Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Verdes - Frutos

por Isabel Paulos, em 11.08.20

O melhor é deixar as teses sobre cheios de si e ilustres novos senhores dos tempos modernos – os triunfantes caterpillars das certezas -, que hão-de passar pelo mundo a argumentar sem sentir a matéria, e voltar ao meu verde chão de Valinhas. Voltar à essência. Continuar a distrair-me com a pouco sofisticada banalidade de refazer o mundo como ele se me apresentou. Ter crescido cercada de terra e verde fez-me consciente de começar a vida em franca regalia.

21878222_H0DfJ.png

A convivência diária com os tempos, as tramas da terra e o restolho de galhos de árvores habitados por corujas a cantar o hino a cheiro da terra e erva molhada. A perfeita quietude ao assistir do nojento lamber da placenta nas paridelas das gatas, às travessuras ternas dos cachorros ou à briosa ronda de vigília dos cães de guarda. O chiar das grandes chaves dentadas em castelo a rodar o segredo nas fechaduras e do ranger de portas perras. O aberto cheiro intenso e fresco das maçãs nas prateleiras das arrecadações, das sopas das panelas tripé de ferro e os estalos das achas secas no fogão a lenha. O toque áspero do empoeirado sótão e dos forros, no qual jaziam restos de mobílias antigas que pareciam reconstituir o tempo até à fundação. Tudo isto e muito mais me encherá afortunada memória até ao último suspiro. Entre as maravilhas que experimentei, as árvores de fruto têm destaque especial. E não deixarei de pagar o tributo tentando apelar à memória para restaurar a imagem das árvores de fruto da minha infância, e para isso roubarei três ou quatro imagens por essa internet fora. Crescer numa quinta fez-me habituar a comer fruta colhida directamente das árvores ou apanhada do chão. Para os maníacos dos novos tempos as linhas que se seguem são uma overdose de glicose.

Começo pela especialíssima lima. Aprendi a gostar de comer limas amarelas com a minha avó, depois de dominar a arte de retirar o bagaço - as membranas brancas ou transparentes que cobrem a polpa e estragam o refrescante, ácido e doce sabor deste fruto. Uma heresia para os tempos de hoje, em que se recomenda comer o bagaço e as cascas dos frutos para aproveitar todos os bons nutrientes que neles se concentram. Se na laranja e em miúda cortava com a faca o branco e comia-o à parte antes da polpa propriamente dita – contra as recomendações familiares -, na lima essa táctica não era de todo recomendada, sob pena de não se conseguir tragar um fruto que bem descascado é um mimo. Isto, claro, falando na variedade doce da lima.

lima-arvore.jpgLima amarela.

Talvez este hábito de infância explique um outro costume que tive durante muitos anos: o de no final de refeição que contivesse gorduras ir à cozinha, abrir um limão e espremer uma metade directamente para a boca. Pena que o tenha perdido. É sinal que o organismo se habituou às gorduras tal como, infelizmente, se habituou ao excesso de açúcares que em novita mal tolerava.

No meu catálogo de preferência vem, em seguida, a maçã bravo de Esmolfe. Não sendo especial fã de maçãs, em geral, a bravo tem um aroma apetecível e um sabor rico. Entre uma variedade de cinco ou seis maçãs, era sempre a eleita. Gostava de a saborear junto ao tanque. O melhor dos mundos, refrescar a maçã que normalmente estava sobre o quente - acontecia em regra nas tardes de fim de Setembro -, indo passá-la pela água fresca da mina que jorrava do tubo, para esbater as manchas acastanhadas de oxidação a cada dentada. O pomar possuía outras macieiras para diferentes paladares: pé-de-boi, reineta, golden e pipo de Basto.

No departamento das ameixas as eleitas eram as vermelhas de polpa amarela. Nascidas de árvores tristemente sem tratamento nem poda por não estarem como as outras no pomar, mas sim no terreiro entre as tílias. As ameixoeiras frutificavam também no Verão e a par das maçãs eram o mais abundante fruto da quinta, onde existia um punhado de árvores das vulgares amarelas e uma ameixoeira caranguejeira. A estas últimas já ouvi chamar rainha cláudia ou aparta caroço e outro nome a cuja grafia não consigo chegar, pelo que me abstenho de nomear.

No Outono as janelas e porta da sala de jantar eram brindadas com a vista para uma das árvores mais bonitas que tenho visto, quando carregada de fruto. O diospireiro coroa-de-rei. Frutificava quando a árvore estava despida de folha, e só de ramos cinza ao pôr-de-sol volvia-se em pernadas douradas, apinhadas de largos e gordos corações cor-de-laranja no cimo cravados e enfeitados com a coroa suspensa pelo pedúnculo. Fruto apreciado pelos afins, mas não pelos da casa, que só lhe reconhecem beleza. No pomar havia outro diospireiro, mas dos mais vulgares, que dizem os entendidos não têm qualquer graça de paladar. Creio que depois de farejar cuidadosamente os coroa-de-rei nunca tive coragem de os provar. Ver comer a polpa fibrosa à colherada não é um espectáculo apetecível.

b4--bg.jpgDióspiro.

Existia uma solitária figueira, não sei porque razão desterrada para a ponta do patamar baixo do pomar, já abeirada de uma das matas da casa. Não tenho ideia dos figos estarem suficientemente maduros para serem saborosos. Talvez estivesse sombreada demais, mas não deixava de ser uma bela árvore. Os meus companheiros da escola primária diziam que o leite do caule dos figos verdes curava os cravos. Assim tentei fazer desaparecer a meia-dúzia de cravos que em criança me surgiram nos dedos das mãos.

