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O que não se costuma dizer

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 01.12.21

Não ignoro as consequências desastrosas da economia planificada e da colectivização do modelo soviético ou de outros estados autoritários que o tiveram por modelo, nem os milhões de mortes e expurgas que estiveram na base da sua implantação. Milhões foram deportados, exilados e condenados a trabalhos forçados. O Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin (nome que nunca soube pronunciar) constava da estante de livros dos meus pais, que me habituei em criança a arrumar, tentando acompanhar o caderninho de capa de papel aveludado azul-escuro, de onde constava o nome do autor e título de cada livro. Creio que não o li, apesar de ter passado os olhos pelo miolo diversas vezes e saber a que se referia por alto (singela expressão) desde que tenho memória de mim. A primeira edição desta obra é de 1973, o meu ano de nascimento. Abreviando: uma narrativa/testemunho/denúncia em forma de romance do terror bolchevique nos campos de trabalhos forçados soviéticos com prisões arbitrárias, ausência de processo judicial e torturas. A esta realidade fui introduzida em criança, não tenho como desconhecer.

Ainda mal entrada na adolescência li Uma Morte Suave, de Simone de Beauvoir. Nela se espelha uma existencialista que nada tem a ver com a agressiva feminista que os editores actuais querem impingir à força aos consumidores do lugar-comum. Ali onde se fala da morte da sua mãe quase tudo é absurdo e frágil. Palavras deturpadas como se fossem um pique que desperta interesse oportunista e grotesco aos inventariadores da ingenuidade alheia imbuídos no dever de a suprir com o seu imenso calo literário e experiência de vida. Hoje o que se pretende é reabilitar a vertente feminista-sórdida e a sexualidade de Simone de Beauvoir, nomeadamente, na relação com Sartre - de quem também li à época qualquer coisa, bastante entediada e picada. E com isto se excitam os editores e as páginas virtuais que se debruçam sobre o tema. Babam como velhos sebentos e sedentos por notas de ilícito, proibido, imoral. Pessoalmente há duas notas relevantes. A primeira é que sem eu saber Simone de Beauvoir me chegou à mão não pela minha mãe, mas pela minha avó, que nessa época gostava de me chamar existencialista como se me repreendesse. Era um aviso. O segundo é que a minha memória é tão má que me recordo de ler relatos de torturas a mulheres em prisões pela mão desta escritora, mas não faço ideia do nome da obra. Voltando atrás, a sexualidade da escritora tão esmifrada é enaltecida por gente a quem conheço vícios privados como a visão obcecada da mulher, o ciúme doentio, a culpabilização da liberdade feminina, a não-aceitação da emancipação feminina – que naturalmente sempre negarão e justificarão com jogos ou qualquer outro subterfúgio por a isso estarem habituados. Como negarão, estes embusteiros, as mentiras, a criação de engodos no intuito de se beneficiar e prejudicar outros. Usam e abusam das pessoas com quem se cruzam, incluindo das mulheres, como alarves matarruanos que nunca deixam de ser, apesar do dedinho no ar a dar o ar de grandes cavalheiros ascendidos à sociedade. Gente que deambula por aí na praça portuguesa e que chega a perorar sobre violência doméstica e amiúde se faz passar por muito arejada de ideias. Mas não consegue disfarçar a excitação por obras que reflictam violência e podridão humana, sempre de dedo em riste a denunciar o perigo dos novos censores. Nada contra, não fosse no caso desta gente, não se tratar de defender a liberdade de expressão, a liberdade literária, mas sim de acautelar o seu próprio reduto de sórdido. E ao lerem isto o primeiro impulso será atirar com um autor, uma obra, um exemplo que exprima toda essa vontade intelectualmente superior de salvaguardar a liberdade – a dita que nas vidas privadas não só não reconhecem às mulheres como gostam de as humilhar no dia-a-dia com proverbial prosápia. Muito mais sujos e perversos dos que facilmente detectamos, pois as suas principais características são a dissimulação e a cobardia.

O que é que Gulag tem a ver com o existencialismo e a sexualidade de Simone de Beauvoir? Nada, ou tudo – se virmos bem até terá. De qualquer modo, saiu ao correr da pena. Noutro dia voltarei ao comunismo para dizer o que tinha pensado quando me sentei a escrever e ficou irremediavelmente perdido por hoje. Adianto que se tratava de explicar a razão para nos anos 80, época que ainda estava na moda ser de esquerda, estar tão longe dela e do comunismo, ao ponto de ter amigos e ler propaganda de extrema-direita, e a razão por dar por mim nesta última vintena de anos a perceber a vantagem de viver num país em que o partido comunista resistiu ao contrário de outras paragens europeias mais liberais. Há uns anos – talvez 15, talvez mais – vinha no autocarro a ouvir uma conversa (coisa que acontece muito) de dois ingleses, quando passámos perto do edifício que alberga o Partido Comunista na avenida da Boavista, e fiquei ali a ouvir o desdém com que era vista pelos impantes liberais súbditos da rainha esta reminiscência anacrónica portuguesa. Quando sinto o cheiro da extrema-direita a insuflar penso nestes comentários ouvidos há anos e concluo que ao contrário do que achava o presumido par de ingleses, apesar da falta de valorização do esforço individual, apesar da irresponsabilização de cidadania e, naturalmente, do perigo de autoritarismo e de total estatização das nossas vidas, o Partido Comunista, com a rede de pensamento que foi criando ao longo do século XX e de propaganda após 1974, é o nosso seguro de vida contra o fascismo. As balanças equilibram-se  pelo peso das pontas, não ao centro. Por perverso que possa parecer, precisamos de um Partido Comunista sadio para continuar a ser uma Democracia. É a opinião de quem anda sempre contra o tempo ou marés em busca do justo equilíbrio para o país.






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