Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




21599644_42ga1

          Atravessou o jardim no passo decidido de quem tem pressa em mostrar-se triunfante, no momento em que o João, sentado no banco de jardim de perna cruzada, dobrava meticulosamente o Independente já lido, pousava-o e, reservado, levantava os olhos. Assistia ao movimento de mulher ousada. Com gestos precisos ela afastava qualquer empecilho, provando ser capaz de traçar o próprio caminho, longe de sinas de vida dura. Nada contida, de corpo elegante e bem delineado, balançava afinada os braços a cortar a brisa amena e marchava decidida, com coluna bem erguida, peito alçado e movimento de anca livre. Um manifesto de liberdade. Magnífico exemplar do 25 de Abril, concluiu João, ao acender o SG Gigante, e logo desviar o olhar para o velho e quebrado homem a invectivar o grupo de adolescentes com quem acabara de se cruzar e que, além do despropositado coro de vernáculo, audível em todo o jardim, atirara à água três ou quatro latas de refrigerantes, agora juntadas à garrafa de superbock no fundo do lago. Mais logo o Alcino limpa, pensou. Desde 1969, varria e recolhia o lixo no centro da cidade. Estreou-se ainda em ditadura e assim permaneceu, sempre. Este ano, Portugal vai à final do euro, pela primeira vez na história do futebol, e o Alcino reforma-se, divagava o João. O vermelho das latas de coca-cola, bem visível no fundo da água, na madrugada seguinte seria mais difícil de distinguir, já fora laranja das latas de sumo Kas, ou do azul dos invólucros do capri sonne. Com o passar dos anos era indiferente, só custava mais no inverno, quando a água estava mais fria e suja. Pedia ao destino não aparecessem bichos maltratados ou mortos. Era uma recolha sofrida. Revolvia as entranhas por mais madrugadas passadas. Contara isto ao João em tardes de amena cavaqueira no banco de jardim.

        Depois de acenar ao Alcino, cumprimentando-o, voltou a olhar na direcção oposta, viu a Ana Paula desaparecer depois de subir os poucos degraus da câmara municipal, para cumprir o horário da tarde. Esquitécia, a palavra assomou no seu pensamento no tom morno e doce da Constança. Assim se referia a mulher à Ana Paula, quando em casa conferiam o dia. Era a única pessoa a usar o termo. Nem sequer constava do dicionário. O João matutava se teria relação com a sesquitércia da matemática. Não sabia, mas achava adequado. Ainda assim, defendia sempre a figura central: não há rã sem girino, dá-lhe tempo. Ai, não tenho dúvida, é mesmo uma questão de tempo. Tens razão, dizia a Constança. Antigamente, nós dávamos tempo, três ou quatro gerações, muita fé e paciência. Mas o mundo hoje é outro. O tempo está para gente sem dúvidas nem educação. Irá longe num ápice, os outros nem por isso, vaticinava. Estava envolvido no pensamento da mulher, quando a filha se aproximou, carregando o caderno novo de capa florida, onde esboçara o primeiro início do livro, e perguntou a cor dos sapatos da Ana Paula

                                                                   (Escrito de Abril de 2015 a Abril de 2019.)





Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D