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Sonhos

por Isabel Paulos, em 28.04.21

Não sei se levada pela Lua Cheia se calhou, mas ontem dei comigo a planar em brandos pensamentos: que será feito daqui a quinze ou vinte anos das pessoas, lugares, escritas, ditos e sentidos que agora me preenchem os dias? Caminharão pelos meus sonhos? Tenho a sorte de ao fazer retrospectivas - e faço-as amiúde, apesar de não viver do passado -, dar conta que guardei sobretudo o melhor. Talvez por isso diga que os meus sonhos são tão povoados de lugares e pessoas como as telas de Bruegel – bom, apesar de tudo, os cenários são um pouco mais actuais. A dormir deambulo em constância por casas onde vivi e às vezes por casas por onde apenas passei. Além de passarinhar por espaços estranhos ou que só conheço dos sonhos, reencontro pessoas que conheci desde a infância. Na maioria vivas, algumas já desaparecidas, outras nem sei se respiram. Conheço algumas apenas dos sonhos – ah céus, sei que está longe de ser ideia nova, mas dormindo hei-de agarrar com ganas os sonhos até os confessar de modo a escrever coisa que valha a pena. Em regra, são sonhos bons ou pacíficos. Às vezes, lá sinto uma ou outra aflição nestas minhas gentes do passado vivido e sonhado. Raramente são pesadelos, apesar de ao surgirem serem de truz.

Desde há muitos anos sonho ocasionalmente estar numa divisão de uma das casas onde vivi ou por onde passei e ao atravessar a porta ou parede já me ver noutro compartimento doutra casa. À medida que o tempo passa os sonhos vão incorporando mais paredes, mais janelas, portas, ruas, campos. A vista da janela pode ser de uma cidade, mas a rua para onde dá a porta ser de outra. A maioria das vezes, esses são cenários puramente oníricos, mas há ocasiões em reconheço estar numa das casas reais por pormenores mínimos: os vidros foscos martelados de início de século da despensa ou do corredor de Valinhas - casa não especialmente bela, mas geométrica, de hera a meia haste, sem qualquer pompa e fanada de tinta nas paredes. O meu paraíso. Vou pescar as cenas dos meus sonhos às memórias, das mais recentes às mais longínquas. O jogo de cubos empilhado na caixa que faz as vezes de mesinha cabeceira. Os mosquitos mortos a chinelo na paredes do apartamento em Troia. As tábuas corridas do chão. A cadeira de escritório de napa preta de costas para a janela da avenida de Gaia e a campainha que toca. Ou o tupperware laranja guardado no segundo armário cor de salmão da cozinha. Os três lanços de escadas do apartamento em Cacilhas. O chuveiro já sem água no terraço da casa de Pedras d' El Rei. A vista do quarto para o plátano e o pátio da urbanização em Gaia. O chão de cerâmica clara por onde rolam dispersas as missangas cinza do colar partido. A ampulheta em cima da camilha redonda. O pau de giz, a chaminé a o leite do gato na velha casa transformada em centro de estudos. Duas mangas verdes na cozinha de Benfica. O menino Jesus no Natal no lugar habitual do telefone junto à pequena janela que dá para o Douro e os reclamos das Caves de Vinho do Porto. As plantas penduradas por cordas ao tecto junto às escadas e a cama que sai da parede na Covilhã. Ou o esqueleto nu das tílias trespassado pelo luar no Inverno. A janela sem cortinas em Arca d’ Água, palavras por dizer no sofá e a mini televisão de dez centímetros que acabou em Angola. Nas Antas, os decalques do quarto mais pequeno lá em cima, os sustos nas escadas da cave, o cheiro na copa vindo das gavetas com roupa de cama guardada ponteadas aqui e acolá de saquinhos de alfazema. A varanda sobre o parque de campismo em Lagos. Quatro cadeiras de ferro e a mesa com tampo de pedra manchada do ambientador vertido por descuido na casa com vista para a Segunda Circular. O cheiro a estrume nos campos - sim, nem só da maravilha de cheiro a terra molhada, eucaliptos e madressilva se faz o campo, a mata e os jardins. A nespereira a crescer no parapeito da janela dos arrabaldes de Lisboa. O velho armário com portas de correr na casa das portadas ainda perpassadas com disparos centenários do lado sul do rio. O piano na janela de João Grave. O interruptor alto e solto no átrio do mínimo apartamento em Sacavém. O cheiro a lenha queimada a crepitar na salamandra e o aroma da arrecadação comprida onde se guardavam as maças nas prateleiras e as batatas do lado de lá – a esse espaço dedicarei memória escrita na Quinta. A gaiola do hamster na lavandaria em Vila do Conde e as conversas vindas da cozinha. Ou o bruaá do estádio do Bessa. Um momento único da vida em que, talvez por esta permanente andança, me insurgi contra as mudanças de casa, afirmando que queria ficar quieta. Não foi com certeza um momento que me definisse, pois que as mais das vezes sempre tive vontade de partir ou mudar. Apesar de não partir para longe nem muitas vezes nem por muito tempo. Por vezes, sonho com os lugares e as gentes das viagens. Mas não é muito comum. Acredito que quando for mais velha, essas memórias venham em força. E também em forma de sonho.

