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        Sentada no sofá lembrava a conversa de há dez anos com o pai, no jardim de Espinho. Surpreendera-o embrenhado no seu mundo, como muitas vezes acontecia, e espantara-o: ela já entrou? De cor eram os sapatos hoje? O João voltou-se; viu o ar de troça da filha. Já, já entrou. Estava aqui nos meus pensamentos, acho que eram verdes, respondeu bem-disposto e acrescentou: a viagem foi boa? Trazes bloco novo, florido? Mais poemas? Óptima. Vim cheia de ideias, respondeu animada. Vou fazer o que me pediram e dedicar-me à vossa musa da liberdade. Rindo abertamente declarou: como diz a mãe, tenho mais sucesso se me dedicar às Anas Paulas deste mundo do que à poesia. Ora, nem mais, o João, esticando o molho de chaves do apartamento na Constituição. Ela despediu-se, afastou-se até ao estacionamento e arrancou no Fiat Punto em direcção ao Porto, a saborear a ideia de rever a casa recém-comprada, o lugar ideal para recomeçar a vida e a escrita.

       A mesma alegria sentida agora, dez anos volvidos, ao mudar-se para a Póvoa de Varzim, e cumprir o hábito da pequena viagem logo depois de mobiliar a casa. Espécie de baptismo da mudança, para que tudo fosse perfeito. Desta vez, o destino foi o barlavento algarvio. Quis voltar a espraiar os olhos e as narinas na despojada Costa Vicentina, tocar a miscelânea de maresia, esteva e urze, alumiadas ao sol amortecido pelo vento frio. Escolheu o Outono, já depois da debandada dos turistas gourmet. Estava encostada à meia-parede do alpendre da casinha caiada, de duas assoalhadas, arrendada para a sua semana, quando o telemóvel tocou. O Vicente, a saber das férias da amada. A conversa durou pouco mais de vinte minutos. O tempo preciso para a Margarida comentar as horas de maré cheia e maré vaza, a temperatura da água do mar, na praia do Castelejo, onde não resistia a chapinhar os pés mesmo em Outubro, apesar do vento norte a driblar a valésia. Dizer estar contente, por este ano não ter apanhado o vento levante, que baralha as temperaturas e as ideias. Acrescentar ter visto o voo rasante da última libelinha a riscar as águas paradas da lagoa. E perguntar pelo que se passava no mundo, além dos jornais vergados à propaganda das agências noticiosas e das vagas de desvarios gerados nas redes sociais. Como muitas vezes acontecia, deram conta não ter novidades, senão o politicamente correcto e as balelas destinadas a provocar a indignação, o riso ou o desdém. A propósito, o Vicente contou que um carro tinha entrado uma vez mais na linha do metro na ponte D. Luís. Soube-o através do recepcionista da empresa onde trabalhava. Até ver, com a entrada das novas chefias espanholas, as trapalhadas passaram a mais do que muitas e não sabia se ia aguentar muito tempo nas vénias aos nuestros hernanos. Ah, é verdade, conheci o Pedro Cabaço. Encontrei-o na Bertrand; levava um Hermano Saraiva na mão, disse. Sério? E esgueirando o sorriso que a tornava mais parecida com a mãe, acrescentou: ele agora lê esse perigoso adulterador da história de Portugal? Pensei ainda estar proscrito em almas de esquerda tão ilustradas. Muito me contas, terminou em gesto de gozo. Pensou na figura tola que ali fazia, sozinha no meio do nada, a falar ao telefone e a abanar a cabeça. Sabia que ias gostar, confirmou o Vicente. Mas olha, estivemos a conversar uma boa meia hora e não me pareceu tonto de todo. Nunca disse que era tonto, apenas incongruente. Mas conta, de que falaram? Inquiriu ela. Nada de especial, da decadência das livrarias, reduzidas às modas e destinadas a vender porcarias. Demos uma olhadela e comentamos as celebridades que dão dicas sobre a vida saudável, ou revelam ao mundo a sua extraordinária história de vida. Sim, e mais? Interveio ela só para que soubesse que ainda ali estava, e para dar um ar verossímil ao diálogo. Ou de superação à doença, ao desgosto amoroso, ou aos invejosos que não sabem apreciar a exibição das misérias e glórias, continuou ele. Como nós, mas isso agora não interessa nada. E mais? Voltou a insistir ela. Brincamos com os quase tão célebres jornalistas, blogueres, humoristas e coachees, que explicam como se viaja, come, lê e escreve. E como se veste, se poupa, se ama. A Margarida riu alto e comentou: têm a sua utilidade. Claro que têm, respondeu ele. Li dois ou três desses livros só para tentar ver como funcionas e sinto que continuo a precisar de ajuda para te aturar. Parvo, lançou ela. Ele continuou: disse ao Cabaça que vivia contigo e ele respondeu que sentia muito. Parvo, voltou a dizer a Margarida, cada vez mais saudosa do namorado. Combinara gozar todos os anos pelo menos uma semana de férias sozinha. A explicação oficial era a de precisar de espaço. Na verdade, precisava de sentir saudades do seu amor.

