reconhecesse competência e empatia, mas porque as regras de convivência laboral o impunham. Ria com outras colegas da saia amarrotada de terceira, não porque houvesse especial cumplicidade com as primeiras, mas porque agora se tratava de dizer mal da última. A roda giraria até a maledicência tocar à vez cada uma das maledicentes. O importante era preencher o tempo opinando sobre os defeitos dos outros. Afirmava-se frontal e usava aquelas pérolas de expressão da vulgaridade: comigo ninguém faz farinha, eu não falo por trás, o que tenho a dizer, digo na cara. Esta sinceridade reles confundida com a lapidar franqueza dava lugar a momentos de revirares de olhos a cada se faz favor ou se não se importa ou muitíssimo obrigada de qualquer colega chegado de novo à câmara e se não portasse como selvagem. Gente assim era alvo da chacota máxima por parte da incivil Ana Paula.






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