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Sonhos

por Isabel Paulos, em 24.12.20

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*

Dizem as más-línguas que o postal com mais saída nas Comezinhas foi o Mosca-morta. Ponho-me a pensar na razão e fico temerosa: será uma chamada de atenção para o facto de já ter escalado dois absurdos do exibicionismo virtual? – fotografias de comida e de cães. Será que ainda esperam por uma fotografia de beiçola de pato? Não posso. Já passaram de moda. A sequência das imagens de maior fulgor na internet, depois dos bicos de pato e dos glúteos tonificados, foram as das máscaras fashion. Apesar do descambar ‘facebookiómano’, nada disto está ao alcance do meu espírito (e físico, diga-se). Lamento.

São seis e meia da tarde da véspera de Natal. Enquanto não ceamos e o Nuno toca piano, estou estirada no sofá a escrever este arrazoado de devaneios sem saber exactamente onde isto nos vai levar, apesar desta vez já ter preconcebido parte do que vou dizer. O piano silenciou-se e o presente texto vai ser escrito a quatro mãos. Afinal que interesse desperta a Mosca-morta? A boa disposição do Nuno e as nossas picardias domésticas? O meu ódio de estimação à palavra esposa?

O despreendimento com que falo destas coisas vem do facto de estar quase a fazer vinte anos desde que avistámos a fronha um do outro. O susto foi tal e a coisa correu tão bem que pouco depois cada um foi à sua vida. Arruiná-la mais um bocadinho com afinco. E fomos muito eficientes, a ponto de ele se ter esbardalhado na auto-estrada em Alcáçar do Sal e eu desmiolado.

Oito anos depois de nos termos visto pela última vez, quando as nossas vidas já tinham dado provas de suficiente estrago, eis que o destino se encarregou de nos fazer novamente tropeçar um no outro a ao fim de mais um ano empurrar-nos e enlaçar-nos de modo a que só estragássemos uma casa. Daí em adiante as questões que mais nos apoquentam têm sido a quantidade de detergente necessário para lavar a loiça e quem abusa mais de puxar o edredão.

Resumindo e concluindo: passam vinte anos desde que nos conhecemos. Na noite de final de ano fará dez anos desde que concedemos não ter outro remédio, e à falta de melhor, do que nos entendermos - mas Deus é grande, diz o Nuno aqui ao lado e eu acrescento: e a esperança a última a morrer. E fez no dia 1 de Dezembro seis anos que juntámos trapinhos. Muitas efemérides para um mês só. Nesta altura do ano o difícil é arranjar um dia em que se comemore não ter acontecido nada de relevante.

Para o sucesso desta empreitada o nosso lema dos últimos tempos - acabado de inventar -, tem sido: por cada amiga sul-americana colonizada, um ibero amigo colonizador. E com esta o Nuno franziu o sobrolho e fomo-nos arranjar para a Ceia de Natal.

Depois de comer o meu doce de Natal favorito - sonhos -, corrigirei o texto e publicarei.






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