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Recolha do Lixo

por Isabel Paulos, em 12.12.20

recolha lixo.jpg

*

Todas as sextas-feiras à noite me sinto privilegiada. Há pequenos gestos que nos fazem sentir bem e alguns vêm de onde menos se espera. Nesta noite tenho o hábito de deitar fora o lixo da casa, seja o indiferenciado, seja o que tem como destino o ecoponto. Não é única vez na semana, mas esta é especial: a ideia é preparar o fim-de-semana livre de lixo.

Dou por mim a pensar na sorte que temos ao ter um contentor de lixo quase à porta de casa e o ecoponto a cinquenta ou sessenta metros com recolha diária. Podia ater-me nas falhas do sistema. Perguntar por que razão se diz que o verdadeiro tratamento de lixos e reciclagem não é feito, acabando tudo na queima. Não sei se isto é verdade, teria de averiguar. Também não é esse o ponto, mas sim a constatação do quão afortunados somos por vivermos num país e num tempo com este tipo de comodidades. Se há cinquenta anos na cidade já havia recolha regular de lixo, nos meios rurais, ela era feita pela população em valas na terra com queimadas regulares. E já agora, havia também reciclagem por se separar o lixo orgânico, que servia para os animais ou fertilizante da terra.

Quem passou por um país africano e viveu no campo ou para lá disto tem a percepção mínima do mundo e tempo em que vive, sabe que o conforto de se sentar no sofá sexta-feira à noite a fazer o quer que seja, com a serenidade de não ter na cozinha sacos malcheirosos ou o descanso de pensar que caso adoeça nessa mesma noite pode ser tratada em hospitais públicos com meios físicos muito razoáveis e bons profissionais, tem um preço. Usufruímos destas e muitas outras comodidades sem que muitas vezes o reconheçamos. Quem fala em recolha do lixo, fala em água canalizada potável, saneamento, acesso a medicação comparticipada pelo Estado, escolaridade gratuita, protecção social, sistemas rodoviário e de transportes etc. Se quisermos apontar defeitos a cada um destes serviços públicos, arranjaremos com toda a certeza mil e um motivos. Mas creio que é necessário situar muitos dos críticos fanáticos para quem tudo isto são tão só direitos adquiridos.

E situar como? Antes de mais fazer perceber que só uma parte do mundo a eles tem acesso e fazer reconhecer - muitos sabem perfeitamente mas preferem fazer de conta -, a mudança abismal em termos de qualidade de vida que teve o grosso da população portuguesa nas últimas décadas. E não tenhamos ilusões. Em miúda também costumava alinhar nas historinhas romanceadas de portugueses que até há cinquenta anos não viviam assim tão mal quando comparado com a vida triste dos subúrbios conquistada a partir do último quarto de século xx. Mas entretanto cresci e dei-me ao trabalho de ler dados estatísticos referentes à taxa de mortalidade infantil, taxa de escolaridade, dados sobre despesa da segurança social etc..

Claro que o que acabei de referir não serve de justificação para o mau funcionamento de serviços públicos, mas deveria impôr nos utentes algum pudor e discernimento na forma como reivindicam o melhor dos mundos sem querer perceber que nada cai do céu e que alguém paga ou pagará tudo quanto é dado. E aqui temos o busílis da questão, porque para haver justiça teria que haver consciência colectiva e individual do que cada um de nós dá e pode dar e recebe no todo comunitário.

Há anos faço este exercício de balanço na qualidade de cidadã para verificar como está o meu peso na comunidade. Para isso é preciso ter uma noção daquilo que se produz, aufere de salário ou lucro, recebe do estado (não necessariamente através de subsídios, mas de todos os serviços e produtos gratuitos ou comparticipados) e paga ao estado através de impostos. Fazer este exame ajuda a situar e a ser mais prudente nas críticas reivindicações fáceis. Claro que este exercício só terá validade se formos honestos connosco próprios. Se a ideia for sobrevalorizar o que produzimos e o que pagamos em imposto e esquecer ou subvalorizar o que auferimos como salário ou lucro e em serviços do Estado, mais vale estar quieto.

Porquê falar nisto agora? Por se tratar de questões que se podem e devem equacionar mesmo em tempo de pandemia e no seguimento de várias crises financeiras, que estão a pôr em causa muitos dos progressos do país em matéria de bem-estar. Como é costume, não é assunto que esteja a dar. As Comezinhas têm um tempo um tanto desfasado do que está a dar, mas são assim mesmo, e assim continuarão.






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