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        A Margarida acabou de escrever o capítulo anterior ressentindo-se de nítida sensação de culpa, o conceito judaico-cristão que aflige as pessoas que não aderiram à modernidade; culpa de se estar a desviar da narrativa. Não gostava de dar razão ao Vicente, mas concedia que não conseguira resistir aos já agora. O romance, ou lá o que é isto, começava a chegar ao fim, e os últimos pedaços de apontamentos que juntara desde que o principiou, em Abril de 2015, começavam agora a integrar o corpo do texto, à custa de muitos desvios. Temia que o livro fosse uma colcha de retalhos, mas acabava por se resignar a puras divagações. Ainda assim, a esperança de conseguir um todo coerente levava-a ao enredo da história e às aventuras e desventuras das personagens.

       A Ana Paula tinha curiosidade pela vida do Carlos Alberto, que se tornava evidente ao Oliveira quando recebia ocasionais chamadas do Orlando, a quem percebia no tom de voz, vir a mando da mulher. Como é evidente, não admitia ao marido a vontade de manter o contacto do antigo colega, de quem visivelmente nunca gostara. Mas pretendia informações novas, e desde que deixara de ir aos jantares, por se sentir desasada num grupo de amigos mais reduzido e cúmplice, o quinteto desta história, queria saber deles, sobretudo do Alberto, sem que o percebessem. Foi desta forma e sem sacrifício que o Orlando começou a dar-se com o Oliveira e a marcar jantaradas.

        Estavam num desses encontros, em 2006, quando ligou o Carlos Alberto, a viver em Paço de Arcos. Precisava da ajuda do velho amigo. Por sugestão de colega de trabalho, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, comprara umas colunas tanoi e, inábil em matéria de electrónica, ficou espantado que não pudesse de imediato ligá-las à televisão como vira em casa do amigo de Lisboa. Abriu a caixa, tirou as colunas e conseguiu liga-las à aparelhagem, mas e agora, pôr o som do Gladiador ligado às colunas? Era a questão que se punha. Daí ter pegado no telefone, como muitas vezes fazia, e ter pedido ajuda ao Oliveira. Precisas apenas do cabo áudio para ligar ao amplificador. O Carlos Alberto, assustado, disse não ter isso do amplificador, desconhecendo até ter sido elucidado que a torre da aparelhagem pionier o incorporara.

       No dia seguinte viria a casa dos pais, a Espinho, por isso, combinou com o Oliveira encontrarem-se para irem juntos à Worten. Marcaram nesse Sábado, no Centro Comercial, indo também o Orlando, que aproveitou, como aproveitava sempre, para tentar estabelecer ligações com quem vivesse em Lisboa, e que lá estivesse instalado e bem relacionado em termos profissionais, já perscrutando a possibilidade dele próprio ter que se mudar, em resultado das ambições da mulher.

       O Oliveira e o Orlando chegaram mais cedo e divertiram-se a ver o Carlos Alberto subir as escadas rolantes e voltar-se de costas para babar à visão de uma rapariga esguia, de cabelos escorridos e sorriso seco, que descia ao parque do Arrábida Shopping. Quando o amigo os viu, riram do flagrante, não tendo ele alternativa senão assumir o deslize. Mas perante o espanto do velho amigo, atirou: tu viste-me aquele avião? Vi vi, a avionetazita, respondeu o Oliveira, não contando com a inesperada desenvoltura do antigo tímido. O outro continuou: Então pá? Tudo? Vai-se, chama-lhe zita, chama. Vais dizer que não marchava? O pasmo aumentava, mas o Oliveira resolveu não acusar a toque, e alinhar: à falta de melhor. E Carlos Alberto insistiu, hás-de dizer onde é o teu caixote de lixo.

       A conversa morreu ali. O José aligeirou a apresentação do Orlando, e em gesto largo encaminhou-os pelos corredores em direcção da loja. Enquanto andavam, e ao som das banalidades que os outros iam trocando, à cabeça do Oliveira vinham à memória os mais imbecis roncos que sabia serem da autoria do amigo de liceu, na caixa de comentários de alguns jornais online. Se o Carlos Alberto não conhecia os gostos dele, já este lhe conhecia bem não só os gostos e ódios de estimação como percebia nas entrelinhas as razões de tanta promoção. Perfeitamente analfabeto em tecnologia, fora o Oliveira a introduzi-lo ao mundo online. E fora ele a criar o email e até o nick name. Básico, não teve imaginação suficiente, ao longo dos anos, de sair do adquirido por sugestão do amigo, mantendo o mesmo email e comentando em diversos espaços online com o nome de utilizador Cato, abreviatura do nome, que numa tarde de tédio o Oliveira escolheu ao amigo. E quando não era Cato, era outra palavra ou sigla desinteressante seguida da idade ou data de nascimento. Ainda na semana passada lera crítica do amigo a notícia de trivialidades, que estava em destaque na página, cujo design era mantido sobre orientação do Oliveira. Em comentário a fotografia publicada por uma qualquer mulher que gosta de mostrar o corpo nas redes sociais, lia-se a singela frase assinada por Beto65: baleia dá à costa. A rapariga não tinha, é certo, os quarenta e cinco quilos das modelos dos desfiles das pernas torcidas, nem a cara de morta-viva apreciada pelo mundo da moda. Cheia de curvas, revelava-se uma mulher inteira, bonita e bem-feita. O tipo de mulher que assustava o Carlos Alberto, e muitos homens atarantados com a sensualidade.

        Bem-feita, feita. As palavras martelavam na cabeça. Conhecia bem os contrastes entre os gostos declarados dos homens e os seus vícios privados. Assim como depreendia as razões para gostos e desdéns. Uma antiga namorada despertara ainda mais a sua atenção para as contradições, ao dizer-lhe numa daquelas conversas de cama, que só se têm com cúmplices, que havia três razões para parte dos homens gostarem de mulheres magras ou muito magras e demonstrarem desprezo por todas as outras, a que costumam chamar gordas. Três razões ou três tipos de homem. Os fingidos, os influenciáveis e os tarados. Ria-se ao relembrar o sorriso franco e aberto da antiga namorada e a forma irónica como o dizia. Ficou sempre na dúvida se era provocação ou se a Eduarda acreditava mesmo no que afirmava. E dizia ela que há homens que fogem das mulheres voluptuosas, dando grandes ares de gatos refinados espantados, para no recato da intimidade se desfazerem em fantasias com mulheres carnudas, de apreciável peito e rabo pronunciado. Outros que aderiram ao mundo da magreza porque sim, porque é dado, faz parte da sua geração, tal como o sofá de canto a que chamam chaise-longue e a moldura digital, como há cinquenta anos, os pais tinham aderido ao pechiché, às andorinhas e ao menino da lágrima. E, por fim, os homens que não conseguem ficar indiferentes ao corpo de um rapazinho adolescente e que não podendo satisfazer a sua líbido doente no alvo de eleição, procuram no corpo de uma mulher muito magra, a semelhança que precisam no despertar do prazer. São casos clínicos que passam despercebidos, disfarçados no meio da moda generalizada da magreza.

       Martelou outra vez na palavra feita. Um homem adulto de bom gosto sente atracção por uma mulher-feita. Sem sombra de dúvida. Sentiu sintonia na vida que levava e agradeceu a plenitude e beleza física da mulher que escolheu para companheira e mãe dos filhos, e percebeu que chegara à porta da loja, na qual precisaria de estar mais concentrado e encontrar o que o amigo procurava. Um cabo áudio. Afinal era disso que se tratava.






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