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Notas soltas

por Isabel Paulos, em 22.02.20

 

bitola

Há anos ouvi um humorista ironizar sobre o assumir de defeitos de cada um. Dizia que quando se trata de afirmar que somos imperfeitos, todos ilustram a ideia com a teimosia. Pudera, ninguém se insurge furioso contra um teimoso. É daquelas pechas que não aflige consciências. Quem vai pôr o dedo em riste e gritar? És um teimoso, um grande teimoso. Não te perdoo, está tudo acabado entre nós. Ninguém. É daquelas coisas que só se lança com um misto de ternura, do género: grande teimoso me saíste. Seguido de um encolher de ombros e passagem rápida ao assunto seguinte.

Do outro lado da linha da tolerância está a desonestidade. Está para aparecer quem diga: sabes, sou um trafulha, roubei isto ao meu irmão ou à minha amiga. O grau de consciência da gravidade do defeito, faz com que aqueles que se dizem muito, mesmo muito teimosos, jamais se declarem ladrões. Apesar de poderem ser biltres nada teimosos.

 

A balança 

Vem isto a propósito das acusações de racismo e xenofobia, misoginia e homofobia. Longe das modas identitárias e do agitar inconsequente de bandeirinhas, para aferir do grau de consciência da gravidade da falha convém colocá-los nessa mesma balança, que alça a leve teimosia e afunda o chumbo da desonestidade. Talvez assim possamos aferir da sua real gravidade e grau de censurabilidade.

Será que o insulto racista, xenófobo, misógino ou homofóbico é tido como algo verdadeiramente errado, injurioso e perverso? Ou nem por isso. Dá-se pouco ou muito valor? Reage-se com indiferença ou visceralmente quando se ouve? Responder intimamente a esta questão talvez sirva de bússola aos próprios actos e pensamento.

 

O que não se diz

Se a resposta à pergunta anterior for uma reacção visceral, convém ainda perceber se tem cabimento. Quando o insulto ou discriminação são patentes, gratuitos e injustificáveis poucos toleram. É pacífico. Ou quase, porque há sempre margem de gente que pensa com os pés. Mas, e quando estão em causa situações ou opiniões em que é muito ténue a linha que separa a discriminação da constatação defensável de factos? Entramos no campo do que não se diz por pudor ou, pior, por hipocrisia. E, como se sabe, a falsidade é uma incubadora de equívocos e reacções radicais.

Caso se levante uma voz a dizer que determinada etnia não atribui a mesma carga de censurabilidade à honestidade, tratando-a com a leveza da teimosia, quase virtuosa, logo um coro de indignação surge contra o racismo. Invertendo a razão, como se a realidade meramente retratada fosse falsa. Quando o erro está no ficcionar realidades inverosímeis, tratando como igual o que não é e, pior, isentando de responsabilidade quem a tem.

Se alguém se atreve a dizer que determinada mulher é fútil ou que um grupo de mulheres se comporta de modo fútil, logo será acusado de misoginia, apesar dessa mulher perder muito do seu tempo a comentar levianamente o que outra mulher traz vestido, a cor do verniz ou quantos foram os seus namorados. Não parece aberrante dizer que no caso de certas mulheres não há quotas que valham.

Se um indivíduo com experiência na vida nocturna em bares gay disser que alguns frequentadores têm práticas que vão além das liberdades comummente tidas como aceites e que, não raro as relações com menores foram permitidas sem juízo de censurabilidade por parte significativa dos assíduos dessas casas, logo será acusado não só de homofobia como da mais repugnante cretinice. Quando os factos dizem o contrário, que a prática de sexo com menores foi tida como normal.

É verdade que entre heterossexuais também existem comportamentos desviantes e criminosos, é certo que a maioria das mulheres são lúcidas e capazes e que cada etnia tem as suas idiossincrasias (nunca imaginei escrever esta palavra sem ironia, mas faço-o desta vez), mas estes factos não podem justificar o permanente ficcionar do mundo perfeito, sem diferenças, vícios e defeitos. Não podem ser pretexto para a criação de uma redoma que albergue os puros, uma classe de pessoas intocáveis a quem é preciso defender das agressões do mundo exterior, real e injusto.

Numa primeira fase, se o discurso dominante assentar numa realidade inverosímil, o silêncio vai impor-se. Mas o que não se diz, o que se cala, mais tarde irá degenerar em reacção desmedida. Os calados, ao constatar incongruências, começarão a cultivar a intolerância, que resultará em raiva. As realidades alternativas originam fundamentalismos vingativos.

 

A bitola

A questão que sobra é: para quê tudo isto? A quem serve o ódio pelo outro ou a defesa insensata e cega de quem têm reais responsabilidades. Para além de todas as razões biológicas e de luta pelo poder, que a ciência demonstra, serve sobretudo à nossa vaidade. É a conclusão possível. Da mesma forma que alguém acusa de corrupção o político que legislou a troco de um benefício financeiro próprio ou o dirigente desportivo que comprou árbitros, ao mesmo tempo que declara valor inferior na venda da sua casa para fugir aos impostos ou forja prejuízos para serem cobertos pela seguradora, outro alguém acusa de racismo e xenofobia, de misoginia e de homofobia gente tão responsável como outra, que passa impune por supostamente ter sido ungida pela pureza e perfeição. Gente tão vaidosa da sua superioridade como os racistas, xenófobos, misóginos e homofóbicos. A vaidade que impede o assumir da desonestidade, considerada defeito grave, faz com que se achem superiores, portadores da razão e da verdade, incapazes de usar a mesma bitola em causa própria.

 

Nota final

Não escrevi nada de novo. A tentação de escrever tudo quanto se quer é isso mesmo, tentação. Nunca se escreve tudo quanto se quer, nem exactamente o que se pretende. Há sempre pontos mal alinhavados, pano que fica por unir, restos de ideias. Mas não há como tentar, correndo riscos, sendo o menor deles trocar alhos por bugalhos.





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