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Guerras, Contas & Bichas de chuveiro

por Isabel Paulos, em 28.07.20

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Hoje pela fresca tinha planeado escrever sobre o efeito anestésico da Covid-19 no mundo presente. Por sentir que os conflitos armados, as migrações, a seca, a fome e demais questões de relevo humanitário saíram do radar dos sound bites ou realidade paralela em que vivemos, comecei por procurar informação sobre os conflitos armados em curso. Não é fácil. Se fossemos avaliar a existência destas realidades pelo peso que lhes é dado, diríamos que o vírus as debelou. Ou pelo menos parece que o tempo presente ficou suspenso com a pandemia.

Em vez de horas a fio de dissecação sobre os estados de espírito de Trump e dos seus apoiantes, quem repara nas bandas de Caxemira, onde ao fim de quarenta anos de conflito e reivindicações territoriais entre a China e a Índia sem registo de mortos, na Linha do Controlo Real, há pouco mais de um mês havia combate corpo a corpo com mortos, no vale de Galwan, em Ladakh?

Em vez das extenuantes horas dedicadas à contabilização do número de bifes que deixam de pastar na areia das praias portuguesas e espanholas, quantos pensam no terror que se vive no Norte de Moçambique, onde os terroristas islâmicos continuam a executar e decapitar populares dos territórios que vão ocupando? Os ataques não ocorreram há anos, estão a decorrer nos últimos meses.

Ao invés da nova modalidade desportiva que consiste em ilustrar demorada, minuciosa e diariamente a patente debilidade de Bolsonaro, quem dá atenção à militarização do Mar do Sul da China; à exibição de poderio militar e medir de forças entre Estados Unidos e China?

Ia passar ao tema das migrações, mas recebi emails da empresa que faz a gestão de condomínio do prédio onde vivo: 3.050,33 euros de despesas extras com reparação do elevador e obras gerais. Ponho logo os patas no chão, ciente que esta é que é a minha guerra. Lá para Setembro, quando tiver férias, terei muito tempo para voltar a debruçar sobre as desgraças do mundo, já que agora é certo que nada de veleidades com viagens ou mesmo escapadelas de três ou quatro dias. Vou ter imenso tempo nas duas magníficas semanas de repouso no resort cá de casa, com banhos de sol na pequena varanda e mergulhos no jacuzzi natural proporcionado pelas fissuras das bichas do chuveiro do chinês de primorosa qualidade (da próxima tenho que voltar a uma tradicional drogaria, caso contrário continuarei a trocá-las à média de duas por ano). E, claro, vou ter a oportunidade recreativa de constatar que todas as poupanças do ano foram à viola. E ainda dar largas à criatividade para ver como reponho o rombo. Só vantagens como se pode imaginar.

Tudo isto acontece três dias depois de ter posto em consideração uma oportunidade profissional (real e palpável, ao contrário das habituais), que implicaria mudar de cidade, tendo decidido manter tudo como está face à constatação de que um pouco mais do dobro do meu salário actual não compensaria a mudança. Nem a paz que o Porto me dá, apesar dos pesares.




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