Ao lado da árvore da lima, no patamar de cima, fulgurava um limoeiro adulto sempre apinhado de limões. E uma jovem luzidia laranjeira, que cedo começou a dar fruto. De laranja doce, ao contrário da velha laranjeira junto à parede lateral da eira que, de nunca ter sido tratada, dava um fruto leve, seco e repleto de grossa membrana branca. A única utilidade conhecida dessas laranjas era a de nos ajudarem a afinar a pontaria das espingardas de pressão de ar. No mesmo patamar mas no lado oposto havia, junto a uma das casas de caseiros, uma tangerineira de pequeníssimas e magníficas tangerinas, bem azedas e aromáticas.  

Das uvas havia castas várias, sendo as favoritas as das ramadas: americanas a que também já vi chamar morangueiras, e umas de mesa rosadas e longas cujo nome não sei. Vivi anos de vindimas, observei o tanoeiro consertar pipas, vi a aflição de uma pipa suspensa no gancho virar fora do atrelado do tractor com destino à cooperativa, assisti ao pisar das uvas a ao fazer do vinho. E de tudo quanto se liga às videiras, o que mais me dá pique à memória é a cor das parras no início de Outubro no caminho de ida e volta para as primeiras aulas da escola primária, e as pausas perdida nas vinhas a depenicar os raros e esparsos bagos distraídos da vindima e já encarquilhados e bicados pelos pássaros.

As bordas dos campos, onde abeiravam as matas da casa, eram ricas em silvas e amoras. Muitas e empoeiradas, algumas com teias de aranha e outra bicharada. Era arrancá-las aos muitos espinhos que nos arranhavam as mãos e passá-las por água antes de saborear. Outras vezes, só soprar. Ou, então, colher um punhado delas para que a avó fizesse o sorvete de amora para a sobremesa do jantar. Julgo que os ingredientes da iguaria se resumiam às amoras e ao iogurte natural. Digo natural por não ter memória de haver sombra de açúcar no sorvete. Nos muros da rampa de acesso à casa, junto dos ramos das glicínias, moravam as framboesas, mas a essas limitava-me a apanhar e trazer para casa. Aproveitava e trazia também os ovos, já que estava nesse piso e junto ao galinheiro. Mas aquela leve penugem da framboesa nunca me passou pelo gargalo. Tem o mesmo efeito do pêssego, no qual não consigo tocar na pele, o que me faz pedir que o descasquem, ou acabar por preferir nectarinas.

IMG_3856.JPGAmoras.

Na ponta da rampa das traseiras, no início da mata, havia uma cerejeira perdida entre pinheiros, carvalhos, e eucaliptos. Não se percebe bem aquele epifenómeno e era difícil chegar ao pequeno fruto amarelo avermelhado. Agora dou por mim a pensar se era mesmo uma cerejeira, já que não me recordo de a ver florida. Terei sido traída pela memória? Mas o certo é que do que me lembro dessa árvore, distinta pelo tronco das que a rodeavam, era a se ser o marco da partida da alegre descida corrida pela mata fora, calcando em viva restolhada as folhas secas, com destino à escola, mas agora por caminho alternativo ao da frente. Essa mata tinha o condão de ter também castanheiros, e quem não abriu ouriços com as solas dos sapatos antes de picar os dedos das mãos para tirar umas belas castanhas?

Puxando pela cabeça para me lembrar de mais frutos da quinta, recordo que na berma do pomar havia uma nogueira de que só tenho memória muito pequena, pelo que deve ter tombado num dos vendavais ou sido cortada. De qualquer modo, resta a memória das unhas e mãos encardidas daquele negrume viscoso que cobre a casca das nozes. E lembro que no patamar dos citrinos existia uma pereira. Nunca vi as pêras no ponto: ou estavam rijas como pedras, ou já caiam de podre. Talvez o tempo delas fosse naquele entremeio em que partíamos para férias.

Céus. Como me pude esquecer da nespereira, que ficava entre as duas tílias da frente e lado a lado com as japoneiras e os rododendros? O espaço mais íntimo do terreiro e que tento reproduzir na minha varanda. Tento. A ver vamos se a pequenita japoneira sobrevive a este Verão, mas ao menos a nespereira - e é sobre árvores de fruto que trata este escrito – está para durar.

É possível que me tenha faltado algum fruto, mas hoje fico por aqui. O texto vai longo para um blog.

 

Adenda 1. Um telefonema para a minha mãe foi suficiente para confirmar que a memória não me atraiçoou: havia mesmo uma cerejeira no fundo da rampa traseira. Aliás, uma cerdeira, com lá se chamava. E, pelo visto, anos antes de eu nascer existiu uma outra cerejeira, na base da rampa da frente. Que nos tempos antigos do bisavô acabava numa espécie de ginja: o 'chicherichi', isto é, cereja em aguardente (mimo, que agora me lembro ainda chegou ao meu tempo através da avó: uma ginja guardada na despensa por cada neto, pescada com a mínima concha de haste alta). Mas não vale enumerar o antes e depois de lá viver, se não este post não tem fim. Nesse caso teria que falar na plantação de framboesas, antes de grande parte dos campos da quinta serem terraplanados para darem lugar a ampla vinha. 

Adenda 2. Diz o meu pai que comia as cerejas da rampa e que me esqueci dos pessegueiros. Sei porquê. Como disse acima nunca consegui tocar em pêssegos (em rigor, consigo a muito custo). Eram árvores jovens e estavam junto da também novita laranjeira. Esta creio que foi mandada plantar pela minha avó já lá eu vivia, mas antes dos meus avós deixarem o Porto e passarem também a viver o ano todo em Valinhas. Acrescenta o meu pai que era o único cliente dos dióspiros coroa-de-rei e que os outros do pomar nem os pássaros queriam. O que confirma a regra: só os afins gostam. E lembra que as uvas cujo nome não me lembrava eram as moscatel.





Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D