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Os pintainhos

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 02.12.22

Final da tarde de feriado. Um dia atípico. Ao fim de tanto tempo a romper cedo da cama, acordámos quase às três da tarde. Ontem deitei-me já ia avançada a madrugada, mas nada fazia querer que dormisse tantas horas seguidas. Cansaço extremo dos últimos dias e sonos finalmente refeitos.

Rebobinando. Passam poucos minutos das sete da tarde, o Nuno está ao piano - começou pelo Ave Maria. Toca-o sempre que vamos fazer uma viagem por mais pequena seja, e também à chegada; hoje não há saída, mas é um fim de tarde doce. Agora rola o Adágio de Albinoni. Há uma hora fomos ao Continente, não fazer compras, mas uma transferência no multibanco amovível, já que o único banco da zona, que havia encerrado portas há um ano, agora retirou mesmo as caixas ATM. Com optimismo considero a hipótese de alguma outra instituição bancária arrendar o espaço e iniciar ali actividade, mas bem sei que não é provável. 

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Em seguida, fomos ao chinês comprar nova série de luzes para a árvore de Natal. Lá as colocámos a medo do Ritz voltar a roê-las como fez o ano passado, roubando-me uma das alegrias maiores da temporada: adoro a simplicidade do cintilar das quatro cores paradas ou a piscar lentamente – detesto o modo rápido. Este ano o dono da loja chinês teve de me alertar para o facto de trazer a caixa errada, de uma só cor. Modernices em que nem reparei, valendo a atenção e cuidado dele que imaginou e bem que quisesse as tradicionais. Ah e tal, coisas kitsch, nada de genuíno espírito natalício, o dos dogmáticos, dos conselheiros e da pseudo-erudição - não, não e não, hoje não estrago o dia com essa gente.

Está quase a fazer um ano sobre o internamento para o bypass gástrico, que resultou em menos 40 e poucos quilos – desde o final do Verão não perco peso e julgo seria suposto perder ainda que pouco até perfazer o ano e meio. Não me preocupa, se ficar assim ainda que considerada gorda para os padrões das tendências, ficarei muito bem. Deverei ter cuidado, isso sim, para não voltar a engordar já que me foi dito nas últimas consultas no Santo António que é muito vulgar, mesmo no caso do bypass gástrico, os pacientes voltarem a ganhar peso, nalguns casos para valores pré-operatório. Agora o Nuno toca as Ilhas dos Açores dos Madredeus – lindo.

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Antes disso estivemos a montar a árvore. Como todos os anos retiro as caixas da prateleira de baixo do guarda-fatos – nesta casa não há como em Bessa Leite arrumos e despensa -, coloco tudo no tapete da sala, e a primeira tarefa é do Nuno: montar a árvore. A mim compete-me decorá-la, o que é muito simples por ter pouca tralha, e colocar as restantes escassas peças pela casa: a mini árvore e a vela no cantinho do Nuno em cima do piano como desde início em Bessa Leite, o presépio de loiça dado pela minha cunhada e irmão em cima dos livros na estante do meu +1, o anjo e a bolinha de vidro da neve dados por amigas no aparador, e o presépio que está todo o ano na mesinha cabeceira passa para a mesa de apoio ao sofá.

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Neste meio tempo o Nuno parou de tocar e veio pedir-me um café. Boa ideia, faço dois cafés e trago um para a mesa do computador. Gosto de ir bebericando o café quase frio, por falar nisso, está frio fora do +1, aqui tenho aquecedor; ontem estavam 16 graus na sala, como em toda a casa não aquecida. De referir que tenho a janela da casa de banho de serviço um pouco aberta 365 dias por ano, por ser a divisão onde está a areia do gato - vá, e por gostar de arejo - e a porta sempre entreaberta para o gato cirandar, pelo que é impossível aquecer a casa.

 

Com o desvario das horas em dia feriado, vamos jantar tarde, talvez lá para as dez – em miúda jantava por volta das nove e meia, mas cá em casa costumamos fazê-lo cedo. Neste momento o Nuno faz soar o Vincent ao piano – durante anos foi a música que mais vezes pedi que tocasse. Quando me diz: - hoje os dedos não estão a obedecer, está-me a sair mal -, peço-lhe que toque o Vincent, já sei que sai bem, sai sempre bem e eu já não choro de cada vez que a toca. Bom, às vezes lá calha. Nos primeiros anos era comum ao fim-de-semana choradeiras pegadas ao som do piano. Choro de alegria, de sonho, de comoção. Desde que vivemos juntos é raro o dia em que não peço ao Nuno para tocar uma ou duas músicas. É hábito no final do almoço à semana duas ou três, antes de ver na aplicação do telemóvel o horário do autocarro e sair disparada, tantas vezes a meio de uma música.

