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Punho

por Isabel Paulos, em 18.06.21

Li isto a amigo: "falta-lhe [ao país] o romantismo cívico da agressão". A frase não pode ser mais feliz.

Há semanas entre as imagens dos adeptos ingleses que emborcavam cervejas na Ribeira do Porto, reparei que alguns usavam os punhos para se agredir. A coisa pareceu-me caricata, não consegui levar a sério. Pudera, sou portuguesa, já não estou habituada. Na altura pensei: se fosse uma rixa nossa, já teriam saltado pedras, navalhas e cutelos e chamada a polícia, a comunicação social já teria feito reportagem sobre o abuso de autoridade com mãezinhas, mulherzinhas e irmãzinhas - todas cidadãs exemplares e cumpridoras - a chorar o destino trágico dos seus entes queridos.

Os peléns nacionais que têm voz e são ouvidos na comunicação social ou redes sociais ficaram todos muito ofendidos com os hooligans e a subserviência gananciosa dos empregados de mesa, mas não reparam que o país inteiro está de bandeja a servir à trupe clientelista e irresponsável socialista e a preparar-se para daqui a um par de anos servir de bandeja à trupe de liberais passistas - da qual o menos mau é mesmo o indivíduo que dá nome ao grupelho, de tal forma que nos dias de piores vergonhas socialistas acredito seria melhor que regressasse.

Quem estiver atento vê que se começaram a abrir alas ao velho futuro com nova temporada de aproveitamento de casos judiciais e virulento jornalismo de tribo. Os mesmos que se mantiveram em banho-maria, fazendo de conta nada ter a ver com essas fugas de informação e virulência, não criando demasiadas ondas à governação socialista ao longo dos últimos anos, preferindo salvaguardar-se e minar, isso sim, a oposição possível, começam a sentir o cheiro do poder e começam a ficar excitados. É o ânimo da avidez que os mobiliza e não o sentido do dever. Tudo é feito com cinismo, sempre em nome da verdade e da democracia, mesmo que com a maior desfaçatez se passe como caterpiller - num mundo de certezas -, por cima delas. Vale o discurso afirmativo tenha ou não adesão à realidade e a insegurança dos protagonistas é de tal ordem que são incapazes de questionar as suas certezas e assumir dúvidas, erros e enganos.

Já vi este filme. E até já fiz a digestão da ceia após última sessão. Não vou comprar de novo o bilhete. À primeira qualquer um cai, à segunda cai quem quer.

É política, estúpido! É sórdida. Cabe-nos apenas evitar morrer da doença socialista - da irresponsabilidade - e da cura liberal - da acção dos ambiciosos adeptos à cata do lugarzito ao sol e das excitadas adeptas das convicções convenientes e vidas fáceis. Estamos entregues aos bichos. Vale a lei da selva e é preciso saber viver entre esta gente.

Por tudo, cumpre perguntar: por onde andará o civismo do punho?  Possivelmente, à falta de bengala, usar o punho seria a nossa salvação. 






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