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Refugo

por Isabel Paulos, em 22.10.21

Como resultado da escola pública e privada pouco exigente e da comunicação social pouco rigorosa, que usa e abusa de estereótipos e meias-verdades – das tais que nunca chegam a ir aos polígrafos muito selectivos - temos uma população cheia de gavetas mal arrumadas e de ideias feitas repetidas à exaustão. Esgrimem-se argumentos por puro decalque seja em frases-feitas repetidas ao longo dos anos, seja das últimas modas, em vez de se pensar cinco minutos nas razões para o que se diz/escreve. Podemos estar errados, é natural que o estejamos muitas vezes – o normal é rever o que vamos pensando ao longo da vida -, mas já não é natural papaguear chavões sem por um momento questionar o que estamos a dizer. É coisa de terra desventurada e é transversal na sociedade – não poupa nem quem tem mais meios económicos ou acesso a informação ou mesmo cultura.

Durante os últimos quinze anos a propósito do comentário televisivo tenho pensado nisto. Não interessa dizer nomes – não é uma questão de coragem ou falta dela em nomear, é simplesmente irrelevante – mas dei por mim muitas vezes a ouvir um comentador e a pensar: também já pensei assim, sei a frase que vai dizer a seguir, sei a objecção que vai colocar ao interlocutor, sei a conclusão a que vai chegar. À parte do facto de ter uma preparação intelectual superior à minha, por ter mais leitura, por ter melhor retórica, por ter maior experiência de contraditório, o facto é que as suas conclusões são fracas, viciadas e perniciosas tal como, aliás, a sua escrita – opinião não comungada pela maioria das pessoas que risca neste país - por sempre decorrerem de gavetas alegadamente muito bem arrumadas e ideias não questionadas por sobranceria. Vinga por viver em Portugal onde não se exige conexão justa entre o pensamento e o mundo concreto - conexão presente em toda literatura digna desse nome. No mesmo programa de debate está outra pessoa, que se diria com menor preparação intelectual. Talvez por isso esteja habituado a esforçar-se e a questionar – esteja habituado a policiar-se e exigir mais e mais de si próprio. Acabo sempre por me inclinar para as observações desse segundo comentador.

É por este tipo de coisas que chamar preguiçoso a alguém que leu menos – ou cita menos nomes de autores e obras - pode ser um tiro ao lado. A leitura quando não é acompanhada de abertura de espírito e conhecimento dos aspectos comezinhos do mundo concreto adianta pouco para compreender a realidade. Os dogmas intocáveis de muitos intelectuais levam-nos a ser obtusos. Ficam encarcerados em ideias-feitas que sacam para argumentar e contra-argumentar sem querer saber se estão genuinamente certos ou errados - e só com esta última afirmação entram em delírio crítico, por lhe atribuírem ridícula carga moral.

Este postal não tem rigorosamente nada a ver com questões de discussão política dos últimos dias, mas sim por ter visto escritas na mesma frase as palavras inveja e preguiça. E por estar cansada de ver chamar preguiçosos a pessoas que se fartam de trabalhar bem, e mais, de trabalhar para sustentar vidas folgadas de outros. Cansada das injustiças. Farta de gente que saca três chavões e se considera grande pensadora. Já chegam os grandes gestores corruptos a queixar-se de que são alvo de inveja - argumento restrito há 30 anos e agora na boca de todo o bicho careta que teme ver o seu pequeno privilégio atacado - como temos também a elite intelectual a desdenhar de quem prefere questões práticas ao invés de teorizar de modo inconsequente - é vê-los por aí com grandes ares de "não admito o atrevimento a ignorantes voluntários" ao mesmo tempo que dão nós cegos na lógica. Para quem como eu desde criança ficou de pêlo eriçado com a desconsideração social do próximo estes abusos, estas arrogâncias não são desculpáveis. São menoridades e revelam estupidez dos seus autores. Além de serem pragas que impedem o país de evoluir. O conhecimento e cultura não são pequenas vaidades, são conquistas difíceis que devemos incentivar, cultivar e respeitar.

A acusação de inveja tanto serve aos gananciosos e arrogantes que pretendem manter os privilégios, como aos desdenhosos que nunca vêem a sua oportunidade chegar por falta de talento ou sorte. A acusação de preguiça tanto serve aos gananciosos que pretendem justificar as desigualdades económicas e sociais, ou aos académicos desfasados da realidade, como aos líricos da arte e cultura que pretendem alimentar a sua vaidadezita.  

Se as Comezinhas estivessem expostas aos insultos públicos da marabunta, coisa que não acontece por cobardia e por me agradar bastante ter um sítio onde escrever em paz, logo viria meia-dúzia de tontos insultar-me por me armar em carapau de corrida ao denegrir o ensino e a comunicação social, quando não sou capaz de escrever sem dar erros. Pois é, lamento. Estou ciente que é defeito grave. Posso garantir que se dependesse de mim corrigir já o teria feito. Mas nasci assim, com defeitos graves. Coisa rara, o refugo num mundo de gente tão perfeita.






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