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        A decisão de participar, em 2014, na Entrevista da TVI foi de iniciativa própria e contra a opinião dos amigos de partido. Serviu de trampolim para a entrar em cena na vida pública a nível nacional. Em casa teve o apoio total do Orlando e da filha mais velha, e a desaprovação da mais nova que, desde cedo, viu a mãe e a irmã comentar os sucessivos big brother nas redes sociais, mas via com maus olhos a exposição da própria mãe, em programas odiados por pessoas de bom senso. A Mariana estava longe de ter herdado a astúcia da mãe. Com aguçado faro político, a Ana Paula sabia que ser ouvida, notada e reconhecida era essencial. Sempre fora seduzida pelo poder e sabia bem como o alcançar. E a participação no reality show A Entrevista, como para muitos outros aspirantes a políticos a aparição em debates no mundo televisivo ou virtual, foi um passo decisivo na caminhada da política da nova era.

        Mas nem tudo foram flores, a nova visão ambiciosa não era comungada por muitos no partido. Tal como a Mariana, consideravam vergonhoso tomar parte desse mundo. Uma coisa seria a desejável participação em debates televisivos, outra a exibição da vida em directo. A Ana Paula contrapunha tratar-se de vozes do Velho do Restelo e que só em Portugal se pensava de forma tão senil. Custava-lhe ter uma filha antiquada aos vinte e um anos. Uns anos mais tarde, em defesa daquela participação televisiva, tentava dar exemplos de outros países, mas só ocorria o Trump e percebia não ser boa ideia trazer o personagem às discussões. Declarava-se mulher desempoeirada, sem nada a esconder. Achava perfeitamente normal mostrar-se a si e à sua vida aos portugueses para que pudessem saber o que contar. Não estamos no tempo das trevas. Já não é preciso esconder o corpo, a vida e as ideias, dizia. Vivemos num país livre e isto sim é liberdade. Devemos mostrar como somos e a forma de pensar, acrescentava.

        A Mariana tremia transida com estas frases. Mais? Mostrar mais, ainda? Olhava à volta e via os colegas na faculdade a mostrarem como pensam e são, via os professores, os funcionários, as pessoas nos restaurantes, nos supermercados, nas estradas, nas praias, nas salas de cinema. Desejava tanto que reservassem um pouco o que pensam e são, e dessem espaço e oportunidade à expressão dos outros. Ou, simplesmente, houvesse algum silêncio. A direcção nacional do partido também viu, por razões diferentes das da ingénua Mariana, com maus olhos a participação de uma militante em funções autárquicas no reality show. Se antes a Ana Paula obtivera sinais a nível central de eventual lugar destacado nas listas ao próximo congresso, a direcção do partido, por altura da exibição das primeiras entrevistas na TVI, arrepiou caminho e considerou retirá-la das listas. O apoio tido de antemão estava comprometido. No partido instalou-se o medo de ser confundido com big brothers. A razão principal do volte face teve origem, sobretudo, no gozo demostrado pela elite de comentadores de Lisboa. A chacota versava sobre o provincianismo de Ana Paula, que apesar de muito tentar não conseguia disfarçar a pertença e identificação com a sua terra. Como é sabido, comentador ou político que se preze, faz questão de se mostrar cosmopolita, apesar de frequentemente não ter a mais pequena ideia do que isso seja. E uma das formas de se demarcar do passado recente é destratar o resto do país e as suas gentes, até as mesmas migrarem, como eles ou os ascendentes fizeram, e transformarem-se em prezados amigos de sempre na capital.