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Entretanto o Ritz veio cheirar a caneca do café e através do farejar da ponta direita da mesa do computador, alertar-me para a falta da almofada dele. Interpreto o que me diz, sem grande convicção. Há dois dias cheguei a casa e nada de Ritz. Imaginamos que estivesse dentro de algum armário ou gaveta, mas desta vez não. O Nuno tinha fechado os estores e lembrámo-nos da hipótese de ele ter escapado no momento de abrir a vidraça para puxar o estore – o nosso do quarto tem o manhoso tique de não descer sem uma ajudinha extra a puxá-lo. Abri o estore e a janela e lá estava o sacripanta. Quer dizer, passo eu as manhãs dos fins-de-semana cheia de cuidados para que não fique lá sozinho e o Nuno, por não ver, tranca-o na varanda. Estava gelado, mas como sempre acontece quando se passam episódios do género, nem uma miadela. Em momentos de stress este gato fica totalmente mudo. Mais, nessa noite vim sentar-me aqui no +1 a escrever, e ele ao fim de tanto tempo resolveu tentar enfiar-se atrás dos livros da estante, como fazia para se proteger nos primeiros meses cá em casa. Atirei-me logo às interpretações felinas: estar preso ao frio e chuva mais de uma hora despertou ansiedade, a memória de tempos adversos, daí a procurar o antigo local de refúgio.

Mas rebobinava, voltemos então. Este texto vai ficar particularmente longo e pouco atraente para leitura. Seja, tanto melhor. Ora, ia na montagem da árvore. Antes disso foi o pequeno-almoço tardio, às três e meia da tarde, convertido em almoço. Repeti os ovos mexidos, tomate cherry, azeitonas e pão. Desta vez, atenta a fome acrescentei um croquete grande aquecido no microondas para cada um. Metade o meu foi para o Ritz, que adora croquetes. Antes disso dormíamos e sonhei com a torneira da casa de banho e um telefonema para o canalizador. Um sonho prosaico: preciso realmente de chamar o Sr. M., canalizador. A base da torneira está a verter. Aviso à navegação: é usar a outra casa de banho antes que a água comece a infiltrar.

Ontem estraguei a noite com uma indisposição costumeira. Falta de bom senso meu ao perder tempo dando atenção, cada vez menos é certo, ao que não merece. Estava tão bem disposta ontem. Para quê estragar a disposição com aquilo e aqueles que só destroem. Na aparência de conceberem, de criarem valor, secam, arrasam e subvertem tudo quanto é belo e são. No hábito das certezas e dos juízos fáceis, não compreendem, nem sentem a beleza nem a integridade. Usando aparente sofisticação e complexidade na argumentação correm atrás do artifício. Gente afectada em bicos de pés e habituada a não considerar nada nem ninguém, apesar do aspecto bem intencionado e dos elogios balofos - gente que floresce como as ervas daninhas. Tudo quanto fazem é devorar e aniquilar o que tem valor para enaltecer egos inchados. Antes disso, estava a começar a escrever alegrias - a deixar-me ser eu própria, sem perder tempo com balofices –, ontem à noite irremediavelmente estragadas.

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Antes disso jantei arroz de polvo. A minha mãe fez a calda e trouxe-me no tacho. Bastou-me juntar o arroz. Comi pouco por ainda estar com dificuldade em digerir – vai e vem a sensação. A sorte é que o Nuno estava com fome; não sobrou. A tampa do tacho vinha presa com uma fita de nastro branca e a recomendação: não deite fora, ponha dentro do tacho quando mo devolver. Recordou-me a avó, nascida no decurso da Primeira Grande Guerra, vivida em Espanha na Guerra Civil, passando pela Segunda Grande Guerra e a Revolução. Tudo isto se reflectia na quantidade dos elementos de retrosaria que guardava para acautelar o futuro. Ainda conheci os cartões com dezenas de colchetes, botões, agulhas. Fita de nastro, galões. Linhas, montes. Temos de estar preparados. A memória dos racionamentos. E disse a minha mãe ontem: devolva-me a fita de nastro, ainda vai dar para umas tantas fitas de pendurar panos. Talvez ainda sobre para si, como as da avó. Lembrei-me dos lençóis que o Ritz me rasgou, convertidos em panos de limpeza pela dona L.. Gosta da costura, a dona L.. Chegou a trabalhar numa fábrica de confecções, antes de ter o próprio negócio de venda de sofás. Sofás bons, de qualidade. É da loja dela o cadeirão de braços com 22 anos que estofei de novo; vendeu vários sofás entre os meus familiares. Mas correu mal, ao fim de 15 anos faliu, ficou com dívidas ao Estado que foi honrando, o marido adoeceu, e começou a trabalhar prestando serviços domésticos em várias casas, algumas de antigos clientes.