E como é que as pessoas que conheci me chegam aos sonhos? Tão só por me lembrar delas. Guardo os rostos dos meus colegas da escola primária e das irmãs professoras. Da cozinheira, cujo nome está entre o esquecido e debaixo na língua. Sentava-se na soleira da porta ou nas escadas a descascar as favas.  Era magra e vestia sempre de preto, apesar de muito nova. Enviuvou cedo. Lembro-me do sorriso do F. e das suas aflições com a asma - também o F. lá de casa as tinha -, das fúrias e das brigas com o Z.R., das cópias do caderno da I.P., com a letra muito bonita, alinhada e sem rasuras, das meias e dos chinelos da C. Lembro-me do baque e expressão na cara da F. ao ver o mar pela primeira vez na Nazaré, quando lá fomos em passeio escolar. Lembro-me dos casamentos na escadaria. Do terreiro, dos baloiços e do escorregão e da torneira da água rente à parede e do tanque. E, claro, da enfermaria e dos curativos. Da sala do jardim-de-infância e dos colchões e caminhas de grades. Das paredes da sala da quarta e segunda classe. Das prateleiras de madeira no cantinho forradas a oleado, que albergavam os livros, e que me calhavam - acho que escolhi a tarefa -, limpar o pó. Sim, heresia das heresias: na escola primária da Misericórdia de quando em vez os alunos mais velhos davam uma ajuda na limpeza. As mesas eram limpas com Vim em pó e esfregão. Tínhamos de ter cuidado de não raspar o autocolante com a imagem no canto do Papa João Paulo II, que será sempre o meu Papa - todos tempos um, suponho. Lembro-me da carinha de bebé e da bata aos quadradinhos azul e branco do B., que estava no infantário quando eu andava na quarta classe - uma das minhas batas era amarelo claro e tinha um folho no peito, e usava o estojo redondo vermelho e preto em forma de joaninha. Lembro-me de cantarmos as músicas das Doce nos recreios. Dos buxos dos jardins da frente, dos peixes, da capela, do portão e das cambalhotas dependurados nos ferros que o trancavam.

Tal como me lembro das casas que albergavam o ciclo preparatório e liceu de Felgueiras, de muitos dos meus colegas, professores – da professora Dulce Moura, uma velha senhora que sobrevivera a um cancro difícil e nos dava ciências - e funcionários - lembro-me da velha Rosinha, que parava a vassoura para me chamar e consultar de perto os pontos de tricot das camisolas que eu trazia vestidas, para tirar ideias. Recordo mais ainda dos cinco anos no liceu de Gaia. A Biblioteca Municipal e os cafés – ainda hoje não faço grande diferença entre café e biblioteca, locais onde aprendi por igual, suponho. Do Glass e as almas e as conversas que os habitavam. E depois da faculdade, que em sonhos nunca acabei: falta sempre fazer um qualquer exame ou vários. Como todos nós tenho um baú enorme de recordações. Que se estendem pela dezena de locais de trabalho por onde passei e das pessoas que os povoavam. Vivências díspares entre si. Desde a chegada no primeiro dia ao primeiro Banco, onde assim que cheguei encontrei no edifício um conhecido por piso, até à estranheza e distância total de ambiente e gente que envolvia outro qualquer emprego. E os lugares e ocasiões de convivência: as reuniões familiares alargadas, as festas, as saídas à noite, os cafés e as conversas com os amigos, os bares e discotecas, alguns concertos. As praias, sobretudo, as de Lagos e as noites nas suas ruas. Todos estes lugares e gentes, que na grande maioria não voltei a ver, visitam-me quando durmo. Em paz, gosto de os rever. Há ainda os espaços online, onde conheci gente real ou virtualmente. O facto de não haver presença física, não invalida que me entrem nos sonhos e se instalem com a maior das naturalidades. Agora, em perfeita comunhão com todo o passado e presente.

Puxando mais para ali ou acolá, tudo isto é comum a grande parte das pessoas que vivem o tempo presente. Aliás, há imensa gente com existências muito mais preenchidas e ricas, até porque na verdade sempre levei uma vida bem caseira e pacata. Nada de novo, portanto. A não ser a pretensão de achar que por ser reservada, atenta aos outros, a mim e a muito do que nos rodeia – e absolutamente distraída do tanto que me poderia conduzir a uma vida mais fácil e exemplar, mas certamente menos minha -, posso um dia vir a escrever qualquer coisa de jeito sobre aquilo que quem conheci e eu vivemos, vimos e sentimos.






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