Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Socorro, o mundo é gigante

por Isabel Paulos, em 16.07.21

Se há o hábito de pensar na vida, fatalmente se chega à conclusão que o mundo e o conhecimento sempre estarão além. Com maior ou menor felicidade todos os dias se argumenta, todos os dias alguém se debruça sobre fracção ínfima do Universo e tira conclusões. Ainda que tenha o cuidado e a seriedade de questionar o que é preconcebido no raciocínio e aquilo que passa ou não o teste de validação de veracidade, esta será sempre parcial. No dia seguinte, talvez no próprio dia, quando não no exacto momento em que se acaba de proferir a afirmação original, se a postura for honesta, outros raciocínios irão contradizer o pensamento inicial. A procura da verdade é um processo difícil e doloroso, em que a todo o momento se é confrontado com as próprias contradições.

E se há mais de dois milénios no Ocidente – no momento em que surgem os primeiros questionamentos e arranjos filosóficos - parecia possível chegar-se a uma concepção do mundo satisfatória, hoje a tarefa é monumental. Não só o conhecimento do mundo físico aumentou exponencialmente, como os processos de intelectualização do pensamento se foram complexificando de modo absurdo.

E nem é preciso recuar tanto. Se retrocedermos aos séculos imediatamente anteriores - ao tempo das enciclopédias -, percebemos como havia genuína intenção de conseguir reunir em obras mais ou menos extensas todo o saber do Universo.

Onde parará este optimismo e ingenuidade quando comparados com a estupefacção face ao fluxo massivo de dados, informação, conhecimento e sabedoria actualmente à disposição da população mundial? Será que a maioria apenas conseguirá ter a percepção dos dados e da informação – forçando muito a barra, como diriam os brasileiros: o seu julgamento viverá nas sombras da caverna de Platão – e só uma minoria alcançará o conhecimento e sabedoria – ousando mais uma vez: acederá à realidade fundamental das formas ou ideias.

Porém, a questão é: face ao gigantismo da realidade a conhecer, será possível chegar à Verdade, dada a dificuldade de obter uma concepção que explique de forma satisfatória o Universo, o seu funcionamento e o sem-número de ideias que sobre ele versam?

A atitude de alguns é a de se alçar ao patamar do conhecimento e da sabedoria, pisando os que pressupõem a eles não conseguirem aceder, não tomando consciência da fragilidade do próprio conhecimento. Raramente vejo os bem-pensantes admitir erros e contradições. Salvo em falso discurso para dar o ar da tolerância – quando não de condescendência sobre os pobres néscios. Raramente confessam as suas fragilidades e não parecem perceber que sem o fazer não têm ossatura nem o direito de apontar erros a terceiros. Ora, a prosápia é a forma mais infame de desconhecimento – os que têm a possibilidade de aceder ao conhecimento, têm obrigação de perceber os mecanismos de construção do pensamento; têm maior responsabilidade. Sucede que não raro, ao menos em Portugal que é a realidade que conheço, foge-lhes o pezito para a pura maledicência e presunção sem fundamento – se é que alguma vez a presunção pode ter razões de base atendíveis. Perdem-se em injúrias contra a ignorância atrevida, a ignorância voluntária; em suma, contra a estupidez. Odeiam o mundo da discussão das massas, ficam de pêlo eriçado quando observam uma mulher ou um homem fora do mundo académico, fora do gueto de amigos intelectuais, fora da tribo daqueles que preconcebem como pessoas que se podem ouvir ou ler. Nuns casos, a arrogância é de tal modo doentia que são incapazes de escutar ou decifrar o que dizem os anónimos por falta de pedigree (e por contraposição aos peões dos palcos formais e institucionais do conhecimento), noutros a falta de seriedade é de tal ordem que ouvem e lêem estes homens e mulheres desconhecidos e aproveitam abusivamente os seus contributos, sem jamais os considerarem como iguais ou reconhecerem a validade do seu pensamento.

A título de exemplo, esta arrogância face ao presente texto ditaria qualquer coisa do género: olha, uma atrevida ignorante a tentar numa passagem dar o ar de inteligente, com paralelo infundado e desajustado a Platão sem perceber nem aprofundar, por ignorância voluntária, o estudo da obra. A presunção exigiria três citações, quatro referências bibliográficas e uma menção a amigo interessado rotulado de eminente pensador, para que o texto pudesse ter validade. Quando a simples abertura de espírito e humildade ditaria que antes de etiquetar o presente texto como lixo, se pudesse talvez vislumbrar numa simples linha ou par de palavras, um pequeno e modesto rastilho para pensar.

Mas não, o julgamento será: é muito atrevimento, muita ignorância, muita estupidez.

O mesmo acontece aos incalculáveis milhões de observações de desconhecidos encontradas no espaço online. A mais pungente manifestação da Democracia – as redes sociais -, não é necessariamente um esgoto a céu aberto como tantos querem fazer crer. As redes sociais têm muitas fragilidades, mas estão expostas e as suas falhas são na maioria das vezes assumidas pelo pensamento dominante. Ao contrário das debilidades de quem só conhece livre pensamento (esclarecido) nos canais recomendados, tantas vezes por critérios pouco claros e pouco honestos. Na melhor das hipóteses, por medo de ser engolido por essa onda gigante de opinião.

O Universo devia ter letreiro

por Isabel Paulos, em 20.05.20

231.jpg

Não suponhas que sabes mais do que o teu vizinho. Em primeiro lugar desconfia do que sabes.





Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D