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A Queda

por Isabel Paulos, em 29.04.21

Desde que a pandemia tomou de assalto a realidade e se fala em livros e filmes cuja associação é inevitável - já lá vai mais de um ano -, tenho tentado lembrar-me do único romance de Camus que li. Acreditem que é difícil assumir – não pela vergonha ou constrangimento, mas sim pelo absurdo -, que a minha memória é de tal forma esdrúxula que consigo não ter recordações de livros que li e lembrar os que não li, como já aqui expliquei. Sei que em casa dos meus pais havia alguns romances de Camus. Pelo menos três: O Estrangeiro, que sei não ter lido apesar de ter começado; A Peste, que sei nem sequer ter começado e, finalmente, A Queda, que li. Caso único neste autor.

Tento reportar-me ao momento da leitura e não consigo sequer recordar se foi na adolescência, se já na casa dos vinte. Fazendo um exercício de lógica, suponho que vença a segunda hipótese, uma vez que apesar de quase não me lembrar 'da história', tenho a nítida ideia de que fiquei presa à forma de monólogo inteiro e da meia surpresa que para mim isso representou à época. Não porque não soubesse que se fizesse, mas por perceber que se podia fazer de forma tão conseguida. Ora, essas sensibilidades à forma e ao modo como os autores pegam na história creio ser coisa que só comecei a refinar depois da adolescência. De resto, lembro-me do vaguear pensativo do personagem central junto aos canais de Amesterdão, que associo à imagem de uma judia a patinar nos seus lagos gelados, desde que há dez anos li duas novelas de Manuel Teixeira Gomes.

Ler comigo é como ver novelas seguidas para aquelas senhoras que adormecem na primeira e acordam na segunda e misturam tudo: acabo a casar personagens e circunstâncias de uma das histórias com as do outro enredo. Mas o mais curioso é que o pouco que retenho do que leio raramente é a história em si ou a trama. O que tantas vezes me afasta de falar ou escrever sobre o que leio. Ligo-me a pormenores, imagens, momentos; faço associações a episódios reais ou ficcionais, a telas, a músicas, a pessoas. Enfim, uma salgalhada onde ninguém se entende, senão eu própria.

Pronto, este texto - nascido de um rascunho feito há algum tempo - continuava com mais observações que abriam com a frase: considero ler lido vergonhosamente poucos livros, mas... -, mas os considerandos seguintes eram fortemente críticos e hoje estou numa de paz e amor. Passei-os para outro rascunho e num dia em que regresse o mau feito – o que é sabido não deve demorar -, voltarei à carga sobre ler muito, pouco ou nada, vaidades e humildades.





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