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Parque da Cidade - Porto

      Parque da Cidade - Porto, 2011

 

 

À memória de Deonilde Firme Ribeiro, da Eca.

 

 

       Desataram o sorriso cúmplice à saída da livraria. Não olhes para mim, não disse nada, limitei-me a ouvir. A Constança abrindo a cara e toda a luz de criatura clarividente. És péssima, alinhou o João. Enrolado na forte gargalhada, chamou a atenção da mulher para o movimento da livreira. Lá dentro, Maria das Neves expunha o mais recente fascículo das Comezinhas. Editavam há mais de cinquenta anos. O caderno sobre as mil e uma preocupações da vinda ao mundo do bebé inaugurou a tarefa da vida inteira. Assim celebraram o primeiro aniversário da filha. Ao longo das décadas, dedicaram-se a tudo quanto mexe e merece relevo, por mais ínfimo possa parecer. Insignificâncias que sempre tiveram lugar na pequena editora e livreira Maria das Neves. Ao lado da Pérola, das várias revisões da Constituição de 1976, do Dom Quixote, da Odisseia. Da poesia de Fernando Pessoa, da Fanny Owen, do Coração das Trevas. Esteve sempre lá. Fazia parte da mobília. De início, em fascículos de capas de grafismo ingénuo, de cores primárias e formas geométricas, passando nos oitentas aos desenhos abstractos e indecisos, para nos últimos tempos acompanharem as imagens estilizadas do blogue, que passou a coexistir, adoptando o mesmo nome da publicação.

       Criavam saber comezinho há meio século. Discreto. Às belas ilustrações do João, a Constança juntava o texto de mais ou menos cento e cinquenta palavras, ensinando coisas práticas e conceitos. Desde a limpeza de sifões a circuitos eléctricos, a programação informática, passando por burocracias, noções de política, até o sentido das várias religiões ou correntes filosóficas. Dentro da livraria, na papelaria anexa, o casal tinha acabado de ouvir comentar o bom resultado da Ana Paula nas eleições. O velho marido da livreira separava o pedido da agora eleita, que uma vez por mês vinha rever Espinho, e lembrava os anos a fio de encomendas, primeiro da TV Guia, depois da Nova Gente, as únicas leituras regulares da nova deputada da nação. Estranhava que mesmo após ter entrado na faculdade de psicologia, tivesse acrescentado apenas meia dúzia de livros técnicos à habitual encomenda. E a Comezinha de 1991, lembrou a Maria das Neves. Recordação que uniu os dois casais em uníssono sorriso malicioso.

       A libertar-se do pequeno instante de má-língua, o João observava a mulher, ainda derretida a espiar a última criação. Estendeu o braço comprido, procurou a mão gorducha da Constança e seguiram juntos para casa. Tinham tarefa importante. Em cima da mesa da sala de jantar a Entrevista, escrita pela Margarida, aguardava leitura crítica. A filha decidira escrever uma história. A comunicação teve pompa e circunstância. O assunto foi tratado à mesa. Nesse Sábado, pediu à mãe contasse consigo para o lanche. Quando chegou, encontrou-a na cozinha a pôr as folhas de chá preto na bola de prata perfurada, que cairia no fundo do bule de faiança amarelecido de tão chalado e de bico esbotenado. Sorriu quando viu a mãe verter a pequena porção de água a ferver para abrir o chá. Naquela casa, felizmente, havia mais do que peneirices. Cheirava à massa adocicada do bolo de maça, o preferido da Margarida. Ao fim-de-semana havia sempre bolo, fosse de maça, de mármore ou de laranja. Abriu o frigorífico, tirou a manteiga, o fiambre e o queijo, enquanto o pai partia a regueifa em fatias generosas, e juntaram-se à mesa. Quando ia começar a dizer ao que vinha, o João pediu mais um instante e foi buscar a compota de amora à despensa; era o guloso da família. Já acomodados, as atenções centraram-se na Margarida. Já comecei a escrever e desta vez é a sério, vou levar até ao fim, declarou. Mas duvido que gostem. Aliás, duvido que haja quem goste. E continuou a explicar o que ia na alma. Deixou carta dentro de envelope aos pais; aí resumia as intenções quanto ao livro. O envelope estava em cima da pouco mais de centena e meia de páginas copiadas e presas em espiral vendida na loja de cópias. A única versão em papel do esboço do livro estava ali, sobre a mesa da sala da casa dos pais. E a carta dizia:

       Meus Queridos Pais,

      Vou aproveitar a tal história sobre Ana Paula, a vossa cara e coroa da liberdade, para dar uma pincelada sobre os últimos cinquenta anos. Crítica. Interessa-me o carácter das pessoas e o que vi. São coisas pequenas, que ficaram por dizer e fazem toda a diferença.

      Sim, sei. Cada qual vê o mundo como vê e há guerras que não devemos comprar. Mas vou comprar. Corro riscos. Exponho-me ao ridículo. Faço o que pode ser considerado medíocre tratado de menoridades e moralidades. Longe de liberdades fingidas e do humor doutrinal; longe da cartilha do nosso tempo. Sem sofisticação. Nada recomendável, portanto. Escrevo do lado de fora; o da liberdade, propriamente dita. Sem pedir consentimento, despejo um chorrilho de considerações sobre miudezas que não move o curso do tempo nem comove quem se interessa pelo destino do mundo e pelas grandes questões da humanidade. Disparo conclusões em vez de perguntas. Crio uma mancha de tinta cheia de imperfeições, e um elenco de personagens que não despegam de imputações escusadas e ilações contestáveis. Sem cunho literário e os seus tiques. Sem as longas descrições sobre a beleza da paisagem, a fealdade da sala, da parede. Sem a subtileza de saber dizer sem dizer. Pouco no livro se intui. Digo, escrevo. É cru. Não será belo, não será arte, mas é o que preciso dizer, agora. Exponho-me por pouco, é verdade.

     Pela liberdade, nada a fazer. Vivo-a sem remorsos em vez de a pregar. Já a arte me deixa a mágoa de não ser capaz. Aspiro a dias melhores e faço a tentativa de romance ou novela com a matéria-prima à minha mão, e por mais trivial que seja não posso nem quero ignorar. Poderá ser falhada, por falta de sabedoria em libertar as personagens, mas será acabada. Desta vez, chegarei ao fim. Garanto.

    Beijo

    Margarida





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