Antes de tudo isto, ontem estava na empresa a trabalhar. Foi um dia quase tão agitado como o anterior, com a diferença de ter gasto algum tempo a espreitar os blogues que sigo a divertir-me com a boa onda que ontem reinava. Fui deixando um comentário aqui, outro acolá, a sentir-me em boa companhia. Não devia dizer isto por poder parecer indelicado e injusto, mas a verdade é que apesar de em 90% do tempo estar de peito aberto para o que se vai desenrolando, há momentos em que penso: vais voltar a ter desilusões. Olha as aparências, rapariga. Olha as aparências. Muita simpatia, muito elogio. Muita ilustração. Olha o revés. Desde o final do século passado, não seria a primeira nem a segunda vez, a última há bem pouco tempo, de tudo o que tem boa aparência se desfazer num olhar mais atento na verdade crua e dura da falsidade, da mentira e da grosseria dissimulada em boas palavras. Não é que não faça parte da vida, mas sempre gera pequena mossa, e é tonto não aprender com as lições do passado.

E ontem no fim do dia de trabalho, um mimo especial das duas colegas com quem partilho o gabinete: um presente dado em embrulho cuidado e mensagem bonita para abrir no fim-de-semana. Uma lição aprendida nos últimos meses: como a presença nova de uma pessoa mais delicada na sala pôde mudar para melhor as relações mais tensas entre quem está essencialmente focado no trabalho. Gestos pequenos e simples que mudaram para melhor os nossos dias. Espero ter aprendido, admito ter andado muito distraída.

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E antes disso, logo pela fresca, a mensagem de uma amiga a confirmar presença no fim-de-semana. Alegria. Seremos 21. Gosto do número. Éramos para ser 26, falta a vermelho para os amigos C, em Londres, e R., a trabalhar em Lisboa e a minha enteada pela mesma razão. Estão perdoados, mas se para o ano ainda tiver emprego, estão novamente intimados e vão ter de arranjar justificações em papel azul 25 linhas. Este ano, depois de vários sem festejo, que aliás se circunscrevia a juntar em casa pais, irmãos e sobrinhos, este ano, dizia, se Deus quiser (é bonito dizer isto, não é?), seremos: pais, nós, irmãos, dois primos, três amigos e caras-metades, sobrinhos e primito júnior. Os pintainhos.


4 comentários

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De /i. a 02.12.2022 às 00:28

Já tem a sala com espírito natalício.  
Já passou um ano da sua cirurgia. Acha pouco, para uma mulher, perdeu uma grande quantidade de quilos.  Não desmotive vai conseguir diminuir mais peso. 
O horário do jantar é que é muito tarde.
Gosto de arroz de polvo. Porém, à noite só como sopa. 
Antes tínhamos de reaproveitar pois não havia alternativa.  Agora vai ser necessário voltar aos tempos de poupança.  Essa adaptação não preciso de fazer pois sempre tive uma educação para não haver desperdício em casa e aproveitar o que se pode aproveitar. 
Beijinhos.  
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De Isabel Paulos a 02.12.2022 às 00:50

Obrigada pelo voto de ânimo, Isabel.
Costumo jantar entre as oito e oito e meia - à indigesta hora do Jornal. ;) Hoje foi mesmo atípico, perfeito dia de preguiça.
Devia imitá-la com a sopinha à noite. É mais sensato fazer uma refeição mais ligeira à noite, mas teria de me organizar de modo diferente, além de ter sempre mais fome à noite do que à hora de almoço. À noite há mais tempo para conversa tranquila. Sabe melhor.
Bons costumes de poupança, os seus. Percebo-a tão bem, não faz sentido nenhum desperdiçar.
Um beijinho.
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De ROMI a 02.12.2022 às 08:41

São oito e meia da manhã, hoje é sexta, sabemos o que isso significa, adiante... Foste a minha companhia para os meus primeiros cafés matinais, nunca tomo pequeno almoço. Li o post anterior, o dos jornalistas chicos espertos, e com especial agrado este. É a minha veia cusca. E no meio disto tudo, o meu foco, aquelas almofadas no sofá. Diz-me que o padrão não é do "lenço dos namorados", imagina, eu que nem gosto de cor, babo por esse padrão. A duvida lembra-me que tenho de aumentar a graduação dos óculos. 
Beijo. Não sei como termina o meu dia, mas começou bem. Obrigada. 
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De Isabel Paulos a 02.12.2022 às 16:33

Também reparei há uns meses numa fotografia dos teu Desabafos que tinhas uma toalha de mesa do "lenço dos namorados". Adoro. E a minha cusquice é igual a tua: amplio as algumas fotografias e tudo. Eheheh. Comprei uma quadrada para mesa pequena há 10 ou 12 anos na Feira na Fortaleza de Valença. Gosto imenso. Mas esta almofada é do IKEA, o bordado não é dos nossos motivos. Nos últimos anos costumo virá-la ao contrário: tem riscos coloridos (do outro lado), por já me ter cansaço um pouco do bordado. De qualquer forma, a almofada faz-me lembrar uma rubrica do Canal Q, com uma avozinha que dava dicas sobre utilização dos computadores e internet - divertia-me aquilo, e no cenário pousada no sofá estava uma almofada igual.
Quanto à graduação nada a fazer: atenta a graduação dos teus óculos vê-se nitidamente que tens lido muito pouco. Eu teria vergonha.
Um beijinho. Obrigada eu pela companhia e palavras sempre simpáticas.

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