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        A Ana Paula concluíra a licenciatura de psicologia em Setembro de 2002, no início do ano seguinte assumira a direcção do departamento de recursos humanos da câmara municipal de Espinho. E, como seria expectável, aderira à política. Se a militância no partido socialista, neste momento de viragem e nos primeiros anos, fora pouco mais do que o crachá a exibir nas alturas certas, poucos anos mais tarde passou a ser vivida de forma intensa. Fez parte de várias acções de campanha locais na eleição de José Sócrates, como primeiro-ministro, em Fevereiro de 2005.

       Os jantares da nata socialista sucederam-se nesse ano, e a casa do agora bem instalado casal, Ana Paula e Orlando Barbosa, passou a ser ponto de encontro das mais influentes figuras locais do partido. Entre os comensais habituais estavam Fernando e Cristina Costa e o Paulo Martins, membros do Rotary Club. A protagonista começou a perscrutar o plano das ideias. Palavras que estava acostumada a usar para se definir a si própria, como argumento solto e inconsequente ou apenas para denominar aliados ou inimigos, como liberal, capitalista, socialista, fascista, ganharam novo esplendor na boca daqueles novos amigos, cuja eloquência tanto a atraía. Como algumas vezes havia acontecido no passado, sentia-se fora de pé, e não era menina de ficar nessa situação muito tempo, pelo que haveria de perceber os diálogos dos convivas. Resolveu ir à livraria, e perguntar à Maria das Neves se tinha algum livro de ciência política. A velha livreira fez sinal de volto já, passou pelo marido mostrando expressão incrédula, remexeu numa das prateleiras e voltou, pousando em cima do balcão O Príncipe, de Maquiavel e a Ciência Política, de Adriano Moreira. A Ana Paula mirou a capa do primeiro e admitiu que história não era o forte dela, e abrindo o segundo fez deslizar o dedo indicador pelos tópicos do índice: a laicização liberal, o colonialismo demo-liberal, a concepção cristã do Estado, num ápice fechou o livro e só então leu o nome do autor. Franziu o sobrolho, perguntando: este não é o antigo presidente do CDS? É, respondeu Maria das Neves, e acrescentou: e antigo ministro do ultramar, no Estado Novo. Credo, sacudiu a Ana Paula. Não tem aí coisa mais arejada? A Maria das Neves sorriu, repetiu o volto já, e piscando o olho ao marido, que arrumava os livros em cima da mesa central disfarçando não estar a seguir a conversa, foi buscar a Comezinha de 1991. Entregou o leve e maleável caderno de setenta páginas. As capas das Comezinhas eram conhecidas da Ana Paula, por vê-las desde criança, na montra da livraria, sempre encostadas na parede do lado esquerdo, aos pés da Constituição ou de Fernando Pessoa. Começaria pela Comezinha Política, mais tarde, se tivesse oportunidade aprofundaria o conhecimento, pensou ao procurar os trocos para pagar o pequeno tesouro. Quando ia a sair, o velho marido da Maria das Neves provocou: não leva a Nova Gente? Não, disse a Ana Paula, mas posso levar última Caras.






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