       Ao pousar o telemóvel na pilheira dos cântaros, pensou na conversa sobre o Cabaça e retrocedeu ao período do liceu, voltando a recordar-se da Ana Paula, com quem ele casara em finais dos anos oitenta. Há dez anos, após a última mudança de casa, e o primeiro anúncio familiar das sempre vivas e inadiáveis determinações, escrevinhara sobre as impressões do tempo da sua meninice e do liceu, e a figura da antiga colega sempre tesa e vaporosa e nunca bela, era incontornável para quem gosta de desmontar o boneco humano. Tudo nela parecia encaixe de precisão. A compor o ramalhete, surgia na memória da Margarida conjunto de raparigas e rapazes comuns mortais a gravitar em torno da protagonista. Anunciara aos pais que iria escrever sobre esses tempos e o percurso dessa gente, de quem ia sabendo, anualmente, nos jantares de reencontro. Mas a resolução inadiável convertera-se em banho-maria de dez anos.

       Agora, a passarinhar à porta da casa algarvia, decidiu ter chegado a hora de realizar os seus intentos. Por isso, passou o resto da semana a montar mentalmente o romance da Ana Paula e a esboça-lo no quase imaculado bloco florido. Saciadas as vontades do Sul, regressou ao Norte, onde sabia pertencer. Ao chegar, pousou as malas e reparou na caixa do pequeno presépio, esquecido na mudança em cima do aparador da entrada. Abriu. Tirou a peça única em prata e deixou-se confundir por momentos. Em que mês estávamos? Era a época de ter o presépio na mesinha cabeceira ou na sala? Fazia diferença. Quando o Natal se aproximava, saía do abrigo costumeiro, na intimidade do quarto, para a estada na mesa apoio ao sofá na sala, onde arejava ideias junto do Buda de argila cor de bronze, sentado de cotovelo apoiado no joelho e costas da mão a fazer de cama da cara. Mas ainda era cedo para o encontro universal; até ao início de Dezembro, a Sagrada Família ficaria recolhida no quarto. Lá a deixou.

       Voltou à sala e sorriu abertamente. Estava tudo no sítio, ainda que este ano fosse outro. A alegria de mudar de lugar, sem mudar muito de si mesma. Dar a tal volta de trezentos e sessenta graus sobre si própria e chegar sempre ao ponto de partida. A vida da Margarida tinha laivos de monopólio e não se importava muito quando era mandada para a casa de partida; em bom rigor tirava até gozo da regressão. Lançara os dados e caíra na Póvoa de Varzim, ali logo depois dos hotéis de jogadores profissionais comprou nova casa. A quarta e quase juraria a última, até numa próxima rodada voltar a atravessar o Rossio e a Rua Augusta, e repetir para si mesma, ali não. Tanta luz e fausto não condizem com recato e ponderação. E logo apanhar comboio até Campanhã, para perceber que as antigas casas na Boavista e na Constituição, onde vivera quando trabalhou como enfermeira, nos hospitais de Santo António e de São João, eram passado, menos longínquo do que Espinho, mas ainda assim passado.