        Na caminhada até Lisboa, a figura principal atravessou vários níveis de provincianismo. O próprio, traduzido na pequenez de espírito e na vontade de ser diferente, de se aproximar da imagem de sofisticação vista nos colegas de partido, elementos de grupos restritos de interesses. Mas também, e ainda, numa reminiscência de adolescente: a eterna vontade de se aproximar da imagem transmitida na televisão ou, nos tempos modernos, nas secções de lifestyle dos portais virtuais. E o provincianismo dos outros. Dos ascendidos ao degrau da escala dos que contam e riscam. A protagonista saloia enfrentou, então, os provincianos intelectuais já instalados. Bajuladores de universidades fora de fronteiras, onde estudaram por breve período, e onde tiveram o prazer supremo de se cruzar nos corredores com autores de livros que só conheciam das prateleiras, a quem começam a imitar os tiques. Deslumbrados a abrir fileiras de discípulos dentro do país, entre estudantes nas faculdades onde têm aulas ou apenas por cultivarem a vaidade pacóvia do clã por terem lido meia-dúzia de excertos de textos ou visto uma entrevista na televisão. O importante é cada um fazer questão de se mostrar superior ao anterior, nem que seja à custa de muito calço de intrujice. É a matrioska da vanglória. Cada degrau de vaidade faz questão de espezinhar a vaidade do degrau anterior.

        A palermice não grassa só entre os intelectuais. Em regra, Portugal ainda não se libertou do medo da colagem à imagem do saloio. Tal induz os portugueses mais informados, e supostamente mais cultos, numa saloiice mais perniciosa para a afirmação do país: a bajulação do que é estrangeiro ou novo, em detrimento do português ou antigo. O cunho português ou o tradicional, salvo a excepção de ter tido elogio estrangeiro, é sempre referido em sentido pejorativo.

        Daí permitir-se passar em horário nobre da televisão, sem qualquer registo de desagrado, reparo tonto de personagem de origem britânica sobre o carácter terceiro-mundista do Porto, num tempo em que ainda não havia hotéis e restaurantes padronizados ao gosto do turista plástico. E reproduzirem-se os que aderem ao novo-riquismo de quem, no modernismo endinheirado do cliché, nunca chega a conhecer a alma da terra pela qual passa, nem a sabedoria das suas gentes. Há uma expressão portuguesa antiga, a fazer cócegas na inteligência dos mensageiros da sofisticação, que a catalogam de rústica, usada restritamente para caracterizar gente parola, presente em qualquer parte do mundo, com pretensões a ser civilizada: piolho em camisa lavada.

        Enfrentou sobretudo o provincianismo dos comentadores e humoristas virtuais e televisivos com audiência, que enchem o espaço da comunicação social de salmos politicamente correcto, disfarçados de mínimos civilizacionais. Como se o respeito pela vida e pelo próximo, fosse inverso a factos menos in ou menos fracturantes. No espírito destas almas educadoras do povo, na dúvida a escolha será sempre contra a realidade. Têm total desconsideração pelo tecido social português, absoluta ignorância sobre a inteligência nacional, sempre menosprezada, sempre desdenhada, ou porque é de direita, e num país de esquerda há quarenta anos, ser de direita passou a ser sinónimo de acefalia, ou é civilizada, num país em que se confunde democracia com grosseria, ou não é de Lisboa, num país de migrados, envergonhados das origens rurais e deslumbrados com a luz da grande cidade, que não os parece iluminar, ou não tem formação académica superior, no país de licenciados e mestrados analfabetos, mas cheios de si.

        Ao contrário do previsto pela direcção do partido, a saloiice da Ana Paula foi sua sorte e o seu triunfo eleitoral. Os portugueses deixaram de se rever em provincianos disfarçados e enfatuados. Começam a preferir os genuínos. Afinal, para quê votar em políticos falsos, quando os originais passaram a ter condição elegível. Contra as expectativas da direcção do partido a Ana Paula ganhou os cem mil euros do concurso e passou a ter notoriedade e estatuto suficiente para ocupar o lugar de cabeça de lista pelo círculo de Aveiro. Escolha muito contestada dentro do partido, mas revelada certeira, face ao bom resultado num círculo eleitoral dominado pelo PSD.






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