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O eterno retorno

por Isabel Paulos, em 22.10.20

- Eu sou mais experto do que tu.

- Porquê?

- Porque mostro coisas que não mostras.

- Ora, deixa aí ver a tua língua.

- É essa a figura de palhaço que fazes sempre que exibes o quer que seja no intuito de te valorizares à custa da menorização de alguém.

- E como sabes que é nesse intuito? 

- Na tua infelicidade. Percebo-a. Fica exposta.

 

(escrito já há algum tempo; não é dirigido a quem quer que seja singularmente, apenas uma ideia abstracta.)

 

A era das certezas

por Isabel Paulos, em 10.08.20

discipulo.jpg

Corro o risco de parecer um gira-discos encravado nestes dias de ressaca colectiva antes da próxima covídica bebedeira terrestre, na qual tudo é premente, todos estão certos de conhecer o melhor argumento e prontos a dar conselhos - a presunção é um dos traços mais característicos dos nossos dias. A marabunta vai hasteando a candeia e ao mover-se em turbilhão encandeia-se mutuamente com destino ao absurdo. No dia 3 de Agosto considerei mais sensato ficar por aqui. Dominar os estados de alma ou disfarçá-los costuma ser apanágio de gente inteligente e achei-me capaz, mas afinal não sou. Não sou imune aos pequenos pormenores de carácter que minam o desenvolvimento saudável das relações humanas. E por essa razão publico em seguida o apontamento escrito nesse dia, com uma nota prévia: nada do que digo a seguir se aplica a quem, por genuíno e desinteressado gosto de ensinar, passa efectivo conhecimento a outros.

*

Duas ideias assaltaram-me o pensamento esta manhã. A primeira tem a ver com a estranha necessidade de estar sempre a dar conselhos. Partir do princípio que sempre se pode e deve instruir o outro. Em menor ou maior grau todos temos essa tendência. Nos casos mais agudos passa por estarmos constantemente a determinar aquilo que na ideia ou no pensamento do outro está errado. É normal. As pessoas divergem, dirão. Umas estão mais preparadas do que outras. Não me parece nada tão evidente. Se não se fizer um esforço de perceber o outro lado, a outra ideia ou a outra acção, as relações e o mundo têm tendência a degenerar em vez de evoluir. O não ouvir o outro, julgá-lo a priori como pouco capaz, preguiçoso, preconceituoso, ou desprovido de personalidade, e partir do princípio que nos compete formatá-lo e melhorá-lo é a mais perfeita realização da nossa tirania e pequenez. Não passa de vaidade. Não precisamos cair no relativismo, nem anular o carácter humano, mas se fossemos decentes tenderíamos a buscar a justeza das coisas e a respeitar o outro nas relações familiares, sociais e profissionais. Às vezes bastaria abstermo-nos de certas posturas de superioridade que nem chegamos a verbalizar, mas deixamos transparecer pela forma como nos apresentamos aos outros, pela atitude arrogante que tomamos não só com o interlocutor como, em geral, com os outros e, em particular, os muitos que desconsideramos por motivos fúteis.

É verdade que pode haver nalguns uma menor propensão para aprender e por isso para evoluir. Mas pergunto-me quem já reparou que o estar permanentemente a falar de cátedra e a amesquinhar quem o rodeia pode determinar o afastamento legítimo de quem não está para ser ofendido? E nem vale a desculpa esfarrapada de que cada um tem que se saber impor e fazer com que os outros o respeitem, pois a realidade demonstra à saciedade que a sorte é tão determinante quanto o talento no êxito. E, em regra, só quem é ou está deslumbrado consigo próprio ou foi bafejado por vidas amparadas, fáceis ou bem sucedidas, está absolutamente convencido que tudo pode e que a vontade do homem é o elemento mais determinante no sucesso na vida pessoal e profissional. Também não colhem razão os exemplos de sucesso pelo empenho de gente social ou economicamente desfavorecida ou com handicaps físicos ou mentais, porque esses não são os únicos factores determinantes. Claro que é de louvar quem transpõe barreiras difíceis. Mas quem já reparou que por trás desses feitos estão um sem-número de outros factores que se prendem com a sorte? Não se pode abstrair dos infinitos: ‘e se…’ E se tivesse nascido noutro país ou noutra cidade? E se o clima desse país ou cidade fosse outro? E se a assistência médica fosse outra? E se a família não fosse esta? E se não tivesse o exemplo do sentido de humor em casa? E se os colegas fossem marginais? E se os amigos fossem meninos-bem? E se o emprego não surgisse fácil? E se não tivesse calcado caca de cão no dia da entrevista? E se as competências não fossem ignoradas por quem decide no local de trabalho? E se o rapaz não fosse tímido? E se a rapariga não fosse bonita e elegante? E se a namorada não se revelasse mesquinha? E se o marido não se revelasse agressivo? E se a professora primária não fosse dedicada? E se os professores do liceu não fossem medíocres? E se não houvesse crise económica? E se não houvesse uma guerra? E se os primeiros livros lidos fossem aqueles e não outros? E se naquele dia, aquela hora aquele homem não se tivesse cruzado com aquela mulher mas com outra e vice-versa? O acaso é absolutamente determinante na nossa vida. E quem nega isto anda muito, mas muito distraído.

Quem já reparou que muitos dos que falam de cátedra aprendem amiúde com pessoas que desconsideram e cujos conhecimentos e vida usam sem reconhecer tributo? Guardam os agradecimentos para quem convém recompensar, ignorando ou desprezando os que julgam dispensáveis de figurar na íntima lista do reconhecimento, apesar de serem os que, sobre si recusando estardalhaços, dia após dia os ajudam a brilhar. Pisam gente que não perdendo tempo a puxar dos galões simplesmente dá, oferecendo o seu trabalho, o seu conhecimento, a sua vida. E estes tiques funcionam em escalada. Quanto mais seguros de si e das suas certezas mais longe costumam estar da verdade das coisas. O cúmulo do caricato é ver gente com história de vida receber lições destes oráculos da sabedoria sobre a seu próprio percurso. Sim, há quem que se dedique a explicar ao próprio quem ele é, o que pensa, o que sente, e quantas vezes a projectar preconceitos inexistentes nessa vida, sem de facto ouvi-lo e sem fazer grande esforço para o entender além da aparência ou dos aspectos que interessam para construir, dentro da estreita mundividência do educador do povo, uma personagem que pouco ou nada tem a ver com o original.  Dir-me-ão: é a vida, cada um vê o mundo como vê. Respondo: será, mas há visões que de tão pobres e falsas, e apesar de venderem bem, deturpam o sentido benigno da partilha de conhecimento.





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