       Recostada no sofá bege claro, olhou à volta, reviu os tons terra. Estava definitivamente em casa. Desde a imagem da sala dos cortinados esvoaçantes do África Minha, e do eterno desejado globo de viajantes em tons de sépia harmonia, idealizava sala assim. Imaginou, como o espaço se preencheria horas depois, quando o Vicente chegasse e se sentassem à mesa. Pegariam no copo de vinho e qual Karen Blixen, começaria a contar aquela história guardada no fundo da garrafa do futuro para ser bebericada nos dias correntes. Enquanto dava uns retoques nos quadros da casa e nas poucas peças que a ornamentavam, ia cogitando no capítulo de logo mais à noite. E no que diria a Ana Paula, quando o Pedro entrasse de rompante a participar que os pais passariam o fim-de-semana lá em casa, por causa da inundação da casa na rua da Bela, na Foz Velha. Naturalmente, a protagonista entraria em absoluto stress perante todo o cerimonial da família do Pedro. Os lugares marcados à mesa, pela idade, sexo e grau de respeito. A espera para as senhoras se sentarem e pela colher dentro do prato da sopa da senhora de maior respeito. O tratamento na terceira pessoa do singular, a proscrição dos vocês e senhoras e donas, substituídos por tio ou tia, ou pelo formal senhor seguido de nome e apelido, e senhora dona seguido de nome. O tabu de palavras como esposa, funeral ou sanita, que magoam, nunca aleijando o ouvido sensível de gente civilizada, que morrendo se nega a falecer. Estes, e muitos outros tiques perpetuados por gente bem, eram código de honra e enlouqueciam a Ana Paula, fazendo-a perder o pé no mar de certezas no qual costumava nadar.

       Ao jantar dessa noite, a Margarida subornou o Vicente com Ameijoas à Bulhão Pato e alinhavou a história. A soar a mescla de azeite, vinho, alho, coentros e Dave Brubeck, começou a pincelar os traços de personalidade da Ana Paula. Anos de considerações desarrumadas nos milhares de gavetas da memória, saíam em ideias cortantes e baralhadas. A flutuar no bálsamo Take Five e outras mais suaves, lá conseguiu ordenar o discurso. O difícil cúmplice foi ouvindo e, impaciente como era, quando a namorada terminou, já a acabar os morangos ao Porto, guardou as facas de sobremesa na gaveta do aparador e, ao encaminhar-se para a cozinha, soltou: tem cuidado para não transformares a história em tratado. Conheço defeitos suficientes das tuas personagens e nem sequer sei como se conheceram. Ainda a matutar no enorme crime nutricional cometido, uma hora antes, ao cortar os morangos em quatro e regá-los com a Três Velhotes reservada à culinária, uso proscrito pela ditadura do novo estilo de vida e que, também por isso, fazia questão de manter, a Margarida continuava a criar o enredo do romance ou novela que um dia reduziria a escrito, para registo das suas impressões do mundo. Enquanto o namorado lavava a loiça, ela devaneava sobre o esboço do livro. Nas poucas ocasiões gastas a ordenar o pensamento, tal a liberdade da divagação, imaginava o princípio da história. Não se queria estrear a publicar contos e sabendo ter o cérebro moldado aos retratos e ao discorrer de ideias emaranhadas em si mesma, tinha consciência que para criar coisa digna de ser lida, teria de aprender a saltar fora do enredo e a olhar como forasteira. Toda a vida se comportara como tal, resguardando as histórias na reserva do íntimo e do pessoal. Dar o salto e sair do seu mundo, para o dar a conhecer aos outros visto de fora, o mais difícil. E o início o primeiro desafio.

       Aproximou-se do Vicente, entregando a xícara de café, assente no pires onde pousava a colher e o pacote de açúcar; uma modernice. Esperou que acabasse de mexer e, como era hábito, pediu a colher. Sovina, acusou ele. Quem lava a loiça sou eu. Não percebo porque poupas tanto. Ela sorriu distraída, enquanto envolvia o café. Já estava noutra. Abrindo as gavetas da memória reouve os caprichos. Mais nova, fantasiara as grandes viagens e modelara o mundo mentalmente. Das escolhas trazidas no peito, com as quais corrigiria as desgraças dos países malgovernados, tirava menos gozo ao vergar corruptos e gananciosos, do que ao gizar planos simples de construção da comunidade justa. Começar pelos alicerces, pela garantia de subsistência dada pela distribuição da terra e por acesso a casa. Sonhava um país onde pudesse abrir trilho do zero, e esse seria o país onde nascera. Trazendo à memória o galinheiro no fundo do quintal do maravilhoso mundo imaginado constatou pela enésima vez como é insólito o julgamento do tempo e a razão ou a bondade, ao contrário do que se diz, podem estar do lado errado da história.

       Noutra gaveta encontrou a heroína condenada por crime que não cometera, antes sim, evitara ao abandonar família, amigos e o país. Acto de coragem, o de permitir que todos a considerassem responsável pela calamidade que se avizinhava, e se evaporaria com o seu silêncio. Pôs de lado a ideia, supondo que se algum dia quisesse escrever um policial, teria início de conversa.

       Se pretendesse um romance que contasse uma história de amor, poderia escolher os mil e um devaneios da rapariga poética que idealizava homens maciços, sábios o suficiente para a cativar e resgatar da solidão dos incompreendidos. E se transformariam no único, o companheiro de viagens até aos confins do mundo.

       Mas não tinha intenção de se debruçar sobre o que vai além das fronteiras. Ainda não se refizera do impacto da badalada globalização nem do apelo e elogio à saída do país, vendo que vidas supostamente pródigas da chamada diáspora são em muitos casos tão banais quanto difíceis. Assim como não era sua intenção mergulhar no antigo mundo das viagens e das histórias saídas do baú a cair bem no cenário do globo sépia e das cortinas esvoaçantes. Apesar do prazer da juventude ter sido o das viagens, e com orgulho envergonhado poder dizer que aos vinte e oito já cruzara cinco continentes, aos cinquenta percebeu que precisava terminar o primeiro balanço e interessava mais o comezinho da vida em Espinho, onde viveu até à vida adulta, e a vida nos últimos trinta anos. Queria também enquadrar o cenário na época sem pretensões intelectuais. Para isso, faltava vida mais rica ou a leitura de todos os livros que ficaram na prateleira, por falta de oportunidade e pachorra ou excesso de preguiça.  E os concertos, os filmes e as exposições onde não chegou a ir.  Teria de ter conhecido os muitos sábios que vivem entre nós, e nos chegam sob as mais diversas vestes, como a cozinheira que amassava, benzia e levava o pão a cozer no forno a lenha, apartava os cogumelos venenosos, conhecia os efeitos medicinais das ervas nativas, sobretudo, os mentrastos, e acumulava os tachos, os jardins e a horta, com a distribuição do pão pela aldeia, enquanto fazia os seus bruxedos para compor e descompor as vidas das gentes da terra. Precisava de mais. Se escavasse na mioleira, encontraria matéria interessante como aquela, mas parecia sempre pouco, até ao momento em que se impôs dar forma ao tal balanço encetado aos quarenta. Decidira tão só transpor a escrito os retratos mentais que a ocupam em algumas horas vagas e percebeu serem o que de melhor terá para mostrar. Talvez aos oitenta e dois anos, por altura do que aspirava ser o segundo balanço de vida, voltasse a acender o cigarro, cujo sabor interrompera por quarenta para permitir ter esperança de lá chegar, e escrevesse sobre o excitante mundo das viagens. Agora, tinha outras prioridades, até porque chegava sempre à surpreendente conclusão de que, por mais prazer tivesse na viagem, todos os outros viajantes demonstravam mais gozo, mais conhecimento e mais memória do destino. Além disso, o café na Praça de São Marcos, a road trip americana e direito a cumprimentar um Apache, o arremedo de Paris-Dakar original ou na Terra do Fogo ou no Peru, o mergulho nos recifes australianos, o ínfimo avo de subida aos Himalaias, o safari no parque natural do Quénia, passaram a actos corriqueiros, planeados e escarafunchados por magotes de panfletos publicitários. Façanhas descritas à chegada com minúcia estonteante e claro como experiências únicas e exclusivas, o grande anseio dos novos visitantes dos cantos do mundo, que esvaziam a viagem à custa da bazófia. A Margarida perguntava-se o que trariam de novo estas visitas disfarçadas de experiências sem-par, mas quase sempre artificiais. Os sonhos de ontem, nascidos à sombra das lombadas de Júlio Verne, perderam a beleza inocente do mistério, da surpresa e da aventura. A viagem tornou-se banal, a quem não ocorre que o centro do mundo está no lugar onde o mapa é cartografado e não apenas no quiosque à porta de casa onde é vendido.

      Absorta no emaranhado de ideias pensou no que teria mudado nas últimas décadas. Retrocedeu um sexto de século e focou-se na viragem de milénio, na noite de trinta e um de Dezembro, e na recordação de ter a televisão ligada para ver a era desfazer-se no reality show do momento. O conceito era desconhecido até há pouco da Margarida. Havia seguido vários episódios com ingenuidade, e pôde perceber o estilo de linguagem e interesses revelado nos diálogos dos concorrentes e apresentadores, destinados a saciar público ávido de intriga rasca. Com o nome retirado da obra de George Orwell, o programa era o espelho do sórdido. Popular, entranhou-se, entrando em casa de todos. No hospital, onde trabalhava, a colega enfermeira e boa observadora Maria João imitava não só os participantes, mas também as personagens criadas por humoristas, que passavam boa parte do tempo de antena a recriar o programa nas rábulas. Mais do que caricaturar, reviviam o enredo. Até os eruditos apelavam ao universo da Grécia Antiga para justificarem terem consumido parte dos anos seguintes em frente à televisão a confirmar que o formato vingou, atestando que ele disse que ela não o come de cebolada, porque sabe que é uma interesseira que só está com o cota por causa do dinheiro, o tal que não limpa as casas de banho e fede dos pés, e que o ex-namorado era mau a pinar, mas agora anda a comer a rameira que se tinha metido com  namorado da outra, o tal que uns anos mais tarde viria a mudar o estado do facebook para fingir estar numa relação e assim fazer ciúmes à garina que começou a morder, uma sonsa que andou a dizer bué de mal pelas costas da miga muita linda, que a meteu no bolso quando lhe disse na cara que era uma bruaca e o outro que finalmente mostrou que era gajo altamente, quando empurrou o namorado chunga da sonsa contra a parede, outro tanso que só por inveja podia ter inventado que ela roubou o carro da velha do namorado e ou outras preciosidades deste gueto ordinário.

       A cultura do lixo é intemporal, mas até então não produzia a ressonância universal do formato criado por holandês e propagado à escala planetária. Fixa neste pensamento sentou-se na mesa do escritório, e principiou a escrever a primeira entrevista. Já deixara de antever, agora tratava-se de constatar a transformação de Portugal e do mundo em enorme cenário do big brother, onde sobressai lancinante, a ferida da falta de inteligência e de sensibilidade.

       Posto o ponto final na sensibilidade ou na falta dela, a Margarida carregou no ícone da disquete, gravando o segundo início do livro, deu dois enter e escreveu capítulo II, voltou várias páginas atrás, trocou capítulo I por Prólogo, esgaçando sorriso malévolo; custou, mas aprendeu a achar graça aos arcaísmos que trazia agarrados à pele. Antes de chegar o momento de entregar o livro ao editor, teria de os substituir por formas mais arejadas; cairia a numeração romana, para entrar a árabe, sem referência a capítulos, prólogo ou epílogo. Mas não dispensava a utilização do pretérito mais-que-perfeito; quanto mais consciência do desuso, mais vontade em usá-lo. Nunca prescindira de ser alvo do gozo fácil da mole bem-pensante que grassa, mas não medra mundo fora, em eterna adolescência. A mesma que brada de dedo em riste contra os pleonasmos do índex do português estéril. Lá chegaria, por enquanto deixou espaço em branco e escreveu capítulo I, agora terminado. Ficou a congeminar o sentido de haver prólogo. Logo se veria. Se o livro chegasse a bom porto, o editor diria se haveria necessidade de correcções. Afinal o trabalho dos revisores de texto é essencial. Não fazia ideia da estrutura do livro. Em bom rigor, tudo isto era atrevimento, consciente dos erros ortográficos, de sintaxe e na enormíssima dificuldade em criar intriga. Mas estava decidida. Não ia continuar a deixar escorrer o tempo, sem experimentar compor um livro. Assim, com lata e sem pejo. Estava em causa compor um livro, mais do que escrever romance ou novela. A verdadeira pretensão.

       O primeiro livro da Margarida abria com a elevação e a subtileza que mais caracterizam este novo milénio. A contar o dia de estreia da Ana Paula na Entrevista. O novo programa televisivo da TVI.






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